segunda-feira, 13 de junho de 2016

COMO JOSÉ DO EGITO CONSEGUIU PERDOAR?

A história de José, vendido como escravo pelos próprios irmãos (Gênesis capítulo 37) gera muita perplexidade. Como pode ser que pessoas aparentemente normais - os irmãos - tenham cometido ato tão cruel por causa de ciúme do pai , Jacó? Não é fácil de entender.

E maior perplexidade ainda causa o fato de José ter conseguido perdoar os irmãos (Gênesis capítulo 45). Eu não sei se teria capacidade de agir como José - não sei se teria essa mesma disposição para perdoar. 

Como José conseguiu fazer issoQue lições podemos tirar do seu exemplo para instruir nossas vidas? São essas duas perguntas que vou tentar responder.

José era uma pessoa especial: adolescente carismático e precoce, encantava a todos pela sua inteligência e auto-confiança. Mas, ao mesmo tempo, como é típico dos adolescentes, era egocêntrico - considerava-se o centro da família. E também insensível - nunca se mostrou preocupado com o efeito que seu comportamento arrogante causou nos irmãos. 

É interessante perceber que José sempre despertou sentimentos fortes nas pessoas com as quais conviveu. Era pessoa muito carismática. O pai o amou sem medidas, os irmãos tiveram ciúme intenso dele, a mulher de Potifar apaixonou-se perdidamente por ele e faraó o fez seu favorito, o segundo homem no comando do Egito. 

O relato do Gênesis conta em detalhes a longa jornada de José, desde o momento em que foi ferido emocionalmente pelos irmãos até sua cura emocional. Do sofrimento causado pela traição que sofreu até o perdão dado a seus algozes. 

O momento de perdoar chegou quando os irmãos de José precisaram ir até o Egito (Gênesis capítulo 42) pois a terra onde moravam (Palestina) passava por grande seca e não havia mais alimento para a família de Jacó. O encontro com os irmãos lançou José num furacão emocional: raiva e desejo de vingança, misturados à saudade da família e à vontade de se reunir com o pai e o irmão menor, Benjamim (que não tinha participado do golpe contra ele).

E aí começou um jogo de "gato e rato" entre José e seus irmãos. José simulou um roubo e incriminou os irmãos. E exigiu que os irmãos trouxessem Benjamim à sua presença e fingiu que ia punir o irmão caçula. Na verdade, somente quando os irmãos demonstram estar totalmente vulneráveis e um deles, Judá, até admitiu ficar preso no Egito, em lugar de Benjamim, que José conseguiu perdoar. 

Percebeu naquele momento que passará a ele o papel de provedor e líder da sua família, naquele momento totalmente indefesa (nem comida tinha). A profecia que tinha sido dada a José, ainda na sua adolescência, através de alguns sonhos, enfim se realizara: a família estava totalmente dependente dele. 

Agora, é interessante perceber que a interpretação que José deu a essa profecia mudou ao longo do tempo: quando era adolescente, ficou deslumbrado com a informação que seria a pessoa mais importante da família. Já maduro, percebeu que essa posição de liderança trazia uma enorme responsabilidade em relação à própria família. 

Quando adolescente ele se impressionou com a honra que iria lhe caber, mais tarde percebeu ter herdado uma grande responsabilidade (garantir a sobrevivência da linhagem de Abraão). 

Era hora de agir e não mais ficar remoendo mágoas passadas. E José mostrou-se à altura da tarefa. Aqui vale fazer um comentário importante: o ser humano demonstra maturidade quando deixa de perguntar o que as outras pessoas podem  fazer por ele e toma consciência do que ele mesmo pode fazer pelo próximo. Isso ocorre, por exemplo, quando o homem deixa de ser filho e assume o papel de pai. 

Perdoar é ato de obediência ao mandamento que Jesus deixou - afinal, somente seremos perdoados por Deus na medida em que conseguirmos perdoar o próximo. Mas perdoar também é ato que demonstra maturidade. É isso que permite a quem foi ofendido(a) ou prejudicado(a) entender as limitações e as fraquezas das pessoas que lhe causaram mal. 

José conseguiu perdoar porque foi sensível ao mandamento de Deus. Mas também porque conseguiu amadurecer como homem - fez a transição que cada um de nós também precisa fazer em algum momento da vida.

Com carinho

sábado, 11 de junho de 2016

O CRESCIMENTO DA FÉ

Como fazer para aumentar própria fé? Essa é uma das perguntas que mais recebo. E se trata de dúvida muito importante - afinal, a fé é o nosso escudo (Efésios capítulo 6, versículo 16), aquilo que dá ao(à) cristão(â) condições de enfrentar os problemas da vida, mantendo a esperança de ver Deus agir a seu favor. 

