domingo, 17 de janeiro de 2016

AS LINHAS APARENTEMENTE TORTAS DE DEUS

“...a mim me pareceu bem, depois de acurada investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma exposição em ordem, para que tenhas plena certeza das verdades em que fostes instruído.” 
Lucas, capítulo 1, versículos 1 a 4

Escrevi o primeiro livro, ó Teófilo, relatando todas as coisas que Jesus começou a fazer e ensinar até o dia em que, depois de haver dado mandamentos por intermédio do Espírito Santo aos apóstolos que escolhera, foi elevado às alturas... 
Atos dos Apóstolos, capítulo 1, versículos 1 e 2

Cerca de 40 anos após a morte e a ressurreição de Cristo, um médico convertido ao cristianismo, chamado Lucas, resolveu fazer um relato sobre os aspectos mais importantes da vida terrena de Jesus. Essa ideia não era nova, pois outras pessoas já tinham produzido relatos similares, como João Marcos e Mateus.

Lucas foi o único autor não judeu (gentio) de texto incluído na Bíblia e ele introduziu uma novidade importante no relato que fez: dividiu seu texto em duas partes, sendo a primeira delas voltada a contar a vida de Jesus propriamente dita, naquilo que é hoje conhecido como o Evangelho de Lucas; enquanto a segunda parte, conhecida como Atos dos Apóstolos, abrange o início da vida da igreja cristã (dirigida pelos apóstolos).

A contribuição magistral de Lucas foi entender que uma percepção mais ampla dos ensinamentos básicos do cristianismo somente seria obtida ao olhar não somente para aquilo que Jesus viveu e ensinou (o Evangelho), mas também para os frutos do seu ministério, ou seja a igreja (Atos dos Apóstolos).

É interessante perceber que Lucas dedicou os dois volumes da sua obra a um homem chamado Teófilo, conforme comprovam as citações que coloquei no começo deste post. Teófilo devia ser homem importante - vem daí o tratamento de “excelentíssimo” dado a ele. 

Lucas tinha uma mente organizada, fruto da sua formação como médico, e quis fazer “uma exposição em ordem" dos fatos para dar a Teófilo entendimento pleno sobre o que tinha acontecido e para que esse homem tivesse "plena certeza das verdades em que [tinha sido] instruído”. Esta declaração nos permite concluir que Teófilo já tinha sido discipulado na doutrina cristã, mas ainda guardava dúvidas, coisa absolutamente normal. 

Teófilo é um nome grego e quer dizer "amigo de Deus". Provavelmente, ele também não era judeu mas sim um dos muitos gentios que se aproximaram do judaísmo e posteriormente aceitaram Jesus, como Messias e Salvador.

Teófilo devia conhecer bem os ensinamentos da filosofia grega, como um homem educado que era. Ora, na visão filosófica grega não havia espaço para o conceito de ressurreição, conforme pregava o cristianismo - o apóstolo Paulo esbarrou exatamente nessa dificuldade quando pregou em Atenas e acabou rejeitado pela maior parte dos seus ouvintes (Atos dos Apóstolos capítulo 17, versículos 32 a 34).

O texto não esclarece isso, mas provavelmente essa era a raiz das dúvidas de Teófilo. Daí a preocupação de Lucas em compor um relato completo do que tinha acontecido, construído a partir do testemunho de homens como Pedro e João, a quem tinha entrevista em suas idas a Jerusalém acompanhando o apóstolo Paulo. 

Curiosamente,  a Bíblia não conta se Teófilo superou suas dúvidas e tornou-se um cristão convicto. Mas se levarmos em conta a qualidade da obra que Lucas produziu, as chances dessa conversão plena ter ocorrido são muito boas.

Essa história me faz refletir sobre os planos de Deus: eles vão muito além da nossa percepção. O verdadeiro legado de Lucas não foi tirar as dúvidas de Teófilo e ajudar a convertê-lo. O fruto da sua obra foi muito além disso: o conjunto Evangelho/Atos dos Apóstolos é um texto que tem servido de fonte de ensinamentos inesgotáveis para os(as) cristãos(ãs) ao longo da história.

Lucas foi inspirado por Deus para escrever um texto cujo objetivo parecia ser ajudar um homem com dúvidas e a obra que ele escreveu alcançou uma importância que ninguém, nem mesmo ele, Lucas,  poderia ter imaginado. 

Sendo assim, o ditado popular que fala sobre os planos de Deus deveria ser reescrito para assumir a seguinte forma: "Deus escreve certo por linhas aparentemente tortas". 

Em outras palavras, as linhas traçadas por Deus só parecem tortas porque não conseguimos entender aquilo que Ele quer fazer. Onde quer chegar. Assim, foi com Lucas e assim acontece com você ou comigo.

Com carinho

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