domingo, 14 de agosto de 2016

O MACHISMO NÃO ASSUMIDO É O PIOR...

A mídia noticiou fartamente a declaração do atual Ministro da Saúde na qual ele afirmou que o SUS atende mais mulheres do que homens porque eles trabalham mais e assim têm menos tempo para procurar postos de saúde.

Ora, tal afirmação não tem apoio nas estatísticas e acabou criticada por muita gente, inclusive a filha do próprio ministro, Deputada Estadual no RS. Há outras explicações muito melhores para o fato das mulheres procurarem mais os postos de saúde, como gravidez e maior preocupação (em relação aos homens) de cuidar da própria saúde.

O que leva um ministro, que prece ser homem esclarecido, a fazer tal tipo de declaração? A resposta é simples: machismo. E se trata de coisa tão arraigada e sutil que a pessoa nem se dá conta e assim não consegue censurar os próprios atos, acabando surpreendida com a repercussão negativa do que fez, como aconteceu com o nosso ministro.

O combate ao machismo é sempre difícil. E não só porque as pessoas - especialmente os homens - nem se dão conta do problema, tão arraigado ele é. Há outras razões.

Uma delas é o poder que os homens gozam numa sociedade machista - é vantajoso ser homem numa sociedade assim. Eles gozam de maiores e melhores oportunidades profissionais, recebem salários maiores, são servidos pelas mulheres nas suas próprias famílias, sua liberdade sexual é muito maior e assim por diante. 

Como ninguém gosta de abrir mão de vantagens e privilégios, os homens resistem às iniciativas que procuram tornar os direitos e privilégios iguais e combatem as discrepâncias. E as desculpas para essa resistência são as mais esfarrapadas: as mulheres apelam mais para o coração do que para a razão, são fisicamente mais fracas, etc. 

Outra razão para que homens permaneçam numa posição machista é a rejeição ao feminismo. Décadas atrás, um grupo de mulheres se mobilizou par fazer frente a esse problema. A situação era tão desigual e a luta foi tão difícil, que as feministas acabaram por assumir posições excessivamente radicais, como a recomendação das esposas de recusarem sexo aos seus maridos, como arma de luta. 

Esse radicalismo fez com que o movimento feminista acabasse mal visto por boa parte dos homens e até muitas mulheres, inclusive no nosso país, atrapalhando a conquista de certos avanços sociais na direção da maior igualdade entre homens e mulheres.

Mesmo assim, não há como negar que tem sido feitos avanços, mesmo em nosso país, como as Delegacias especializadas em crimes contra as mulheres, a Lei Maria da Penha (que coíbe agressões físicas), a licença maternidade, o direito a pagamento igual aos homens, quando o trabalho realizado for o mesmo, etc.

Mas ainda há muito por fazer, como a declaração do nosso ministro tornou bem patente. E como comprova também a divisão de tarefas nos lares brasileiros, onde as mulheres ainda assumem a maior parte das tarefas domésticas. E principalmente pela sempre presente violência doméstica que vitima diariamente incontáveis mulheres. É preciso avançar muito ainda.

O cristianismo diz em relação a tudo isso? Em termos doutrinários, não há dúvida que o cristianismo defende a igualdade dos seres humanos, independentemente do seu sexo. Veja o que o apóstolo Paulo, tantas vezes criticado por machista (coisa que não era), disse:
Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. Gálatas capítulo 3, versículos 26 a 28
O significado dessa declaração é claro: não há diferenças, aos olhos de Deus, de quem aceita Jesus. Não importa de que país venha a pessoa, a cor da sua pele, sua condição social e muito menos seu sexo. Todos(as) somos iguais aos olhos de Deus. Simples assim.

E se somos todos(as) iguais, é claro que nossos direitos, inclusive dentro das comunidades cristãs, também devem ser os mesmos. Mas infelizmente não é isso que acontece dentro de muitas denominações cristãs. É como se algumas delas dessem esse direito com uma mão, ao reconhecerem a igualdade de todos perante Deus, e tirassem os mesmo diretos com a outra, quando negam às mulheres, por exemplo, o direito de serem sacerdotes.

Acredito que algumas denominações fazem outra contribuição ainda pior para o machismo: refiro-me à interpretação teológica que dão para o ensinamento de Paulo que o marido deve ser o "cabeça do casal" (Efésios capítulo 5, versículos 21 a 28). Esse mandamento é frequentemente confundido na prática com: "o marido manda e a mulher obedece". 

Alguns ainda tentam aliviar, dizendo que também há mandamento para que os maridos amem suas esposas como a si mesmos, mas a realidade prática permanece mais ou menos essa: a autoridade maior dentro do lar é dos maridos.

Eu não sei se você já teve oportunidade de ler ou ouvir algum estudo ou palestra que apresente interpretações alternativas para esse texto de Paulo. por exemplo, aquele que usa o significado de "cabeça" como o de "início", semelhante ao uso que damos ao falar da "cabeceira" de um rio, referindo-se à sua nascente. E como Jesus foi o início da igreja cristã, portanto essa interpretação merece ser considerada.

Por que nunca é ensinada em escolas bíblicas? Por que nunca é usada em pregações? Acho que você já sabe a resposta...

Defender a liderança inconteste dos homens dentro dos lares, numa sociedade onde as mulheres cada vez mais contribuem para o sustento das suas famílias - em quase 40% dessas famílias, elas são a única ou a maior fonte de renda - parece coisa fora de propósito, somente explicada pelo machismo sutil, não assumido abertamente, ainda presente em nossa sociedade. 

Como cristãos(ãs), precisamos reconhecer a existência do problema e dar nossa contribuição para modificar esse estado de coisas, ensinando principalmente nossas crianças e adolescentes a pensarem e agirem de forma diferente.

Com carinho

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

COMO DEUS SABE O QUE VAI ACONTECER?