Ora, a Bíblia ensina que o crescimento da fé se dá essencialmente pelo "ouvir" a palavra de Deus (Romanos capítulo 10, versículo 17). Essa é a resposta: você quer ter fé, precisa estudar a Palavra de Deus. 

É importante entender que quando Paulo, no texto de Efésios acima, falou em "ouvir", ele estava raciocinando dentro do contexto de uma sociedade onde as pessoas não tinham acesso aos textos escritos da Bíblia. Elas estudavam compartilhando umas com as outras aquilo que tinham decorado. Tudo era feito falando e ouvindo, pois a sociedade era eminentemente oral.  

Portanto, quando Paulo falou em "ouvir", ele estava se referindo ao estudo da Bíblia, o que era feito, no seu tempo, sempre de forma oral. Hoje é possível fazer isso de muitas outras formas, pois há acesso fácil à Bíblia. 

O professor de literatura Kenneth Burke declarou, certa vez, que “a literatura é um equipamento para a vida”. E acho que o mesmo ocorre com a Bíblia: ela é o maior equipamento que podemos ter para viver bem. Por isso é preciso conhecer esse texto maravilhoso.

É possível estudar a Palavra de Deus ouvindo pregações, participando de grupos de estudo ou ainda individualmente. Cada uma dessas maneiras tem seu lugar e suas vantagens, como também suas desvantagens. Na minha experiência, é preciso usar cada um desses métodos, pois eles se completam.

Quando você ouve pregações ou participa de estudos em grupo dirigidos por terceiros, sua postura será mais passiva: cabe a você prestar atenção e se esforçar para entender. Também ajuda muito tomar notas e refletir depois com calma sobre o que foi aprendido.

Quando você estuda sozinho(a), é um pouco diferente. Tudo deve começar com a leitura pausada do texto sendo estudado, prestando atenção em cada palavra - lembre-se que nenhuma palavra está ali por acaso. 

Depois de ler, e ter certeza que houve entendimento - se ficar com dúvidas, pesquise com mais profundidade ou procure ajuda de quem sabe mais -, medite no significado daquela mensagem e analise como aplicá-la prática, na vida diária. Nunca se esqueça que o Evangelho de Jesus é prático, pois se trata de uma lição de como levar à própria vida.

Esse tipo de estudo precisa se tornar uma prática comum e quem consegue fazer isso, tem sua vida transformada. A escritora George Eliot ensinou que o mundo está em dívida mesmo é com as pessoas simples, que aprenderam com a Bíblia, viveram uma vida fiel a Deus e não foram muito notadas pela história. Não foram líderes importantes, mas sim seguidores(as) fiéis.

Outra coisa que ajuda muito no crescimento da fé é conhecer alguns versículos de cor - essas palavras vão lhe ajudar a enfrentar os momentos difíceis da vida. Vão gerar paciência, misericórdia, esperança, enfim os frutos verdadeiros da vida cristã. 

São palavras como aquelas do Gênesis, capítulo 12, versículo 2, que Deus disse a Abraão: “...sê tu uma benção”. Ou as do Deuteronômio, capítulo 30, versículo 19, onde Moisés disse: “portanto, escolha a vida”, incentivando as pessoas a seguirem o caminho de Deus e fazendo contraste com a morte espiritual que espera quem não faz isso. Ou ainda as palavras ditas pelo próprio Jesus em João, capítulo 6, versículo 37:"...o que vem a mim, de modo nenhum eu o lançarei fora", o que garante pleno acolhimento, hoje e sempre, para quem serve a Deus. 

Você quer crescer na fé? Conheça mais a Bíblia. Guarde no seu coração os ensinamentos dela. Simples assim.

Com carinho

quinta-feira, 9 de junho de 2016

QUEM TEM OUVIDOS, OUÇA...

Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. E, acercando-se dele os discípulos, disseram-lhe: Por que lhes falas por parábolas? Ele, respondendo, disse-lhes: Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é dado. Porque àquele que tem, se dará, e terá em abundância; mas àquele que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado. Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não vêem; e, ouvindo, não ouvem nem compreendem. E neles se cumpre a profecia de Isaías, que diz: ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis,e, vendo, vereis, mas não percebereis.                            Mateus capítulo 13, versículos 9 a 14
Essa conversa entre Jesus e seus discípulos aconteceu logo após Ele ter contado uma parábola muito conhecida, aquela que fala do semeador. O tema da discussão é sobre ouvir de fato aquilo que Jesus ensina. 

