segunda-feira, 13 de abril de 2020

AS ESCOLHAS ESTRANHAS DE DEUS


Deus realmente faz escolhas que nos parecem, à primeira vista, estranhas. E há muitos exemplos disso na Bíblia.

Às vezes as escolhas de Deus nos parecem lógicas. Por exemplo, o povo de Israel sofria um cativeiro cruel no Egito há mais de 400 anos, quando Deus mandou um libertador, Moisés. E a escolha de Moisés, parece fazer todo sentido, pois ele tinha sido criado como príncipe no Egito e, portanto, era muito mais preparado do que todos os demais israelitas, que sempre tinham vivido como escravos. 

Mas essa não parece ser a regra. Frequentemente Deus faz escolhas que parecem muito estranhas aos nossos olhos. Por exemplo, João Batista foi o profeta escolhido para antecipar o ministério de Jesus. E ele era uma figura muito esquisita: morava no deserto, alimentava-se de gafanhotos e mel e vestia-se de pele de camelo. Imagine encontrar um pessoa como João Batista, cheirando mal (certamente ele passava longo tempo sem tomar banho), com barba e cabelo desgrenhados e olhar fixo. Confesso que eu ficaria muito mal impressionado com esse profeta e acredito que você também. 

O que dizer, então, dos apóstolos chamados por Jesus. Um deles, Mateus (Levi), era coletor de impostos. Naquela época, os judeus tinham horror dos coletores de impostos por uma razão muito simples: eles eram corruptos e exploravam impiedosamente o povo.

Isso porque os dominadores romanos escolhiam os coletores de impostos com base nas ofertas que recebiam das pessoas interessadas nessa função. Quem oferecia arrecadar mais do povo, levava o cargo. Simples assim. Ora, um judeu somente iria se interessar por essa função se pudesse obter grande lucro, mesmo depois de dar a parte dos romanos. E para conseguir obter esse resultado, os coletores de impostos cobravam quantias escorchantes das pessoas.

E a história relata que os coletores de impostos enriqueciam, como foi o caso de Zaqueu, a quem Jesus visitou e converteu (Lucas capítulo 19, versículos 1 a 10). Enriqueciam com base no sofrimento alheio, exatamente como fazem os políticos corruptos dos nossos dias.

Aí vem Jesus e escolhe um coletor de impostos para ser apóstolo. Confesso, que se eu visse um pastor escolher um político corrupto para assessorar seu ministério, passaria a olhar o próprio pastor com desconfiança. E certamente muitos dos contemporâneos de Jesus também pensaram assim.

Jesus escolheu ainda quatro pescadores (Pedro, André, João e Tiago) para serem apóstolos. Ora, os pescadores eram homens rudes e até agressivos - o apelido que João e Tiago tiveram ("filhos do trovão"), segundo Marcos capítulo 3, versículos 16 e 17) certamente não se deveu ao fato de serem gentis e suaves. Pescadores eram também pouco estudados. Portanto, no seu conjunto não pareciam ser as pessoas ideais para discutir questões teológicas e converter pessoas, como passaram a fazer, ao acompanhar Jesus. E Jesus ainda assim escolheu esses quatro homens e dois deles (Pedro e João) vieram a ser figuras fundamentais no início da vida da Igreja cristã. 

E o que dizer de Judas Iscariotes, homem corrupto e traidor? E de Simão, o Zelote, que pertencia a uma seita de judeus que pregava a resistência violenta ao domínio romano? 

Certamente, se eu estivesse lá teria achado as escolhas de Jesus bem estranhas. Chegaria a pensar que Jesus corria o risco de prejudicar seu próprio ministério ao se associar com gente desse tipo (basta lembrar do ditado "dize-me com quem andas e vos direis quem és").

É surpreendente que o cristianismo tenha se desenvolvido da forma como fez - menos de trezentos anos depois da morte de Jesus, tornou-se a religião oficial do Império Romano -, tendo como matriz gente desse tipo. 

Penso que há dois ensinamentos muito importantes nessa discussão. Primeiro, somos nós quem escolhemos errado. As escolhas de Deus parecem estranhas para nós simplesmente porque usamos critérios diferentes do que Ele e não sabemos escolher muito bem. Olhamos para o exterior e deixamos nos levar pelas aparências. Já Deus olha para o interior da pessoa e vê o que de fato existe ali. 

