domingo, 3 de março de 2013

O QUE AFASTA AS PESSOAS DAS IGREJAS?

Ouço de muitas pessoas que não gostam de ir à igreja - já tentaram se adaptar a diferentes modelos e sempre acabaram desapontadas. É claro que há muitas pessoas que fazem esse tipo de crítica para esconder sua falta de compromisso verdadeiro com o Evangelho de Jesus. Mas há também pessoas sinceras que encontram dificuldades reais em se adaptar.   

As igrejas também têm grande parcela de culpa nesse processo, por que frequentemente não conseguem cumprir sua missão adequadamente, ao dar às pessoas o que elas de fato precisam.

E alguns desses problemas ficam mais claros quando traçamos paralelos entre as igrejas e as organizações em geral - públicas e privadas -, que estão à nossa volta, muitas das quais acabam por tornar nossas vidas muito difíceis.     

Geração de ansiedade
Hoje ninguém gosta de viajar de avião - os incômodos nos aeroportos são tão grandes, por causa das regras de segurança impostas aos passageiros, que passar pelos trâmites de um aeroporto virou motivo de ansiedade.

Há aí um ponto de semelhança com algumas igrejas, que acabam também por gerar ansiedade nas pessoas. Primeiro porque estabelecem um monte de regras de conduta e taxam de pecadores/as todos aqueles/as que não as seguem rigorosamente.

Era exatamente isso que faziam os fariseus, no tempo de Jesus: eles conseguiram transformar o judaismo numa religião tão legalista, que se tornou pecado até curar um doente num sábado. E Jesus travou uma longa luta contra esse tipo de pessoas.

A outra fonte de ansiedade aparece naqueles ambientes onde membros da comunidade se auto-elegem "vigilantes" da moral e dos bons costumes - ficam permanentemente buscando desvios de conduta das outras pessoas para denunciar. E não é fácil enfrentar pessoas com olhar inquiridor, que querem saber mais sobre você não por interesse real, mas para avaliar se você é "bom/boa" o suficiente.

Todos são colocados num mesmo "saco"
Outra questão que torna os aeroportos tão desagradáveis é que ali as pessoas são tratadas como um "rebanho", tangido daqui para ali. Todos têm que passar pelos mesmos controles, esperar nos mesmos lugares, entrar na mesma hora, etc. Com exceção de alguns pequenos privilégios para gestantes e crianças. 

Ora, seres humanos não gostam de ser tratados assim - eles preferem ser reconhecidos como pessoas com necessidades próprias e específicas. E, infelizmente, muitas igrejas atuam da mesma forma: tudo nelas é pré-estabelecido e rígido, até os momentos de oração.

Existe uma programação para ser cumprida por todos - por exemplo, o culto começa às 9:00 hs e depois vem a Escola Dominical. E as pessoas precisam se acomodar a esse horário e a essa sequencia de atividades, não importa o momento que estejam vivendo.

Já conversei com diversas líderanças de igrejas sobre essa questão e sempre ouvi delas a resposta que não é possível fazer as coisas de forma diferente, pois os recursos são limitados (p. ex. só há um pastor). 

Mas há um tipo de organização que consegue individualizar o tratamento dado às pessoas: os hospitais. Nunca vai aparecer um médico na emergência de qualquer hospital, onde estão cerca de 50 pacientes e dizer: "dentro de maeia hora vamos começar a dar a mesma medicação para todo mundo". Ninguém aceitaria tal abordagem, porque o atendimento hospitalar, por definição, precisa ser individualizado. 

Mas por que não é possível tratar as pessoas de forma individualizada nas igrejas, pelo menos aquelas que estão em momento espiritual mais delicado? É claro que é.

E a forma de fazer isso é relativamente simples. Primeiro, programas os trabalhos com folga para acomodar essas situações - por exemplo, prever um "pronto socorro" espiritual para emergencias. Depois, preparar as lideranças leigas para auxiliar os pastores, seguindo o exemplo de Jesus que preparou diversos discípulos. Pode dar trabalho, mas é factível.   

Exigência de adesão completa
Outro problema muito comum é a exigência de que os frequentadores de determinada denominação venham a aderir completamente ao "pacote" doutrinário pregado por ela, sob pena de rejeição pela comunidade.

Um tipo de organização que também lida com a questão da fidelidade de ideias é o partido político - se você se filia a um partido é porque, em princípio, acredita e apoia as ideias que ele defende. 

