quarta-feira, 23 de março de 2016

O EVANGELHO SEGUNDO PAULO

A carta de Paulo aos Romanos é tida por muitos teólogos como a mais completa exposição da doutrina cristã existente na Bíblia. Ela é um texto fundamental pois complementa e organiza aquilo que é dito nos Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João.

Sou sincero em reconhecer que Romanos não é um texto fácil de estudar: a linguagem de Paulo é rebuscada e ele usa muitos conceitos filosóficos e teológicos complexos. É muito mais fácil estudar os Evangelhos ou o Atos dos Apóstolos, pois esses textos estão cheios de relatos de fatos interessantes, o que torna sua leitura bem mais viva.

Agora, se você quer entender de fato a doutrina cristã, não pode deixar de estudar o texto de Romanos. Afinal, é nele que a doutrina da salvação pela fé (e não pelas obras) e da Graça de Deus, dentre outras, são explicadas em detalhe.

O contexto
A carta do apóstolo Paulo à igreja cristã situada em Roma foi escrita entre os anos de 57 e 58. O apóstolo estava em Corinto, na casa de Gaio, seu amigo e cristão convertido. E como pretendia realizar trabalho de evangelização na Espanha, região ainda pouco explorada pelos missionários cristãos, queria passar por Roma, no seu caminho, para conhecer a igreja local. Daí entendeu que deveria escrever uma carta para a igreja em Roma, preparando sua viagem próxima.

Os planos de Paulo foram frustrados porque, antes de ir para a Espanha, foi até Jerusalém levar uma oferta de dinheiro para a igreja local, que passava por dificuldades. E acabou preso lá. Por ironia dos fatos, acabou sendo posteriormente enviado para Roma para ser julgado pelo Imperador – Paulo era cidadão romana e tinha esse direito. O apóstolo acabou morando vários anos em Roma onde foi martirizado naquela cidade.

Esses fatos demonstram que os seres humanos não têm controle sobre suas vidas – os planos mais cuidadosos acabam sendo atropelados por fatos que fogem ao seu controle. Paulo pretendia visitar Roma, mas de passagem em sua viagem para a Espanha, mas acabou sendo enviado para aquela cidade, preso. Conheceu Roma, mas em condições muito diferentes daquela que tinha planejado e não conseguiu visitar a Espanha.

Roma era a capital do mundo desenvolvido daquela época, por ser a sede do Império Romano. Sendo assim, tratava-se de local fundamental para o crescimento do cristianismo. Já havia uma igreja naquela cidade há cerca de 20 anos, quando Paulo escreveu sua carta - provavelmente, essa comunidade cristã foi formada depois que judeus e simpatizantes, todos moradores de Roma, participaram da chegada do Espírito Santo, no Pentecostes (Atos capítulo 2, versículo 10). 

Essas pessoas se converteram e levaram o Evangelho, quando voltaram para suas casas. Em outras palavras, a igreja de Roma nasceu sem a participação de qualquer dos grandes líderes cristãos, como Pedro, Paulo ou João.

Paulo ditou essa carta para o amigo Tércio, que funcionou como uma espécie de secretário para ele. Ditou o texto em grego, língua que falava muito bem. Não foi sua primeira carta, pois escreveu antes de Romanos pelo menos as cartas de 1 Tessalonicenses, 1 Coríntios e 2 Coríntios.

O texto de Romanos, assim como o de outras cartas famosas de Paulo, acabou sendo usado por todas as igrejas cristãs (Colossenses capítulo 4, versículo 16), não somente pela igreja para a qual foi escrito. Na verdade, o povo cristão rapidamente reconheceu que os textos de Paulo tinham grande valor teológico e eram importantes para a fé cristã.

A carta aos Romanos foi extremamente importante para o desenvolvimento espiritual de muitos líderes cristãos:
  • Santo Agostinho vivia uma vida desregrada, apesar dos pedidos de sua mãe para que mudasse seus caminhos. Certo dia, ouviu crianças cantando uma cantiga cuja letra dizia: “pega e lê”. Entendendo que se tratava de uma mensagem de Deus, pegou a Bíblia e abriu ao acaso. Caiu em Romanos capítulo 13, versículos 13 e 14. Ele leu e mudou sua vida.
  • Martinho Lutero, o monge que iniciou a Reforma Protestante, estudou o livro de Romanos com seus discípulos, entre novembro de 1515 a setembro de 1516. Esse estudo mudou seu pensamento sobre a doutrina cristã e foi fundamental no seu ministério.
  • John Wesley ouviu uma pregação feita com base no livro de Romanos e essa mensagem mudou sua vida espiritual para sempre.

Os ensinamentos da carta
Há muitos ensinamentos importantes no texto de Romanos, mas vou me concentrar aqui em apenas três. O primeiro é a salvação (justificação) exclusivamente pela fé: Paulo ensinou que a salvação não depende daquilo que a pessoa faz ou mesmo de qualquer sacramento que receba. Depende somente da sua resposta ao chamado do Espírito Santo para aceitar Jesus como Salvador.

Paulo ainda ensinou que toda pessoa tem acesso direto a Deus, através do estudo da sua Palavra (Bíblia) e da prática de atos como oração louvor. Em outras palavras, a Graça de Deus é derramada diretamente sobre cada pessoa, sem intermediários.

Esses ensinamentos acabam com a ideia de que salvação possa ocorrer por mérito, através das boas obras praticadas pela pessoa, até porque ninguém conseguiria juntar merecimento bastante para ser salvo.

Outra consequência importante é a eliminação de qualquer sistema de exploração dos seres humano por sacerdotes investidos de ordenação divina, que agem como intermediários entre Deus e as pessoas (como ocorria no judaísmo na época de Paulo). Essa é a base da liberdade individual que cada pessoa tem para exercer sua fé e explorar seu próprio caminho com Deus.

O segundo ensinamento de Paulo fala da santificação, o processo pelo qual as pessoas verdadeiramente convertidas mudam seu interior e acabam ficando mais iguais ao ideal, Jesus Cristo. Em outras palavras, o cristianismo é na verdade um caminho em direção a Deus, que começa quando a pessoa se converte e acaba na sua morte.

O terceiro grande ensinamento de Paulo é que a justiça de Deus não se limita à punição das pessoas pelos pecados que cometem. Vai muito além, pois também justifica perante Ele mesmo quem aceitar sua Graça, isto é reconhecer seu Filho, Jesus, como Salvador.

Não há doutrina cristã que faça sentido e seja realmente libertadora sem levar em conta aquilo que Paulo ensinou. Simples assim.

Com carinho

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