Acho que você não tem dúvida que Deus sabe tudo o que vai acontecer - essa é uma doutrina cristã aceita por quase todo mundo. E vemos prova disso nos relatos da Bíblia, quando Deus enviou profetas para contar para as pessoas sobre seu futuro.

Agora, como Deus sabe o que vai acontecer? Há dois tipos de resposta possíveis. A resposta mais comum é: Deus sabe tudo o que vai acontecer porque determinou como as coisas vão se passar. Tudo já está estabelecido por Ele mesmo de acordo com um plano super detalhado que fez. 

Eu tenho muita dificuldade com essa resposta. E a razão é simples: se Deus estabeleceu tudo que vai acontecer, Ele também definiu o mal que ocorrerá no futuro - desastres, guerras, injustiça social, epidemias, etc. Deus seria, então, responsável pelo mal que vai ocorrer no mundo. E isso não faz sentido na minha cabeça - não é esse o Deus a quem amo e sirvo.

Há um problema adicional com essa resposta: se Deus estabeleceu tudo que vai ocorrer, também definiu quais pecados você vai cometer. E se isso está previamente definido por Ele, você não pode ser responsabilizado(a) pelo que vier a fazer de errado. Em outras palavras, quando o livre arbítrio é retirado, também vai embora com ele a sua responsabilidade pessoal, já que você deixou de ter direito de escolha.

Portanto, essa resposta, embora simples de entender, não funciona, pois cria mais problemas do que resolve. Precisa haver outra explicação para o fato de Deus conhecer o futuro. E de fato há.

A outra explicação parte do entendimento que Ele conhece cada pessoa completamente, no seu íntimo. Sabe até o que cada um de nós pensa.

Eu conheço razoavelmente como meus dois filhos pensam e se comportam. Conheço seus gostos e preferencias, sua história de vida, sonhos, etc. Daí posso prever com alguma segurança o que cada um pensa e vai fazer em diferentes situações. As escolhas deles são livres, mas consigo prever com alguma frequência o que vão fazer. 

Ora, o conhecimento que tenho dos meus filhos é limitado - há coisas sobre eles escondidas de mim (e até deles mesmos), outras que interpretei errado e assim por diante. Eu também não conheço as pessoas com as quais eles vão interagir, as circunstâncias das suas vidas e outras informações relevantes. 

Como meu conhecimento é limitado e meu raciocínio não é perfeito, às vezes erro nas previsões que faço sobre o comportamento deles. Logo, passo por surpresas, tanto positivas (quando eles reagem melhor do que eu esperava) como negativas (quando reagem pior). 

Agora, Deus tem conhecimento completo de cada pessoa. Conhece seu íntimo e sabe de todas as circunstâncias da sua vida, assim como conhece também de forma perfeita todos os seres humanos com os quais aquela pessoa vai interagir. Além disso, seu raciocínio é perfeito.

Não é de se estranhar, portanto, que Ele consiga prever com absoluta precisão como cada pessoa vai agir. O que vai escolher. Quando vai pecar ou não. Nesse sentido, não há surpresas para Ele no comportamento de cada pessoa. 

Deus tem na sua mente um gigantesco mapa de todas as escolhas futuras das pessoas e das consequências que irão decorrer delas. Por isso Ele conhece o futuro, mesmo quando as pessoas fazem suas próprias escolhas. Trata-se, é claro, de tarefa de complexidade quase infinita, mas coisa simples para um Ser que pode tudo. 

Eu poderia parar minha discussão aqui. Mas também há uma explicação científica, para o fato de Deus saber tudo que vai acontecer, que se soma ao que acabei de falar. E ela começa com o universo onde vivemos.

Nosso universo é caracterizado por três dimensões físicas: altura (espessura), largura e comprimento. Todas as coisas materiais têm essas três dimensões. Em alguns casos, uma ou mais dimensões pode ser muito pequena, mais ainda assim elas existem - por exemplo, uma folha de papel tem espessura muito pequena, quase zero, mas ainda assim tem três dimensões.

Deus criou o universo onde vivemos e, portanto, também criou as três dimensões físicas que regulam tudo que nele existe. E se as criou, Ele mesmo não pode ser limitado por essas dimensões.

Vou me explicar melhor. Pense num artista que pintou um quadro. Ele criou o tal quadro mas sua vida está fora da obra de arte que fez - afinal, ele não é parte integrante do quadro. Pode até intervir na pintura - fazer uma correção de uma pincelada errada ou criar um novo detalhe - mas nunca será parte do quadro que fez.

Da mesma forma, Deus criou o universo e, portanto, não é parte dessa criação. Está fora dela. Pode até intervir no universo - afinal, Deus atua na história humana - mas Ele não é parte dele. Deus transcende o universo. E é disso que estamos falando quando afirmamos que Deus está em toda parte ou que Ele não é material e sim espiritual.

Até aí, acho que está tudo bem. Mas há mais. O universo tem uma quarta dimensão: o tempo. Por isso, todos os seres vivos sofrem influência da passagem do tempo - basta ver como nosso corpo muda (e para pior) com a idade.

Como o tempo, assim como tudo o mais que existe no universo, também foi criado, Deus mesmo não está debaixo da influência do tempo. Nem poderia, pois o tempo também é obra sua. E é disso que estamos falando ao dizer que Deus é eterno - não tem começo nem fim - e que Deus não muda, permanecendo sempre o mesmo (Malaquias capítulo 3, versículo 6; Hebreus capítulo 13, versículo 8).

A conclusão desse raciocínio é estranha, mas verdadeira: para Deus, não há passado, presente e futuro. Não é muito fácil de entender bem como isso funciona, pois todos(as) vivemos debaixo da influência do tempo. Mas Deus não tem essa limitação, da mesma forma como não tem dimensões físicas.

Se para Deus, passado, presente e futuro são a mesma coisa, não há qualquer barreira para ele conhecer as coisas que ainda vão acontecer. Simples assim. 