Mas, mesmo nos partidos políticos o que é cobrado, na prática, dos seus membros é a fidelidade às decisões partidárias - por exemplo, se houver orientação para votar de determinada forma no Congresso, todos os parlamentares do partido precisam seguir essa determinação. Mas as pessoas podem pensar diferente e lutar pelos seus pontos de vista, durante as fases de debate político.

E porque não pode haver debate nas igrejas quanto às ideias que vão ser ensinadas? Por que uns poucos "luminares" precisam saber e decidir por todos os demais? 

Lembro-me bem do caso de uma denominação evangélica, cujo líder morreu. Assumiu seu lugar o filho do líder morto, o que já não parece ser uma coisa boa. Mas, deixando isso de lado, o novo lider que assumiu, em dado momento, decidiu, consultando seus próprios estudos bíblicos, que a doutrina da dupla predestinação era a certa e que a igreja tinha que mudar de opinião e passar a aceitá-la. E os fiéis foram obrigados a fazer essa transição.

As crenças que as pessoas aceitam e defendem são de extrema importância para sua vida e não podem ser tratadas assim. É preciso que haja espaço para a troca de idéias, discordância, luta pelo consenso, etc. 

Aliás essa é a história pela qual a igreja cristã, como um todo passou, no que tange à aceitação ou rejeição de diversas doutrinas importantes, como: a dupla natureza de Jesus (humana e divina), a Trindade e o sacrifício redentor do Cristo.

Desvio do foco
Uma lâmpada gera tanto calor quanto luz. O calor não é o resultado desejado, mas acaba aparecendo no processo de gerar a luz. As lâmpadas mais eficientes (p. ex. as frias), portanto, são aquelas que transformam a maior parte da energia em luz e minimizam o calor.

O serviço público no Brasil é um belo exemplo de "lâmpada" pouco eficiente - uma parte importante dos recursos gastos se perde na ineficiência da máquina pública: falta de treinamento, infra-estrutura deficiente, desinteresse, corrupção, etc. Gasta-se muito dinheiro para se obter um resultado final pequeno. 

Há igrejas que são assim: pela sua estrutura complexa, burocracia excessiva, concentração de poder, etc, acabam desperdiçando seu "capital espiritual". Um exemplo clássico, nos dias de hoje, é a igreja católica. Mas esse problema não é privilégio dessa denominação cristã. 

Muitas denominações evangélicas, no afã de fazer tudo certinho, acabam se tornando estruturas pouco produtivas. Reuniões intermináveis são feitas e o resultado final - em termos de vida salvas, pessoas necessitadas que foram atendidas, etc - é quase nenhum. 

Palavras finais
Igrejas não podem ser fontes de geração de mais ansiedade. Igrejas que multiplicam a ansiedade, por serem legalistas e/ou por tentar exercer uma fiscalização estrita sobre a vida das pessoas, devem ser deixadas de lado. Não vale a pena investir sua vida espiritual nesse tipo de ambiente.

Igrejas que não conseguem ver a individualidade das pessoas e tratam a todos como "rebanho", porque é mais fácil e cômodo para suas lideranças, certamente vão ficar aquém das suas necessidades - todos temos crises e momentos em que percisamos de um atendimento personalizado. Se a igreja não consegue funcionar também como um "hospital" espiritual, quando isso se faz necessário, ela não serve.

Denominações que exigem adesão completa à sua visão teológica, porque "essa é a única forma de ir para o céu", vão contra a própria tradição do crisitianismo. É claro que é preciso haver uma disciplina doutrinária, pois se cada um defender livremente o que lhe vier à mente, não vai dar certo. Mas é preciso haver espaço para discutir ideias e para acomodar pessoas que pensem de forma diferente, sem que elas sofram ameaças ou rejeição. Caso contrário, fuja dali depressa.

Finalmente, igrejas onde há pouco resultado, pois a maior parte dos esforços é gasta olhando para o próprio "umbigo", certamente vão desestimular você e desperdiçar seus esforços. Não perca seu tempo nesse tipo de lugar.

Com carinho    

3 comentários:

  1. Oie, como prometido...estou deixando um alô para vc..como sempre esclarecedor...

    Beijos,

    Bia

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    1. Bia

      Fico feliz que você esteja aproveitando. Se precisar, estou aqui.

      Bjs

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