quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

CUIDADO COM O ABUSO DA BÍBLIA

A Bíblia é a Palavra de Deus e nosso preceito de vida. É ela que nos ensina sobre o certo e o errado, as consequências dos nossos atos e a vontade de Deus. 

O texto da Bíblia não tem erros, por ser a Palavra de Deus, e assim pode ter toda a nossa confiança. Essa é uma verdade conhecida. Mas o mesmo não acontece com as interpretações feitas a partir dele - essas interpretações são humanas e, portanto, passíveis de erros.

Interpretações erradas, mesmo quando não intencionais, não deixam de ser uma forma de "abuso" da Bíblia. Quando alguém consegue convencer outras pessoas a aceitar ideias erradas, apoiando-as na Bíblia, as consequências costumam ser muito ruins. As pessoas mal orientadas passam a fazer coisas erradas pensando estar fazendo a vontade de Deus - um desastre. 

Os abusos são mais comuns do que parecem ser, como ensinar que Deus quer nos ver prósperos, bastando que acreditemos n´Ele e façamos grandes contribuições às igrejas que frequentamos. Ou quando são impostos controles indevidos sobre o comportamento das pessoas para "impedi-las" de pecar - por exemplo, não ouvir tal tipo de música, não se vestir assim ou assado, não ir a determinados lugares, não conviver com pessoas não convertidas, etc. 

Muitas vezes por causa desses abusos as pessoas são convencidas a carregar culpas que não deveriam pesar sobre elas. Este blog é testemunha dos depoimentos de inúmeras pessoas que sofrem por tentar construir novos relacionamentos amorosos, mais de acordo com as suas necessidades, e são são acusadas nas suas igrejas de serem adúlteras ou promíscuas. Trata-se de sofrimento enorme e desnecessário.

Abusos da Bíblia podem nascer tanto de erros sinceros como também de interesses escusos. É claro que o resultado final de um erro sincero ou de um abuso consciente pode ser igualmente grave, mas aos olhos de Deus certamente existem diferenças. E se não fosse assim, não me atreveria a escrever este blog, pois certamente, em meio a mais de 600 textos, já cometi erros sinceros, mas ainda assim erros. E não há como evitar isso, pois seres humanos são imperfeitos. Simples assim.

Mas quem erra de forma sincera não se esquiva de consertar seus erros, assim que se dá conta deles. Não se sente "dono da verdade". É humilde. E sobretudo não se beneficia pessoalmente dos erros que comete.

Agora, quem abusa conscientemente da Bíblia, costuma tentar usá-la para obter algum benefício, preencher alguma agenda. E a Bíblia a própria Bíblia alerta que haverá grande rigor no julgamento final para quem faz isso (Mateus capítulo 23, versículos 1 a 8).

A experiência mostra que há três tipos de abuso consciente da Bíblia: 

"Contrabando" de ensinamentos
Trata-se de afirmar que a Bíblia contém coisas que não estão ali. Por isso sempre que peço à pessoa que fez uma afirmação que desconheço para mostrar onde a Bíblia afirma aquilo. Não tenho prazer de dizer isso, mas já vi muita gente embaraçada por causa desse expediente simples. 

Os contrabandos variam quanto ao nível de periculosidade. Alguns são tão grosseiros que são fáceis de identificar - por exemplo, afirmar que a voz do povo é igual à voz de Deus. Para provar que não é assim, basta lembrar que o povo judeu preferiu que Pilatos soltasse Barrabás no lugar de Jesus. 
Mas há afirmações que embutem armadilhas sutis, pois parecem se encaixar no quadro bíblico. Por exemplo, dizer que todos os seres humanos são filhos de Deus. Ora, a Bíblia diz que todos somos criaturas de Deus, mas somente quem aceita Jesus torna-se filho(a) d´Ele.

Não é fácil para quem tenha conhecimento pequeno da Bíblia separar o joio do trigo. Por isso recomendo que você fique atento(a) e, quando preciso, procure ajuda de quem saiba mais e seja de sua confiança.

Eliminação do que incomoda
A segunda forma de abusar da Bíblia é deixar de reconhecer como válidas coisas que estão no seu texto mas geram incômodo. As estratégias mais conhecidas para fazer isso são: 1) atribuir o ensinamento indesejado a um erro de tradução; 2) alegar que o ensinamento não se aplica aos dias de hoje; ou 3) simplesmente omitir sem maiores cuidados.

É claro que há erros de tradução. Um exemplo conhecido é aquele em que a tradução tradicional diz que pessoas, no tempo de Gideão, adoraram uma estola sacerdotal (Juízes capítulo 8, versículo 27). Há aí um erro de tradução pois, na verdade, trata-se da adoração a um ídolo vestido com roupa, o que faz muito mais sentido no texto. 

Erros de tradução são muito fáceis de perceber quando se usa traduções de origens diferentes, por simples comparação das versões.

É verdade que existem ensinamentos que não se aplicam aos dias de hoje, como as referencias a trajes especiais ou hábitos alimentares. Mas é preciso muito cuidado ao alegar esse tipo de coisa. Um bom exemplo é a questão do dízimo, que muitos defendem não ser mais necessário - ora, se fosse assim, como então igrejas e sacerdotes iriam ser mantidos de forma adequada?

A omissão pura e simples é fácil de perceber pois basta checar o que foi dito contra o texto bíblico. Você deve sempre tomar esse cuidado - por isso eu procuro quase sempre citar o versículo de onde tirei a firmação que acabei de fazer.

Mas há uma situação particularmente grave de omissão: ocorre quando as Bíblias dadas aos fiéis são expurgadas daquilo que não interessa. O exemplo clássico é a Bíblia publicada pela Sociedade Torre de Vigia, entidade da seita Testemunhas de Jeová.

Desconsideração do contexto

A terceira forma de abuso talvez é a mais comum e também a mais efetiva: tirar o ensinamento bíblico do contexto. Isto é, usar o que foi dito numa determinada circunstância em outra, onde o ensinamento não se aplica.

Um bom exemplo é o uso do texto de Gênesis capítulo 3, versículo 19, onde Deus diz a Adão "no suor do seu rosto , comerás o teu pão..." para justificar a proibição de jogos de azar. Ora, esse texto aparece quando Deus amaldiçoou a Adão, por que ele e Eva tinham sido desobedientes e comido do fruto proibido. Deus quis dizer que não iria mais dar a Adão e Eva seu sustento, como até então tinha acontecido no Jardim do Éden. Eles iriam precisar trabalhar para se sustentar. Ora, isso nada tem a ver com jogos de azar. Nada mesmo. 

Palavras finais
Esteja sempre atento ao uso que é feito da Bíblia quando as pessoas tentam convencer você de alguma coisa, recomendar algum tipo de comportamento, pedir sua ajuda, etc. Não tenha vergonha de duvidar do que tiver sido afirmado e procure sempre conferir. É sua obrigação agir assim. Até para sua própria proteção espiritual.
Com carinho

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