Concluindo, não é preciso acreditar na ideia que Deus definiu tudo que está por acontecer, para explicar o fato de Deus conhecer o futuro. Esse conceito pode ser fácil de entender, mas cria enormes complicações morais para as ações Deus - torna-o responsável pelo mal e os pecados. 

Deus sabe tudo por duas razões que se complementam: primeiro, conhece perfeitamente, cada ser humano e, portanto, sabe o que ele(a) vai escolher antes mesmo que a pessoa tome cada decisão da sua vida. E esse conhecimento de Deus não tira a liberdade de escolha de cada pessoa - ela sempre escolhe livremente.

A segunda razão, de cunho mais científico, é que Deus está fora do tempo, que é criação d´Ele mesmo. Para Deus, passado, presente e futuro são uma coisa só. Sem qualquer diferença. Parece estranho, mas é verdade.

Com carinho

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

A NATUREZA DO PLANO DE DEUS PARA SUA VIDA

"Deus tem um plano maravilhoso para sua vida que é..." Lembro-me perfeitamente quando ouvi essa frase pela primeira vez dentro de uma igreja. Lembro de quem a falou e das circunstâncias daquele momento da minha vida.

Agora, não me lembro mesmo é do conteúdo do tal "plano"que me foi revelado, porque não se realizou mesmo, aliás como é comum com as profecias que costumam ser passadas nos corredores das igrejas. O que guardei na memória mesmo foi o fato de haver um plano de Deus para minha vida - aquela foi a primeira vez que ouvi tal conceito aplicado à minha vida. 

Plano, propósito, ou vontade de Deus para você, essas são as palavras normalmente usadas para descrever a realidade de haver coisas que Ele gostaria de ver ocorrer na sua vida. É claro que tecnicamente essas palavras não representam conceitos exatamente iguais mas, para simplificar as coisas, vou considerá-las neste texto como tendo significado igual.

Qual é a natureza do plano que Deus tem para você? Será que está incluído nele aquilo que seu coração tanto deseja, como amor, prosperidade, sucesso ou outras coisas assim? Será que Deus levou em conta aquilo que fará você feliz?

Recebo perguntas como essas quase todos os dias. Por exemplo, outro dia um rapaz me perguntou se podia orar para que Deus lhe concedesse o favor de uma moça que ama e até hoje não demonstrou interesse por ele. Ora, ele estava de fato perguntando se podia orar para que sua amada fosse incluída no plano que Deus tem para sua vida. Se isso fazia sentido do ponto de vista da doutrina cristã.

Penso que essas perguntas têm grande importância e pois se forem respondidas de forma errada, como muitas vezes acontece, podem se tornar "pedra de tropeço" na vida espiritual de muita gente. 

Então, qual é mesmo a natureza do plano de Deus para você? Será que ele inclui as coisas que seu coração deseja? Talvez minha resposta cause algum desapontamento, mas penso ser sempre melhor conhecer a realidade dos fatos, em lugar de ficar criando fantasias que não vão mesmo se materializar.

Deus, como Pai amoroso, tem prazer em dar coisas boas para você - Jesus foi claro a esse respeito (Mateus capítulo 7, versículos 9 a 11). Mas isso não quer dizer que essas coisas boas são exatamente aquelas que você deseja. Até porque nem tudo que você deseja é bom para você. 

É exatamente assim que pais responsáveis agem com seus filhos(as): fazem a vontade deles(as) quando isso faz sentido e é saudável. Caso contrário, dizem não. E é bom que seja assim.

O plano de Deus para você não é composto daquilo que necessariamente vai fazer você feliz e sim daquilo que é de fato bom. E esses dois conjuntos de coisas são diferentes - podem até ter pontos em comum, mas divergem em muitos aspectos.

A mesmo que você aprenda a sonhar, como se fossem seus, os sonhos que Deus tem para você. Aí tudo se resolve. E foi justamente isso que os grandes heróis e heroínas da fé aprenderam a fazer - por exemplo, o apóstolo Paulo chegou a dizer que não mais conseguia viver se não pregasse o Evangelho de Jesus (1 Coríntios capítulo 9, versículo 16).

O plano de Deus para você tem necessariamente a ver com sua relação com Ele e sua participação na implantação do Reino aqui na terra. E a razão para isso é simples: estar junto a Deus, vivendo de fato uma relação sólida com Ele, e contribuir para que sua Obra seja feita aqui na terra, essas são as coisas mais significativas que podem acontecer na vida de qualquer pessoa. É isso que realmente importa e não as coisas materiais que passam - como Jesus disse, aquelas coisas que "são comidas pela traça e a ferrugem..."

Normalmente as pessoas sonham coisas bem diferentes daquelas que Deus gostaria que estivessem presentes nas suas vidas. E como se imaginam filhas de Deus, e Ele é um Pai amoroso, acreditam que vão receber d'Ele, mais cedo ou mais tarde, aquilo que desejam. E ficam buscando na Bíblia versículos que confirmem essa crença. 

A maior prova é a interpretação que normalmente é dada para conhecido versículo 28 de Romanos capítulo 8: "sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus..." As pessoas costumam entender essa declaração como uma promessa de que tudo vai acontecer nas suas vidas de forma a colaborar com o plano traçado por Deus para elas e, naturalmente, em tal plano está incluído tudo aquilo que as fará feliz, que desejam ardentemente. 

Ora, esse mesmo versículo tem uma segunda parte que diz: "...daqueles que são chamados segundo o seu propósito." Ou seja, tudo vai colaborar para o bem aquelas pessoas que são chamadas e participam dos propósitos de Deus aqui na terra. Daquelas que aprenderam a sonhar os sonhos de Deus. Esse versículo é dirigido apenas para essas pessoas. 

E os sonhos de Deus para você, conforme já disse, é composto de coisas espirituais e não materiais, pois são as primeiras que importam de fato. E tanto é assim que as pessoas mais agraciadas por Deus, no relato do Novo Testamento, como o apóstolo Paulo, invariavelmente tiveram vida material difícil.

