domingo, 18 de janeiro de 2015

O SÁBADO E O QUARTO MANDAMENTO

Parte de uma série sobre os Dez Mandamentos

Lembra do dia do sábado para o santificar. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o shabbat do Senhor teu Deus...                  Êxodo capítulo 20, versículos 8 a 10

O mandamento referente à guarda do sábado é um dos que mais gera discussões. E há duas questões diferentes envolvidas: qual é o dia da semana que precisa ser preservado e o que é “santificar” o sábado. 

A qual dia o mandamento se aplica?

O livro do Gênesis (capítulo 2, versículos 1 e 2) diz que o mundo foi criado em seis dias e que no sétimo dia Deus descansou. Por causa disso esse último dia deve ser considerado santo (separado) para Deus.



Agora, não se pode esquecer que, quando o Gênesis descreveu a criação do mundo, um evento muito complexo, era natural que o texto usasse para compor a narrativa as referencias de tempo mais conhecidas, ou seja o dia e a semana. Afinal, dias e semanas sempre foram facilmente observados pelo movimento do sol e pelas fases da lua. 

E o texto usa "dias" e "semanas" de forma metafórica, ou seja não se refere a eles exatamente como um período de 24 horas e a soma de 7 períodos de 24 horas. Portanto, quando o texto bíblico fala do sétimo dia não está se referindo ao dia que hoje conhecemos como "sábado". 

Portanto, não há qualquer correlação real entre o sétimo dia da criação - aquele em que Deus descansou - e o sábado dos dias de hoje. Simples assim. Em outras palavras, a briga para saber qual dia da semana melhor caracteriza aquele que Deus separou para ser santificado - sábado ou domingo - não faz muito sentido. 

A única coisa que o relato do Gênesis permite afirmar é que Deus estabeleceu um dia da semana para ser separado (santificado). Nada mais. E os judeus não estão errados em obedecer o mandamento usando o dia atual do sábado, contado a partir do cair do sol de sexta feira, como também os cristãos não estão errados ao considerar esse dia como o domingo (em homenagem ao dia da semana em que Jesus ressuscitou), contado de 0 a 24 horas. Não há qualquer violação ao mandamento num ou noutro procedimento. 

E tanto é assim que a Bíblia mostra os primeiros cristãos guardando inicialmente o dia tradicionalmente seguido pelos judeus (Atos capítulo 13 versículo 14) e depois passando a observar o domingo (Atos capítulo 20, versículo  7). A escolha é essencialmente uma questão de tradição. E entendo que cada um pode seguir a tradição que preferir. 

O que é santificar o sábado?
A palavra hebraica “shabbat” quer dizer “dia separado para descanso”. E esse foi o objetivo de Deus: estabelecer um dia para descanso, evitando que as pessoas trabalhassem todos os dias do ano e acabassem como animais de carga, sem qualquer dignidade humana.

Deus estabeleceu que é preciso haver tempo para conviver em família, cantar, dançar, criar arte, conversar e, sobretudo, para se relacionar com Ele. Esse é o sentido tanto do tratamento especial dado a um dia da semana, como também do estabelecimento de feriados religiosos, como a Páscoa ou o Pentecostes.

Para que esse dia de descanso fosse respeitado por todos, e especialmente daqueles que lucram com o trabalho dos outros, nada mais efetivo do que caracterizar esse dia como separado (santo) através de uma lei divina. E essa foi a razão para o estabelecimento do quarto mandamento. 

E essa prescrição de um dia para descanso acabou migrando da prática religiosa para a legislação civil e hoje há pelo menos um dia para descanso estabelecido nas leis trabalhistas de todos os países civilizados. 

Agora, como em tal dia não podia haver trabalho, houve uma discussão entre os judeus, nos tempos bíblicos, sobre qual era a definição de “trabalhar”. Cozinhar seria trabalhar? Para a mulher que passava a semana cozinhando, certamente sim e veio daí a proibição quanto a cozinhar nesse dia. E andar, seria isso também um trabalho? É claro que andar dentro de casa não, mas andar entre uma cidade e outra talvez sim.

Com base nessas discussões, os judeus foram estabelecendo leis que passaram a regular tudo o que se poderia ou não fazer nesse dia especial. E, para piorar as coisas, surgiram as chamadas “leis de cerca”, regras que tornaram as exigências ainda maiores para trazer garantia absoluta que o mandamento não fosse violado. Por exemplo, se a distância limite que se poderia andar sem constituir trabalho fosse, digamos, 2 km, criou-se uma "cerca" estabelecendo o limite de 750 m. 

Assim, os judeus criaram cerca de 60 leis caracterizando aquilo que podia ou não ser feito no sábado. E acabou que o sábado, ao invés de ser um período para relaxamento, tornou-se motivo para ansiedade - havia discussão teológica até sobre se uma pessoa poderia ser curada nesse dia.

Foi aí que Jesus "matou" a charada quando disse (Marcos capítulo 2, versículo 27): “o sábado foi estabelecido por causa do homem e não o homem por causa do sábado”. Em outras palavras, o sábado foi feito para preservar a dignidade das pessoas, impedindo que elas se transformassem em animais de carga. Para dar-lhes condição de estabelecer um relacionamento com Deus. Mas definitivamente o sábado não foi criado para se tornar um fim em si mesmo e escravizar as pessoas. 

Portanto, guardar o sábado é reservar um dia da semana aproveitar a vida em família, relaxar, criar e, sobretudo, para estar na presença de Deus - louvando, ouvindo sua palavra e orando. Nada mais do que isso.

Com carinho

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