quarta-feira, 24 de maio de 2017

VOCÊ ESTÁ DECEPCIONADO COM DEUS?

Tempos atrás li um estudo sobre o comportamento dos(as) cristãos(ãs) que indicou como principal razão para as pessoas abandonarem a fé cristã (cerca de 60% dos casos) é a decepção com Deus.

As pessoas costumam desistir de Deus quando pensam que Ele falhou com elas: não as protegeu ou abençoou como esperavam. Sentindo-se decepcionadas, rompem com Deus, cortando seus laços com Ele - conheço vários casos assim.

Esse forma de pensar parte duma premissa que as pessoas nem percebem estar usando: só devem ser mantidos os relacionamentos que "valem à pena".

Essa premissa já foi muito estudada por especialistas, e está na origem da chamada "teoria das trocas sociais". Segundo tal teoria, as pessoas só devem manter os relacionamentos cujos "benefícios" são maiores do que os "custos" correspondentes, raciocínio muito similar ao que usado pelos investidores.

Repito, as pessoas não têm noção de agirem assim, mas é exatamente isso que a maioria delas faz, inclusive no seu relacionamento com Deus. 

O "benefício" de uma relação vem das vantagens que ela gera - por exemplo, sexo, carinho, apoio nos momentos difíceis, etc. Já o "custo" é representado pelo tempo e esforço emocional necessários para manter a relação em pé. 

Quando o "custo" fica maior do que o "benefício", a teoria das trocas sociais estabelece que a relação deve ser abandonada, a menos que seja reformulada. Relações saudáveis são aquelas cujos "benefícios" são maiores do que os "custos".

Vou dar um exemplo prático para você entender melhor: Imagine que um rapaz e uma moça se apaixonam. Ora, viver uma paixão costuma gerar um "benefício" tão grande que compensa quase qualquer "custo" trazido pela relação. Por isso costumamos dizer que as pessoas ficam "cegas" de paixão, pois não conseguem nem perceber os "custos" que estão "pagando".

Ao longo do tempo, a paixão do casal diminui, portanto, o "benefício" da relação vai sendo reduzido. Aí o "custo" - por exemplo, suportar os defeitos do ser amado - começam a pesar mais. E quando esses defeitos se tornam insuportáveis para a outra pessoa, a separação do casal passa a ser uma perspectiva concreta - nessa altura, o "custo" daquela relação tornou-se maior que o "benefício".

Agora, ao longo do caminho, novos "benefícios", que não seja só viver a paixão, podem se juntar ao pacote - por exemplo, o apoio mútuo para enfrentar problemas sérios na vida, a existência de filhos(as), etc. E aí. os novos "benefícios" ajudam a suportar o "custo" até de aturar defeitos sérios da outra pessoa, situação que é muito comum. 

Resumindo, a comparação de "custos" com "benefícios" está na origem da maioria das relações que as pessoas mantém, mesmo quando não percebem isso claramente. A maior parte das amizades, por exemplo, é formada assim. 

Voltando ao caso das pessoas que se decepcionaram com Deus e romperam com Ele, as pessoas agiram exatamente assim: compararam o "custo" de se relacionar com Ele e acharam que o "benefício" não compensava.

O "custo" para uma pessoa se manter próxima a Deus inclui, dentre outros aspectos, deixar de lado hábitos de vida que anteriormente davam prazer, mas são considerados errados; dedicar tempo a cultos e estudos bíblicos, deixando de lado o próprio lazer; e o compromisso de dar o dízimo e ofertas para a obra de Deus.

Já o "benefício" da relação com Deus vem da proteção e das bençãos que Ele pode proporcionar. Repare que deveria o ponto principal deveria ser a garantia da salvação, mas essa não é a maior motivação prática das pessoas, e é por isso que as igrejas que prometem prosperidade e milagres crescem tanto.

Quando as pessoas não se sentem atendidas por Deus, ou seja, quando não recebem d´Ele o "benefício" que esperavam, a relação se desequilibra em relação ao "custo" que pensam estar "pagando". Aí elas se decepcionam e se "divorciam" de Deus. O depoimento de um rapaz católico, extraído do estudo que citei acima, deixa isso bem claro: 


“EU OREI E OREI A AS COISAS NUNCA MELHORARAM ... NA VERDADE, FICARAM PIORES. E EU PENSEI, TUDO BEM, SE DEUS PODE VIRAR DE COSTAS PARA MIM, EU TAMBÉM POSSO FAZER O MESMO". 

