sexta-feira, 24 de outubro de 2014

ONDE ESTAVA O ADÚLTERO?

Jesus viveu uma experiência que acho ter grande aplicação hoje em dia. Refiro-me ao caso da mulher que foi pega adulterando e levada por uma turba de homens até Jesus. 

A lei de Israel determinava que, no caso de adultério, o(a) adúltero(a) deveria ser morto(a) por apedrejamento. Os homens que levaram a mulher até Jesus, sedentos de sangue, esperavam que Ele confirmasse a condenação da adúltera. 

A resposta de Jesus foi inesperada e magistral: “aquele dentre vós que estiver sem pecado, seja o primeiro que lhe atire pedra”. Os homens ficaram envergonhados e foram embora, um a um, sem nada fazer contra a mulher (João capítulo 8, versículos 1 a 11). 

O ensinamento tradicional desse texto se relaciona com a hipocrisia - aqueles homens tinham considerado a mulher culpada, mas não tinham moral para passar qualquer tipo de julgamento pois eram pecadores maiores do que ela. 

Mas eu queria aqui tratar de outro ensinamento, também muito importante. E começo com a pergunta: onde estava o adúltero? O texto bíblico conta que apenas a mulher foi pega em flagrante delito. E aquela mulher certamente não adulterou sozinha. Por que então o adúltero não foi execrado junto com ela?  

A razão para isso é simples: o homem adúltero era a parte forte daquela história, pois a sociedade daquela época era muito machista. A corda arrebentou no lado mais fraco. 

E quantos vezes isso não acontece hoje em dia? Os mal feitos são descobertos e somente as pessoas mais vulneráveis são penalizados. Por exemplo, o funcionário público é pego em corrupção e vai para as primeiras páginas dos jornais, enquanto os corruptores - empreiteiros, fornecedores de equipamento, etc - continuam tranquilos. Mas eles são tão culpados quanto e deviam ser igualmente punidos. 

Tempos atrás, a esposa de um homem importante, que era muito apaixonada por seu marido, tendo inclusive deixado sua carreira para acompanhá-lo aonde ele ia, se viu às voltas com a traição dele. Desesperada, sem esperanças de recuperar o homem amado, ela se matou. A imprensa noticiou apenas o desequilíbrio emocional dela - o que certamente aconteceu - mas nunca citou o adultério que tinha detonado a tragédia. Meses depois o viúvo se casou com a amante e continua a viver muito bem até os dias de hoje, sempre presente nas colunas sociais dos jornais. 

Quando as enchentes causam deslizamentos nas encostas dos morros, as pessoas pobres que moram ali, porque na maioria das vezes não têm para onde ir, são apresentadas pela mídia como pouco responsáveis. E as autoridades públicas, que deixam de usar as verbas de combate a enchentes e gastam milhões com propaganda dos seus governos, se saem sempre bem. E tudo continua igual, até a próxima enchente. 

Certa vez  um Ministro da Fazenda, num momento de rara sinceridade, disse que aquilo que era ruim ele escondia e o que era bom ele mostrava. E é assim mesmo que acontece. 

Infelizmente isso também é verdade em muitas igrejas cristãs. Por exemplo, há pastores que só pensam em tirar proveito material da sua posição, mas não podem ser criticados porque são "ungidos" do Senhor. Já conheci muitas beatas fofoqueiras que eram desculpadas porque prestavam serviços à obra de Deus e tinham "bom coração". E há muitos outros exemplos, como os padres pedófilos escondidos pela hierarquia da Igreja Católica ou os(as) "voluntários(as)" que trabalham nas instituições assistência social não para ajudar de fato a quem precisa e sim para ajudar a si mesmos(as). 

Os(as) cristãos(ãs) não podem entrar nesse tipo de "jogo", enxergando os mal feitos apenas dos mais fracos. Não é porque alguém tem "costas quentes" que deve ser poupado(a), enquanto os(as) demais levam toda a responsabilidade. 

Quando perceber algo errado, que precise de correção, posicione-se com clareza. Oponha-se àqueles(as) que merecem, sejam essas pessoas figuras de poder ou não. Foi assim que Jesus agiu quando condenou inclusive os poderosos de "plantão", como os principais líderes religiosos judeus ou os conquistadores romanos.

Com carinho

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