Ainda resta tratar de uma questão: é possível a você resistir ao plano de Deus? Caso não queira aquilo que Ele separou para sua vida, você pode recusar? Claro que sim, pois você tem livre arbítrio, ou seja o direito à escolha livre. Se não, haveria um destino para cada pessoa já traçado por Deus e essa não é a doutrina cristã.

Agora, deixar de fazer aquilo que Deus entende ser o melhor para sua vida, tem custo. Não sai de graça. Se Deus sabe aquilo que é o melhor, e você segue outro caminho, significa que você terá escolhido fazer aquilo que não é o melhor. Logo, há um prejuízo embutido nessa escolha.

A Bíblia está cheia de exemplos de histórias de pessoas que escolheram sonhar os sonhos de Deus e outras tantas que escolheram sonhar os próprios sonhos. Invariavelmente, quem tentou seguir pela estrada da vida sozinho(a), acabou colhendo resultados que não queria. Portanto, aprenda a sonhar os sonhos que Deus tem separado para você. Essa é a melhor solução. 

Com carinho

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

DEIXANDO-SE ENGANAR

Às vezes há uma tempestade claramente se formando diante dos olhos da pessoa, mas ela se recusa a ver o que está acontecendo na sua vida. Simplesmente não quer acreditar que vai acontecer algo de ruim.

E quando o mal se materializa, a pessoa se defende afirmando que não teve culpa, pois foi enganada. Na verdade, ela não percebe ter ajudado, até inconscientemente, a criar as condições para que aquela coisa ruim acontecesse na sua vida. 

Por descuido, ou teimosia, ou orgulho (recusando-se a ouvir conselhos), enfim por algum motivo, a própria pessoa contribuiu para o mal que lhe sobreveio. Usando a linguagem bíblica, ela "plantou vento" sem perceber e se surpreendeu ao "colher tempestade".

Minha avó materna tinha uma empregada, moça correta e trabalhadora, que sempre escolhia os piores namorados e acabava sempre se tornando vítima deles. Era tiro e queda: aparecia com um novo namorado e afirmava que daquela vez seria diferente, e sempre acabava vítima de novo.

Os sinais ruins estavam lá, em cada relacionamento que construía, mas aquela moça sempre se recusava a percebê-los e assim repetia sua tragédia. 

É isso que me vem à mente quando analiso o caso mias recente de escândalo no meio evangélico: conhecida cantora acusou seu segundo marido de praticar pedofilia com o filho pequeno dela, fruto de casamento anterior. Ora, ouvindo os depoimentos de diversas pessoas próximas dela e lendo entrevistas anteriores do casal, os sinais de que havia algo errado estavam bem claros e a cantora não quis ver. E hoje tenta se justificar, dizendo ter sido enganada, quando na verdade deixou-se enganar - mesmo sem querer contribuiu para o mal que a acometeu. 

Não falo isso com alegria, pois sei que essa mãe está sofrendo. É importante deixar claro que isso não diminui em nada o ato terrível do marido dessa moça, ao vitimar uma criança inocente O erro da mãe - recusar-se a ver a verdade na frente dela - em nada desculpa o erro do marido. São coisas separadas.

E a maior prova que o erro da mãe existiu foi que no início do seu segundo casamento, ela declarou alto e bom som que seu novo marido era o homem que Deus tinha separado para ela. E como Deus não erra, está claro que quem errou foi a cantora.

Na ânsia de legitimar essa segunda relação, atribuiu a Deus uma escolha que certamente não tinha sido abençoada por Ele, um erro espiritual muito importante. A cantora quis acreditar que seu segundo marido era o companheiro tão esperado e fechou os olhos para os sinais de que havia algo errado. Hoje quer acreditar - em novo auto-engano - que foi só uma vítima, o que evidentemente não é verdade.


Há um caso muito interessante na Bíblia que trata dessa questão. Aconteceu com Isaque, filho de Abraão. Ele e Rebeca, sua mulher, tinham dois filhos: Esaú, o mais velho e o preferido do pai, e Jacó, o protegido da mãe. A rivalidade entre os rapazes sempre foi intensa, fato estimulado pela preferencia escandalosa dos pais por um ou outro dos filhos.

Quando Isaque estava no fim da sua vida, cabia a ele passar para um dos filhos a unção relacionada com a Promessa feita por Deus a Abraão, tornando-o o líder da família. A Bíblia conta que Jacó, ajudado pela mãe, disfarçou-se para ficar semelhante ao irmão, enganou o pai, que enxergava muito mal, e roubou a benção destinada a Esaú.

Ora, Isaque sabia da rivalidade entre os filhos e certamente tinha noção que Jacó iria tentar algum ato desesperado para ficar com a unção, já que era notória a preferencia do pai por Esaú, candidato natural do pai. O relato do momento quando Isaque foi enganado, deixa claro que o estratagema usado foi pobre e o pai desconfiou do disfarce de Jacó (Gênesis capítulo 27). 

Mas ainda assim Isaque deu a Jacó a benção reservada ao irmão. Não há dúvida que Isaque foi enganado porque quis: bem no seu íntimo queria mesmo ser iludido. Talvez quisesse dar a benção para Jacó e lhe faltasse coragem para desapontar Esaú e a trama toda lhe deu a desculpa de que precisava para ficar em paz com sua consciência.


É preciso que as pessoas aprendam a perceber quando contribuem, até sem querer, para o mal que as acomete. E se não fizerem isso, vão acabar repetindo situações ruins, como acontecia com a empregada da minha avó e seus sucessivos namorados.

Concluindo, sua vida tem sido uma repetição de situações ruins, parecidas umas com as outras? Você sempre se pega dizendo que foi enganado(a), que acredita demais nas outras pessoas? Procure avaliar se você mesmo(a) não vem contribuindo para o mal que acomete sua vida. 

