segunda-feira, 4 de abril de 2016

OS MOTORES DA VIDA CRISTÃ

O cristianismo deveria ser definido e movido pela Graça de Deus. O amor d´Ele é incondicional e tem relação direta com sua própria natureza e não com o que fazemos ou deixamos de fazer. O amor de Deus não é uma retribuição ao nosso amor. O amor de Deus simplesmente é...

Agora, infelizmente a Graça de Deus não é o que move - o "motor" - das práticas religiosas diárias da maioria dos(as) cristãos(ãs). A Graça deveria ser esse motor, mas de fato não costuma. 

Os "motores" reais da vida cristã costumam ser outras coisas. Como, por exemplo, o medo. As pessoas sentem culpa por terem agido de forma errada (pecado) e ficam com medo de serem punidas por Deus. Aí tentam encontrar uma forma de "aplacar" Deus para evitar serem punidas. Fazem qualquer coisa que lhes parece contribuir para esse objetivo - penitência, novena, retiro, etc. 

Esquecem que não é assim que Deus quer se relacionar com quem peca: Ele espera é um coração contrito. Arrependimento real. Tentativa concreta de mudança de vida, para que os pecados não se tornem repetitivos. E para quem se arrepende, Ele oferece sua Graça, seu perdão incondicional.

É interessante perceber que a grande maioria dos cristãos(ãs) nunca consegue superar de fato esse medo infantil de Deus. Essa percepção que Ele fica nos controlando continuamente, como se vivêssemos num grande programa tipo "Big Brother". As pessoas sentem culpa e medo do que Deus pode fazer, quando deveriam caminhar aliviadas e agradecidas pelo que Ele já fez através de Jesus Cristo, na cruz. 

Outro "motor" para as práticas religiosas cristãs é o legalismo, ou seja a exigência de obediência cega a determinadas regras de vida. Essa a religião do "não" ("não pode isso ou aquilo"). E ela costuma também fazer uso do "motor" do medo: a pessoa que não se comporta como é esperado pela comunidade, é criticada e ameaçada com a punição de Deus. A maior parte das perguntas e comentários que recebo neste site tem o legalismo e o medo como pontos de partida.

Esse tipo de religião acaba submetendo as pessoas a um grande esquema de controle em cujo topo estão os líderes religiosos - pastores(as) e outros -, exatamente como acontecia no tempo de Jesus com os sacerdotes, escribas e fariseus. 

Jesus criticou muito esse tipo de abordagem religiosa pois sabia o mal que causava à saúde espiritual das pessoas. E quando as pessoas procuravam Jesus para lhe perguntar como deviam agir no seu dia-a-dia, Ele não ditava normas de comportamento. Contava parábolas, como a do "bom samaritano" (Lucas capítulo 10 versículos 25 a 37), apresentado os princípios para uma vida e explicava ser preciso mudança interior mediante a Graça de Deus. 

Isso porque, ao ter seu interior mudado pela mensagem cristã, a pessoa passa automaticamente a fazer o que Deus quer e não precisa de regras impostas sobre sua vida. Não precisa se  tornar prisioneira do legalismo. 

Um terceiro "motor" que costuma estar presente na vida religiosa das pessoas é a necessidade. As pessoas buscam Deus para conseguir aquilo de que precisam - saúde, emprego, casamento, bens materiais diversos, etc. E quanto mais precisam, maior costuma ser sua dedicação a Deus. 

Aproximar-se de Deus prioritariamente para conseguir bençãos é subverter o caminho da Graça. Não estou dizendo que Deus fique triste quando as pessoas lhe pedem coisas - a Bíblia até nos incentiva a fazer isso. Mas essa não pode ser a razão para estabelecer um relacionamento com Ele, em outras palavras, a religião não pode ter como base o interesse. 

As bençãos virão e Deus se alegra em distribui-las para as pessoas - qual é o Pai que não se alegra de presentear os(as) filhos(as) -, mas a busca por elas não pode ser o "motor" do relacionamento com Deus. Não mesmo. 

Vale a pena citar ainda uma último "motor" que costuma estra presente nas práticas religiosas: a busca por mérito. Muitas pessoas buscam fazer boas obras para acumular mérito junto a Deus e acabarem recompensadas por conta disso. 

Esse é um caminho parecido com o anterior, só que aqui a pessoa tenta "comprar" a benção através do mérito acumulado. É como se elas abrissem uma conta de poupança no céu, cujo saldo reverterá em bençãos. Essa é a base da chamada Teologia da Prosperidade, que pode ser resumida de forma simples: "é dando que se recebe". 

É essa a lógica que está por trás de muitos propósitos que as pessoas fazem - se privam de algo para "ativar" a Graça de Deus. Não estou aqui dizendo que propósitos sejam errados em si mesmos e sim que fazê-los com o objetivo de receber algo não tem qualquer respaldo bíblico. 

Se Deus aceitasse a troca "mérito por bençãos", estaria reconhecendo que sua Graça depende do merecimento das pessoas. E se a Graça tivesse um preço, já não seria mais algo que Deus dá livremente. 

As pessoas podem e devem sim fazer obras pelo Reino de Deus mas não visando receber algo em troca. Sua motivação precisa ser a gratidão pelo que já fez (através de Jesus) e o amor a Ele. A isso deve se somar a consciência de que é um privilégio ser usado(a) como instrumento por Deus.

Medo, legalismo, necessidade e busca por mérito é o que costuma mover as práticas religiosas das pessoas - olhe ao seu redor, na igreja mesmo que você frequenta, e vai perceber isso com clareza. Não deveria ser assim, mas essa é a realidade.

Que Deus, na sua misericórdia, perdoe quando qualquer um(a) de nós tentar seguir esses caminhos. E que Ele transforme nossos corações para aprendermos a viver apenas motivados pela sua Graça, que é planamente suficiente.

Com carinho

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