Ele começa advertindo: quem tem ouvidos, é bom que ouça. Em outras palavras, é melhor a pessoa prestar atenção naquilo que Jesus ensina e seguir essas orientações. 

Agora, por que alguém não ouviria aquilo que Jesus ensinou? Penso que há duas possibilidades. A primeira delas é não ter compreendido o que ouviu. E não compreendeu porque o Evangelho não lhe foi pregado da forma certa.

Por exemplo, imagine que uma pessoa não entenda inglês e um excelente pregador norte-americano, que só fale essa língua, venha falar com ela sem ter um tradutor à mão. Não vai dar certo.

Da mesma forma, se vou falar de Jesus para uma pessoa analfabeta não poderei usar as mesmas palavras e tipo de raciocínio que usaria para pregar o Evangelho para alguém que tivesse muito estudo. E vice versa. Também não posso usar com adolescentes o mesmo tipo de argumentação que uso com os adultos - cada tipo de público requer uma linguagem apropriada.

A pessoa que ouviu o Evangelho precisa ter condições de entender aquilo que lhe foi falado para reagir de forma positiva aos ensinamentos de Jesus. Por isso mesmo, o próprio Jesus sempre conversou com o povo judeu, formado basicamente por pessoas simples e com pouca cultura, usando exemplos tirados da vida deles, como a a estória da mulher que perdeu a moeda dentro de casa, do semeador que saiu a semear, do rei de que deu tarefas para seus servos e assim por diante.

Mas não basta usar a forma adequada, é preciso também que o conteúdo da mensagem esteja certo. Para isso, quem fala do Evangelho precisa conhecer suficientemente daquilo da doutrina cristã. Será que uma professora conseguiria ensinar português mesmo sem conhecer a gramática dessa língua? É claro que não. 

Da mesma forma, ninguém vai conseguir ensinar o Evangelho de Jesus sem conhecer um mínimo de teologia cristã. 

Essas coisas que acabei de falar - usar a didática certa, ter conhecimento daquilo que se ensina, etc - parecem óbvias mas é impressionante como não são respeitadas na prática. Cansei de ver aulas de Escola Bíblica sendo ministradas com didática muito ruim. 

Há também quem pense que basta ter o chamado para pregar o Evangelho que tudo vai dar certo. Que não será preciso conhecer a Bíblia e a doutrina cristã. Que tendo boa vontade, será possível sair em campo que o Espírito Santo vai ensinar o que deve falar - já vi isso acontecer muitas vezes.

Já ouvi também quem tenha se justificado, por agir assim, dizendo que os apóstolos eram homens sem estudo e ainda assim converteram muita gente, fazendo a igreja cristã crescer. Quem diz isso se esquece que esses homens viveram com Jesus por três anos. Fizeram um "curso" intensivo, dia e noite e com o melhor mestre possível. 

Não basta apenas ter boa vontade para falar do Evangelho e deixar o restante do trabalho para o Espírito Santo. As coisas no Reino de Deus não funcionam assim: É preciso fazer um trabalho adequado. De qualidade.

A outra possível razão para a pessoa não ouvir de fato o que Jesus ensinou é a falta de vontade de segui-lo. De mudar a própria vida. De abandonar hábitos e prioridades erradas e passar a agir de forma diferente.

Quando eu era garoto e estava brincando com algo que me prendia a atenção e minha mãe me chamava para jantar, eu não ouvia o chamado. Minha atenção estava em outra coisa. Isso se chama "surdez" seletiva: a gente não ouve o que não quer de fato ouvir. É por isso que o bebê chora e a mãe acorda e o pai continua a dormir como se nada tivesse acontecido. 

A mesma coisa acontece com a pregação do Evangelho: as pessoas não ouvem de fato por causa da "surdez" seletiva. Sabem que, se vierem de fato "ouvir", vão precisar mudar sua vida. Abandonar hábitos errados, mas de que gostam. Se re-educar, passando a gostar de fazer coisas para as quais não davam importância antes e deixar de ter prazer naquilo que está errado aos olhos de Deus. Simples assim.

Como não querem mudar de fato, fazem que não ouvem e ficam encontrando desculpas para si mesmas para não fazer o que Jesus mandou. Se recusam a entender, porque não gostam das consequências de passar a viver uma vida cristã.