Com carinho

sábado, 6 de agosto de 2016

UM GRANDE PROFETA EM CRISE

Elias foi um dos profetas mais importantes na história do povo de Deus. Foi tão importante que, como prêmio, Deus lhe deu a graça de não passar pela morte - foi transladado ao céu ainda em vida (2 Reis capítulo 2, versículos 9 a 14).

Como não morreu, Elias tornou-se o centro de uma profecia, registrada no livro de Malaquias (capítulo 4, versículos 5 e 6), que previu sua volta, o que foi cumprido com a chegada de João Batista (Mateus capítulo 17, versículos 10 a 13). 

Ele realizou muitos milagres ao longo do seu ministério, tantos que sua época pode ser comparada ao período do êxodo de Israel do Egito, liderado por Moisés. Somente nesses dois períodos e durante o ministério de Jesus e dos apóstolos (o começo da Igreja cristã) houve milagres tão importantes, quando Deus interveio na história de forma tão poderosa. 

E isso foi necessário porque Elias enfrentou um enorme desafio: na sua época a fé verdadeira esteve muito ameaçada pelo culto a Baal. E o profeta precisou enfrentar uma luta espiritual terrível e para triunfar, teve que contar com enorme poder vindo do alto.

O que aconteceu com Elias

Baal era o deus da chuva e fertilidade. Sedento de sangue, requeria sacrifícios constantes. Seu culto foi grandemente incentivado por Jezebel, esposa do rei Acabe e cresceu tanto que acabou ameaçando a fé no verdadeiro Deus de Israel. 

Elias liderou a resistência e realizou diversos atos proféticos para desafiar Baal e provar quem era o Deus verdadeiro. Um deles foi clamar por uma seca, que durou vários anos (1 Reis capítulo 17, versículos 1 a 7 e capítulo 18, versículos 1 a 19 e 41 a 46). Isso atacou Baal no seu cerne, pois ela era o deus da chuva - se não havia chuva, para que servia? 

A mesma estratégia usada por Moisés, quando lutou com o faraó do Egito para conseguir a libertação do povo de Israel: cada uma das pragas que lançou atacou diretamente um dos deuses egípcios.

Elias conhecia bem o inimigo contra o qual lutava e feriu-o onde era vulnerável. E aí está um ensinamento de grande importância: ao enfrentarmos batalhas espirituais, precisamos conhecer bem contra quem estamos lutando.

Elias agiu demonstrar temos e enfrentou o rei e sua esposa, mesmo correndo risco de vida (1 Reis capítulo 18, versículos 31 a 40 e capítulo 21, versículos 7 a 24). Com essa atitude, o profeta ensinou que palavras e obras precisam sempre andar juntas. 

Sobretudo, Elias ensinou que devemos depender completamente de Deus. Não devemos tomar atalhos, que parecem tornar a vida mais fácil e segura, mas podem nos afastar de Deus. O profeta poderia ter feito um acordo com o rei (que tentou isso por diversas vezes) e teria sido deixado em paz. Mas não podia comprar sua paz às custas de fazer a vontade de Deus

A crise espiritual

Elias proporciona um excelente exemplo das crises espirituais às quais todos(as), mesmo os(as) cristãos(ãs) mais sinceros(as), estão sujeitos(as). Trata-se daqueles momentos da vida em que instala-se uma escuridão incrível nas nossas almas, quando somos apanhados na nossa própria fraqueza.

Elias alcançou uma enorme vitória contra o culto a Baal, quando enfrentou e venceu quatrocentos profetas desse deus. Aí pensou que finalmente teria sossego, mas foi surpreendido pela notícia que a rainha Jezebel tinha jurado matá-lo. E Elias se sentiu esgotado - caiu em depressão espiritual profunda, a ponto de não querer comer (1 Reis capítulo 19, versículos 1 a 18). 

Nesse momento da sua vida Elias cometeu um erro crucial: julgou-se imprescindível para a obra de Deus. Achou que sem ele, Baal iria triunfar em Israel. E isso lhe foi pesado demais.

Ora, quem defende sua obra é o próprio Deus e ninguém, mesmo os(as) mais importantes líderes da história da igreja cristã, pode ser considerado imprescindível, poder afirmar quem sem ele(a), o reino de Deus não teria sido implantado. 

Profundamente deprimido, Elias foi caminhando sem destino, perdido em meio a seu sofrimento espiritual, até que acabou no monte Sinai (Horebe), o mesmo lugar onde Deus tinha dado os Dez Mandamentos para Moisés. 

Ali, Elias pediu para ver Deus e foi atendido. É interessante perceber que apareceram, em sucessão, um grande vento, um terremoto e um fogo intenso. Mas Deus não estava em nenhuma dessas manifestações grandiosas. Ele estava mesmo num murmúrio suave, que falou diretamente ao coração de Elias e o fez se levantar e encontrar forças para continuar lutando.

Há nessa passagem outro grande ensinamento: Deus sempre surpreende. Ele age de maneira bem diferente daquela que imaginamos. Seus milagres mais impressionantes nunca são feitos em meio a espetáculos grandiosos. Sempre faz as coisas da forma a mais simples e podemos notar isso com clareza nos próprios milagres que Jesus realizou.

Concluindo, Elias é um dos melhores exemplos de um grande homem de Deus relatados na Bíblia: cheio de unção e poder, realizou obras impressionantes. Mas também enfrentou momentos terríveis, quando a escuridão tomou conta da sua alma. E ainda assim teve forças para reagir e encontrar seu caminho de volta para Deus. 

