sábado, 13 de dezembro de 2014

A EPIDEMIA QUE ABALA A SOCIEDADE

Pouco mais de um ano atrás, a comunidade cristã norte-americana ficou chocada com a notícia do suicídio de um rapaz de apenas 27 anos, Matthew Warren. Ele cometeu esse ato depois de longa depressão que o deixou incapacitado para uma vida normal. 

Matthew era filho de Rick Warren, pastor de uma das maiores igrejas evangélicas do mundo e muito conhecido por livros como “Uma igreja com propósitos” e “Uma vida com propósitos”. Segundo o depoimento do pai, Matthew recebeu o melhor tratamento médico possível e teve grande cobertura de oração e, mesmo assim, não conseguiu resistir. O pastor Warren chegou a contar para sua igreja um diálogo que teve com o filho, pouco antes de sua morte, quando o rapaz disse: Pai, eu sei que vou para junto de Jesus. Então, por que essa dor não acaba logo?”

O fato é que a sociedade atual vive verdadeira "epidemia" de depressão - foi exatamente assim que a revista Christianity Today se referiu a esse problema. Relatório recente da Organização Mundial de Saúde mostrou que depressão é a segunda maior causa de incapacitação das pessoas, logo depois das doenças cardiovasculares. Cerca de 25% da população mundial já teve ou terá depressão severa. E, em qualquer momento, pelo menos 5% da população está deprimida – no Brasil isso equivale a cerca de 10 milhões de pessoas, população equivalente à região metropolitana de São Paulo. 

Os estudos indicam também que a depressão se faz presente no meio cristão com a mesma força que no restante da população. Assim, a cada momento, de cada 20 frequentadores de uma igreja, 1 está severamente deprimido. 

Como explicar essa epidemia? Acho que há dois aspectos a considerar. Em primeiro lugar, hoje há uma compreensão maior sobre a doença "depressão", face aos recursos mais avançados de diagnóstico existentes. 

Um bom exemplo da falta de entendimento da depressão, que antes existia, pode ser encontrado no filme “Patton”, onde foi contada a história de um famoso general norte-americano da II Guerra Mundial. 

Certa vez, Patton foi visitar um hospital para feridos de guerra. Chegou perto de um soldado que não tinha ferimento aparente e lhe perguntou como ele estava. E o soldado, claramente deprimido, não conseguiu explicar direito seu problema. Patton se irritou com aquela situação, chamou o rapaz de covarde, deu-lhe um tapa na cara e mandou-o de volta para a frente de combate. O general foi punido por causa disso. Hoje isso dificilmente aconteceria pois quase todo mundo sabe que a depressão é uma doença e nada tem a ver com covardia. 

A segunda explicação para a "epidemia de depressão" deve-se ao fato que hoje as pessoas se sentem mais à vontade para reconhecer a presença desse mal nas suas vidas - depressão deixou de ser considerada uma fraqueza do caráter das pessoas. 

Lembro-me bem que, quando eu era jovem, depressão carregava um grande estigma social. Sempre ouvia as pessoas na minha igreja falarem que ela era causada por coisas como falta de fé ou pecado não confessado. E ninguém queria ver esse diagnóstico aplicado a si mesmo(a). 

O que é depressão? A definição da Sociedade Psiquiátrica Americana diz mais ou menos o seguinte: uma pessoa está deprimida de forma significativa quando exibe pelo menos um, dentre dois sintomas básicos (falta de ânimo ou de interesse pelas coisas), em conjunto com quatro ou mais dentre os sintomas complementares (sentimento de falta de valor, culpa excessiva, redução da capacidade de concentração ou de tomar decisões, fadiga crônica, agitação psicomotora, insônia, variação rápida de peso e pensamentos recorrentes de morte). Diz ainda a mesma Sociedade que depressão importante gera sofrimento emocional muito grande. 

E há várias causas para a depressão, desde físicas (falta de serotonina no cérebro), até emocionais (por exemplo, sofrimento gerado por uma grande perda). Mas os estudos mostram que a causa mais forte parece ser falta de esperança, gerada pelas incertezas quanto ao futuro, pela solidão ou outras coisas assim. 

O pior é que a sociedade em geral, sem nem perceber, torna tudo mais difícil. Por exemplo, o governo e as empresas em geral cada vez mais tratam as pessoas como objetos - as pessoas tornaram-se números de um cadastro, são atendidas por computadores, precisam seguir normas impessoais e assim por diante.

O fenômeno recente do crescimento das “relações sem vínculos” - aquelas construídas em cima das redes sociais, como Facebook e Twitter - também tem contribuído muito para esse problema. Essas relações não geram comprometimento ou sentido de comunidade e podem ser descontinuadas de forma excessivamente fácil - basta um simples clique do mouse. Portanto, mesmo tendo muitos(as) "amigos(as)" virtuais, as pessoas se sentem cada vez mais solitárias.  

Como lidar com a depressão? Há formas boas e ruins de fazer isso. Infelizmente, os caminhos ruins, como o abuso do álcool e de outras drogas, a promiscuidade sexual e o consumo desenfreado são os mais usados para amenizar a dor emocional causada pela depressão. Esses caminhos não levam a lugar nenhum e acabam por aumentar o problema, em lugar de resolvê-lo. 

A solução real passa pelo uso de medicação adequada (sempre receitada por um médico qualificado), quando necessário, por terapia, por apoio emocional da família, pela mudança de hábitos de vida e assim por diante. E também pelo apoio espiritual, pois a depressão também pode ter raízes nesse campo.

E o que as comunidades cristãs podem fazer para ajudar? Elas deveriam estar na linha de frente do combate a essa epidemia. Mas não é isso que acontece, primeiro por conta do despreparo das lideranças - por exemplo, os pastores não recebem treinamento adequado para lidar com esse tipo de situação. Depois, por causa do preconceito - ainda é comum nas igrejas a afirmação que cristão verdadeiro não fica deprimido (veja mais). 

Concluindo, depressão é doença e como tal deve ser reconhecida e tratada. Ela requer um enfoque amoroso, cuidados especiais e muito apoio. Nós, cristãos, precisamos entender isso e ser um instrumento para solução do problema, nunca uma pedra de tropeço.

Com carinho

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