quarta-feira, 8 de outubro de 2014

TEOLOGIA TÓXICA E SUAS CONSEQUÊNCIAS


Pouco mais de dois anos atrás morreu precocemente a cantora Whitney Houston. Ela tinha voz de anjo, grande beleza e um talento musical extraordinário, o que fez dela uma das cantoras pop mais conhecidas e premiadas da sua época.

O que ficou escondido por trás de todas as homenagens que foram feitas a Whitney na época da sua morte foi o fato de que ela era profundamente cristã - a última música que cantou falava justamente do seu amor por Jesus. E foi muito triste perceber que uma pessoa tão abençoada e cristã verdadeira tenha tido final tão triste. 

O fato é que Whitney foi vítima de duas forças terríveis que acabaram destruindo sua vida física e emocional: o abuso doméstico e a obediência cega a uma teologia errada. Vejamos o que aconteceu.

Bobby Brown, o marido de Whitney, a quem ela amou profundamente (chegou a se declarar "viciada" em amá-lo), é um artista menor, que tinha inveja do sucesso da própria esposa. E ele fez tudo para acabar com a autoestima de Whitney, aproveitando-se de sua personalidade frágil, inclusive levando-a a consumir drogas. Amor sem medida dedicado a uma pessoa abusiva e manipuladora é caminho certo para o desastre. E foi isso que aconteceu com Whitney.

Mas ela também foi vítima de uma  teologia tóxica que escolheu seguir cegamente. O fato é que Whitney permaneceu por longos anos num casamento terrível porque achava que era isso que Deus queria dela. Numa entrevista que deu para Oprah Winfrey em 2009 (disponível no Youtube), ela disse que, como cristã, era seu dever ficar casada a qualquer custo e chegou a citar Mateus capítulo 19, versículo 6: “Portanto, o que Deus ajuntou, não o separe o homem”. Citou ainda a passagem bíblica que, na percepção dela, dava ao seu marido poder de dirigir sua vida (Efésios capítulo 5, versículos 22 a 33). 

Na mesma entrevista, ela contou que certo dia começou a pedir a Deus ajuda para sair daquele inferno. Orou para ter forças por apenas um dia e Deus atendeu seu pedido e ela saiu de casa apenas com a roupa do corpo. Mas seu afastamento do marido abusivo veio tarde: o mal físico e emocional que lhe tinha sido feito cobrou seu preço. Whitney nunca mais conseguiu se recuperar – basta ver suas últimas fotos. 

Os custos de uma teologia tóxica
O cristianismo é uma religião que liberta o ser humano e portanto nunca pode defender algo que o escravize. E qualquer teologia que aponte na direção dessa escravização deve ser considerada tóxica. Vejamos o que estava errado naquilo que ensinaram a Whitney. 

Sou um defensor do casamento e acho que sempre deve haver um grande esforço para preservá-lo. Mas essa preservação não pode ocorrer a qualquer custo, como aconteceu com aquela mulher. E o versículo de Mateus - nenhum ser humano deve separar aqueles que Deus juntou -, citado pela própria cantora, não a obrigava, como lhe foi ensinado por alguns pastores, a esse tipo de sacrifício. 

E é fácil de entender a razão para o que acabei de afirmar. Basta perguntar: quando é que Deus junta verdadeiramente um homem e uma mulher? A maioria dos evangélicos responderia que isso ocorre quando as pessoas se casam na igreja, frente a um pastor. Mas quem pode garantir que a união feita numa cerimônia religiosa é equivalente a uma união feita por Deus? Onde isso está dito na Bíblia? Posso afirmar que em lugar nenhum.

Para confirmar o que acabei de dizer, basta lembrar de Isaías capítulo 1, versículos 13 e 14, onde Deus afirma que detesta liturgias religiosas vazias. Elas nada significam. 

E um dos casos de liturgia vazia pode ser o casamento. Por exemplo, cerimônias religiosas onde um dos noivos está ali apenas para cumprir uma obrigação social, já que nem acredita direito em Deus, não tem qualquer valor espiritual. Também não tem valor espiritual a cerimônia onde um dos noivos se casa por interesse ou esconde suas reais intenções em relação ao outro.  

O casamento religioso na igreja e a união feita por Deus são coisas diferentes. Até acredito que boa parte dos casamentos feitos nas igrejas envolve uniões feitas por Deus, mas certamente não é sempre assim que acontece. E o caso de Whitney certamente foi um caso em que Deus nada teve a ver com a união. Simples assim. 

Outro aspecto tóxico da teologia que a cantora seguia é a questão da autoridade absoluta e inquestionável do marido sobre a esposa. Muitos evangélicos entendem que o texto de Efésios capítulo 5 dá ao marido esse papel, o que não é verdade. Afinal, no mesmo texto, é dito que o marido deve amar a mulher como a seu próprio corpo, como Cristo faz com a igreja. 

Na verdade, o texto defende uma submissão mútua, já que o corpo (a esposa) cria limite físicos para a alma (o marido). Paulo defendeu que o marido e mulher devam se submeter um ao outro, ou ninguém se submete a ninguém. 

A situação em que a mulher se submete cega e unilateralmente ao marido, como aquela que Whtiney aceitou viver, não está prevista na Bíblia. E nem é razoável, não podendo ser do agrado de Deus. 

Por que a teologia tóxica permanece?
Há várias razões para isso. A primeira delas é a ignorância pura e simples - as pessoas não sabem que há algo errado no que lhes foi ensinado e simplesmente se limitam a repetir o que aprenderam. 

A segunda razão é que as pessoas se acomodam nos papéis que aprendem a desempenhar. E muitas vezes parece ser mais confortável deixar como estar, para ver como fica... As pessoas somente mudam quando a dor torna-se insuportável, pois mudar também incomoda. Doeu muito para Whitney abandonar seu casamento, conforme ela mesmo declarou e essa foi uma das razões pela qual ela hesitou tanto em fazer isso.

A terceira razão é que não interessa a algumas pessoas mudar essas doutrinas tóxicas, pois tiram vantagem delas. Por exemplo, para um homem machista, desejoso de controlar a vida da sua mulher, a visão teológica que estabelece a dominação da esposa pelo marido cai como uma luva. 

Palavras finais 
Uma boa teologia deve iluminar mentes, libertar almas e encaminhar pessoas na direção do Reino de Deus. A teologia tóxica pega pedaços da Bíblia, fora de contexto, e os usa para dominar e aprisionar pessoas. E aí daquele que tiver a audácia de se rebelar contra esses ensinamentos distorcidos pois, no mínimo, vai ser rotulado de fazer a obra de Satanás. 

Há inúmeros exemplos de teologias tóxicas, todas com resultados destrutivos. Falei aqui um pouco sobre a teologia errada que leva a esposa à submissão ao marido e a permanecer num casamento a qualquer custo, mas há outros exemplos importantes como aquela que defende que "cristãos verdadeiros não adoecem" (a chamada "confissão positiva") ou que "Deus nos quer ver a todos prósperos" (a teologia da prosperidade). Cuidado com elas.

Com carinho

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