sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

OS CAMELOS E A BÍBLIA

Diversos jornais importantes, como o New York Times, publicaram nesta semana os resultados de estudo feito numa Universidade de Israel usando ossos de camelos descobertos em escavações recentes. Os resultados indicaram que esses animais só apareceram no cenário da Palestina por volta do ano 1.000 Antes de Cristo. Como a Bíblia cita camelos na época dos Patriarcas (Abraão, Isaque e Jacó), mais ou menos 800 anos antes, os pesquisadores apontam para um erro no texto bíblico.  

Situações desse tipo - estudos tentando provar erros na Bíblia - são frequentes e o script do "drama" é quase sempre o mesmo. O estudo é publicado, a midia dá destaque, muitos cristãos ficam assustados com as possíveis consequências da descoberta - eu mesmo já recebi diversas perguntas - e muitos livros e filmes são produzidos para lucrar com a polêmica. . 

E a resposta para esse tipo de "ataque" é sempre a mesma, abrangendo dois aspectos: o significado da descoberta em si e o possível impacto dela sobre a crença cristã. 

Começando com a descoberta em si, se os resultados forem analisados com cuidado, fica claro que eles não são conclusivos e nem poderiam ser. Foram descobertos ossos de camelos que parecem ser os mais antigos na história da Palestina e eles datam mais ou menos do ano 1.000 AC. Daí decorreu a conclusão que é um erro falar em camelos antes desse período.  

Há nesse tipo de conclusão uma falácia, um erro de lógica bem conhecido: confundir ausência de evidência com evidência de ausência. Vou dar um exemplo desse tipo de situação. Até cerca de 20 anos atrás, não havia qualquer registro arqueológico relacionado com o rei Davi - todas as referencias àquele rei estavam na Bíblia. Por conta disso, muitos arqueólogos cronstruiram a teoria que Davi não tinha existido de fato, era uma figura lendária, o que seria um golpe terrivel para acredibilidade da Bíblia. 

Até que em 1993 foi encontrada uma placa comemorativa que citava claramente a casa (linhagem) de Davi. Os "minimalistas" - os estudiosos que defendiam que o rei era uma lenda - ainda tentaram afirmar que a tal placa era forjada, mas não conseguiram convencer ninguém e sua teoria caiu em desgraça. Hoje praticamente não resta mais duvida que Davi existiu.

Repare que o erro dos "minimalistas" foi exatamente aquele que eu citei acima: tomar a ausencia de evidencia arqueológica concreta da existência do rei Davi como prova que tal rei nunca existiu. Mas nunca é possível construir um raciocínio desse tipo que seja totalmente seguro. Isso porque podem aparecer novas evidências a qualquer momento e, mesmo que elas nunca apareçam, isso não significa que não existam, mas apenas que não foram encontradas. 

E é exatamente isso que acontece com o estudo feito com os ossos dos camelos. O fato de não haver evidencia de camelos antes do ano 1.000 AC não prova de forma definitiva que eles não existiram. Portanto, não aconteceu nenhuma descoberta que prove de forma definitiva que há um erro na Bíblia. No máximo, os autores desse estudo podem dizer é que há probabilidade significativa de haver esse erro. Mas nunca certeza. 

O segundo aspecto a considerar é o significado desse possível erro. Se ele existir, o que assumo aqui apenas para efeito do argumento, qual seria o impacto na crença cristã? 

O impacto direto seria irrelevante. Afinal, o que o fato de camelos terem ou não existido no tempo dos Patriarcas mudaria, por exemplo, o papel de Jesus como Salvador da humanidade? É claro que em nada. 

O possível impacto na verdade seria indireto, através da credibilidade da Bíblia. Se erros forem identificados, a Bíblia perderia sua autoridade e ninguém mais poderia ter certeza que as demais afirmações que ela faz - por exemplo, que Jesus é o Salvador da humanidade - são verdadeiras. 

Ora, a possível perda de autoridade da Bíblia não caracteriza que as afirmações sobre Jesus são erradas. Apenas, que elas não podem ser aceitas unicamente porque a Bíblia assim o diz. 

Imagine que um professor está olhando para a prova de um aluno e encontra um erro numa questão. Isso não prova que há erros nas outras questões. Significa apenas que o professor vai ter que olhar uma questão por vez para chegar à conclusão se ela está certa. 

Mas é exatamente isso que a Bíblia nos manda fazer, quando diz que precisamos estar sempre em condições de explicar e justificar a razão da esperança (fé) que existe em nós (1 Pedro capítulo 3, versículo 15). Ela nunca nos pede para crer cegamente.  

Concluindo, o estudo publicado não prova de forma conclusiva que a Bíblia contem um erro. E, mesmo se provasse, nada de significativo iria mudar na fé cristã.

Com carinho

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