sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

GRAÇA A DEUS? MAS, E OS QUE MORRERAM?

Este post foi originalmente publicado em maio de 2012, com outro título. Seu texto se aplica perfeitamente à situação que ocorreu recentemente em Santa Maria, no incêndio da casa noturna. Ali a maioria dos jovens sofreu uma morte horrível, enquanto poucos conseguiram se salvar. O cristão pode dizer, em relação aos que se salvaram: "Foi a mão de Deus"? E se disser isso, o que deve dizer em relação aos que morreram? Será que Deus só esteve envolvido quando a notícia é boa?  

Outro dia li a história de uma criança que foi a única sobrevivente de um terrível desastre aéreo e de como os pais da menina, que são cristãos, agradeceram a Deus pelo milagre que permitiu sua filha ser salva. 

Mas, se atribuímos a Deus a salvação daquela criança, não deveríamos atribuir também a Ele a responsabilidade pela morte das outras pessoas? Não estará uma coisa em direta conexão com a outra?
 
Para responder essas difíceis questões, vou começar lembrando que Deus é onipotente. Isto quer dizer que Ele pode fazer qualquer coisa que seja logicamente possível - Ele não pode, por exemplo, se suicidar. Mas isso se refere apenas ao potencial que Deus tem.

Quando Deus nos deu a liberdade para fazermos nossas escolhas (livre arbítrio), Ele abriu mão, voluntariamente, de fazer sua própria vontade valer sempre. Afinal, se os seres humanos têm o livre arbítrio, eles podem escolher caminhos que contrariam a vontade de Deus. 


Isso não quer dizer que Deus não possa impor sua vontade quando assim o quiser - afinal, Ele continua a ser onipotente. E algumas vezes Ele faz exatamente isso, como quando tirou o povo de Israel da escravidão no Egito, lançando diversas pragas contra o faraó, que resisita a perder aquela mão de obra barata.

Assim, as escolhas erradas feitas pelos seres humanos podem ser consideradas como permitidas por Deus, pois Ele escolheu não intervir, embora tivesse capacidade para tanto. Mas não são da responsabilidade direta d´Ele, no sentido que estavam de acordo com sua vontade.


Ora, o desastre de avião aconteceu por erro humano: falha do piloto, ou de manutenção, ou ainda dos operadores do aeroporto, algo assim. E Deus não pode ser culpado por isso. A culpa cabe a quem errou, mesmo que sem intenção. 

Mas, por que então Deus escolheu não interferir e salvar todas as pessoas que estavam no avião?  A resposta para essa outra pergunta passa pelo entendimento que Deus criou o mundo para funcionar com base em leis naturais, como a lei da gravidade. 


E é preciso que essas leis sempre estejam atuantes, senão o mundo seria absolutamente imprevisível – imagine se você fosse pular de certa altura e não soubesse se iria cair ou sair flutuando, ficando a decisão ao sabor do acaso. Não haveria como uma sociedade organizada pudesse funcionar com base nesse tipo de realidade.

Milagres são justamente aquelas situações muito especiais, em que Deus interfere no funcionamento das leis naturais. E isso tem que ser uma exceção, pois senão o mundo cairia na imprevisibilidade a que me referi acima. Deus faz esse tipo de concessão quando entende que deve e pelos motivos que somente cabem a Ele saber (veja mais). E não temos direito de pedir explicações, pois concessões, por definição, não são direitos adquiridos.
 

Deus, portanto, pode perfeitamente escolher salvar uma única pessoa de um desastre de avião, sem que possa ser considerado injusto por não terfeito isso com os demais . Na verdade, Ele poderia até não ter salvo ninguém. E se Ele esolheu salvar uma pessoa, isso já deve ser motivo de gratidão.
 

Concluindo, quando ocorreu um milagre e o cristão resolve agradecer e testemunhar o que Deus fez na sua vida - como ocorreu com os pais da menina salva do avião -, isso está correto. E não deve ser anexada a este ato de agrdecimento qualquer conotação de desprezo pelo sofrimento daqueles que não receberam a mesma graça, ou de superioridade, pelo fato de ter sido agraciado. 

Afinal ninguém pode dizer que entende inteiramente as razões de Deus.

Com carinho

Nenhum comentário:

Postar um comentário