Com carinho

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

A SEPARAÇÃO ENTRE JOIO E TRIGO

Propôs-lhes outra parábola, dizendo: O reino dos céus é semelhante ao homem que semeia a boa semente no seu campo; mas, ... veio o seu inimigo, e semeou joio no meio do trigo... e quando... apareceu também o joio... os servos... disseram-lhe: ... queres pois que vamos arrancá-lo? Ele, porém, lhes disse: não; para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele. Deixai crescer ambos... e, por ocasião da ceifa, ... colhei primeiro o joio e atai-o em molhos para o queimar; mas, o trigo, ajuntai-o no meu celeiro. Mateus capítulo 13, versículos 24 a 30
Essa parábola de Jesus fala sobre uma plantação de trigo contaminada com sementes de joio venenoso, tipo de praga muito semelhante ao trigo que cresce muito mais rapidamente do que ele. Quando uma plantação de trigo é contaminada com joio, a produtividade do trigo cai muito e o agricultor acaba tendo prejuízo.

Na época de Jesus, quando a tecnologia agrícola era ainda bem precária, a contaminação acidental de plantações de trigo com joio venenoso acontecia com certa frequência. Mas na estória contada na parábola, a coisa foi muito pior, pois a contaminação ocorreu de forma proposital e a quantidade de joio "contrabandeada" para o meio do trigo foi muito grande.

O procedimento normal para descontaminar uma plantação de trigo era arrancar o joio manualmente, planta a planta. Mas no caso em questão, isso seria impossível, pois havia muito joio. 

O dono da plantação, agricultor experiente, mesmo assim deu uma solução para o problema: como o joio cresce mais depressa, a solução foi deixá-lo a praga crescer e cortar as plantas indesejadas já maiores, sem prejudicar o trigo. Foi preciso paciência para aguardar o tempo certo, mas o problema acabou resolvido.

É claro que a solução adotada teve custo para o agricultor: o trigo foi preservado, mas sua produtividade caiu, pois precisou conviver com o joio por algum tempo. 

A interpretação dessa parábola é relativamente simples. As sementes são as palavras pregadas para as pessoas. As plantas são o resultado desse processo: a boa semente (a Palavra de Deus autêntica) gera planta boa (cristão sincero), enquanto a semente má (a mensagem distorcida) gera planta ruim (cristão hipócrita, inseguro, etc).

O dono da plantação representa Deus e os seus empregados são aqueles(as) que lideram sua obra, como pastores(as). O inimigo, que semeou a semente má é Satanás, cujo único objetivo é estabelecer confusão no meio do povo de Deus.

Há duas situações que costumam ser associadas a essa parábola. A primeira delas é a constatação que numa mesma comunidade de fé, cristãos(ãs) sinceros(as) precisam conviver com crentes hipócritas, inseguros(as), não comprometidos(as).

E como não é possível distinguir somente olhando o exterior quem é quem - afinal, as aparências enganam - é preciso deixar que os dois tipos de crentes convivam e somente o dia-a-dia vai mostrar as diferenças entre essas pessoas. A necessidade de aguardar que a convivência diária demonstre quem é quem de verdade, é representada na parábola pela atitude do dono da plantação de aguardar o joio crescer, deixar-se notar com clareza, antes de ser cortado.

Não há dúvida que a convivência com cristãos(ãs) hipócritas, não comprometidos, etc, acaba acaba gerando problemas para quem vive sua fé verdadeiramente, mas não há como separar as pessoas de outra forma. Da mesma maneira, conforme ensina a parábola, o trigo sofre certo prejuízo pelo fato do joio ser mantido no seu meio por algum tempo, mas isso é inevitável. 

A outra situação que costuma ser associada à parábola do joio e do trigo aponta para o risco de que verdades bíblicas (semente boa) sejam ensinadas juntamente com conceitos errados (semente ruim). E isso infelizmente acontece com frequência.

Um bom exemplo é o uso dado ao versículo que nos manda evitar a aparência do mal (1 Tessalonicenses capítulo 5, versículo 22). Sem dúvida, esse é um ensinamento correto e que precisa ser obedecido, semente boa, portanto.

O problema está na definição do que é o mal. Frequentemente, pastores(as) apontam como sendo mal coisas que não podem ser consideradas assim à luz da Bíblia. E fazem isso porque, na opinião deles(as), tais coisas precisam ser evitadas.

Na verdade, esses(as) líderes estão simplesmente impondo suas opiniões às pessoas, coisa que não têm direito de fazer. Estão plantando semente ruim. Exemplos desse erro tipo de situação aparecem quando pastores(as) consideram pecado ouvir outra música que não seja gospel, dançar, frequentar festas juninas, usar maquiagem, colocar enfeites de Natal nas casas e outras coisas assim.

A semente boa (coisas que a Bíblia ensina) é misturada com a semente má (coisas que não são bíblicas), formando uma única "plantação" na mente das pessoas, o que nunca é bom.

Agora, muitas vezes é melhor esperar que a fé das pessoas esteja consolidada ("a planta cresça") para poder separar os ensinamentos bíblicos daquelas que não o são. Tentar fazer isso quando a fé da pessoa está apenas dando os primeiros passos, pode gerar confusão na cabeça da pessoa a levá-la a se afastar de Jesus. É preciso ter paciência e aguardar o momento certo.

Concluindo, esse é o principal ensinamento que Jesus nos legou ao contar a parábola do joio e do trigo. É preciso ter paciência e aguardar o momento certo para agir, mesmo para fazer aquilo que é o certo. Agir cedo demais pode prejudicar tanto quanto nada fazer.

Com carinho

terça-feira, 2 de agosto de 2016

OS DEZ MARCOS DA VIDA DE JESUS

Quais são os fatos mais importantes da vida de Jesus? A resposta, acredito eu, depende do ponto de vista, isto é do critério usado (por exemplo, importância teológica, impacto na vida dos discípulos ou significado histórico).

Para fazer minha lista, usei um critério bíblico: inclui nela os fatos que foram descritos nos quatro Evangelhos. Esse critério parte do princípio que cada evangelista escolheu aquilo que iria relatar com base no que considerou mais importante para a audiência que pretendia atingir. Foi por causa disso, por exemplo, que somente dois dos quatro evangelistas (Mateus e Lucas) escolheram falar da infância de Jesus.