No texto que abre este post, é exatamente dessas pessoas que Jesus estava falando. E por isso o alerta que Ele deu foi bem apropriado: quem tem ouvidos, é melhor que ouça o que o Espírito Santo diz. 

Com carinho

terça-feira, 7 de junho de 2016

A INTEGRIDADE DO TEXTO DA BÍBLIA


Muita gente me pergunta sobre qual é a garantia que temos a respeito da integridade do texto da Bíblia. esse assunto é complexo e aqui vou me limitar a apresentar, de forma resumida, os argumentos que garantem dispormos sim de um texto fiel aos originais escritos milhares de anos atrás. Se você quiser sabem mais a esse respeito leia essa outra postagem.


O Velho Testamento foi escrito entre mais ou menos 1.450 e 200 AC (Antes de Cristo). O Novo Testamento foi todo escrito na segunda metade do século I da nossa era. Assim, passaram-se muitos séculos entre o momento em que os textos da Bíblia foram escritos até hoje.

Evidentemente não dispomos mais dos originais da Bíblia. O que temos são cópias de cópias de cópias dos originais, a maior parte dessas cópias feitas manualmente. Para o Velho Testamento, as cópias mais antigas hoje disponíveis datam de 2.100 anos atrás. Já para o Novo Testamento, as cópias mais antigas tem cerca de 1.700 anos.

Acabei de me referir a cópias manuais porque durante a maior parte do tempo os textos da Bíblia foram disseminados dessa forma. Somente cerca de quinhentos anos atrás apareceu o recurso da impressão, que mudou totalmente as regras do jogo. Esse novo recurso, além de ser muito mais eficiente do que o método manual, garante a integridade do texto quando copiado. Isto porque copistas podem, até sem querer, introduzir erros (por exemplo, trocar uma palavra por outra) ao fazer seu trabalho, coisa que não acontece quando máquinas imprimem cópias de um texto.

Assim, durante boa parte da sua história, os textos bíblicos foram disseminados através de cópias manuais, bem mais sujeitas a erros e nasce aí a dúvida quanto à integridade dos textos de que dispomos hoje. Será que esse processo de múltiplas e sucessivas cópias manuais não acabou por "corromper" o conteúdo original? Será que o texto atual é realmente igual ao original? 

A resposta para essas perguntas é fundamental pois acreditamos ser a Bíblia a Palavra de Deus e assim reconhecemos no seu texto uma autoridade inigualável. Mas tala autoridade está restrita ao conteúdo original, aquele que acreditamos ter sido inspirado pelo Espírito Santo. Se esse conteúdo foi alterado, mesmo que sem querer, por conta do processo de sucessivas cópias manuais ao qual me referi acima, o conteúdo atual não tem mais a mesma autoridade.

Em outras palavras, não poderíamos usar o conteúdo da Bíblia de que dispomos hoje como nossa regra de fé por ela não mais ser aquilo que foi inspirado pelo Espírito Santo. Simples assim. E é essa a crítica que muita gente faz ao cristianismo.

O texto disponível é fiel ao original
Mas eu quero tranquilizar você: há muitos argumentos fortes apoiando a integridade do conteúdo que hoje temos da Bíblia. Não tenho espaço para discutir todos eles aqui, assim, vou me concentrar em apenas dois deles.
Primeiro, as cópias eram feitas com muito cuidado porque o texto da Bíblia era considerado sagrado pelos copistas - nenhum escriba bem intencionado iria querer introduzir erros num conteúdo atribuído a Deus. 

E é fácil comprovar que isso é verdade: basta comparar o conteúdo de dois conjuntos de cópias de determinados textos da Bíblia feitos em momentos diferentes da história. Quanto maiores forem as diferenças entre os dois conjuntos, maior terá sido a “contaminação” (introdução de erros propositais ou não) durante o processo de fazer cópias. 

Ora, a prática comprova que o processo de "contaminação" é mínimo, desprezível mesmo. Por exemplo, logo após o final da Segunda Guerra Mundial, foram encontrados alguns manuscritos perto do Mar Morto - tratava-se de uma cópia quase completa do conteúdo do Velho Testamento feita cerca de 2.000 anos antes. Quando o conteúdo dessa cópia foi comparado com o atual do Velho Testamento, ficou evidente que as diferenças eram mínimas. Mais de dois mil anos fazendo cópias de cópias de cópias não foram capazes de corromper o texto da Palavra de Deus. 

As diferenças se resumiam a poucas palavras aqui ou ali e nenhuma delas acaba por gerar dúvida sobre os ensinamentos fundamentais do Velho Testamento.

