domingo, 15 de março de 2015

O CRISTÃO PODE SEGUIR BEM A JESUS FORA DA IGREJA?

É  possível seguir bem a Jesus sem ter vínculo com alguma igreja (denominação) cristã? Muitos cristãos sinceros acreditam que sim. Mas a Bíblia não dá suporte a essa posição e vou explicar a razão. 

E começo comentando que há dois aspectos a considerar nesta discussão. O primeiro é esclarecer se a Bíblia dá suporte à ideia que a fé cristã pode ser bem exercida fora de uma comunidade. A resposta inequívoca é não e há inúmeros textos bíblicos que demonstram isso. Por exemplo, Jesus disse que "as portas do inferno" não iriam prevalecer sobre sua igreja (Mateus capítulo 16, versículos 18 e 19). Repare que Ele não falou de pessoas isoladas, mesmo que sinceras na sua fé. Falou da comunidade de fé que teve início com seu ministério na terra.

Outro exemplo importante aparece no relato da conversão de Paulo, na estrada para Damasco. Ele teve uma visão onde Jesus lhe disse (Atos dos Apóstolos capítulo 9, versículos 2 a 5): “Saulo, Saulo, por que me persegues?” Em outras palavras, Jesus considerou a perseguição à comunidade cristã como uma agressão pessoal a Ele mesmo. Para Jesus, a comunidade cristã é inseparável da sua pessoa - os dois são uma coisa só. Simples assim. 

O segundo aspecto tem a ver com a forma de superar a rejeição que algumas pessoas adquirem a todas as denominações cristãs - por causa disso, elas escolhem se "exilar" delas. Não se trata de simples preferencia de frequentar uma denominação em lugar de outra, o que é absolutamente normal. É uma rejeição total e completa a todas elas - à própria ideia de pertencer a uma comunidade de fé. 

Minha experiência é que tal tipo de rejeição é provocada pelo desencanto. Gerado quando a pessoa testemunhou a ação de pastores corruptos ou insensíveis ao sofrimento humano, viu a fofoca florescer dentro da igreja que frequentava, não foi atendida nas suas necessidades espirituais mais básicas e assim por diante. E, em represália, concluiu que nenhuma denominação cristã serve para ela e decidiu se "exilar".

A resposta a isso passa por lembrar que a religião cristã - a filosofia de vida centrada em Jesus e na sua missão - precisa ser separada das entidades (pessoas jurídicas) organizadas para operacionalizar essa mesma ideologia. Afinal, não há como operar na sociedade atual sem contar com organizações legalmente constituídas.

E organizações dirigidas por seres humanos sempre cometem erros e praticam abusos. Não há como evitar isso. Mas o erro dessas organizações não mancha o conteúdo da religião cristã, assim como as falhas dos regimes democráticos não torna a ideia da democracia ruim. Os erros históricos das organizações cristãs significam pura e simplesmente que seus líderes não seguiram os ensinamentos de Jesus. Só isso.

E interessante perceber que o próprio Jesus sabia que esse tipo de problema iria acontecer e ameaçou os líderes religiosos iníquos com punições severas:
  • Contra falsos líderes (Mateus capítulo 7, versículo 15 a 22): “Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores... Muitos, naquele dia [Julgamento Final], hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura não temos nós profetizado em teu nome... Então lhes direi explicitamente: Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais iniquidade."   
  • Contra líderes que geram escândalos (Mateus 18, 17): “... porque é inevitável que venham escândalos, mas ai do homem pelo qual vem o escândalo.”
  • Contra líderes que afastam as pessoas da doutrina correta (Mateus 18, 6): “Qualquer porém que fizer tropeçar a um desses pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho e fosse afogado na profundeza do mar.”
  • Contra líderes hipócritas (Mateus 23, versículo 13 a 33): Ai de vós, ..., hipócritas, porque fechais o reino dos céus diante dos homens; pois, vós não entrais, nem deixais entrar os que estão entrando...Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do Inferno?”
Alguns "exilados" cristãos se aferram à tese que Jesus idealizou a comunidade cristã como simples reunião de pessoas, sem qualquer organização formal. Sendo assim, as organizações religiosas formais seriam uma distorção completa do pensamento d´Ele. 

Mas tal ideia é fantasiosa. Afinal, Jesus sabia como uma religião precisa funcionar no mundo real pois viveu imerso no judaísmo, onde o Templo de Jerusalém (seu centro religioso) contava com complexa organização de sacerdotes, levitas, guardas, etc. E Jesus não falou nada contra essa organização em si. Ele apenas se insurgiu contra os líderes religiosos corruptos, hipócritas e/ou que defendiam posições teológicas erradas. 

Jesus não seria ingênuo de imaginar que seus seguidores poderiam se multiplicar e operar no mundo sem qualquer forma de organização. O que Jesus nunca aprovaria, isso sim, são os abusos e distorções, como as grandiosas catedrais ou o tal Templo de Salomão (construído recentemente em São Paulo ao custo de cerca de R$ 700 milhões); as burocracias religiosas intermináveis, que só consomem recursos; ou ainda os sacerdotes que se aproveitam da sua autoridade espiritual para ganhar vantagens indevidas. 

Concluindo, o(a) cristão(ã) precisa fazer parte ativa de uma comunidade de fé. Sem isso, sua prática religiosa vai sofrer. Agora, ele(a) é livre para escolher onde quer exercer sua fé - há inúmeras denominações sérias e nenhuma delas têm o monopólio de Jesus. Afinal, Ele pode ser encontrado em muitos lugares diferentes. 

Com carinho

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