O segundo ensinamento é que ninguém deve se considerar incapaz ou indigno de fazer a obra de Deus. Quando Ele chama alguém para fazer sua obra, capacita essa pessoa, dando-lhe condições para cumprir sua missão com sucesso. Não importa a origem dessa pessoa e o que ela já fez na vida. O que importa é a escolha de Deus.

Portanto, só cabe a quem é chamado por Deus dizer simplesmente: "eis me aqui, envia-me a mim".  

Com carinho

sábado, 11 de abril de 2020

A FACE DO PAI

As crianças costumam fica procurando a face do seu pai e/ou da sua mãe para ver se está tudo bem. Para saber se estão em segurança. A face do pai ou da mãe é uma referência que as crianças usam muito no seu dia-a-dia.

As crianças também usam essa mesma referência para outra coisa muito importante: ver se têm aprovação para aquilo que estão fazendo. Lembro bem quando meu pai foi ver um jogo de futebol onde eu joguei. Eu fiquei muito alegre e orgulhoso com a presença dele ali, ainda mais porque consegui marcar um gol - até hoje me lembro da figura dele me olhando durante aquele jogo. A aprovação do meu pai, naquele dia, ficou marcada na minha vida.

A Bíblia ensina que devemos procurar a face do nosso Pai celestial. E esse é um ensinamento que podemos encontrar em diversos locais, como no Salmo 80. Devemos buscar Deus para obter segurança quanto à nossa situação, para obter aprovação para nossas atitudes e também para construir uma relação íntima com Ele. E isso é muito importante para nossa vida espiritual.

É sobre isso que falo no meu mais novo vídeo - veja aqui.

Veja outros vídeos recentes meus aqui e aqui.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

O EVANGELHO DE MARCOS É DIFERENTE?


O Evangelho de Marcos é diferente dos demais? Marcos foi o primeiro Evangelho a ser escrito, conforme admitem praticamente todos os estudiosos da Bíblia. E provavelmente foi usado como referência por Mateus e Lucas, ao escreverem seus respectivos Evangelhos. Logo, esse texto é de grande importância para o cristianismo.
A tradição aponta João Marcos como o autor desse Evangelho, daí o nome que o texto tem. João Marcos foi, inicialmente, companheiro de viagem de Paulo, mas não teve comportamento muito responsável durante a primeira viagem missionária do apóstolo.
Por causa disso, Paulo não quis levá-lo na sua segunda viagem e essa decisão acabou gerando uma briga entre Paulo e Barnabé, que era tio de João Marcos. Paulo e Barnabé se separaram e o apóstolo seguiu viagem somente na companhia de Silas (Atos 15:36-40). Agora, como Deus sempre dá uma outra chance para as pessoas, Marcos acabou se tornando companheiro importante de Pedro (1 Pedro 5:13), indo com ele para Roma, onde escreveu seu Evangelho.

Sendo assim, é normalmente reconhecido pelos estudiosos que o Evangelho de Marcos contém o ponto de vista de Pedro sobre os fatos ocorridos com Jesus, já que esse apóstolo foi a principal fonte de informação usada por João Marcos. Acredita-se que João Marcos também colheu informações por conta própria, pois morou em Jerusalém e provavelmente conheceu Jesus (Atos 12:12).

A característica mais marcante do Evangelho de Marcos é ritmo de relato rápido - o foco está sempre sobre os fatos ocorridos com Jesus e suas ações (curas, libertação de demônios, etc). Não há muita preocupação nesse texto em registrar as pregações de Jesus, com exceção do que está relatado nos capítulos 4 e 13.

