segunda-feira, 27 de junho de 2011

AS RESPONSABILIDADES DA FAMÍLIA À LUZ DA BÍBLIA

Relações familiares são inerentemente desafiadoras e cheias de conflitos. Ainda assim, a família permanece o meio no qual se forja a identidade dos seres humanos. Como um microcosmo da sociedade humana, a família engloba tanto a capacidade para doar amor, como a competição por esse amor, tanto a traição, como o perdão.

Mas, como as crises existenciais das famílias cuja história é relatada na Bíblia podem iluminar nossas vidas hoje? A resposta se baseia na constatação simples de que a condição humana mudou muito pouco desde os tempos antigos.   

Assim, os homens e as mulheres considerados heróis da fé são muito similares a você e a mim, vivendo também na base da tentativa e do erro. Eles falharam e tiveram acertos, mas foi através do reconhecimento dessas falhas que avançaram penosamente e, no final, prevaleceram, ao se agarrarem teimosamente à sua fé em Deus. É por essa razão que é importante analisar as questões com que se defronta a família hoje à luz das experiências relatadas pela Bíblia. 

E a Bíblia nos fala que as famílias têm responsabilidades, que vão muito além de prover condições para a sobrevivência e dar apoio emocional para os mais vulneráveis (normalmente os muito jovens e os da terceira idade). 

Vou discutir aqui somente três tipos de responsabilidades, dentre as várias que são mencionadas na Bíblia. A escolha que fiz se justifica pela importância dos tópicos e pelo fato de que eles não costumam ser discutidos com a frequência e o destaque que deveriam ter: 

Proteção da individualidade
A família normalmente tem dificuldade de “ver” seus integrantes como indivíduos e não apenas como peças de um “mecanismo”. E há várias causas para isto. A primeira é a confusão entre o papel que a pessoa desempenha no grupo – por exemplo, o de mãe e “dona de casa” – com o ser humano que está por trás desse papel – no mesmo exemplo, uma mulher, com suas frustrações e seus desejos. 

Essa confusão gera todo tipo de problema, pois algumas pessoas podem acabar perdendo a sua identidade e se limitando a ter papéis. Por exemplo, a mesma mulher do exemplo anterior talvez receba, com frequência, a título de presente de aniversário, objetos que são destinados a facilitar o trabalho doméstico, que, na verdade, se destinam ao papel de “dona de casa” e não à pessoa que aniversaria.

Outro problema frequente ocorre quando algum membro da família se recusa a desempenhar o papel que lhe foi atribuído pela família. Tal "falha" pode até acabar em rejeição dessa pessoa pela família. Foi isto que aconteceu com Jesus, conforme relata o evangelho de Marcos, no capítulo 3: os seus familiares foram tentar forçá-lo a voltar para casa, porque achavam que Ele estava fora de si – afinal, como filho mais velho, para eles, Jesus tinha obrigação de cuidar da família e não sair pelo mundo em pregação.

Outra situação comum é aquela em que a família não consegue “ver” a pessoa como um indivíduo que tem seus direitos. Um bom exemplo dessa situação pode ser visto no caso de José, bisneto de Abraão, um rapaz superdotado e sonhador, que acabou vendido como escravo pelos próprios irmãos mais velhos. 

O problema era que os irmãos mais velhos não conseguiam “ver” José como um deles, por causa do ciúme que sentiam por ele - Jacó, o pai deles, havia concentrado todo o seu amor em José, porque ele era primeiro filho de Raquel, já falecida, o verdadeiro amor de sua vida. E o pai “coruja”, não “via” José direito porque o amava demais e, de certa forma, infantilizava o próprio filho. Por estar cego, Jacó não viu a “tempestade” se aproximando, que culminou com um ato de violência extrema contra José.

Depois disso muita “água passou por debaixo da ponte” e, ao longo de cerca de 20 anos, José passou de escravo a segundo homem mais importante do Egito e foi o instrumento usado por Deus para salvar toda a família, durante uma grande seca em Canaã. Para que isso acontecesse foi preciso que José perdoasse seus irmãos, num ato admirável. E somente aí, José foi “visto” pela sua família como ele realmente era. 

