terça-feira, 18 de junho de 2013

O BRASIL ACORDOU?

"As idéias não correspondem mais aos fatos"     Cazuza
Frequentemente as idéias que determinam a ação dos governos deixam de corresponder aos fatos do mundo real. Um bom exemplo é a nobreza francesa, totalmente desinteressada das privações do povo, de onde tirava sua riqueza, até que foi surpreendida pela queda da Bastilha e a Revolução sangrenta que matou a quase todos eles. 

Um exemplo nosso é o "Movimento das Diretas Já" em 1984. Até então, a ditadura militar pensava estar fazendo um bom trabalho, por conta do desenvolvimento econômico que inegavelmente o Brasil tivera na década de 70 e pela defesa da sociedade brasileira contra o perigo do comunismo. Quando o perigo do comunismo derreteu, o chamado milagre econômico brasileiro se esvaiu (por causa da primeira cise do petróleo) e as pessoas se deram conta do aumento da desigualdade social e dos abusos cometidos contra os direitos humanos, a liderança política/militar perdeu legitimidade e o mal estar social desembocou no "Movimento das Diretas Já", que desestabilizou o governo.

É possível que estejamos começando a viver outro momento desse tipo no Brasil, cerca de 30 anos depois desse outro movimento. Um simples protesto contra o aumento das passagens de ônibus acabou tomando rapidamente proporções bem grandes. E trata-se de movimento nascido no meio da juventude das grandes cidades, que se alimenta do mal estar social que existe na população.

E penso que o descolamento das ideias que norteiam o Poder Público (Federal, Estadual e Municipal) da realidade dos fatos é concreta. Vejamos alguns exemplos: 

Primeiro, o Pode Público pensou que colheria uma grande vitória política por conta da Cpoa do Mundo de Futebol. Essa idéia seguia a tese de dar ao povo "pão e circo", sendo futebol o circo. Mas a montagem do "circo" foi feita a um enorme custo de dinheiro público, de corrupção generalizada, de sinais evidentes de falta de planejamento e desperdício, etc. E, em paralelo, os serviços públicos no Brasil vão cada vez pior, porque não há dinheiro para melhorá-los. E o povo  se deu conta dessa contradição.

Segundo, a elite política perdeu completamente a compostura:   pessoas sem qualquer condição são indicadas para cargos importantes e, uma vez lá, não "desapontam": tiram vantagens desonestas de todo lado e propõem leis absurdas, como aquela que hoje quer tirar poder de investigação do Ministério Público (PEC 37). 

Terceiro, não há um projeto para o Brasil, indicando quais caminhos devem ser tomados. Já tivemos isso (por exemplo, o Plano de Metas de meados da década de 50), mas a prática se perdeu. Hoje são sempre os grupos de pressão organizados que conseguem concessões do Poder Público: os lobbies dos bancos, dos produtores rurais, dos funcionários públicos, das empreiteiras (esse sinistro), da indústria automobilística, das empresas de ônibus, das centrais sindicais, etc. 

É claro que nem todas as reivindicações desses grupos são injustas, mas elas sempre olham para o Brasil de um ponto de vista particular e egoista e nunca pensam na sociedade como um todo. Querem apenas avançar o seu próprio lado, mesmo que às custas dos demais. 

Um quarto exemplo é a diferença de prioridades entre os que comandam o Poder Público e as pessoas comuns. Os póliticos querem essencialmente se perpetuar no poder e fazem qualquer coisa para conseguir isso. Já o povo que viver sua vida de forma digna. E frequentemente uma coisa nada tem a ver com a outra. Se o político achar que aumentando os gastos públicos vai conseguir se reeleger, não vai se importar com a inflação que vai decorrer dessa irresponsabilidade - veja o exemplo recente da Argentina. 

Um último exemplo é a perda de credibilidade dos meios de comunicação tradicional, que antes "faziam a cabeça do povo", sempre no interesse dos poderosos no poder - por exemplo, ontem, o jornalista Caco Barcellos da Globo tentou gravar um programa no início da passeata em São Paulo e sua equipe foi expulsa. E a sede da Globo em São Paulo precisou ser protegida pela polícia. 

E é por conta dessas e de outras questões que temos hoje no Brasil um movimento popular que ninguém consegue explicar direito - veja que quase todos os líderes políticos estão calados. E o mesmo ocorre com as analistas políticos mais importantes, que quando falaram alguma coisa, disseram besteiras (veja o pedido de desculpas do colunista Arnaldo Jabor, hoje, no Estado de São Paulo, reconhecendo o erro de sua análise anterior).

Agora, vejo três problemas sérios nesse movimento político:
  • Falta de liderança - vi ontem parte do programa da TV Cultura chamado "Roda Viva", onde dois líderes do "Movimento Passe Livre" foram entrevistados. Foi desanimador ver como eles não percebem o que está acontecendo;
  • Falta projeto de mudança - ou as pessoas somente querem protestar ("sou contra tudo que está aí") ou estão pensando pequeno ("o problema é o aumento da passagem de ônibus");
  • Uma parcela daqueles que saem às ruas não segue qualquer orientação política e alguns querem apenas fazer baderna, o que é inaceitável e vai gerar reação do Poder Público.
É possível que esse movimento redunde em algo positivo e que o Brasil acorde mesmo - peço a Deus por isso, pois precisamos melhorar nossa sociedade. Mas temo muito que o movimento se esvaia pelo caminho - por falta de propostas claras e/ou de liderança. Ou, o que seria ainda pior, seja cooptado por algum partido político e perca sua autenticidade e credibilidade diante da opinião pública.

Vamos todos orar pelo nosso país. Que Deus tenha misericórdia de nós e ilumine os principais atores de todos esses fatos.

Com carinho  

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