Para se ter uma ideia de como Marcos avança rápido no seu relato, no centésimo versículo desse Evangelho Jesus já está desenvolvendo seu ministério. Em comparação, o centésimo versículo de Lucas ainda está falando do nascimento de Jesus - os pastores tendo a visão dos anjos.
Os públicos de Jesus segundo Marcos
O texto de Marcos costuma ressaltar três tipos de público para as pregações de Jesus: 1) os escribas e fariseus; 2) a multidão; e 3) os discípulos. 
Os escribas e fariseus, quando em grupo, invariavelmente respondiam negativamente à pregação de Jesus. Criticavam-no abertamente, questionavam "quem ele pensa que é", achavam que Jesus estava blasfemando e assim por diante. Veja um exemplo:
Outra vez entrou na sinagoga, e estava ali um homem que tinha uma das mãos mirrada. E estavam observando-o se curaria no sábado, para o acusarem...olhando para eles em redor com indignação, condoendo-se da dureza do seu coração, disse ao homem: Estende a tua mão. E ele a estendeu e foi-lhe restituída a sua mão, sã como a outra. tendo saído os fariseus, tomaram logo conselho com os herodianos contra ele, procurando ver como o matariam. Marcos capítulo 3, versículos 1 a 6
A multidão ficava sempre maravilhada pelos ensinamentos de Jesus. As pessoas comentavam entre si: "nunca vimos uma coisa assim..." Veja um exemplo:
Chegando o sábado, começou a ensinar na sinagoga; e muitos, ouvindo-o, se admiravam, dizendo: De onde lhe vêm estas coisas? que sabedoria é esta que lhe foi dada? e como se fazem tais maravilhas por suas mãos? Marcos capítulo 6, versículo 2
É interessante observar que essa admiração da multidão não gerou ação concreta - as pessoas ouviam e continuavam sua vida sem nada mudar. 
Normalmente, se pensa que os discípulos seguiram Jesus para aprender e, ao final do seu treinamento, saírem pelo mundo pregando a mensagem da salvação e da vinda do Reino de Deus. Mas não é isso que o relato de Marcos indica: Jesus teve muito trabalho para colocá-los no caminho certo. Na verdade, na maioria das vezes os discípulos não conseguiram entender o que Jesus disse. Interpretavam quase tudo que Ele falava de forma errada. Faziam perguntas estúpidas e totalmente fora do contexto. Veja um exemplo:
Eles se esqueceram de levar pão e, no barco, não tinham consigo senão um pão. Ordenou-lhes [Jesus], dizendo: "Olhai, guardai-vos do fermento dos fariseus e do fermento de Herodes". E discutiam entre si, dizendo: "É porque não temos pão". Jesus, conhecendo isto, disse-lhes: "Para que dizeis que não tendes pão?" "Não considerastes, nem compreendestes ainda?"... "Tendo olhos, não vedes e tendo ouvidos, não ouvis?" Marcos capítulo 8, versículos 14 a 18
Toda vez que um desses grupos aparece no texto de Marcos, o leitor já sabe mais ou menos o que vai acontecer. Se forem escribas e fariseus, a reação será negativa, se for uma multidão, as pessoas irão se maravilhar e se forem os discípulos, haverá uma reação meio sem noção.  
Esses três públicos representam três formas erradas de reagir à pregação de Jesus. Há quem responda negativamente ao que Ele ensinou - questiona tudo e até acha que Jesus estava errado. Essas pessoas são como os escribas e fariseus. 
Há também quem ouça a mensagem de Jesus e se entusiasme, como fazia a multidão. Mas não faça nada a partir daí - os ensinamentos de Jesus ficam na memória, mas não criam raízes no comportamento, não geram mudança de vida.

E, finalmente, assim como os discípulos, há quem não entenda o que Jesus ensinou. Talvez porque seus preconceitos e forma estreita de pensar tornem difícil entender uma mensagem de amor e perdão.
Concluindo, o Evangelho de Marcos é um texto curto - são apenas dezesseis capítulos - e fácil de ler. Vale a pena investir seu tempo em conhecê-lo. Você vai aprender muito. 

Com carinho

terça-feira, 7 de abril de 2020

DOIS ERROS NÃO FAZEM UM ACERTO


A matemática ensina que aplicar dois sinais negativos a um termo de uma equação equivale a um sinal positivo. Os dois sinais negativos se anulam mutuamente e acabam produzindo um valor positivo. E muita gente tenta usar esse conceito na vida: Essas pessoas pensam que dois erros cometidos em sucessão, quando o segundo erro busca corrigir o primeiro, podem gerar um acerto. Mas não podem.
Na verdade, dois erros costumam gerar um problema maior do que o erro inicial, pois o segundo erro pode potencializar as consequências negativas do primeiro. E há exemplos fortes desse tipo de situação em todos os campos da vida.
Há muitos relatos aqui no site de pessoas que se casaram, sem querer fazer isso, apenas para corrigir uma gravidez indesejada. O primeiro erro foi a gravidez indesejada e segundo, cometido para corrigir o primeiro, foi um casamento feito em bases frágeis. E o casal acaba descobrindo, com o passar do tempo, que entrou numa relação profundamente infeliz e acaba pagando um preço muito alto para manter essa relação viva.
Melhor teria sido que os jovens pais tivessem assumido a criança e encontrado uma forma de colaborar para seu sustento e educação. É claro que quando os pais têm certeza e maturidade suficientes para assumir o casamento, essa é a solução ideal. Mas, quando essas condições não existem, o casamento apressado vira um problema ainda maior, que somente vai piorar as coisas.
Outro exemplo bem comum: a pessoa mente para esconder alguma verdade incômoda. Por exemplo, o homem está traindo sua esposa e mente para justificar seu atraso para chegar em casa, alegando que estava trabalhando. Aí, num segundo momento, para consolidar a primeira mentira, esse homem comete o segundo erro: pede a um colega de trabalho que confirme a mentira dele para a esposa. E coloca o colega de trabalho numa situação difícil. Esse segundo erro traz o problema para dentro do seu ambiente profissional, colocando em risco o próprio emprego - eu já vi gente ser demitida por causa disso.   

