sexta-feira, 17 de julho de 2015

FAZER DISCÍPULOS: A ESTRATÉGIA DE JESUS

Por que há tantos conflitos entre as pessoas e as igrejas que frequentam? Por que muitos cristãos(ãs) mudam de igreja como se mudassem de roupa? Acredito que a resposta para essas perguntas nasce na diferença dos objetivos das pessoas e das igrejas. Vou tentar me explicar melhor.

Uma organização pode ser definida como um grupo de pessoas que se junta na busca de objetivos comuns (sua missão). Vejamos alguns exemplos: governar o país mantendo a ordem e promovendo a justiça social (o governo), dar lucro para os investidores (as empresas), converter almas a Cristo (as igrejas cristãs), etc. 

São os objetivos que verdadeiramente definem os caminhos de uma organização. Se forem bons, como ajudar o próximo, a organização tende a ser boa, se forem ruins, como obter o lucro a qualquer custo, elas caminham para o lado ruim.
 

Por outro lado, cada pessoa também tem seus objetivos de vida - p. ex. segurança, prosperidade, poder, etc. E tais objetivos costumam ser diferentes daqueles perseguidos pelas organizações. E quando há falta de compatibilidade entre os objetivos pessoais e os das organizações, há grande chance de conflito. P. ex., uma empresa que busca maximizar o lucro tende a entrar em conflito com seus funcionários, dispostos a lutar por melhores remuneração e condição de trabalho.

Quando não há compatibilidade de objetivos, é preciso trabalhar para aproximar as diferenças - p. ex., no caso da empresa anterior, a solução poderia ser distribuir pelos funcionários parte dos lucros, fazendo-os sentir-se  “sócios” da empresa. Em outras palavras, essa abordagem alinha melhor os objetivos das pessoas com os da empresa. 

Os(as) cristãos(ãs) não são diferentes das demais pessoas e, portanto, almejam mais ou menos as mesmas coisas: conforto, prosperidade, segurança, etc. A diferença é que cristãos(ãs) verdadeiros(as) não almejam só coisas terrenas, mas também se empenham por herdar a vida eterna. assim, sabem que precisam impor certos limites aos seus objetivos terrenos para não prejudicar seu acesso à vida eterna. 

Agora, as igrejas têm por objetivo primordial implantar o Reino de Deus neste mundo: evangelizar, acolher e discipular as pessoas, dar assistência material aos menos favorecidos, etc. E é fácil perceber que não há compatibilidade total entre esses objetivos e os das pessoas. 

Afinal, os requisitos necessários para a implantação do Reino de Deus são sacrifício, dedicação, desprendimento pessoal e assim por diante. Enquanto os objetivos pessoais têm a ver com prosperidade, conforto, segurança, etc. No primeiro caso, é preciso "domar" o eu, enquanto no segundo, ele impera.

Como algumas igrejas administram esse conflito
Ao longo do tempo, foram desenvolvidas várias estratégias para administrar essa diferença de objetivos. Vou dar alguns exemplos:
  • Liberalismo excessivo                                                  Há igrejas que ajustam seus objetivos para torná-los mais "palatáveis" para as pessoas – algumas chegam a fazer estudos de marketing para entender melhor o que seu público quer ouvir. Liberalizam as práticas e costumes, tornando as exigências feitas às pessoas mais “leves”. Para dar suporte teológico para essa postura, relativizam os ensinamentos da Bíblia, especialmente os mais incômodos. O problema com essa abordagem é que a igreja se torna parecida com o mundo e acaba irrelevante. Tudo se passa como se ela igreja abandonasse seus objetivos e adotasse os das pessoas, isto é o "sal deixa de ter sabor"
  • Promessas excessivas                                                 Há igrejas que se especializam em divulgar doutrinas simplistas mas que falam ao coração das pessoas. Fazem muitas promessas - prosperidade, saúde absoluta, etc - mas, infelizmente, sem qualquer respaldo bíblico. As pessoas aderem a essas igrejas de forma entusiasmada e elas crescem rapidamente. Mas, quando as promessas não se materializam, as pessoas ficam decepcionadas. E a explicação dada pelas igrejas é que a benção não veio porque faltou fé, ou seja foi culpa da própria pessoa. O que acontecesse nesse caso é que as igrejas tentam convencer as pessoas que não há diferenças de objetivos, mas a realidade acaba se impondo.  
  • Controle pelo medo                                                      Há igrejas que recorrem ao medo do Inferno para controlar as pessoas. Apavoradas, muitas delas, especialmente aquelas com menor instrução, se deixam “escravizar”. Abrem mão dos seus objetivos pessoais em prol dos objetivos das igrejas. As consequências são cristãos com medo e um ambiente propício à hipocrisia.
  •  Acomodação                                                                 Há igrejas que mantém seus objetivos mas, na prática, não lutam por eles. E as continuam mais ou menos vivendo suas vidas numa zona de conforto, sem serem desafiadas a nada. Tudo se passa como se cada um(a) pudesse manter sua posição, sem haver conflito, mas isso não dá certo, pois normalmente os objetivos humanos acabam prevalecendo. 
Como Jesus resolveu esse conflito
Ele agiu de forma criativa: trabalhou para que seus seguidores mudassem a forma como viam o mundo. Mudassem seus objetivos para outros mais em linha com o Reino de Deus. E fizessem isso de forma voluntária, com o coração alegre. Em outras palavras, Jesus empenhou-se para que seus seguidores passassem a "sonhar os sonhos de Deus". 

