terça-feira, 28 de julho de 2020

FARISEUS, ONTEM E HOJE


O ministério de Jesus aqui na terra não foi tranquilo já que Ele enfrentou a hostilidade de diversos grupos de judeus, como fariseus e saduceus. E foi essa hostilidade que levou Jesus a ser preso e crucificado.
Os fariseus no tempo de Jesus
Os grupos hostis a Jesus eram bem diferentes entre si. Havia o grupo formado pelos principais sacerdotes e líderes religiosos judeus, conhecidos como saduceus. E existia também outro grupo, mais numeroso, os fariseus, formado por homens que buscavam cumprir com rigor a Lei Mosaica, conforme ela é apresentada na Torá (os primeiros cinco livros do Velho Testamento). E é sobre os fariseus que eu gostaria de falar hoje.
Os fariseus eram grandes estudiosos da Lei e por isso alguns deles são frequentemente referidos nos Evangelhos como "intérpretes" ou "doutores" da Lei". Esse grupo tinha divergências teológicas importantes com os saduceus - por exemplo, os fariseus acreditavam na ressurreição no final dos tempos, enquanto os saduceus não acreditavam nisso.

Os fariseus acabaram por se tornar aos olhos do povo  judeu os guardiões da Lei. O povo costumava recorrer aos  "doutores" da Lei para tirar dúvidas e saber se alguém estava ou não transgredindo os mandamentos divinos.

É por causa disso que quase todas as discussões teológicas envolvendo Jesus tiveram os fariseus como ponto de partida e não com os sacerdotes. E a raiz dessas discussões é a forma diferente como Jesus interpretava a Lei -  Ele privilegiava o aspecto espiritual dos mandamentos e não seu cumprimento formal e as aparências, como faziam os fariseus.

Infelizmente, os fariseus causaram mais mal do que bem para o povo judeu. No afã de garantir que a Lei não fosse violada, acabaram por aprisionar as pessoas na "camisa de força" formada por um extenso, e confuso conjunto de regras de comportamento. Apenas para garantir a obediência ao mandamento de observar o sábado, por exemplo, foram estabelecidas quase uma centena de regras.

As pessoas tinham que obedecer um grande conjunto de regras e passavam suas vidas sob os olhares vigilantes dos fariseus, e quem descumpria alguma  lei era discriminado socialmente e até punido.

Mas, a influência negativa dos fariseus não acabou no legalismo. Muitos deles eram hipócritas, pois exigiam das pessoas um comportamento que eles mesmos frequentemente não seguiam. O que importava mesmo para muitos  fariseus eram as aparências.

E para não precisar cumprir certas regras de comportamento que impunham aos outros, os fariseus frequentemente recorriam a subterfúgios. Por exemplo, Jesus citou o caso de alguns fariseus que, para fugir da obrigação de ajudar financeiramente os próprios pais, alegavam ter prometido seus bens para o Templo de Jerusalém.

Em conclusão, os fariseus seguiam uma religião que, ao invés de libertar o ser humano, escravizava as pessoas. E Jesus se insurgiu contra esse estado de coisas (por exemplo, ver Lucas capítulo 12, versículos 1 a 12).

Essa foi a razão pela qual os fariseus passaram boa parte do ministério de Jesus criando "pegadinhas" teológicas, para poder acusá-lo de heresia. Por exemplo, certa vez perguntaram a Jesus se seria justo que os judeus pagassem impostos aos romanos.  Se Jesus dissesse que sim, poderia ser acusado de colaboracionista com os dominadores. E que dissesse não, poderia ser denunciado aos romanos por instigar uma revolta. Jesus saiu-se brilhantemente dessa "pegadinha", respondendo o seguinte: "dai a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus" (Marcos capítulo 12, versículos 13 a 17).
Os fariseus hoje em dia
A igreja evangélica hoje em dia, infelizmente, também tem vários "fariseus".  Refiro-me aos líderes religiosos/as que ficam estabelecendo regras de comportamento para as outras pessoas e cobrando seu cumprimento. 
Essas regras podem alcançar diversas áreas das vidas das pessoas, como a forma de se vestir, os lugares que podem frequentar, o que lhes permitido fazer para se divertir, como podem se relacionar com o sexo oposto e assim por diante. Em algumas igrejas, são tantas as regras e tal o rigor na sua aplicação, que as pessoas ficam sufocadas, tornando-se verdadeiras prisioneiras.

Os "fariseus" não acabaram nos tempos de Jesus, o que é uma pena. Eles mudaram de roupagem e estão aí, bem vivos e influentes, causando o mesmo tipo de estrago que causaram dois mil anos atrás. Então, muito cuidado com eles.

