quinta-feira, 11 de junho de 2015

RESOLVENDO "MISTÉRIOS" DA BIBLIA COMO OS DETETIVES

A Bíblia é a Palavra de Deus revelada a nós. Portanto, entender o que ela diz é fundamental. Mas a Bíblia guarda trechos de entendimento difícil porque foi escrita em época completamente diferente, onde os costumes e os usos eram outros. As pessoas daquela época viviam de forma totalmente diferente daquela que vivemos hoje em dia. O que fazia sentido para elas, pode não fazer sentido para nós. Simples assim.

Vou chamar as partes da Bíblia de entendimento difícil de "mistérios". E recorro aqui à sugestão que um teólogo fez certa vez: propôs que analisássemos os "mistérios" bíblicos como os detetives solucionam seus casos mais difíceis. 

Ora, como a maioria das pessoas gosta de livros e filmes de mistério, esse tipo de exercício, além de ilustrativo, acaba sendo também divertido e, portanto, achei que poderia interessar você. Isso sem contar que a metodologia proposta pode ser repetida por praticamente qualquer pessoa, bastando que ela tenha bom senso e raciocínio lógico. 

São seis as regras que devem ser usadas, todas elas bem simples:

Regra 1: não tire conclusões apressadas 
Os bons detetives tomam cuidado para não tirar conclusões antes de terem informações concretas suficientes. Isso evita conclusões pré-concebidas, um perigo enorme nas investigações. Pré-concepções fazem com que o detetive procure encaixar as informações nas conclusões que já tirou, um grande erro. Deveria ser sempre o contrário: usar as informações para tirar conclusões acertadas.

Portanto, nunca comece a estudar um texto bíblico imaginando que já sabe o que ele significa, mesmo quando for um texto já conhecido

Regra 2: tenha postura inquisitiva
Certa vez, num dos livros que conta as aventuras do famoso personagem Sherlock Holmes, quando ele tentou ensinar seu fiel parceiro, o Dr. Watson, a ser um bom detetive. Holmes perguntou quantos degraus existiam entre a entrada e a sala de estar do apartamento onde viviam e Watson não soube responder. E Holmes concluiu que esse era o problema: Watson olhava, mas não observava. 

Jesus disse essencialmente a mesma coisa ao explicar porque as pessoas não entendiam as parábolas que contava. Disse Ele que tias pessoas tinham olhos mas não viam e ouvidos mas não escutavam (Mateus capítulo 13, versículo 13).

Assim, não leia simplesmente o trecho da Bíblia que estiver tentando entender. Analise-o com cuidado, prestando atenção na pontuação, nos trechos que vem antes e/ou depois da parte que lhe interessa mais de perto, quem fala o que, no tom da conversa, etc.

Certa vez Jesus estava ensinando seus discípulos, quando sua família veio procurá-lo. Avisado, Jesus apontou seus discípulos e respondeu que sua mãe e seus irmãos eram aqueles que ouviam suas palavras e as seguiam (Mateus capítulo 12, versículos 46 a 50). 

Uma análise superficial desse texto indicaria que Jesus rejeitou sua família. Mas, olhando com mais cuidado, Jesus disse que sua família de sangue continuaria a ser sua família, no mundo espiritual, se, tal como seus discípulos, ouvisse e seguisse seus ensinamentos. 

Jesus recusou-se a praticar o nepotismo: privilegiar sua família, ou seja seus laços de sangue, no Reino de Deus. E se não fosse assim, poderíamos chegar ao absurdo de ver alguém ser salvo apenas por ter sido irmão de Jesus ou de um pastor famoso ou do papa.


Regra 3: detalhes são importantes
Para um bom detetive, tudo tem importância. Qualquer detalhe conta. Sherlock Holmes resolveu um crime por ter notado que o cachorro da casa não latiu - isso provou que o animal conhecia o assassino. 

Certa vez Jesus chegou perto de uma figueira e procurou nela alguns frutos, em meio às suas folhas. Não encontrando, amaldiçoou a árvore, que murchou (Marcos capítulo 11, versículos 12 a 14). Isso parece muito estranho: que culpa tinha a figueira de não ter dado frutos, especialmente não estando na época certa?

Mas há um detalhe importante nesse relato: a árvore tinha folhagem. E as figueiras somente exibem folhas quando já têm frutos. Logo, aquela era uma figueira “hipócrita” - tinha aparência, mas não o resultado concreto. Daí ter sido amaldiçoada.


Regra 4: quanto maior o mistério, mais evidencias serão necessárias 
Frequentemente, as pessoas querem tirar o mistério da frente e acabam aceitando qualquer resposta que pareça razoável. Elas não gostam de ficar na dúvida. Buscam certezas.

