sexta-feira, 8 de abril de 2016

O PEDIDO MAIS DIFÍCIL QUE DEUS JÁ FEZ

Toma teu filho, teu único filho, Isaque, a quem amas, ...e oferece-o ali em holocausto, sobre um dos montes que eu te mostrarei.                                     Gênesis capítulo 22, versículo 2
Gênesis capítulo 22 conta uma história simples e muito chocante: Deus ordenou a Abraão que sacrificasse seu filho, Isaque. E tal ordem foi dada sem qualquer explicação prévia ou justificativa. 

O mais impressionante é que Abraão obedeceu sem hesitar. Três dias depois, levou Isaque para o local do sacrifício estabelecido por Deus - o mesmo onde Salomão construiu o Templo de Jerusalém cerca de 1.000 anos depoisAo chegarem lá, Isaque foi amarrado ao altar construído para o sacrifício. 

Abraão pegou a faca para sacrificar o filho e exatamente nesse instante ouviu Deus dizer-lhe para libertar Isaque e usar um carneiro que milagrosamente apareceu ali.

relato bíblico termina com Deus confirmando sua Aliança perpétua com Abraão e prometendo-lhe derramar bençãos sem limite sobre ele e sua descendência.

Agora, mesmo com o final feliz, essa história gera muitas perguntas que não são fáceis de responder. Por exemplo, por que Deus precisou expor pai e filho a um teste tão severo? Deus tinha direito de exigir a morte do filho a Abraão? É justo que a obediência a Deus gere sofrimento?

Por que Deus deu aquela ordem?
Deus realmente não precisava de um teste para saber como Abraão iria reagir, afinal Ele sabe todas as coisas. Mas Abraão não sabia como iria reagir quando sua fé fosse testada daquela forma. E é assim com cada pessoa que passa por um teste de fé: somente saberá sua reação real quando passar de fato pela dificuldade.  

Testado, Abraão demonstrou grande fé: confiou até o final que Deus iria achar uma solução. E por causa dessa e de outras atitudes semelhantes, Abraão ficou conhecido como o "Pai da Fé", passando a servir de fonte inspiração para todos(as) que creem em Deus.

O teste, por doloroso que tenha sido, serviu para avaliar e fortificar a fé de Abraão. Tornou-se também um testemunho vivo do que a fé pode fazer, o que tem sido útil para gerações de pessoas.

Há ainda outra razão para o que aconteceu, essa um pouco mais sutil: foi uma referencia profética ao sacrifício de Jesus, que iria ocorrer cerca de 2.000 anos depois. Deus não pediu a Abraão nada diferente do que Ele mesmo fez. Com a diferença que Abraão não precisou sacrificar o próprio filho, enquanto Jesus não teve a mesma sorte e morreu numa cruz. 

As consequências do teste
O "sacrifício de Isaque" gerou diversas consequências importantes. A maior delas foi reafirmar a Aliança entre Deus e Abraão, herdada por todo o povo judeu. 

Na noite em que Jesus foi traído, a Bíblia relata que Ele tomou pão e vinho como representações de seu corpo e sangue (vem daí o sacramento da Santa Ceia). E disse também que ali se formava a Nova Aliança. Ora, se estava sendo formada uma Nova Aliança, é porque existia uma Aliança anterior, justamente aquela estabelecida por Deus com Abraão, exclusiva para o povo judeu.

Para nós, cristãos(ãs), a Nova Aliança, via o sangue de Jesus, é a que interessa. Mas a Aliança de Deus com Abraão tem a mesma importância para o povo judeu. 

A segunda consequência do sacrifício de Isaque foi que Abraão e Sara nunca mais se falaram. Abraão mudou-se para outro local (Berseba), enquanto Sara continuou em Hebron. Ele casou-se de novo e teve outros filhos com a nova esposa. 

É fácil entender a razão desse rompimento: Sara não perdoou Abraão por tê-la deixado de fora dos acontecimentos. Afinal, o filho também era dela. Provavelmente, Abraão achou que Sara não iria concordar e tomou a decisão sozinho e isso foi fatal para seu casamento, como era de se esperar.

Outra consequência dos acontecimentos teve a ver com Isaque: ele nunca foi próximo de Deus como seu pai ou seu filho (Jacó). Tanto foi assim, que a Bíblia chega a se referir a Deus como "o terror de Isaque" (Gênesis capítulo 31, versículo 42).

Tudo isso demonstra que tanto coisas boas como ruins (aos olhos humanos) decorrem do ato de obedecer a Deus. A separação de Abraão e Sara, assim como o distanciamento de Isaque em relação a Deus testemunham que há sim custos incorridos por quem decide fazer a vontade de Deus. Obedecer a Deus não sai de graça, como muita gente boa pensa. 

O apóstolo Paulo já tinha alertado sobre isso, quando descreveu as dificuldades pelas quais passou ao longo do seu ministério (2 Coríntios capítulo 11, versículos 11 a 27). 

E eu sou testemunha da mesma coisa: meu avô foi pastor metodista desde o início do século passado, quando os evangélicos eram minoria minúscula no Brasil. As igrejas evangélicas eram pobres e tornavam muito difícil a vida de um pastor para sustentar sua família (meu avô teve seis filhos). Meus avós sempre dependeram da ajuda de irmãos(ãs) na fé que estivessem em situação financeira melhor para conseguir fazer frente aos compromissos financeiros. Eles venceram sim - criaram e formaram todos os filhos - mas passaram por grandes lutas.

Concluindo, penso que discutir histórias controversas como a do sacrifício de Isaque é muito importante para o crescimento da fé. Afinal, cada vez que levantamos perguntas sobre o que aconteceu, buscamos novas interpretações e colhemos ensinamentos, como disse um autor que li recentemente, somos transformados de leitores em autores

Em outras palavras, esse tipo de discussão faz com que a Bíblia crie "carne  e sangue", dando-lhe condições de tornar-se parte do nosso dia-a-dia. 

Com carinho

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