Concluindo, continua a valer a advertência que Jesus fez tanto tempo atrás:
Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês fecham o Reino dos céus diante dos homens! Vocês mesmos não entram, nem deixam entrar aqueles que gostariam de fazê-lo. Mateus capítulo 23, versículo 13
Com carinho

domingo, 26 de julho de 2020

CONVICÇÃO OU DESEJO?


Convicção ou desejo, o que costuma pesar mais na sua vida? A verdade é que essas duas coisas costumam determinar o caminho das pessoas. 

As convicções são baseadas naquilo que a pessoa acredita, ou seja, nas suas crenças verdadeiras. Por exemplo, as convicções políticas e religiosas costumam ser muito fortes. 
Convicções contribuem fortemente para definir o caminho de uma pessoa na vida porque ajudam a modelar seus objetivos e estabelecer sua noção de certo e errado que ela segue. Por exemplo, ao se tornar cristã, a pessoa adquire uma série de convicções, tais como, Jesus é o Filho de Deus e morreu na cruz para nos salvar. Isso significa que os ensinamentos de Jesus precisam ser obedecidos, pois emanam do próprio Deus. 
Os desejos têm a ver com aquilo que a pessoa acha que precisa e/ou quer. Desejos podem ter origem física (comida, abrigo ou sexo) ou serem gerados pelo ambiente social (p. ex. consumir ou ter posição social).

Os desejos também contribuem para modelar objetivos de vida da pessoa e influenciam boa parte das sua ações. Por exemplo, o desejo de ter sucesso poderá fazer com que a pessoa coloque suas atividades profissionais antes de qualquer outra coisa, acabando por negligenciar a própria família. Ou ainda pior, deixe de lado sua consciência e embarque em atos de corrupção.

Convicções e desejos, operando em conjunto, acabam por definir onde a pessoa investe seu tempo, o que faz na vida prática e até a medida pela qual se auto-avalia, como alguém que teve, ou não, sucesso. 
Mas, existe uma tensão permanente entre convicções e desejos, pois quase sempre eles apontam para direções diferentes. Por exemplo, a necessidade de ter dinheiro e  poder pode empurrar a pessoa para o egoísmo, enquanto sua fé cristã vai lhe dizer para amar ao próximo e perdoar.
Por causa dessa divergência desejos e convicções frequentemente entram em choque pois não podem ser satisfeitos em igual medida. Assim, torna-se necessário fazer escolhas dolorosas: ou bem a pessoa segue suas convicções, e deixa de lado seus desejos, ou faz o contrário.
Por exemplo, um cristão não pode se entregar livremente às suas vontades sexuais, pois há limites morais que ele precisa respeitar, caso queira seguir os ensinamentos da Bíblia. O mesmo pode ser dito do desejo de ter poder, da vontade de consumir e tantas outras coisas. A vida do cristão significa que sua fé sempre vai lhe impor limites aos próprios desejos. 

Para a Bíblia as convicções cristãs sempre devem vir na frente dos desejos da pessoa. E também não deixa dúvida que a pessoa precisará fazer sacrifícios para viver uma vida plenamente cristã. Por isso Jesus alertou que o caminho para a salvação é estreito e difícil, enquanto a estrada para a perdição é larga e fácil. Em outras palavras, é sempre mais fácil e gostoso deixar-se levar pelos desejos, satisfazendo as próprias vontades, sejam elas quais forem. 

O desafio diante do cristão não é simples pois a natureza humana empurra a pessoa para satisfazer seus desejos, enquanto o Espírito Santo lhe sopra no ouvido e a incentiva a privilegiar suas convicções cristãs. É uma luta diária: a pessoa vence num dia e perde no outro. E quando perde, ela precisa se arrepender, ser perdoada por Deus e voltar a lutar.  
O grande risco nessa luta se materializa quando a pessoa se deixa auto-enganar e de alguma forma "cala" a sua consciência. Aí ela passa a encontrar o que lhe parecem ser "boas" desculpas para tudo aquilo que ela faz ou deixa de fazer. Por exemplo, a pessoa se convence que é boa, pois não comete crimes graves, como matar ou roubar, e passa a se balizar pela maioria dos seus desejos, achando-os justos e/ou aceitáveis. Ela acha que aquilo que é errado não é tão sério assim ou então que só vai fazer a coisa errada por pouco tempo e depois vai voltar ao normal. 
Quem age assim acaba sendo levado pelos seus desejos e vai deixando suas convicções cristãs pouco a pouco para trás. Vai calando sua consciência aos poucos. É assim que a pessoa se deixa dominar pouco a pouco pelo egoísmo, pela indiferença quanto ao sofrimento do próximo, pela falta de comprometimento com a obra de Deus e assim por diante.