Certa vez vi um estudo do capítulo 1, versículo 8, do Atos dos Apóstolos, trecho onde Jesus, já depois da sua ressurreição, diz para os apóstolos esperarem em Jerusalém a vinda do Espírito Santo (o que deu origem ao Pentecostes). No referido estudo, o teólogo fazia mais de 70 observações sobre o versículo ainda antes de explicar seu sentido. E o tal versículo, na tradução em português, tem apenas 30 palavras!

O autor buscou levantar todas as informações que conseguiu sobre aquele pequeno trecho antes de tentar dar uma interpretação para ele. E isso deu muita segurança à sua conclusão: ele teria que estar de acordo com todas as informações colhidas. Qualquer discrepância indicaria ser preciso rever a conclusão tirada.

Não estou dizendo que você deva fazer o mesmo: levar seu estudo da Bíblia a tal grau de profundidade. Mas, seria razoável pedir que você fizesse de 3 a 5 observações sobre um versículo ou conjunto de versículos, antes de se atrever a encontrar um significado para ele.

São observações sobre a situação geral, os fatos relatados, as pessoas envolvidas, o passado dessas pessoas, a situação política e assim por diante. 

Mas onde buscar essas informações? É para isso que existem os dicionários, os comentários bíblicos, as notas de rodapé da sua Bíblia e outros recursos. E há muita informação boa de graça na Internet.


Regra 5: divida um mistério maior em pedaços menores 
Passagens bíblicas difíceis podem parecer inacessíveis, especialmente se forem longas. Quando for esse o caso, procure quebrar o texto em frases (ou versículos) e ir procurando entender cada uma delas, passo a passo. Depois vá juntando cada pedaço ao todo.

E nunca se esqueça que os textos da Bíblia sempre dialogam entre si. Por exemplo, imagine que você conseguiu resolver o mistério da figueira amaldiçoada. Mas o sentido total do texto - que é uma crítica de Jesus à religião legalista e hipócrita - somente vai ficar claro quando você juntar esse texto a outros. 


Regra 6: prefira as soluções mais simples 
Às vezes, existem mais de uma explicação possível para determinado "mistério". E quando isso acontece, sempre que possível, prefira a explicação mais simples à mais complexa e rebuscada. Afinal, o testemunho da Bíblia é que as coisas de Deus são simples e objetivas.

Por exemplo, há uma passagem do Apocalipse onde aparece um animal terrível, cheio de chifres e coroas na cabeça, que emerge do mar, para dominar o mundo. Há uma linha de explicação que tenta compreender essa besta como um animal real, que se transforma em ser humano, por obra de Satanás. A outra alternativa imagina que a besta é o símbolo de um ser humano dedicado à obra de Satanás, sendo os chifres e coroas representações do seu poder. Ora, a segunda explicação é mais simples, pois não requer a existência de um animal nunca visto na natureza. Logo, ela é melhor - e é aquela tradicionalmente aceita pelos teólogos.


Palavras finais
Nunca veja as passagens difíceis da Bíblia como frustrantes e sim como desafios. Como chamados para que você entenda melhor a Bíblia e cresça no processo de aprender a lidar com a Palavra de Deus.

E tenha consciência clara que sempre há mais a aprender na Bíblia. Mesmo aos maiores estudiosos não conhecem tudo que há para saber sobre ela. Sempre há mais. Muito mais.

Abra sua mente aberta para ser desafiado(a) pela Bíblia. E é essa capacidade de nos surpreender que a torna tão especial e interessante.

Com carinho

2 comentários:

  1. ola irmao,,,meu nome e edson antunes,,,sou evagelico e sou detetive particular,,,apesar de tantas coisas que eu ja investiguei,,,aque eu mais gosto e de investigar e estudar a biblia,,,,existe algum grupo so pra esse fim??? abraco aguardo resposta...

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    1. Caro Edson

      Fico feliz com seu contato.

      Existe um livro recente, chamado de "Cold Case Christianity", onde um investigador de homicídios norte-americano investiga a Bíblia - por exemplo, a ressurreição de Jesus - seguindo as técnicas que usa na sua profissão. Se você sabe ler em ingles, é uma leitura imperdível. Ainda não foi traduzido para o Português.

      Eu não estou dirigindo nenhum grupo de estudos bíblicos para o pessoal do blog. Penso em começar isso mais para o final do ano, depois que resolver algumas questões técnicas.

      Mas nada substitui um estudo presencial, conduzido para um grupo pequeno, onde possa haver contato livre. Sua igreja deve ter algum grupo desse tipo. Se não tiver, procure uma que tenha.

      Um abraço

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