A política brasileira também gera muitos exemplos desse tipo de situação. O governo federal periodicamente passa pela necessidade de enfrentar o deficit crescente das contas públicas, problema gerado porque ele gasta mal e além do que deveria. Aí, ao invés de fazer um corte ordenado dos gastos e procurar melhorar a gestão do orçamento, tradicionalmente o governo federal tenta tapar o buraco fiscal (o primeiro erro), fazendo um erro novo: cria novos impostos para tentar conseguir arrecadar mais. 

Ora, novos impostos tiram dinheiro da mão das pessoas e das empresas e o joga no colo do governo, que não sabe gastá-lo bem. E como o aumento da arrecadação equilibra a situação por um tempo, o governo acaba sem incentivo para melhorar. Pior ainda, o aumento da carga de impostos reduz a atividade econômica do país e o governo acaba arrecadando menos em impostos, o que contribui para o aumento do rombo. Por causa disso, nos últimos 25 anos, a carga de impostos no Brasil cresceu 50% e o governo continua com um deficit terrível e os serviços públicos seguem cada vez pior.  
A Bíblia também traz inúmeros exemplos de como dois erros não fazem um acerto. Um desses casos aconteceu com o rei Davi. Ele adulterou e engravidou Bate-Seba, esposa do seu capitão da guarda, Urias. Esse foi o primeiro erro. Davi tentou esconder o mal-feito, procurando fazer com que Urias pensasse ser o pai da criança. Mas como isso não se mostrou viável, Davi mandou matar Urias e casou-se com a viúva. Esse foi o segundo erro.
Davi pensou que o segundo erro iria evitar um terrível escândalo, causado pelo primeiro erro (o adultério). E os resultados foram desastrosos: o escândalo estourou da mesma forma e Davi foi severamente punido por Deus. Teria sido muito melhor que Davi tivesse se arrependido e assumido o primeiro erro, enfrentando suas consequências e não teria a morte de um inocente nas suas costas. 

Esse tipo de situação costuma ser comum nas igrejas. Por exemplo, há pastores/as que não têm suficiente conhecimento teológico e preparo para enfrentar os desafios do mundo atual, especialmente para discutir as dúvidas trazidas pelos jovens. E ficam inseguros. É claro que os pastores/as deveriam ser suficientemente preparados e a há aí, portanto, um erro.

Como ficam inseguros ao lidar com questionamentos, esses/as pastores/as tentam corrigir a situação cometendo um segundo erro: cortam toda a possibilidade de debate nas suas igrejas e passam a atuar como pequenos/as ditadores/as. Tentam corrigir sua falta de preparo teológico com o controle excessivo, erro ainda pior. E acabam alienando muita gente, especialmente os mais jovens.
A Bíblia ensina que os erros devem ser reconhecidos e a pessoa precisa fazer esforços para superá-los, passando a agir da forma certa. Qualquer outra atitude somente torna as coisas ainda piores. Portanto, a resposta para um erro é seu reconhecimento, o arrependimento e o esforço para mudar de vida. Qualquer coisa que vá além disso, acaba tornando as coisas piores.
Reconhecer o próprio erro, mesmo em situações potencialmente embaraçosas, é um enorme desafio. Frequentemente, a solução mais fácil parece ser cometer um novo erro. Parece ser, por exemplo, mais fácil mentir uma segunda vez para esconder uma mentira anterior. Mas dois erros nunca fazem um acerto.  

Mas não é possível viver uma vida cristã plena sem conseguir superar esse tipo de desafio. 