Segundo, existem mais manuscritos do conteúdo da Bíblia do que de qualquer outro texto antigo - por exemplo, há cerca de 24.000 cópias manuais do Novo Testamento e apenas sete dos textos do grande filósofo Aristóteles. 

Ora, o processo de fazer cópias manuais gera "famílias" de manuscritos. Isso porque se alguém introduz um erro numa determinada cópia, esse mesmo erro será reproduzido nas novas cópias que vierem a ser feito a partir desse manuscrito modificado. E evidentemente somente as cópias feitas a partir do mesmo manuscrito modificado, ou seja somente as cópias pertencentes a uma mesma "família", irão conter o mesmo erro. 

Assim, quanto mais cópias de um determinado conteúdo existirem, mais "famílias" de cópias dele irão existir. E é evidente que os erros presentes em cada uma dessas "famílias" de cópias nunca serão os mesmos, pois terão nascido de erros no trabalho de copistas diferentes, cometidos em momentos distintos da história. 

E comparando entre si o conteúdo de "famílias" distintas de cópias será possível identificar exatamente onde estão os erros de cada uma delas. Ou seja, existe um processo para controlar a qualidade de uma determinada cópia do texto bíblico. Basta compará-lo com o conteúdo de outras "famílias" de cópias e identificar onde a cópia em análise difere de todas as demais - aí estão os eventuais erros dela. 

Naturalmente, quanto mais manuscritos de determinado conteúdo existirem, mais efetivo será esse tipo de controle. Como o Novo Testamento conta com 24.000 manuscritos, é possível fazer um controle de qualidade dele muito melhor do que da obra de Aristóteles, que conta com apenas sete conjuntos de cópias e não há como questionar essa argumentação.

E é interessante notar que praticamente nenhum(a) estudioso(a) de texto antigo questiona a integridade do conteúdo da obra de Aristóteles disponível hoje em dia, mas muitos(as) têm dúvida sobre a Bíblia, o que demostra claramente o preconceito existente. 

O fato é que o controle de qualidade sobre o conteúdo disponível da Bíblia é muito efetivo e isso também transmite grande segurança quanto à integridade do conteúdo bíblico de que dispomos hoje. 

E tanto esse controle funciona bem que nos exemplares atuais da Bíblia os editores do texto costumam indicar os pontos de dúvida no seu conteúdo, o que é feito colocando as palavras do texto questionadas entre colchetes.

Conclusão
Nenhum texto antigo foi tão avaliado pelos mais diversos especialistas do que a Bíblia. E o conteúdo dela de que dispomos hoje passou nesses testes com louvor - as discrepâncias encontradas são muito pequenas e nenhuma envolve um aspecto essencial da nossa fé. 

É claro que isso não quer dizer que não continue a haver quem desconfie e questione o conteúdo da Bíblia de que dispomos - como comentei antes, existem muitos preconceitos e esses são quase impossíveis de eliminar.

Mas podemos ter certeza de que dispomos de um texto confiável, que realmente preserva a autoridade do original inspirado pelo Espírito Santo e pode sim ser usado como regra de fé para nossas vidas. 

Com carinho

domingo, 5 de junho de 2016

SALOMÃO FOI MESMO SÁBIO?

Salomão era mais sábio do que qualquer ser humano, mais do que o ezraíta Etã, mais sábio que Hemã, Calcol e Darda, filhos de Maol. Sua fama espalhou-se por todas as nações em redor. Ele criou três mil provérbios e compôs mil e cinco cânticos.     1 Reis capítulo 4, versículos 31 e 31 

A Bíblia conta que Salomão era um homem de sabedoria fora do normal - chega a dizer que ele era a pessoa mais sábia do mundo. E tal sabedoria veio de Deus: Salomão teve um sonho onde Deus lhe disse para pedir o que quisesse. E Salomão pediu sabedoria, pois era jovem e sabia precisar disso para poder fazer um bom governo.

E tal sabedoria lhe foi concedida. E gerou também fama, sucesso e poder: Salomão tornou-se homem muito rico e um rei muito forte. Construiu palácios maravilhosos e o Templo de Jerusalém. 

Agora, quando analisamos o resto da vida de Salomão, percebemos que ele não foi capaz de construir uma família feliz, assim como tinha acontecido com seu pai, Davi. Teve centenas de mulheres e concubinas, que trouxeram conflitos familiares e o influenciaram a adotar maus hábitos (por exemplo, adorou outros deuses). Acabou punido por Deus: seu filho perdeu boa parte do reino para um usurpador.