O erro nessa forma de pensar
O conceito de trocas sociais até funciona razoavelmente bem na maioria das situações da vida, o que explica sua grande aceitação. Mas nem sempre são as trocas sociais que regem as relações. Por exemplo, no caso da relação de uma mãe com seus filhos(as).

Outros fatores entram na avaliação de uma relação desse tipo, especialmente pelo lado da mãe. O amor de mãe costuma ser quase incondicional e, na maioria das vezes, não depende do que os(as) filhos(as) fazem - é por isso que vemos tantas mães visitando filhos presos, religiosamente, toda semana.

Assim, nem sempre a ideia de trocas sociais - a comparação entre "custo" e "benefício" - é o que determina uma relação. E esse é exatamente o caso da relação do ser humano com Deus. É um grande erro tentar usar o conceito de trocas sociais para analisar nossa relação com o Criador do universo.

A lógica da relação com Deus outra, pois o ser humano depende d´Ele para sua própria existência. Na verdade, nem há como cortar a relação com Deus - deixá-lo de lado, como se faz com um amigo. A pessoa até pode pensar que conseguiu fazer isso, mas é pura ilusão.

E não podemos esquecer que Deus nunca propôs aos seus filhos(as) uma relação baseada na troca. Muito menos prometeu o "benefício" de uma proteção contra todos os problemas - basta ver o que Jesus disse em João capítulo 16, versículo 33: "... no mundo tereis aflições ..."

É preciso construir outro modelo para entender a relação do ser humano com Deus que não seja a teoria das "trocas sociais". E uma alternativa possível, dentre diversas outras, é o modelo "Senhor e servo(a)". 

Nesse caso a relação é baseada no poder do Senhor (Deus) e na obediência do servo (ser humano). Eu sei que as pessoas não gostam muito dessa abordagem, preferindo ver Deus como um Pai amoroso. Mas, a Bíblia é muito clara quanto à soberania e à majestade de Deus e em diversos lugares do texto somos chamados servos(as) d´Ele - por exemplo em João capítulo 12, versículo 26 ou Apocalipse capítulo 22, versículos 3 e 4.

Servos(as) não se decepcionam com seu Senhor e cortam sua relação com Ele. Isso não existe. Portanto, quando as pessoas tentam agir assim com Deus é porque não percebem bem qual é seu lugar na ordem natural das coisas - nada somos diante de um Deus que criou tudo. 

E é somente pelo amor e paciência que Deus tem pelo ser humano que as pessoas podem se dar ao luxo de se sentir zangadas e decepcionadas com Ele. E é uma grande pretensão das pessoas achar que podem agir assim. Que podem questionar Deus e, quando não gostarem da resposta, brigar com Ele.

E há vários exemplos na Bíblia mostrando que essa é mesmo uma pretensão absurda. Um deles está no livro de Jó - esse homem estava em grande sofrimento, por razões que não entendia, e questionou Deus, cobrando d´Ele uma explicação. E a resposta de Deus foi direto ao ponto:


ONDE VOCÊ [JÓ] ESTAVA QUANDO LANCEI OS ALICERCES DA TERRA? RESPONDA-ME, SE É QUE VOCÊ SABE TANTO. QUEM MARCOU OS LIMITES DAS SUAS DIMENSÕES? TALVEZ VOCÊ SAIBA! E QUEM ESTENDEU SOBRE ELA A LINHA DE MEDIR? E OS SEUS FUNDAMENTOS, SOBRE O QUE FORAM POSTOS? E QUEM COLOCOU SUA PEDRA DE ESQUINA... JÓ CAPITULO 38, VERSÍCULOS 4 A 6

Em outras palavras, Deus perguntou a Jó qual foi o papel dele (Jó) na criação do mundo. Essa é uma ironia que procurou passar a seguinte mensagem: "quem é você Jó, para questionar a mim".

Concluindo, a relação de Deus com o ser humano não pode se basear na comparação entre "custo" e "benefício", nas tais "trocas sociais". Esse tipo de comparação até pode fazer sentido em muitas situações, mas nunca na relação com Deus. 

Nossa relação com Ele é sempre de dependência absoluta e de inferioridade total. Não há - e nem pode haver - igualdade. E quanto antes as pessoas entenderem isso, será melhor para elas mesmas.

Com carinho

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