Imagino que quatro evangelistas, com pontos de vista tão diferentes, escolheram todos relatar determinado fato é porque ele foi considerado de extrema importância por toda a comunidade cristã. Simples assim.

Quais são então esses fatos? São dez apenas e vamos a eles:

1. O batismo de Jesus (Mateus 3:1-2 e 13-17, Marcos 1:1-11, Lucas 3:1-23, João 1:19-34)

O ministério de João Batista - profeta que veio preparar o caminho para Jesus, convocando o povo judeu para o arrependimento - foi considerado pelo próprio Jesus de enorme importância. Ele chegou a afirmar que nenhum homem judeu (nem Abraão, Moisés ou Davi) tinha sido mais importante do que João Batista.

E a maior prova dessa importância dada ao ministério de João Batista foi o fato de Jesus ter-se deixado batizar por ele. É óbvio que Jesus não tinha pecado e, portanto, não precisava se arrepender ou se batizar. Mas como a culpa, em Israel, era sempre considerada na coletividade como um todo, tal batismo teve razão de ser.

Depois de ser batizado, Jesus passou um período como discípulo de João, antes de começar seu próprio ministério. E vários dos discípulos do Batista, como Pedro e André, tornaram-se depois discípulos de Jesus.

2. A multiplicação dos pães e peixes (Mateus 14:13-21, Marcos 6:30-44, Lucas 9:10-17, João: 6:1-14)

Trata-se do milagre em que Jesus multiplicou uns poucos pães e peixes para alimentar uma multidão de vários milhares de pessoas. Com esse milagre, Jesus reafirmou sua posição como o "Pão da Vida", nossa fonte permanente de alimentação espiritual.

Escrevi recentemente sobre esse milagre - consulte esse post se quiser maiores detalhes. 

3. Jesus purifica o Templo (Mateus 21:12-17, Marcos 11:115-18, Lucas 19:45-46, João 3:13-17)

O Templo de Jerusalém era o centro da vida religiosa do povo judeu. E esse complexo religioso era totalmente dominado pela classe sacerdotal que se aproveitava desse fato para enriquecer.

Com efeito, só podiam ser sacrificados ali animais considerados puros, isto é sem defeitos ou máculas. E quem determinava tal pureza eram os próprios sacerdotes - naturalmente privilegiavam os animais que eles mesmos criavam e vendiam, através de terceiros, por preços acima do mercado.

Além disso, todo judeu era obrigado a pagar uma taxa para o funcionamento do Templo. E os sacerdotes estabeleceram que essa taxa somente poderia ser paga numa moeda do Líbano, chamada didracma, difícil de encontrar. Então as pessoas precisavam fazer câmbio de dinheiro, ao chegar a Jerusalém, para poder cumprir sua obrigação.

E quem dominava o comércio de câmbio de moedas? Evidentemente, os sacerdotes, que enriqueciam com essa prática.

Foram exatamente os cambistas de moedas e vendedores de animais que Jesus expulsou do recinto do Templo, quando afirmou que ali era lugar de oração e não de comércio. E com isso criou inimigos mortais entre os sacerdotes.

4. A denúncia do traidor (Mateus 26:21-25, Marcos 14:18-21, Lucas 22: 21-23, João 13:21-30)

Judas, diferentemente do que muitos possam pensar, não estava pré-destinado a ser o traidor de Jesus - se fosse assim, ele não seria realmente culpado pelo que fez.

Não, Judas agiu por conta própria, pois tinha caráter mau - tanto assim, que roubava dinheiro do grupo de Jesus, do qual era tesoureiro (João 12:1-8).

Mesmo sabendo que Judas seria o traidor, Jesus o tratou sempre com grande consideração - por exemplo, deu-lhe um bocado na boca para comer, o que era considerada grande honra.

Judas traiu por escolha própria. Seus atos pecaminosos deram a brecha para que Satanás o dominasse.

5. A prisão de Jesus e a fuga dos discípulos (Mateus 26:36-56, Marcos 14:32-52, Lucas 22:39-53, João 18:1-12)

Depois de tomar a última ceia com seus discípulos, Jesus foi para um lugar chamado Getsêmani, também conhecido como Jardim das Oliveiras. Ali existia um local para espremer azeitonas e fazer óleo, produto de alto valor comercial. Esse jardim ainda existe nos dias de hoje, pois as oliveiras são árvores que podem viver milhares de anos. É um local pequeno, com cerca de 50 m x 50 m mais ou menos.

Ali Jesus ficou profundamente angustiado - sabia o sofrimento que lhe estava reservado e seu lado baqueou, tanto assim que chegou a suar sangue. E Ele enfrentou essa dificuldade como sempre fazia: orando, pedindo ao Pai que lhe desse forças para resistir.

E naquele mesmo Jardim Jesus foi encontrado pelos guardas do Templo e outras pessoas mandadas pelos líderes religiosos judeus. Entre eles estava Judas, que identificou Jesus com um beijo.

É interessante perceber que a mesma palavra usada para o beijo da traição foi usada por Jesus na parábola do "Filho Pródigo", na cena em que o pai (Deus) beijou o filho arrependido (o pecador), que voltava para casa.

Um beijo - o do ser humano em Deus - foi para traição, enquanto o outro beijo - o de Deus no ser humano - foi de perdão e aceitação. Que contraste!

Os discípulos tentaram reagir à prisão de Jesus - Pedro chegou a ferir Malco, servo do sumo-sacerdote -, mas foram impedidos por Ele. A violência não era a resposta certa para o que estava acontecendo ali.

Restou, então, aos discípulos fugir para salvar suas próprias vidas. E deixaram Jesus sozinho.

6. Pedro nega Jesus três vezes (Mateus 26:58-75, Marcos 14:66-72, Lucas 22:54-62, João 18:15-18)

Pedro fora avisado que haveria de negar Jesus por três vezes. E o próprio Jesus fez essa profecia num momento em que Pedro, sempre impulsivo, afirmou amar seu Mestre sobre todas as coisas. A imagem que Jesus usou foi interessante: Satanás iria "peneirar" Pedro.