Com carinho 

domingo, 5 de abril de 2020

A PERDA DA ESPERANÇA: O SENTIMENTO DE DESESPERO

Recentemente li o relato sobre os últimos dias de vida de uma mulher idosa. No Dia de Ação de Graças, ela, em meio a seu desespero, disse para Deus que não tinha nada para agradecer. Era viúva, estava doente há vários anos, sua filha morrera relativamente jovem e os netos não lhe davam importância. As memórias de tempos melhores eram, para ela, como fantasmas, assombrando sua existência. Seu desespero era palpável, pois não tinha mais qualquer esperança.
Desespero: um sentimento passivo
Ciúme e desespero têm algo em comum: ambos partem da preocupação com a perda. Mas, o ciúme é ativo, já que a pessoa se vale desse sentimento para lutar contra a possibilidade de perda. Já o desespero é passivo: a pessoa aceita uma realidade que lhe parece terrível e deixa de lutar, depois de ver sua esperança destruída.
O desespero não costuma chegar na vida de uma pessoa de forma inesperada e direta. Os sentimentos da pessoa costumam passar por estágios, à medida em que ela, gradativamente, vai se dando conta da seriedade da sua situação. O processo começa com o desapontamento, passa pela tristeza, chega à depressão e acaba no desespero.

O desapontamento é um sentimento leve de frustração ou perda de alguma coisa – por exemplo, eu tenho o desapontamento de não ter desenvolvido meus dons musicais. Desapontamento é bastante comum e pode ser facilmente superado.

Já a tristeza costuma ter raízes mais profundas. Ela nasce num sentimento de vazio pela constatação que o mundo não é benigno e não vai atender todos os desejos da pessoa. A tristeza costuma estar ligada a alguma causa específica, como uma derrota séria, a perda de um ente querido ou o fim de um relacionamento amoroso sério. É costume que a tristeza faça a pessoa chorar. Mas, passado o luto, a tristeza acaba sendo controlada.
A depressão é muito mais séria e incapacitante. Trata-se de um estado mental que acaba se tornando permanente, se não for tratado. Ela costuma se manifestar através de sintomas como insônia, incapacidade de se concentrar e perda da energia vital. A depressão precisa ser tratada com ação em vários campos, inclusive através de remédios.
O fundo do poço, nessa progressão, é o desespero: a ausência total de esperança, acompanhada por sentimento esmagador de impotência e inutilidade da própria vida. O desespero leva à resignação com a própria sorte e frequentemente ao suicídio. Estão presentes no desespero todas as raízes da destruição: sentimento de abandono e perda, morte do desejo e desaparecimento da esperança. É um estágio muito sério que precisa de tratamento extremamente especializado em todos os campos da natureza humana. Não é fácil conseguir recuperar uma pessoa nesse estágio.
O desespero entre os crentes
Muita gente acha que o desespero não cabe na vida de um cristão verdadeiro. Para esse grupo de pessoas, se alguém está desesperado é porque não tem fé e/ou está em pecado grave. Mas, esse é um grande erro e tal tipo de diagnóstico só torna as coisas piores.
O desespero pode sim aparecer na vida de qualquer cristão. Li recentemente o depoimento de um norte-americano, homem profundamente evangélico e de grande fé. O desespero bateu à sua porta quando ele recebeu um telefonema da polícia, dizendo que sua filha querida tinha sido presa por roubo de uma loja. Ele correu para a delegacia, imaginando que tudo não passava de um engano terrível. Até que percebeu que a realidade era aquela mesma.

Quando a menina foi liberada pela polícia, pai e filha enfrentaram uma realidade devastadora: a adolescente seria processada criminalmente como adulta. O pai entrou em depressão e, à medida em que a situação legal da menina foi se agravando, o desespero chegou. Ele se deu conta que sua filha poderia acabar numa unidade prisional. Pela sua cabeça começaram a passar constantemente as coisas boas que a família tinha vivido junta, a presença da filha na igreja que frequentavam e todos os sonhos que ele e sua mulher tinham para a garota. O pai se sentiu vazio, perdido, experimentando um terrível sentimento de perda e sem esperanças.

