domingo, 20 de julho de 2014

A FÉ CRISTÃ DEVE SER CEGA?

"... Estando sempre preparados para para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós."      1 Pedro 3, vs 15
Muitas pessoas acham que o cristianismo é uma fé irracional. E o interessante é que alguns cristãos, sem perceber, dão força a essa ideia, quando defendem que a fé verdadeira precisa ser cega, sem ter qualquer compromisso com a razão. 

Mas não é isso que a Bíblia ensina, conforme pode ser visto no texto acima: precisamos estar sempre preparados para explicar as razões que nos levam a crer em Jesus Cristo. E se precisamos apresentar razões, é porque a fé precisa ser racional e, portanto, não pode ser cega. 

O apóstolo Paulo ensinou que, se Jesus Cristo não ressuscitou dentre os mortos, o cristianismo não tem qualquer base para existir. E ao fazer essa afirmação, Paulo convidou a todos - simpatizantes e adversários do cristianismo - a examinar os fatos relacionados com a ressurreição de Jesus, evento histórico do qual se conhece a época, o lugar e as pessoas envolvidas, a partir dos relatos da Bíblia.

Portanto, a Bíblia pede aos cristãos para usarem sua razão e avaliarem os argumentos contra e a favor. E tal postura demonstra grande segurança de que o cristianismo se apoia em base racional e sólida. 

Agora, sei que a esmagadora maioria das pessoas não chega à fé depois de avaliar argumentos contra e a favor do cristianismo e sim pela ação do Espírito Santo. Mas não é viável se manter firme na fé se não for possível entender as bases racionais da crença que a pessoa mantem. As dúvidas vão surgir, pois são naturais, e a pessoa precisa encontrar explicações que façam sentido lógico. 

O que não pode ser provado pela ciência é irracional?
Os materialistas - aqueles que não acreditam na existência do mundo espiritual - afirmam, até com certa arrogância, que a fé cristã é irracional porque não pode ser provada cientificamente. 

É certo que experimentos científicos (físicos) não vão conseguir provar a existência do mundo espiritual (não físico). É como se eu quisesse medir o peso de uma pessoa com uma régua - não vai ser possível. Mas isso não quer dizer que a pessoa não tenha peso e sim que a régua não é adequada para verificar isso - é preciso uma balança. 

A falta de evidencia científica do mundo espiritual não é prova que ele não existe. No máximo, indica que não é possível provar isso cientificamente. Só isso.  

Mas isso não quer dizer que acreditar ou não no mundo espiritual é irracional. E um exemplo explica melhor a razão para o que acabei de afirmar. Imagine duas pessoas começando a andar por uma estrada que não sabem onde vai dar. Não há placas indicativas e ninguém a quem perguntar. A primeira pessoa acha que a estrada vai dar na cidade A e outra na cidade B. E durante a caminhada não haverá como garantir quem está certo - somente ao chegar no final é que isso será esclarecido. 

Mas o primeiro viajante fica acusando o outro de ser irracional por acreditar que a estrada vai dar numa cidade diferente. Ora, isso não é justo, pois não há como provar quem tem razão.

É claro que, ao longo do caminho, os viajantes tentarão coletar evidências para corroborar se escolheram o caminho certo. E as evidencias podem fortalecer suas crenças. Por exemplo, no caso dos cristãos, uma benção obtida como resposta de oração ou uma profecia que se cumpre, reforçam a convicção que o mundo espiritual existe mesmo. Da mesma forma, os materialistas vão tentar colher provas para reforçar a tese de que não há mundo espiritual. 

Mas nunca serão colhidas evidencias suficientes. E somente depois que as pessoas saírem dessa vida física é que poderão saber definitivamente quem tinha razão. Portanto, a fé, para um lado ou para outro, sempre será necessária.  

A fé com base no testemunho da Bíblia é irracional?
A segunda objeção feita ao cristianismo tem a ver com o fato de que essa fé é baseada apenas no testemunho de um livro considerado pouco confiável (a Bíblia). Mas essa crítica também não é válida. Primeiro, porque todas as crenças são construídas da mesma forma, isto é com base em testemunhos considerados confiáveis. 

Por exemplo, as pessoas usam um GPS porque acreditam que a informação nele contida é a expressão correta da geografia do território coberto, ou seja têm fé no "testemunho" daquele produto. Eu nunca vi um elétron, mas acredito na sua existência porque confio naquilo que os cientistas relataram, ou seja acredito no testemunho deles. 

Praticamente tudo que sabemos é baseado em testemunhos de terceiros - até nosso nome e dia de nascimento. E é esse mesmo processo que permite a transmissão do conhecimento e o desenvolvimento da ciência e da cultura. 

Assim, manter crenças com base em testemunhos confiáveis é inteiramente racional - todas as pessoas procedem dessa forma. A questão verdadeira então é a escolha de quais testemunhos podem ser considerados confiáveis. 

E é interessante perceber que essa escolha é feita com base nas próprias crenças que as pessoas já têm e nem poderia ser diferente. Em outras palavras, na prática, as pessoas escolhem (de forma consciente ou não) aquilo em que irão acreditar. Portanto, o teólogo cristão Anselmo de Canterbury estava certo quando disse: "creio para poder entender". 

Para os materialistas, a Bíblia é um testemunho não confiável, cheio de fantasias. Afinal, eles não acreditam no mundo espiritual que ela relata. E o contrário pode ser dito quanto aos cristãos. Em ambos os casos, a fé vem antes e a escolha do que é confiável como fonte de testemunho aparece depois.

Muito pode ser dito para mostrar que a Bíblia é um documento historicamente correto, cheio de informações preciosas. Mas para aqueles que não acreditam no mundo espiritual, os relatos de milagres, aparições de anjos, etc, são lendas e, portanto, a Bíblia não é confiável. 

E como não é possível provar nem que o mundo espiritual existe nem que não existe, conforme vimos na primeira parte do post, não há como sair desse impasse. Voltamos ao exemplo dos dois caminhantes na estrada, que não sabem qual é o destino real dela.

Em resumo, não é irracional usar a Bíblia como base para construir numa fé. É tão racional quanto acreditar que apenas experiências científicas podem mostrar aquilo que existe existe de fato.

Portanto, é arrogância intelectual acusar a fé cristã de irracional. É claro que muitos cristãos pregam uma fé cega, mas esse é um problema deles, de como encaram sua fé e não do cristianismo em si. E esse tipo de falta de perspectiva estreita também ocorre do lado daqueles contrários ao cristianismo. Lembro bem do depoimento de um cientista que disse saber que as evidencias científicas apontam para um início do universo (o Big Bang), mas que preferia não acreditar nelas pelas consequências que geram, isto é a necessidade de incluir na análise um Criador para tudo que existe. 

Com carinho

Nenhum comentário:

Postar um comentário