terça-feira, 16 de setembro de 2014

O LADO RUIM DE ALGUMAS COISAS BOAS

Confesso que há várias situações na Bíblia que têm potencial para deixar as pessoas perplexas. Isso porque elas têm um lado maravilhoso e geram ensinamentos preciosos. Mas também parecem ter outro lado, muito pior, triste e desanimador. 

E as pregações e os livros de estudo bíblico costumam olhar somente para o lado bom dessas situações, deixando de abordar o outro lado, o que contribui para aumentar a perplexidade das pessoas. Vou dar alguns exemplos para você entender melhor o que acabei de dizer.

Olhando os dois lados 
O melhor exemplo que conheço é o caso do sacrifício de Isaque, filho de Abraão. Deus ordenou a Abraão que sacrificasse o menino, numa prova de fé. E Abraão obedeceu cegamente. Levou o filho até um monte, amarrou-o a uma pilha de lenha, para acender um fogo sacrificial, e pegou uma faca para matar o garoto. No último momento, Deus ordenou a Abraão sacrificar uma cabra no lugar de Isaque (Gênesis capítulo 22).

O lado positivo dessa história é bem conhecido: a fé de Abraão era tão grande que ele não negou nada a Deus, nem seu próprio filho. Não é por acaso que Abraão ficou conhecido na Bíblia como o "pai da fé". 

O lado negativo aparece quando se olha a história do ponto de vista de Isaque. O menino não sabia o que estava acontecendo, pois o pai nada lhe contou, e, de repente, se viu deitado numa pilha de lenha, como um sacrifício. Certamente ficou aterrorizado - não é por acaso que a Bíblia se refere a Deus como o "terror de Isaque". 

Agora, quantas pregações e textos você já viu discutindo o ponto de vista de Isaque nessa história? Eu confesso só ter visto um caso até hoje. Praticamente tudo que existe lida apenas com a fé de Abraão.

Outro exemplo interessante é o milagre que Jesus fez ao curar um cego de nascença que encontrou mendigando na porta do Templo de Jerusalém. Naquela época as pessoas acreditavam que uma deficiência física era consequência de pecados cometidos pela própria pessoa ou os pais dela. Jesus explicou que, naquele caso, não havia sido cometido pecado algum e tudo tinha acontecido para honra e glória de Deus. E curou o homem (João capítulo 9, versículos 1 a 12). 

Aí cabe a pergunta: e como fica o cego em tudo isso? É justo que ele tenha sofrido tanto para que Deus pudesse passar uma mensagem importante? E confesso que nunca vi ninguém pregar ou escrever refletindo sobre esse outro lado do milagre. 

Um exemplo similar, mas fora da Bíblia, é o caso do desastre de avião onde morreram quase todos os passageiros exceto um, que era cristão fervoroso. E o sobrevivente foi à igreja dar graças a Deus pelo milagre da sua salvação. Será que os parentes das pessoas que morreram deveriam então culpar a Deus pelo perda dos seus entes queridos? Afinal, se Deus deve ser louvado por ter salvo aquela pessoa, parece ser que também deveria ser responsabilizado pelo que aconteceu de ruim. Mas esse lado da história nunca é discutido.

O que dizer sobre isso tudo?
Não é fácil construir um raciocínio coerente para lidar com esse tipo de questão. Mas acredito que Deus espera isso de nós, pois sabe que as dúvidas precisam ser tratadas - frequentemente, quando falo sobre esse tema com as pessoas, elas me dizem que têm esse tipo de dúvida e nunca conseguiram esclarecê-la.

Mas há muito a dizer a esse respeito. Agora, nem todas as respostas que existem são fáceis de aceitar. Começo pelo aspecto mais fácil, que é o impacto do livre arbítrio na vida das pessoas. 

Frequentemente são os próprios seres humanos que geram problemas para eles mesmos. Fazem escolhas erradas e sofrem as suas consequências. E Deus não pode ficar intervindo toda hora para livrar as pessoas dos seus problemas pois senão o livre arbítrio acabaria - o por quê Deus nos deu livre arbítrio é outra questão, que não tenho espaço para discutir aqui, mas há posts no blog que tratam desse tema. 

Deus intervém em alguns casos para mudar ou amenizar as consequências ruins das escolhas feitas. E podemos e devemos ser gratos por isso. Mas não podemos culpar Deus pelas consequências ruins das escolhas feitas pelas pessoas, afinal Ele não tem obrigação de livrá-las dos seus problemas. 

Essa análise esclarece a questão da única pessoa que se salvou do desastre aéreo. O desastre foi causado por falhas humanas - de manutenção, de pilotagem, etc - e Deus não pode ser culpado por elas. O fato d´Ele ter decidido salvar alguém, por motivos que desconhecemos, deve ser motivo de gratidão e louvor - nada há de errado nisso. E, sendo assim, não há por que questionar sobre as pessoas que Ele poderia ter salvo.

De certa forma, essa explicação também permite amenizar a análise do caso de Isaque. Abraão deveria ter conversado com seu filho e falado sobre o que Deus tinha-lhe pedido. Poderia falar da sua fé e convencer o filho que nada iria acontecer com ele, porque confiava em Deus. Finalmente, poderia ter ensinado o filho a conversar com Deus e certamente algo teria resultado desse contato. 

Mas Abraão não fez nada disso, pois não era um pai amoroso - basta olhar suas atitudes relatadas na Bíblia para perceber isso. Abraão se calou, deixando seu filho totalmente no escuro e gerando consequências muito ruins para o menino. 

Agora, o que acabei de dizer explica muitas coisas, mas não tudo. Não explica, por exemplo, por que Deus tinha que pedir a Abraão uma prova de fé (através do sacrifício de seu filho) ou a situação do cego de nascença. Ambas situações não podem ser explicadas pela ação humana, por escolhas erradas das pessoas. 

E aqui entramos no lado difícil dessa discussão. O fato é que não conseguimos entender todos os planos e as razões de Deus para fazer as coisas de uma forma e não de outra. Portanto, muitas vezes não vamos entender completamente os acontecimentos. Simples assim. 

Sei que isso não é fácil de "engolir" porque queremos entender as coisas - esse tipo de postura pode ser notada até nas crianças, quando questionam seus pais.

Estamos aí no território da fé. Não saber a razão para certas coisas, e ainda assim aceitá-las, requer confiança irrestrita em Deus - é preciso acreditar que Ele sempre busca o melhor. Sempre. Mesmo quando as aparências parecem indicar o contrário. 

Esse é um teste de fé que, de certa forma, vivemos diariamente. Aí está um dos desafios de ser cristão. Deus espera fé de nossa parte e, se soubéssemos tudo, não precisaríamos de fé, pois teríamos conhecimento. Mas, conforme a Bíblia nos ensina, sem fé não é possível agradar a Deus. 

Há mais a falar, mas tenho limite de espaço. Acredito que as explicações que dei já irão ajudar você a entender o que inicialmente parecia tão difícil.

Com carinho

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