quinta-feira, 29 de setembro de 2016

PROCURE PELO LÍDER RELIGIOSO CERTO

O comportamento dos judeus no tempo de Jesus tem muito a nos ensinar sobre o que acontece hoje em dia com a liderança das igrejas cristãs. Isso porque a essência das pessoas continua a mesma, sendo assim elas continuam a agir hoje de forma muito parecida como agiam dois mil anos atrás.

O povo judeu estava dividido em diversos grupos que acreditavam e lutavam por coisas diferentes. Olhando de fora, todos pareciam querer a mesma coisa - o bem do povo -, mas na prática a situação era bem diferente. 

O primeiro desses grupos era formado pelos principais sacerdotes, conhecidos como saduceus. Havia um acordo tácito entre eles e o governo romano mediante o qual os saduceus ajudavam a manter a ordem e garantiam a colaboração do povo judeu e, em contrapartida, os romanos lhes garantiam liberdade para tocar seus negócios - como vender animais para os sacrifícios realizados no Templo - que os tornava ricos. 

Na prática, os saduceus usavam seu prestígio para ajudar os opressores do povo judeu, em troca de vantagens materiais. E justificavam suas ações, inclusive para si mesmos (buscando acalmar suas consciências), alegando estar protegendo o povo. Ajudando a manter a paz e a estabilidade, o que beneficiava todo mundo. 

Vejo o mesmo acontecer hoje em dia quando líderes cristãos inescrupulosos, por exemplo, negociam apoio a políticos em troca de vantagens futuras. E acalmam suas consciências de forma bem parecida aos saduceus, alegando estar promovendo políticos(as) comprometidos(as) com causas cristãs, gente que pensa apenas no bem do povo brasileiro. Mas essa não é a realidade, é claro.

Não estou afirmando que todos os líderes cristãos ajam assim. Claro que não - há muita gente que não se deixa corromper. Mas infelizmente também há muita gente importante que age como os saduceus.

Outro grupo era o dos fariseus, homens que seguiam a religião judaica de forma muito estrita e legalista. Eram grandes conhecedores das leis contidas na Torah (o Pentateuco) e daí vinha seu prestígio junto ao povo judeu.

O problema estava no fato que os fariseus queriam impor suas ideias às demais pessoas e isso era fonte permanente de tensão com quem pensavam de forma diferente deles. Jesus mesmo teve vários embates teológicos com os fariseus, pois se recusou a aceitar o tipo de religião que queriam impor aos outros. 

Há muitos líderes cristãos que agem como fariseus. Até prestam bons serviços à obra de Deus - e daí vem seu prestígio - mas tentam impor ideias legalistas e exigem das demais pessoas que se comportem da forma como pensam ser a certa e criticam (e até punem) quem não faz isso.

Líderes cristãos do tipo "fariseu" distorcem o espírito do cristianismo, que é uma religião libertadora e nunca deveria ser opressora. Acabam incentivando a hipocrisia, até sem perceber - as pessoas procuram ficar bem com seus líderes cultivando uma imagem exterior adequada, mas não mudam de fato. 

O terceiro era formado pelos zelotes - aqueles que não aceitavam a dominação romana e usavam até de violência para tentar mudar as coisas. 

Os zelotes achavam que somente assim conseguiriam alcançar os resultados desejados e libertar seu povo dos romanos. E agiram sem medir consequências, promovendo duas revoltas contra os romanos, duramente reprimidas por eles, que causaram a destruição do Templo de Jerusalém e eventualmente o exílio dos judeus da Palestina.

Os zelotes atuais são líderes que querem mudar suas igrejas, até pelos motivos certos, mas buscam implantar as mudanças custe o que custar. Não se preocupam em preservar o que existe, tais como algumas interpretações teológicas tradicionais, que deram origem à identidade dos grupos que lideram.

Esse tipo de líder pensa que se for preciso destruir as estruturas existentes e até colocar as pessoas que discordem das suas ideias para fora da igreja, tudo bem, pois isso será justificado pelo objetivo maior.

E por não se preocupar com as consequências dos seus atos, deixam no seu rastro pessoas espiritualmente feridas e igrejas divididas. Um cenário desolador. 

Lembro de um pastor que se tornou o dirigente maior de uma certa denominação evangélica carismática. Ele chegou à conclusão, não sei bem a razão, que mulheres não deviam ser ordenadas pastoras, coisa que até então tinha sido permitida naquela denominação.

Ora, havia muitas mulheres ordenadas dentro daquele grupo religioso e o sofrimento causado a essas pastoras e a muitos(as) frequentadores(as), que se insurgiram contra a decisão do líder maior, foi enorme. Penso que essa denominação nunca se recuperou totalmente do trauma causado e hoje é uma sombra daquilo que já foi.

A história do cristianismo está cheio de situações como essa e eu mesmo já presenciei diversos casos. E posso garantir que o resultado não costuma ser nada bonito de se ver. 

O quarto grupo dentro do povo judeu era formado pelos essênios. Essas pessoas eram contra tudo e todos, tanto os dominadores romanos, como os saduceus que os ajudavam. Por causa disso, resolveram se afastar da sociedade e passaram a viver em isolamento, como na comunidade de Quram, onde foram encontrados os famosos manuscritos do Mar Morto.

Os essênios eram pacíficos e nunca criaram grandes problemas, como aconteceu com os zelotes. Mas sua recusa em se envolver nos problemas, em ajudar a encontrar soluções para as dificuldades, tornou-os inúteis.

Nas igrejas hoje em dia, os(as) líderes "essênios" são os(as) que não fazem nada concreto para mudar as coisas erradas. Não querem enfrentar as resistências normais às propostas de mudança, porque não desejam se desgastar. Ficam quietos no seu canto, por ser mais confortável. 

E muitas vezes procuram disfarçar essa acomodação escondendo-se atrás de uma imagem altamente espiritualizada - alegam não ter tempo ou vontade de se envolver nos problemas do dia-a-dia pois têm coisa mais importante a fazer, como orar ou meditar sobre a Palavra de Deus. 

Ora, Jesus ensinou que os(as) cristãos(ãs) deveriam ser o sal da terra, isto é mudar o gosto da "comida". Alterar a realidade à sua volta. E esse ensinamento entra em choque com a postura do tipo "essênia", de distanciamento das coisas.

Nenhum líder religioso deveria se furtar a lutar para que a obra de Deus melhore e não fazer isso tem custos importantes. Tais líderes acabam produzindo comunidades mornas e acomodadas. Mortas espiritualmente.

Finalmente, houve ainda o grupo formado pelos seguidores de Jesus, aqueles(as) que aceitaram um caminho diferente. Entenderam que a mudança verdadeira vir de dentro para fora e que é preciso lutar para um aperfeiçoamento constante (a busca pela santidade).

Sem dúvida, há líderes cristãos que realmente vivem essas ideias. E felizmente são em bom número. Eles(as) tentam melhorar as coisas investindo em discipulado e no acompanhamento da vida das pessoas, ajudando-as a superar suas dificuldades.

Preocupam-se em ensinar a Bíblia. Lutam por uma constante renovação espiritual. Enfim, dedicam-se a construir e manter comunidades de fé sadias, tanto do ponto de vista espiritual, como emocional. 

Esse é o tipo de líder que você de procurar. Sob o qual deve servir a Deus e trabalhar para a implantação do Reino. Se seu líder não for assim, vá busca outro(as). Simples assim.

Com carinho

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