É de se notar também que, nesse mesmo diálogo, Jesus diz para Pedro: "tu pois, quando te converteres..."

Ou seja, depois de três anos de convivência com Jesus, Pedro ainda não havia se convertido! E isso continua a acontecer hoje em dia: as igrejas cristãs estão cheias de pessoas não convertidas. Gente que frequenta, participa dos rituais e até dá seu dízimo mas, por exemplo, não consegue amar o próximo.

A profecia de Jesus se confirmou e Pedro realmente negou Jesus e fez isso diante de uma simples escrava, pessoa do mais baixo nível da escala social da época. Pedro negou por medo, por se sentir embaraçado de ser visto como seguidor de Jesus.

Tanto Pedro como Judas cometeram pecados terríveis - ambos traíram Jesus. A diferença é que Pedro se arrependeu e confiou na misericórdia de Deus, tendo sido perdoado e restaurado, enquanto Judas se desesperou e se matou: o primeiro foi salvo, enquanto o segundo não.

7. Jesus perante Pilates (Mateus 27:2-26, Marcos 15: 1-15, Lucas 23:1-25, João 18:28-40)

Pôncio Pilatos foi governador da Província Romana da Judeia entre os anos de 26 e 36 da nossa era. Era homem corrupto, injusto e violento. Foi demitido pelo Imperador romano e acabou sua vida exilado.

Os líderes judeus recorreram a Pilatos porque a pena de morte naquela situação deveria ser aplicada pelo governador. E ao fazer isso, contribuíram para que fosse cumprida a profecia de que o Messias haveria de ser "pendurado no madeiro" - se a punição tivesse sido aplicada pelos próprios líderes judeus Jesus teria sido apedrejado, como aconteceu com o diácono Estevão (Atos 7:54-60).

Pilatos foi colocado pelos líderes judeus numa situação difícil: sabia que Jesus era inocente mas não queria contrariar os alto-sacerdotes. Esse é um dilema comum na nossas vidas: de um lado, o dever (fazer aquilo que é certo) e de outro o interesse pessoal (aquilo que gera vantagens). Pilatos escolheu ficar com seu interesse e mandou crucificar Jesus.

Os relatos também falam que os judeus preferiram que Pilatos soltasse Barrabás, um criminoso, em lugar de Jesus. Preferiram a violência do primeiro em lugar do amor do segundo. A anarquia de um em lugar da lei e da ordem do outro. O pecador no lugar d´Aquele sem mácula.

8. A crucificação e morte de Jesus (Mateus 27:31-50, Marcos 15:20-37, Lucas 23: 26-46, João 19:16-30)

A crucificação era o pior castigo que os romanos aplicavam, pois se tratava de suplício particularmente doloroso - o condenado morria aos poucos, por asfixia. Estava reservada aos piores criminosos e às pessoas que se revoltavam contra o domínio romano.

A crucificação era sempre precedida pelo chicoteamento (flagelamento) e pelo desfile vergonhoso do condenado carregando a trave horizontal da cruz onde seria crucificado (o patíbulo). Jesus passou por tudo isso, conforme a descrição detalhada dos Evangelhos.

Também eram práticas correntes a divisão das vestes do condenado entre os soldados e a atestação final da morte através da penetração de uma lança no corpo do condenado, coisas pelas quais Jesus também passou.

Jesus disse sete frases durante sua agonia na cruz, normalmente repetidas durante as comemorações da Sexta Feira da Paixão:
  • Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem.
  • Mulher [falando com Maria, sua mãe], eis aí teu filho [referindo-se ao apóstolo João].
  • Hoje mesmo estarás comigo no paraíso [dirigindo-se ao ladrão que o aceitou como Salvador e estava morrendo ao seu lado noutra cruz].
  • Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste.
  • Tenho sede.
  • Está consumado.
  • Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito.

9. O sepultamento de Jesus (Mateus 27:57-61, Marcos 15:42-47, Lucas 23:50-56, João 19:31-42)

O sepultamento de Jesus foi feito às pressas porque Ele morreu numa sexta feira, pouco antes do por do sol, quando começava o sábado, período no qual não se podia realizar qualquer trabalho.

Mediante a interferência de José de Arimateia, homem rico e importante, que falou com Pilatos, o corpo sem vida de Jesus foi retirado da cruz e levado para uma sepultura que nunca tinha sido usada e que foi cedida pelo próprio José.

Jesus foi sepultado num jardim, o que é altamente simbólico: foi num jardim (o Éden) que o pecado entrou no mundo e foi noutro jardim que o pecado foi derrotado.

10. Aparições do Cristo ressuscitado (Mateus 28:16-20, Marcos 16:9-20, Lucas 24:12-53, João 20:1-29)

Depois de ressuscitar, durante quarenta dias, Jesus apareceu para muita gente. Primeiro, para Maria Madalena, que teve essa honra, no domingo logo cedo, quando ela foi visitar a sepultura. Depois, apareceu para outras mulheres, para dois discípulos a caminho da cidade de Emaús, para os onze apóstolos restantes, para sete discípulos na Galileia, para Tiago e para uma multidão no monte das Oliveiras.

Essas aparições tiveram por objetivo atestar que Jesus tinha mesmo ressuscitado e elevar a moral dos seus seguidores. 

E aqui termino o relato dos principais marcos na vida de Jesus. É interessante observar que ficaram de fora eventos da maior importância, como a última ceia de Jesus com seus discípulos, quando Ele comparou o pão ao seu corpo e o vinho ao seu sangue, ou a transfiguração, quando suas vestes ficaram alvas como a neve, ou ainda os ensinamentos do Sermão da Montanha. Como disse, a lista final sempre depende do critério de escolha que for utilizado. 

Com carinho