sexta-feira, 6 de julho de 2012

ATIVIDADES LUCRATIVAS SÃO INFERIORES PARA DEUS?

Um principio largamente aceito no meio cristão é o da separação entre as coisas do mundo secular (relacionadas com a sociedade em geral) e do sagrado (voltadas para Deus e típicas da igreja cristã). O secular estaria contaminado pelo pecado, enquanto o sagrado não.

E essa hierarquização torna-se particularmente aguda, quando, do lado secular, a referencia é a área dos negócios, caracterizado pela busca incessante do lucro. A esse respeito, veja depoimento recente de John Beckett, fundador e dirigente de empresa: 
“Durante anos, pensei que meu envolvimento com os negócios era uma atividade de segunda classe – necessária para colocar pão na mesa, mas menos nobre do que ações mais sagradas, como estar no ministério pastoral ou ser missionário. A impressão que tinha era que, para servir a Deus verdadeiramente, seria preciso entrar no ministério tempo integral. Ao longo dos anos eu encontrei incontáveis pessoas que pensavam da mesma forma."
Mas será que essa hierarquizacão, onde o secular é ruim, de segunda classe mesmo, e o que é considerado sagrado é necessariamente bom, tem respaldo na Bíblia? 

O grande teólogo A. W. Tozer, discutindo essa questão, declarou:


“Um dos maiores obstáculos para haver paz com os cristãos é o hábito arraigado de dividir as coisas em duas áreas, secular e sagrado. Se essas áreas tivessem sido concebidas para existir separadas, sendo moral e espiritualmente incompatíveis, e nós fôssemos compelidos pela necessidade de viver sempre cruzando essa fronteira, para trás e para frente, de uma lado para outro, nossa vida interior tenderia a quebrar e nós viveríamos uma vida partida ao invés de uma vida unificada... A maioria dos cristãos cai nessa armadilha.”
E a armadilha de que fala Tozer poderia ser evitada se houvesse melhor percepção desse problema e menos preconceito. Basta lembrar a convergência que há entre os negócios com as igrejas e/ou organizações assistenciais e não somente por causa da possível ajuda financeira. Toda tecnologia para treinamento de lideranças, planejamento estratégico, controle de resultados, etc, que as igrejas modernas usam, nasceu no mundo dos negócios e foi transplantada para o ambiente do sagrado. 

Mas é fato que há dificuldades a vencer. Primeiro porque os líderes do mundo de negócios e os líderes cristãos têm formação completamente distinta, o que lhes torna difícil interagir de forma produtiva - basta lembrar a diferença que há entre os currículos das escolas voltadas para negócios e os seminários, que parecem vir de planetas diferentes. Mas, o que há nesse caso não é uma separação estrutural e sim de formação, que deveria ser possível corrigir, com treinamento para sensibilização dos dois lados, maior contato, etc. Algumas igrejas já tentam fazer isso promovendo encontros para homens de negócios, com agenda e linguagem adequada para eles, mas isso ainda é excessão.

A segunda dificuldade para promover a aproximação desses dois campos é mais difícil de trabalhar: o mundo dos negócios frequentemente horroriza os cristãos ao tornar a ganância humana tão explícita e por causa de atitudes desumanas tomadas pelos empresários na busca do lucro (exploração do mais fraco, destruição da natureza, corrupção, etc). 

Mas essa dificuldade é mais aparente do que real. Afinal, a ganância é um sentimento nativo do coração humano (Marcos capítulo 7, versículos 21 e 22) e os negócios não são os criadores dela e apenas a tornam mais escancarada. Portanto, participando ou não de negócios, o ser humano se mostrará ganacioso. 

Além disso, Jesus nunca depreciou o mundo dos negócios, até porque Ele foi um pequeno empresário. Com efeito, na época em que Jesus viveu, não havia empresas como as de hoje. Sendo assim, eram os artesãos e operários especializados que funcionavam como pequenos empresários, juntamente com suas famílias.

Ora, Jesus trabalhou por quase duas décadas como tektōn, um pequeno construtor, que trabalhava com madeira, pedra e até metal para construir ou fabricar coisas (Marcos capítulo 6, versículo 3) - a palavra usada para traduzir tektōn, carpinteiro, não caracteriza bem esse aspecto, por isso essa nuance às vezes passa despercebida. E Jesus, como filho mais velho, certamente herdou a liderança do pequeno negócio familiar deixado por seu pai (Mateus capítulo 13, versículos 55 e 56).

A experiência de Jesus no mundo dos negócios explica porque quase 50% das suas parábolas são ambientadas nesse mundo. Por exemplo, ao falar do custo do discipulado cristão, Jesus mencionou que a pessoa devia ter os fundos necessários para completar a obra, antes de dar início a ela (Lucas capítulo 14, versículo 28).  Jesus conhecia o mundo dos negócios por dentro e, sem dúvida, as experiências pelas quais passou ali contribuiram para formar seu caráter e pensamento.

A razão final para justificar a superioridade dada às ativiaddes ligadas ao sagrado sobre o secular, é que como cabe às primeiras implantar o Reino de Deus aqui na terra, é justo elas terem precedência e maior importância.

Mas, antes de tentar reforçar esse ponto de vista, é preciso não esquecer que Deus não chamou a todos para serem pastores, missionários ou cuidadores em tempo integral. A maioria das pessoas têm papéis diferentes a desempenhar na vida. E todos são parte de um conjunto, sendo que cada parte é necessária para o bom funcionamento do todo, assim como ocorre com os orgãos do corpo humano.

Portanto qualquer atividade desenvolvida honestamente e dentro dos preceitos cristãos é agradável aos olhos de Deus.  Não há atividades de segunda categoria e outras abençoadas. O que separa as atividades aos olhos de Deus é a forma como elas são realizadas e os objetivos que as pessoas têm ao desenvolvê-las. O que passar disso é preconceito. 

Com carinho

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