Acho que todo mundo - e eu me incluo nesse rol - já fez ou faz isso em alguma medida. Esse é um comportamento bem humano. E quanto mais a pessoa fizer isso, mais vai se deixando dominar pelos próprios desejos e se afastando de Deus.

Há um fato histórico que exemplifica bem o dilema entre convicção e desejo. O rei Henrique VIII - aquele que teve seis mulheres e mandou matar várias delas - tinha um grande amigo de juventude, Thomas Becket. Como era amigo do rei, Becket ocupou vários cargos importantes, até ser nomeado Arcebispo de Canterbury (o cargo mais importante na igreja da Inglaterra). 

Quando Henrique quis se divorciar de sua esposa (Catarina) para se casar com uma mulher muito mais jovem (Ana Bolena), precisou anular o casamento anterior, pois na época não havia divórcio. E recorreu a todos os expedientes possíveis, para atingir esse objetivo. Em dado momento, o rei quis forçar Becket (que era o líder da igreja da Inglaterra) a tomar medidas erradas. E o amigo do rei se recusou a obedecer. Resistiu e acabou assassinado - morreu na escadaria da Catedral onde era o arcebispo.
Becket entrou para a história como um homem que não se deixou corromper e até hoje é considerado como um exemplo a ser seguido - quem tiver interesse nessa história, recomendo ver o filme "O homem que não vendeu sua alma". 
Um outro exemplo interessante aconteceu na Alemanha nazista, onde alguns juízes se adequaram a um regime tenebroso e traíram suas convicções, ao condenar pessoas inocentes. Um deles escreveu até um livro comovente, onde reconhece ter corrompido sua alma.

Escolher deixar as convicções cristãs de lado, por conta de atender desejos humanos, como dinheiro, poder e outras coisas assim, pode levar a pessoa a pagar um preço muito caro, fazendo com que ela perca sua conexão com Deus. Portanto, convicção e desejo precisam ser sempre bem harmonizados.

Veja mais sobre este tema aqui.

Com carinho  

sexta-feira, 24 de julho de 2020

A FÉ DA VIÚVA

A Bíblia, no Velho Testamento, relata a história de um grande milagre feito pelo profeta Eliseu, com base na fé de uma viuva. 

Tratou-se da multiplicação de um pouco de azeite que aquela mulher tinha, gerando uma grande quantidade do mesmo produto, coisa muito valiosa naquela época. A viúva vendeu o azeite milagrosamente recebido e usou o resultado dessa venda para pagar as dívidas que seu marido deixara para ela. 

 As dívidas deixadas pelo marido dela estavam sufocando a família e faziam com que os filhos dela corressem o risco de serem vendidos como escravos, como era costume naquela época acontecer com os credores, quando eles não pagavam suas dívidas pontualmente. Portanto, o risco da família era enorme, até a intervenção do profeta Eliseu. 

Esse milagre lembra muito a multiplicação de pães e peixes que Jesus fez, séculos depois, pois são eventos da mesma natureza.  A história da viúva salva da miséria por Eliseu me faz recordar das inúmeras mulheres corajosas que lutam sozinhas, às vezes de forma desesperada, para sustentar suas famílias. Há muitas mulheres assim no Brasil e eu conto a história de uma delas no meu vídeo. 

É sobre esse milagre que o Rogers fala no seu mais novo - veja aqui.

Veja outros vídeos recentes dele aqui e aqui.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

ESCOLHA O REINO DE DEUS

O Evangelho de Lucas (capítulo 10, versículos 25 a 28) relata que, certa vez, Jesus conversava com um "doutor da lei" (o equivalente aos teólogos de hoje em dia) sobre escolha. E Jesus perguntou ao doutor da lei o que o ser humano precisaria fazer para herdar o Reino de Deus. O teólogo respondeu corretamente, dizendo ser preciso cumprir a lei do amor: amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao próximo como a si mesmo.
O interessante é que depois de dar a resposta correta o doutor da lei perguntou a Jesus algo surpreendente: quis saber quem era seu próximo. Ou seja, ele conhecia as filigranas da doutrina, mas desconhecia como proceder na prática. O teólogo não sabia quais seres humanos deveria amar como amava a si mesmo. Claro que não estava em causa o amor devido à esposa, filhos, pais e amigos. Mas, quem mais deveria ser amado? Daí a pergunta que o teólogo fez a Jesus.
A resposta foi ainda mais surpreendente: Jesus contou a parábola do "bom samaritano" (Lucas capítulo 10, versículos 29 a 37). Essa parábola fala de um samaritano, homem pertencente a um povo desprezado pelos judeus, que ajudou um judeu caído à beira da estrada, por ter sido ferido durante um assalto. E já tinham passado pelo homem caído à beira da estrada, sem se importar com ele, dois homens muito religiosos: um sacerdote e um levita (pessoa que trabalhava no Templo de Jerusalém). E nenhum dos dois fez nada. Só o samaritano, mesmo vindo de um povo desprezado pelos judeus, teve compaixão do homem caído, mesmo sem ter nenhuma relação com ele.

