sábado, 12 de dezembro de 2015

O SILÊNCIO DE DEUS

A experiência do “silêncio” de Deus é muito difícil de vivenciar. Refiro-me à situação na qual pedimos algo muito importante e Deus parece não responder. Parece ficar em silêncio. 

O grande escritor cristão C.S. Lewis viveu exatamente essa situação: sua mulher estava com câncer e ele pediu a Deus a cura dela. Veja o que Lewis escreveu num momento de desespero:
"Mas se você vai até Ele [Deus] quando sua necessidade é desesperada, quando todo outro tipo de ajuda é vão, o que você encontra? Uma porta é fechada na sua cara e você ouve o som da fechadura sendo trancada. Depois disso, silêncio … Por que Ele é tão presente no nosso tempo de prosperidade e tão ausente no momento de dificuldade?”

O que fazer quando se vive esse tipo de situação? Como evitar que a frustração da aparente falta de resposta de Deus leve o(a) cristão(ã) a se afastar d´Ele?

Há uma história na Bíblia (Mateus capítulo 15, versículos 21 a 28) que pode ajudar a responder essas perguntas. Trata-se do caso de uma mulher não judia que se aproximou de Jesus pedindo-lhe ajuda pois sua filha estava possessa. Os discípulos nem queriam que a mulher falasse com Jesus, mas ela insistiu até conseguir o que queria. E a mulher conseguiu falar com Ele.

O quadro descrito no texto é o da mãe, desesperada, pedindo ajuda e quem podia ajudá-la, Jesus, permanecendo calado. 

A mulher insistiu e continuou clamando. Sua fé era tamanha que ela, intuitivamente, sabia que o silêncio de Deus não deve ser entendido igual ao silêncio humano.

O silêncio humano normalmente significa falta de interesse, indiferença. Mas não é assim com Deus pois seus pensamentos e forma de agir são muito diferentes dos nossos. 

O mesmo tipo de silêncio ocorreu no Calvário, quando Maria e as outras mulheres viram Jesus pregado na cruz e certamente se perguntavam porque aquilo estava ocorrendo. E não receberam qualquer resposta ali, naquele momento. 

Aquelas mulheres só entenderam a resposta de Deus depois, bem depois. Aquele ato - Jesus na cruz - era Deus falando que ama e quer ver cada ser humano perto d´Ele (João capítulo 3, versículo 16).

Voltando à história da mãe que pediu ajuda a Jesus, o texto revela que de tanto insistir, a mulher recebeu uma resposta. E surpreende que a reposta de Jesus tenha parecido deixar a situação ainda pior: Ele disse que não poderia atender o pedido pois seu ministério estava restrito ao povo de Israel (a mulher não era judia). 

Se a história tivesse acontecido comigo e eu tivesse recebido uma resposta dessas, teria ido embora revoltado e desolado, lamentando a falta de sensibilidade de Jesus - talvez até pensasse não ser Ele a pessoa especial de quem todos falavam. 

Mas aquela mãe agiu de forma diferente: persistiu e deixando de lado todo orgulho, implorou a Jesus pela sua ajuda - seu desespero era tamanho que ela não conseguia ir embora, não importa o que dissessem. Sabia que somente Jesus poderia ajudá-la e por causa disso não conseguia sair de perto d´Ele. 

E finalmente Jesus agiu. Disse para ela: “Mulher, grande é a tua fé, faça-se contigo como queres...” e a filha dela foi imediatamente curada.

Deus muitas vezes não fala ou age da forma como as pessoas esperam. O silêncio de Deus é apenas aparente - tem a ver com nossa incapacidade de entender o que Ele está fazendo e dizendo. 

O conhecido rabino Abraham Heschel certa vez disse algo que é muito apropriado para a reflexão que faço aqui neste disse: “Deus não é “bonzinho", não é um como um tio ou padrinho que chega com presentes. Deus é um terremoto” 

Em outras palavras, Deus é para o ser humano um grande mistério e uma força sem tamanho. Nunca se sabe com certeza como Ele vai ou não agir. O que vai ou não dizer.

Aquela mãe insistiu com Jesus porque sua fé era absoluta, uma das maiores relatadas na Bíblia - o próprio Jesus reconheceu isso. Tinha confiança absoluta de que Deus podia ajudá-la e iria fazer isso. Ela não sabia o quê seria feito, nem quando a benção ocorreria e muito menos como Jesus resolveria o problema. Ela apenas acreditou, contra tudo e todos. E obteve o que precisava. 

Resignação não é o que Deus espera quando a pessoa lhe faz um pedido. É insistir, resistir e não se conformar com a situação vigente. Isso está claro bem claro numa passagem do Gênesis (capítulo 18, versículos 23 a 33) onde Deus contou para Abrão que iria destruir Sodoma e Gomorra, matando a todos que ali viviam. Abraão não se conformou, questionou, resistiu e Deus aceitou suas ponderações. 

Rejeitar Deus porque Ele pareceu ficar em silêncio e não fez o que a pessoa queria, é a reação errada. Ao rejeitá-lo, a pessoa perde contato com Ele e qualquer possibilidade de ter seu problema resolvido. Nesse tipo de situação é preciso que a pessoa se “agarre” desesperadamente a Deus, usando sua fé como forma de ligação com Ele.

Certa vez, o grande reformador Martinho Lutero, ao observar seu cão, com os olhos brilhando, à espera de um osso que lhe seria atirado, comentou: “ah, se eu conseguisse orar com essa mesma certeza...” Acho que isso resume bem tudo o que acabei de falar. 

Quando Deus parecer estar em silêncio, insista. Continue a bater na porta até que ela se abra. Pode ter certeza que os resultados irão aparecer. 

Com carinho

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