Essas não parecem ser atitudes próprias de um homem sábio. O que está acontecendo aqui? Salomão foi ou não foi um homem de grande sabedoria?

Na verdade, estamos falando de duas coisas diferentes. A primeira delas é sabedoria para governar, para liderar pessoas, para conquistar e conservar o poder. Salomão teve essa sabedoria em alto grau e a Bíblia afirma isso com clareza.

E outra coisa, bem diferente da primeira, é a sabedoria necessária para desenvolver uma vida pessoal - emocional e espiritual - feliz e equilibrada. Aí Salomão falhou miseravelmente. E naturalmente, nesse segundo campo, Salomão não consultou a Deus e isso é fácil de perceber - será que alguém imagina Deus aconselhando o rei a ter centenas de mulheres? 

As qualidades e habilidades necessárias para ter sucesso na vida profissional e na vida pessoal são bem diferentes. E essa diferença é fácil de perceber no dia a dia: são inúmeros os casos de pessoas altamente bem sucedidas na vida profissional - alcançam fama, sucesso, poder e riqueza - e não conseguem manter seus casamentos, são péssimos pais e assim por diante.

A resposta à pergunta anterior, portanto, é: Salomão foi e não foi sábio. Teve sabedoria no campo onde contou com Deus: para governar. Mas na sua vida particular, onde tentou agir pela sua cabeça, fracassou.

Acho que você concorda comigo que uma vida feliz é aquela que consegue um equilíbrio saudável entre o sucesso profissional e as realizações pessoais. Aquela onde a pessoa consegue equilibrar os resultados nas duas áreas. 

É claro que isso significa fazer compromissos. Por exemplo, às vezes será preciso sacrificar a vida pessoal para conseguir avançar na profissão. Mas também será preciso fazer o contrário: promover sacrifícios profissionais para, por exemplo, atender as necessidades da vida familiar. Assim como ter tempo para desenvolver uma vida espiritual saudável: ir à igreja, estudar a Bíblia, orar, ajudar na obra de Deus, etc.

Com carinho

sexta-feira, 3 de junho de 2016

LUTANDO CONTRA A VONTADE DE MENTIR

O tema de hoje é difícil: a luta contra a mentira. Isso é muito importante porque, na realidade, todo mundo mente, uns mais, outros menos, mas todos já cometeram esse pecado. 

A "escala" da mentira
A revista Christianity Today publicou um artigo muito interessante (edição de junho/2011, autora Sarah Sumner), onde descreveu os diferentes níveis de tolerância à mentira que as pessoa podem ter. Trata-se de uma verdadeira “escala" da mentira, sendo que os níveis mais altos dela indicam uma convivência maior com a mentira.

O fato é que as pessoas, ao longo das suas vidas, sobem e descem nessa escala, conforme sua vida espiritual e emocional vá pior ou melhor. Portanto, qualquer avaliação que seja construída comparando o comportamento de qualquer pessoa com o que está descrito nesse modelo, será apenas um "retrato", um instantâneo da situação, que pode mudar para melhor ou pior, conforme a pessoa venha a se comportar no futuro.  

Assim, quem perceber que está mal na tal escala não deve desanimar e sim sentir-se incentivado(a) a corrigir as próprias deficiências e melhorar - sempre há espaço para isso. Da mesma forma, quem estiver bem vai precisar se esforçar para não perder o que já conquistou.

Nível 1: Mentira ocasional
Quem está nesse nível mente pouco, de forma ocasional, num descuido, num momento infeliz, etc. Infelizmente, há poucas pessoas nesse nível.

Nível 2: Mentira como hábito
Nesse nível as mentiras deixam de ser ocasionais e tornam-se frequentes, parte da vida - afinal, é mais fácil mentir do que assumir um erro ou reconhecer uma fraqueza. A mentira também é bastante usada para evitar situações que podem se tornar embaraçosas - por exemplo, a pessoa se atrasou porque saiu tarde de casa e culpa o trânsito para não admitir seu erro.

Nível 3: Auto-engano
Nesse nível a pessoa passa a aceitar como verdade as mentiras que conta. Mente de forma tão eficaz que acaba enganando a si mesma também. Por exemplo, a pessoa que cria caso com um monte de gente convence a si mesma que sempre tem as melhores intenções, quer o bem de todo mundo, procura fazer a vontade de Deus, etc. 

Esse é o ponto da escala onde a grande maioria das pessoas (mesmo as que se dizem cristãs) está, conforme os estudos. E não é fácil "descer" na escala pois o auto-engano é uma coisa muito confortável, quase como um vício, um recurso sem o qual se torna muito difícil viver. 