Os fins nunca justificam os meios
É comum que as pessoas pensem que a família vem na frente de tudo e todos - diz o ditado popular que para a família vale tudo (nepotismo, permissividade, etc), enquanto para as demais pessoas, aí sim valem as regras normais.

Mas a Bíblia nos ensina que fins nobres (proteger e ajudar a família) nunca podem justificar meios escusos (ações que contrariem os mandamentos de Deus). E Jesus não somente ensinou como vivenciou isso, pois se recusou a dar mais importância à sua família do que aos seus discípulos (Mateus capítulo 12, versículos 46 a 50).

O Gênesis nos conta uma história onde a necessidade de resolver um problema familiar se sobrepôs à obrigação de agir com retidão. Tudo começou quando Jacó se apaixonou por Raquel, a linda filha mais nova de Labão e contratou o casamento com ela. 

Mas Labão entregou para Jacó a filha mais velha, Lia, em lugar da filha combinada (Gênesis capítulo 29, versículos 16 a 30). E justificou seu comportamente pela necessidade de casar a filha mais velha, que não tinha muitos atributos físicos - uma questão familiar legítima naquela época. Mais adiante, em represália, Labão foi enganado por Jacó (capítulo 30, versículos 27 a 43).

Em conclusão, as famílias não podem permitir que seus interesses próprios, embora legítimos, se sobreponham a tudo o mais. As leis de Deus, e somente elas, se sobrepõem a tudo. 

Influência positiva
Uma responsabilidade fundamental da família é influir positivamente na caminhada dos seus membros – isso é especialmente importante no que se refere aos mais jovens, mas não se limita a eles ou cessa, quando esses jovens se tornam independentes.

Essa influência pode se dar tanto pelo exemplo, como pelo ensino constante de princípios morais e espirituais adequados. Mas também deve se dar pela repreensão aos comportamentos errados – não se pode esquecer que a família tem muito poder de pressão.  

A Bíblia traz um exemplo clássico, que trata exatamente de uma situação em que essa responsabilidade não foi exercida. O sacerdote Eli, tutor do futuro profeta Samuel, foi punido por que deixou de repreender e corrigir seus filhos quando eles procediam mal (1 Samuel capítulo 3).

Uma postura responsável da família nesse aspecto também impede que ocorra a repetição, de geração em geração, de problemas que acabam marcando a vida familiar negativamente. Alcoolismo, abuso de crianças, favoritismo por certos filhos, rivalidades entre irmãos ou infidelidade conjugal, podem se perpetuar na história da família, quando não tratados adequadamente. 

Quando Deus falou em visitar a culpa dos pais até a quarta geração dos filhos (ver Êxodo, capítulo 20, versículo 5) é a esses padrões de comportamento destrutivos, passados de geração em geração, que Ele se referia. A história da família de Abraão, conforme comentei acima, é um dos melhores exemplos de repetição destrutiva. Eles seguiram um padrão no qual familiares enganavam outros familiares, para obter vantagens. É claro que esse comportamento foi desaprovado por Deus e gerou muitos problemas familiares. 

Concluindo, a família precisa sempre deixar claro para cada um dos seus membros que ações individuais acabam tendo repercussões sobre a família como um todo, pelos laços emocionais e de solidariedade que interligam todos os familiares. Assim a família tem o direito e a responsabilidade de influir para evitar e/ou resolver problemas, sempre que isso estiver ao seu alcance. E essa responsabilidade não cessa nunca.  

Palavras finais
A família é algo muito especial na vida de todas as pessoas. Por isto mesmo, ela tem reponsabilidades importantes. Em primeiro lugar, a família precisa tomar cuidado para não ficar cega quanto à individualidade dos seus membros (suas necessidades e frustrações). Ela nunca pode tratar seus membros como se devessem se limitar a desempenhar um papel, estabelecido pela própria família – mãe, filho, provedor, etc. Esse erro pode acabar por alienar algumas pessoas, em relação à família, por elas sentirem tratadas com pouca sensibilidade e respeito.

Em segundo lugar, a família nunca deve favorecer os seus membros em detrimento das demais pessoas, mesmo que seja por um motivo considerado justo. Todos devem ser tratados de forma correta, sejam ou não membros da família.

Finalmente, a família tem a obrigação de ensinar e influir positivamente no comportamento de seus membros, mesmo quando eles gozarem de independência.

Com carinho
Vinicius





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