Uma coisa boa que esse homem fez foi falar do seu sentimento. Afinal, não há porque o cristão se sentir diminuído ou tentar esconder seu sentimento por vergonha. Reconhecer a própria condição ajuda e, tanto é assim, que os Salmos estão recheados de relatos do desespero humano. E Deus nunca critica essas manifestações.
Alguns dos salmos mostram o sentimento de desespero sendo “domado” - os salmistas acabam se voltando para Deus e recuperam sua esperança e alegria de viver. Mas, nem sempre esse é o caso. Por exemplo, veja o Salmo 88, cujo autor é Hemã:
SENHOR Deus da minha salvação, diante de ti tenho clamado de dia e de noite. Chegue a minha oração perante a tua face, inclina os teus ouvidos ao meu clamor; Porque a minha alma está cheia de angústia, e a minha vida se aproxima da sepultura. Estou contado com aqueles que descem ao abismo; estou como homem sem forças, Livre entre os mortos, como os feridos de morte que jazem na sepultura, dos quais te não lembras mais, e estão cortados da tua mão. Puseste-me no abismo mais profundo, em trevas e nas profundezas. Sobre mim pesa o teu furor; tu me afligiste com todas as tuas ondas. Alongaste de mim os meus conhecidos, puseste-me em extrema abominação para com eles. Estou fechado, e não posso sair. A minha vista desmaia por causa da aflição. Senhor, tenho clamado a ti todo o dia, tenho estendido para ti as minhas mãos. Mostrarás, tu, maravilhas aos mortos, ou os mortos se levantarão e te louvarão? Será anunciada a tua benignidade na sepultura, ou a tua fidelidade na perdição? Saber-se-ão as tuas maravilhas nas trevas, e a tua justiça na terra do esquecimento? Eu, porém, Senhor, tenho clamado a ti, e de madrugada te esperará a minha oração. Senhor, porque rejeitas a minha alma? Por que escondes de mim a tua face? Estou aflito, e prestes tenho estado a morrer desde a minha mocidade; enquanto sofro os teus terrores, estou perturbado. A tua ardente indignação sobre mim vai passando; os teus terrores me têm retalhado. Eles me rodeiam todo o dia como água; eles juntos me sitiam. Desviaste para longe de mim amigos e companheiros, e os meus companheiros sãos as trevas.
Esse é considerado o salmo mais desesperado da Bíblia - a agonia do escritor pode ser percebida em todo o texto. O único fio de esperança que ainda permanece é o fato do autor se importar de levar seu lamento até Deus. As frases finais da poesia mostram que Hemã está perto da destruição emocional.
Quando o desespero chega…
É a esperança que nos faz tocar a vida, mesmo em meio a grandes dificuldades – eu tenho experiência pessoal disso. A esperança atesta que um dia a dor vai passar, as dificuldades serão resolvidas e será possível voltar a sentir prazer na vida. A esperança é a antecipação que os desejos do presente serão satisfeitos no futuro. Mas, quando a esperança é estilhaçada o sofrimento torna-se enorme. E é isso que o livro de Provérbios atesta: A esperança adiada desfalece o coração, mas o desejo atendido é árvore de vida. Provérbios 13:12
Mas, quando há um ciclo de frustrações, gerado por decepções contínuas e muitas vezes crescentes, onde seguidamente a esperança renasce e é de novo estilhaçada, a esperança pode morrer definitivamente. A pessoa passa a pensar que é melhor não esperar mais nada para não voltar a se decepcionar. Aí chega o desespero.
A perda costuma levar à solidão – é como a pessoa escapasse em direção ao isolamento. E ela pode se isolar até daqueles que mais têm significado na sua vida. E sem relacionamentos humanos o mundo parece perigoso, frio e sem qualquer sentido. O desespero se agrava.
Sem esperança e isolada de tudo e todos, a pessoa passa a se comportar como uma morta-viva. Funciona como se fosse um robô, quando funciona.
O que fazer?
Vivemos num mundo onde o pecado se faz presente, onde muitas das expectativas das pessoas nunca serão preenchidas, onde as perdas e frustrações são reais. E é sobre isso que a Bíblia fala nos três primeiros capítulos do Gênesis. Deus criou um mundo bom e projetou as relações humanas para serem criativas e realizadoras, mas o pecado apareceu e gerou uma série de problemas, principalmente a alienação das relações humanas e da relação com Deus.
Mas, há motivo para ter esperança, afinal, a Bíblia não termina no capítulo 3 de Gênesis. O restante do texto bíblico fala justamente do envolvimento de Deus na história visando resgatar o ser humano e endireitar as coisas. É por isso que o desespero não é a resposta final para a condição humana. Nesse sentido, o ensinamento da Bíblia contraria radicalmente o existencialismo, filosofia muito famosa nos anos 60, que defende ser o suicídio a única resposta lógica para o desespero provocado por um mundo sem sentido. Para o cristão, o mundo tem sentido sim e esse sentido é dado por Deus.