E Ele fez isso investindo pesadamente no discipulado dos seus seguidores: foram três anos convivendo com essas pessoas e ensinando-as através de cada atitude e palavra suas. Trabalho difícil e lento mas que produziu mudanças duradouras – basta ver o caso do apóstolo Pedro, antes um homem instável e depois um dos pilares da igreja cristã.  

E durante o processo de formação dessas pessoas, Jesus não se afastou um milímetro da vontade de Deus - não fez concessões, muito menos permitiu que as pessoas se acomodassem numa zona de conforto. Em resumo, fez a vontade de Deus. Simples assim.

É claro que essa estratégia não gerou resultados imediatos - depois de três anos, Jesus tinha feito apenas um punhado de discípulos fiéis. Mas os resultados atingidos foram duradouros. Os(as) discípulos(as) formados multiplicaram o trabalho de Jesus, formando novos(as) discípulos(as) e levando a mensagem cristã a todo lugar. A igreja cristã cresceu de forma segura e confiável, sem fazer concessões, mas também sem escravizar as pessoas.  

Infelizmente, essa estratégia não é muito popular hoje em dia, por ser demorada e requerer muito esforço. Boa parte dos(as)  líderes religiosos(as)  atuais tem pressa e mede seu sucesso pelo crescimento rápido das suas igrejas. Assim, não há tempo para discipular, só para fazer promessas e mais promessas.

Essa estratégia "fast food" também agrada às pessoas, sedentas por resultados imediatos. Poucas têm paciência para frequentar uma igreja por um bom tempo, participando dos cultos, Escola Bíblica e grupos de discipulado, para consolidar seu caráter cristão.  

Essa é uma situação onde se juntam "a fome com a vontade de comer": todo mundo quer resultados rápidos e investir o mínimo de esforço. O conflito de objetivos é simplesmente "empurrado para baixo do tapete" e nunca resolvido. 

Reconhecer que os objetivos do Reino de Deus e os das pessoas não são sempre compatíveis entre si é muito importante, pois isso dá bem a dimensão do desafio a ser enfrentado pelas igrejas. Não há respostas fáceis e que geram resultados imediatos. 

Afinal, trata-se de mudar as pessoas. Ensiná-las a deixar de lado seu próprio eu e passar a priorizar o Reino de Deus, com ênfase no próximo. Esse é o único caminho possível. Pena que seja tão pouco adotado

Com carinho

2 comentários:

  1. Vinicius
    Esta reflexão está muito boa. Ela está em uma linguagem simples, de fácil entendimento. Oxalá, pessoas que ainda não conhecem os objetivos dos cristãos e da igreja, entre neste blog e venha conhecer-nos. É a minha oração.
    Carmen

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  2. Carmem

    Obrigado pelas suas palavras. Realmente um dos nossos desafios é fazer com que as pessoas conheçam verdadeiramente os ensinamentos de Jesus e o prazer que é militar na Sua Igreja.

    Vinicius

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