sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

OS ATENTADOS TERRORISTAS

O mundo assistiu chocado a mais uma série de atentados terroristas, desta vez ocorridos em Paris. Já ocorreram atentados sérios em Nova Iorque, Londres, Mumbai e outras importantes cidades e agora chegou a vez da capital francesa. 

Esse atentado, assim como a maioria dos outros, foi conduzido por radicais islâmicos. Dessa vez eles se incomodaram com reportagens e caricaturas sobre o profeta Maomé consideradas heréticasE, para eles, heresias devem ser punidas com a morte. Simples assim.  

O atentado gerou uma série de reações de suporte à revista francesa Charlie Hebdo que teve boa parte da sua redação dizimada no ataque terrorista. O novo número da revista, que acabou de ser publicado, vendeu cerca de 5 milhões de exemplares, quando o normal são cerca de 60 mil exemplares vendidos. Houve ainda gigantescas manifestações na capital francesa, que recebeu a visita de muitos líderes mundiais, todos para mostrar suporte à liberdade de expressão, valor que todos veem como sendo outra vítima desse ataque extremista.

Tal tipo de evento trágico sempre gera muitas discussões e gostaria de abordar aqui duas questões muito importantes que costumam ser levantadas nesses casos, ambas relacionadas com a atribuição da culpa pelo que aconteceu. 

A primeira se refere à eventual responsabilização não só dos terroristas mas também da religião - no caso o islamismo - que eles seguem. Muitas pessoas acham que a religião em si é a responsável real por incitar o uso da violência em defesa dessa fé.

Eu penso que tal tipo de avaliação é injusta. E não falo isso por conta de simpatia pelo islamismo, coisa que nem tenho, por conta da forma como trata as mulheres, sempre discriminadas, e também pela redução das liberdades individuais que costuma gerar. Os países de maioria islâmica não costumam ser democráticos nem respeitar os direitos das minorias e isso é um fato incontestável.

Mas sei separar a religião, como doutrina, daquilo que as pessoas, especialmente os radicais, fazem quando dizem seguir essa doutrina. O próprio cristianismo passou por esse tipo de problema, por exemplo, com as Cruzadas, a Santa Inquisição e diversas guerras religiosas. E todos sabem que a doutrina cristã defende o amor ao próximo, como um de seus valores fundamentais. 

Ocorre que pessoas, nominalmente cristãs, cometeram toda a sorte de barbaridades e as "justificaram" com base na sua religião. Foram buscar na Bíblia razões para agir como agiram. As Cruzadas, por exemplo, foram justificadas como uma iniciativa para "libertar" os lugares santos (relacionados com a vida de Jesus) do controle muçulmano. A Santa Inquisição buscava combater heresias e converter pagãos ao cristianismo. E assim por diante.

É preciso separar a religião, como doutrina, dos atos cometidos em seu nome. Não é justo, portanto, atribuir ao cristianismo a responsabilidade pelas Cruzadas. E da mesma forma não é justo colocar na conta do islamismo os atentados terroristas. É preciso separar uma coisa da outra.

A segunda questão que precisa ser discutida é a tendencia que existe de atribuir parte da culpa às próprias vítimas. Muitas pessoas acham que as heresias publicadas pela revista Charlie Hebdo são em parte responsável pelo que aconteceu. Ou seja, se a revista não tivesse dado causa, ao publicar heresias, não teria sofrido o ato terrorista. 

Infelizmente esse pensamento é mais comum do que parece e ele me incomoda muito. Afinal, é injusto jogar qualquer parte da culpa sobre as vítimas. Existe um raciocínio muito parecido no caso do estupro: se a mulher atacada não tivesse usado roupa provocante e/ou não tivesse se comportado de modo inconveniente, não teria sido abusada. 

Ora, uma coisa nunca pode justificar a outra. O uso de roupa provocante nunca pode justificar um ataque de natureza sexual. Nunca. Aquele que ataca sexualmente uma mulher é uma pessoa doente e acabará por cometer esse tipo de crime por uma razão ou outra. A vítima não tem culpa de nada.

A mesma coisa se pode dizer do ato terrorista. É possível até que os jornalistas da Charlie Hebdo tenham se excedido aqui ou ali, ao atacar diversas religiões, mas nada justifica o que foi feito. Radicais sempre vão encontrar "razões" para "punir" heresias reais ou inventadas pelas suas mentes doentias. 

É claro que prudência é sempre recomendável: por exemplo, uma moça sozinha deve saber onde pode ir, como pode se vestir e assim por diante. E é aconselhável que seja prudente, evitando se expor desnecessariamente. Mas, mesmo se for imprudente, isso não justifica um eventual ataque a ela. A mesma coisa ocorre com jornalistas que escrevem texto satíricos sobre diferentes religiões - eles precisam tomar cuidado com o que fazem e levar em conta os radicais soltos por aí. Mas se forem imprudentes, ainda assim isso não justifica eventuais ataques a eles.

Concluindo, ataques terroristas são um câncer da sociedade moderna. Infelizmente eles vieram para ficar, porque se tornaram armas que geram grande publicidade. E, de certa forma, os terroristas já foram vitoriosos - basta ver as inúmera precauções contra ataques que precisam ser tomadas em relação aos passageiros de aviões. O fato é que os ataques terroristas já mudaram para sempre a vida das pessoas.

Agora, não devemos tornar as coisas ainda piores, colocando a culpa onde ela não deve estar - sobre as próprias vítimas ou sobre seguidores pacíficos de determinada religião. 

Com carinho 

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