Nível 4: Racionalização
Nesse estágio não somente a pessoa acredita que suas mentiras são verdades, como encontra justificativa para tudo que faz. Nesse nível, por incrível que pareça, a mentira passa a ser uma virtude! Por exemplo, a pessoa mente porque essa é uma necessidade, pensa ela, para conseguir progredir no emprego. 

É esse tipo de pensamento que permite aos políticos(as) adotar a corrupção como prática de vida e conseguir ficar em paz com suas consciência. Usam o dinheiro escuso para conseguir pagar as contas da última campanha ou para serem adequadamente recompensados(as) pelos "sacrifícios" pessoais que pensam estar fazendo. É o mesmo tipo de comportamento que permite a um homem adulterar para "conseguir" manter seu casamento vivo.

Nas igrejas, isso acontece, por exemplo, quando pastores justificam a construção de templos luxuosos ou adotarem um padrão de vida nababesco como "homenagem" a Deus. 

Nível 5: Compartimentalização
O truque aqui é trabalhar como se a vida fosse constituída de compartimentos. A pessoa ignora as coisas que disse ou fez num contexto e diz ou faz coisas diferentes quando está em outra situação. 
Também é fácil de encontrar esse tipo de situação na política, quando líderes montam um discurso adequado para cada tipo de auditório: falam uma coisa para empresários, outra para sindicalistas e outra para jovens. Essa também é a situação dos(as) cristãos(ãs) que são santos(as) no domingo e fazem qualquer coisa de segunda feira em diante.

Nível 6: A mentira como dever
É o pior estágio: a pessoa perde completamente o controle sobre a mentira pois se convence que mentir é seu dever. Não mentir é que seria errado erro.

Por exemplo, o assessor de um líder político corrupto que pensa ser seu dever mentir para proteger seu chefe das trapalhadas que faz. Ou a secretária que acoberta as escapadas adúlteras dele, mentindo para sua esposa. 

São pessoas nesse nível da escala de mentiras que apedrejaram os profetas bíblicos, quando esses falaram verdades inconvenientes (por exemplo, João capítulo 16, versículo 2).

É interessante perceber que pessoas assim costumam ficar bravas quando são criticadas por mentir, pois pensam estar sendo impedidas de cumprir com seu dever. Por exemplo, a mãe que conta mentiras para esconder os problemas do marido com drogas e pensa fazer isso para "proteger" sua família. 
  
O que pode ser feito?
Mentir é pecado e a Bíblia é muito clara a esse respeito. E a razão é simples: se todos mentissem todo o tempo, o caos seria instalado. A confiança desapareceria e não mais seria possível viver em sociedade (e Deus não nos criou para vivermos isolados). 

Quando mentimos, violamos nossa conexão com as outras pessoas e também com o próprio Deus. E por isso nos sentimos mal. É por isso que precisamos minimizar o impacto da mentira racionalizando (nível 4) ou mesmo pensando estar cumprindo um dever (nível 6).

Como disse no começo deste texto, a mentira é coisa muito presente na sociedade, mas é preciso lutar para não deixá-la tomar conta. Há um ditado popular que explica isso bem: "não podemos impedir que o pássaro pouse na nossa cabeça, mas podemos sim impedir que ele faça ninho ali". 

Ou seja, a fraqueza que leva a uma mentira eventual é parte da natureza humana, sendo quase impossível de evitar. Mas não podemos permitir que a mentira se torne uma forma de vida. 

Como fazer isso? Primeiro, tendo consciência do problema, coisa que você está fazendo ao ler este texto (se já não tinha percebido isso antes).

Depois, pedindo ajuda a Deus. Por exemplo, Davi sempre pedia que Deus sondasse seu interior e lhe revelasse aquilo que ele mesmo não conseguia ver (por exemplo, Salmo 139, versículos 23 e 24). E Deus atendia: por exemplo, quando Davi adulterou com Bate-Seba, Deus mandou o profeta Natã falar com ele as verdades incômodas que precisava ouvir.

Terceiro, mantendo-se o mais próximo(a) a Deus que conseguir. Percebo, pela minha própria experiência de vida, que quando me afasto d´Ele, fico mais vulnerável, não só à mentira como a outras tentações. 

Finalmente, adquirindo o hábito de confessar suas dificuldades para irmãos(ãs) na fé em quem você confie - isso é muito eficaz, por exemplo, contra o auto-engano (nível 3) e a racionalização (nível 4). Não se trata de coisa fácil pois é preciso antes deixar de lado o orgulho, mas pode ajudar muito. 