O Salmo 88 precisa ser olhado não como um desabafo sem esperança e sim como um exemplo forte de como podemos ter uma conversa franca e difícil com Deus. Essa conversa vai ficar turbulenta, em certos momentos, pois isso é da natureza do processo, mas é ela que vai gerar respostas em meio ao sofrimento. O salmista, mesmo em meio a seu grande desespero, ensinou que precisamos nos abrir com Deus. Essa é a boa nova dos Salmos!
O que fazer, então, quando o desespero chega? Há muito que pode ser feito. Primeiro, reconhecer a crise à sua frente e entender que você não é pior do que ninguém por estar passando por esse tipo de dificuldade - muitos cristãos já se sentiram assim.
Segundo, buscar ajuda tanto de irmãos na fé, como de profissionais de saúde, pois o isolamento não é uma resposta adequada. E o desespero não é uma condição da qual alguém consegue sair sozinho. Portanto, tentar ficar “quieto no seu canto” é quase uma sentença de morte.

Terceiro, falar com Deus abertamente e abrir seu coração para Ele, como o salmista fez. E lembre-se que brigar com Deus e abandoná-lo não resolve nada. A vida sem Deus não tem qualquer sentido ou garantia, e essa é uma verdade da qual não se pode escapar.

Finalmente, com ajuda externa – irmãos na fé e profissionais de saúde -, trabalhar para reconstruir a própria esperança e ir saindo aos poucos do desespero avassalador. E, nesse processo, leve em conta que só Deus pode ancorar uma esperança real e duradoura, que transcenda às circunstâncias da vida.

E é por ter entendido isso que o profeta conseguiu dizer:
Porque ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; ainda que decepcione o produto da oliveira, e os campos não produzam mantimento; ainda que as ovelhas da malhada sejam arrebatadas, e nos currais não haja gado; Todavia eu me alegrarei no Senhor; exultarei no Deus da minha salvação. O Senhor Deus é a minha força, e fará os meus pés como os das cervas, e me fará andar sobre as minhas alturas. Habacuque 3:17-19
PS Veja mais sobre esse tema aqui.

Com carinho

sexta-feira, 3 de abril de 2020

PROMESSA DE PAZ

Promessa de paz e de uma vida melhor são feitas a toda hora por políticos e organizações as mais diversas. E obter paz e condições melhores de vida são cada vez mais importantes num mundo cheio de problemas. Basta lembrar que hoje existem 65 milhões de refugiados lutando para sobreviver, quase sempre em condições muito difíceis.

O problema é que essas promessas e declarações são quase sempre hipócritas ou simplesmente um monte de palavras vazias. Não geram qualquer resultado prático ou quando muito obtém respostas meramente paliativas. Na maior parte, são só tentativas de pessoas importantes de ficar bem perante a opinião pública ou de acalmar as próprias consciências. Nada mais do que isso.

As únicas promessas nas quais realmente podemos confiar são aquelas feitas e garantidas por Deus. Afinal, Ele não falha, é onipotente e fiel em tudo aquilo que faz e promete. E Deus nos promete paz e a Bíblia explica quando e como isso se dará. Portanto, aí deve estar a nossa esperança real. É nessa promessa de paz que devemos acreditar. Nessa dá para confiar.

É sobre isso que eu falo no meu mais novo vídeo - veja aqui.

Veja outros vídeos recentes meus aqui e aqui.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

QUEM FOI A PRIMEIRA PESSOA A RECONHECER O MESSIAS?


A tradição indica que o apóstolo Pedro teria sido a primeira pessoa a reconhecer Jesus como o Messias (Cristo) e falar disso publicamente. Veja o relato desse evento na Bíblia:  
Chegando Jesus à região de Cesareia de Filipe, perguntou aos seus discípulos: "Quem os homens dizem que o Filho do homem é?" Eles responderam: "Alguns dizem que é João Batista, outros, Elias, e ainda outros, Jeremias ou um dos profetas". "E Quem vocês dizem que eu sou?" Simão Pedro respondeu: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo". Respondeu Jesus: "Feliz é você, Simão, filho de Jonas! Porque isto não lhe foi revelado por carne ou sangue, mas por meu Pai que está nos céus." Mateus 16, versículos 13 a 17
Essa é uma das razões pelas quais Pedro é tido por muitos cristãos (como os católicos) como o mais importante dos seguidores de Jesus. Mas terá sido Pedro a primeira pessoa a ter essa revelação e anunciá-la? Acredito que não. É o que vou tentar mostrar a seguir.
É evidente que a primeira pessoa a saber que Jesus seria muito especial foi Maria, sua mãe: 
Mas o anjo lhe disse: "Não tenha medo, Maria. Você foi agraciada por Deus! Você ficará grávida e dará à luz um filho e lhe porá o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo. O Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi e ele reinará para sempre sobre o povo de Jacó. Seu Reino jamais terá fim". Lucas capítulo 1, versículos 30 a 33
Maria guardou essas informações para si mesma (Lucas capítulo 2, versículo 19), ou seja, ela sabia mas não anunciou, como Pedro fez, até porque, se tivesse feito isso, precisaria confessar que Jesus não era filho de José.

Outros candidatos fortes a terem sido os primeiros a reconhecer Jesus como o Messias são os três reis magos, que o visitaram logo após seu nascimento para presenteá-lo com ouro incenso e mirra. Veja o que a Bíblia fala a respeito:
Depois que Jesus nasceu em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes, magos vindos do Oriente chegaram a Jerusalém e perguntaram: "Onde está o recém-nascido rei dos judeus? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo". Mateus capítulo 2, versículos 1 e 2
Na verdade, os reis magos sabiam que Jesus era rei e divino, daí o terem adorado. Mas nada indica que sabiam sobre o papel de Jesus como Messias. Afinal, eles não eram judeus e provavelmente não conheciam as profecias e ensinamentos a respeito do Messias existentes na Bíblia Hebraica (o Velho Testamento). 
Existe uma outra possibilidade para a identidade dessa pessoa: 
Havia em Jerusalém um homem chamado Simeão, justo e piedoso, e que esperava a consolação de Israel. E o Espírito Santo estava sobre ele. Fora-lhe revelado que ele não morreria antes de ver o Cristo do Senhor. Movido pelo Espírito, ele foi ao Templo [de Jerusalém]. Quando os pais trouxeram o menino Jesus para lhe fazer conforme requeria o costume da lei, Simeão o tomou nos braços e louvou a Deus, dizendo: "Ó Soberano, como prometeste, agora podes despedir em paz o teu servo. Pois os meus olhos já viram a tua salvação, que preparaste à vista de todos os povos: luz para revelação aos gentios e para a glória de Israel, teu povo". O pai e a mãe do menino estavam admirados com o que fora dito a respeito dele. Lucas capítulo 2, versículos 25 a 33
Com efeito, Simeão foi o primeiro a anunciar ao mundo, quem seria o Cristo e fez isso quando Jesus era ainda bebê. Logo depois, uma mulher fez o mesmo:
Estava ali a profetisa Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era muito idosa: havia vivido com seu marido sete anos depois de se casar e então permanecera viúva até a idade de oitenta e quatro anos. Nunca deixava o templo: adorava a Deus, jejuando e orando dia e noite. Tendo chegado ali naquele exato momento, deu graças a Deus e falava a respeito do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém. Lucas capítulo 2, versículos 36 a 38
A profetisa Ana, portanto, foi a segunda pessoa a ter a honra de anunciar Jesus como o Messias, pouco tempo depois de Simeão fazer isso.
Teria sido Pedro, então, a primeira pessoa a reconhecer e anunciar Jesus já adulto como o Messias? Também não. Outra pessoa, João Batista, teve esse privilégio: 
Então Jesus veio da Galileia ao Jordão para ser batizado por João. Ele, porém, tentou impedi-lo, dizendo: "Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?" Respondeu Jesus: "Deixe assim por enquanto; convém que assim façamos, para cumprir toda a justiça". E João concordou. Mateus capítulo 3, versículos 13 a 15
Concluindo, Maria foi a primeira pessoa a saber quem Jesus viria a ser. Mas ela nada disse, até porque estava impedida de fazer isso. A primeira pessoa a reconhecer Jesus publicamente como o Messias foi Simeão, seguida de perto pela profetisa Ana.

O primeiro a reconhecer Jesus, já adulto, como o Messias, foi João Batista. Pedro foi o primeiro a fazer isso entre os discípulos e apóstolos, o que não deixa também de ter mérito.

PS Veja mais sobre este tema aqui
Com carinho