Com carinho

quarta-feira, 1 de junho de 2016

GALARDÃO: O MÉRITO DO CRISTÃO

E, eis que cedo venho, e o meu galardão está comigo, para dar a cada um segundo a sua obra. Apocalipse capítulo 22 , versículo 12

Não parece justo que pessoas que tiveram vida totalmente diferente aqui na terra tenham, no final dos tempos, exatamente o mesmo tratamento. Por exemplo, Paulo e o ladrão que estava ao lado de Jesus e o aceitou como salvador, estão ambos salvos - a Bíblia é clara a esse respeito. Mas o apóstolo dedicou boa parte da sua vida à obra de Deus, enquanto "bom" ladrão nada mais fez do que ter fé, pois morreu logo depois. Um fez muito e o outro nada. Um foi um homem de bem e o outro um bandido. 

A Bíblia ensina que a salvação sempre ocorre por conta da fé da pessoa e como os dois homens demonstram isso, ambos herdarão a vida eterna, isto é estarão para sempre na presença de Deus, depois do Juízo Final.

Isso certamente não parece justo - ficamos com a impressão que Paulo não receberá o reconhecimento que merecia pela sua obra magnífica. E a resposta para isso passa pelo conceito de galardão.

É verdade que ninguém teria mérito suficiente para ser salvo(a). É a Graça de Deus que salva, mediante o sangue de Jesus derramado na cruz. Sendo assim, para efeito de salvação, faz sentido que Paulo e o ladrão recebam o mesmo tratamento.

Mas o julgamento de Deus não se limita à questão da salvação. Há mais. Muito mais. E é aí que entra a avaliação do mérito. É nessa parte onde Paulo e o ladrão receberão tratamento diferente.

A Bíblia chama a recompensa recebida pela pessoa, por conta daquilo que fez de bom, de "galardão". É isso que foi revelado a João na passagem que abre este post: Jesus tem uma recompensa para cada pessoa de acordo com o mérito que ela tiver acumulado. Veja ainda o que Ele disse em outra oportunidade:
Quem recebe um profeta em qualidade de profeta, receberá galardão de profeta; e quem recebe um justo na qualidade de justo, receberá galardão de justo. E qualquer que tiver dado só que seja um copo de água fria a um destes pequenos, em nome de discípulo, em verdade vos digo que de modo algum perderá o seu galardão.                                    Mateus capítulo 10, versículos 41 e 42
Primeiro, as recompensas dadas são proporcionais àquilo que tiver sido feito - é esse o significado de "galardão de profeta", ou seja, a recompensa que cabe a um profeta é específica para esse ministério. O que nos permite entender que também há recompensas para missionários, mestres da palavra, pastores, etc.

Segundo, nenhuma boa ação, por menor que seja (esse é o significado de "um copo de água fria") ficará sem sua devida recompensa. 

Essa é a justiça de Deus em ação: o mérito de cada pessoa é devidamente julgado e reconhecido mediante recompensas dadas de acordo com o que ela tiver feito. E isso faz todo sentido.

Há outro pedaço de informação que ajuda a compor o quadro que estou delineando aqui. Veja o que o apóstolo Paulo disse : 

Conheço um homem em Cristo que há catorze anos (se no corpo, não sei, se fora do corpo, não sei; Deus o sabe) foi arrebatado ao terceiro céu. E sei que o tal homem (se no corpo, se fora do corpo, não sei; Deus o sabe) foi arrebatado ao paraíso; e ouviu palavras inefáveis, que ao homem não é lícito falar.                                                                                2 Coríntios capítulo 12, versículos 2 a 4

O apóstolo falou aí de uma visão que teve, quando foi arrebatado até o céu - viu e ouviu coisas às quais os seres humanos normalmente não têm acesso.

O interessante nesse texto é que Paulo fala de "terceiro" céu, cujo significado não sabemos qual é - não há informações na Bíblia a esse respeito. Agora, se há um "terceiro" céu, é porque há um primeiro e um segundo, pelo menos. E podem haver mais lugares no céu dos quais não tenhamos notícia.

Se há lugares diferentes no céu, é porque o tratamento das pessoas salvas não será exatamente igual. Haverá diferenças e certamente essas diferenças têm a ver com os galardões distribuídos. E faz todo sentido que seja assim.

Essas são algumas informações importantes a respeito daquilo que Deus têm preparado para seus filhos e filhas, na chamada vida eterna. Toda Glória seja dada a Ele.

Com carinho