Depois de contar a parábola, Jesus perguntou ao doutor da lei quem ele achava ter sido o próximo do homem em sofrimento. O teólogo respondeu corretamente: o samaritano, ou seja, aquele que teve misericórdia do homem caído. Repare que a pergunta inicial do teólogo foi quem era o próximo dele, enquanto a resposta de Jesus mudou a perspectiva da avaliação: falou sobre quem foi o próximo do homem em sofrimento. 

Jesus ensinou que o próximo de quem sofre deve ser aquela pessoa que tem condição de ajudar a minorar esse sofrimento. Consequentemente, o próximo de que fala o mandamento do amor é toda pessoa que precisa de mim e a quem tenho condições de alcançar. Não sou eu quem escolho o meu próximo, mas é a necessidade de quem cruza meu caminho que me "escolhe".
A prática
Anos atrás ocorreu um enorme incêndio numa favela em São Paulo, que desabrigou cerca de 500 famílias (algo como 2.000 pessoas). Esse incêndio impactou-me de perto porque a comunidade atingida era a mesma com a qual minha igreja daquela época vinha trabalhando havia muitos anos. Muitas famílias extremamente pobres perderam o pouco que tinham. Aqueles que já eram despossuídos, ficaram ainda mais carentes.
Naturalmente, toda a igreja se mobilizou para ajudar, assim como fizeram outras igrejas cristãs, de diferentes denominações. O poder público, como sempre, agiu de forma fria e impessoal e a ajuda dada foi ridícula.

Muitas pessoas, conhecendo ou intuindo o ensinamento de Jesus de amar quem precisa, mobilizaram-se de maneira admirável e deram enorme contribuição para minorar o sofrimento das famílias vitimadas. Já outras pessoas agiram como se aquele problema não fosse com elas, não demonstrando qualquer interesse em ajudar, agindo de forma muito parecida com o sacerdote e o levita da parábola da bom samaritano, que passaram ao largo.

Houve ainda quem ficasse na dúvida se o sofrimento dos seus desconhecidos devia merecer ajuda. E ajudaram, mas de forma tímida e contida, meio para "cumprir tabela". Essas pessoas agiram como o doutor da lei, que não sabia (ou não queria saber) como aplicar o mandamento do amor ao próximo.
Comentário final
Preste atenção que a conversa que Jesus com o doutor da lei tinha como objetivo esclarecer o que devia ser feito para herdar o Reino de Deus. Ou seja, o tema era a escolha que precisava ser feita para alcançar a salvação. E Jesus disse explicitamente para o teólogo, depois de explicar o significado da parábola do bom samaritano: "faça isto e viverás".
Você poderia me perguntar: mas a salvação não é por fé? Como Jesus diz que é preciso fazer determinada coisa (amar o próximo) para herdar o Reino de Deus? A razão é simples: a fé que abre as portas da salvação precisa ser autêntica e viva. E conforme Tiago capítulo 2, versículo 17 ensina: "a fé sem obras é morta". Ou seja, a fé que não gera ação, motivada pelo desejo de fazer a vontade de Deus, é apenas nominal e teórica, exatamente como a do teólogo que conversou com Jesus. E, portanto, não leva à salvação.

A vida coloca repetidas vezes diante de cada um de nós uma escolha: a decisão de "amar" ou "deixar de amar". São escolhas cujo resultado é crucial nas nossas vidas. E é fundamental fazer a escolha certa. 

Com carinho

segunda-feira, 20 de julho de 2020

OS DOIS LIVROS DE DEUS


Deus nos conta coisas sobre si mesmo - como Ele é, o quê já fez (criou) e aquilo que ainda vai fazer (seus planos). Essa revelação divina nos foi passada em dois grandes livros: o universo (a natureza, ou seja, mundo físico) e a Bíblia.

O universo é como um livro que pode ser "lido" e apreciado por todas as pessoas. Todo mundo tem acesso às informações fornecidas pela natureza e, por causa disso, esse livro é chamado de revelação geral.

Aqui vale um parêntesis: a metáfora de tratar a natureza como um "livro" revelado por Deus é muito antiga dentro do próprio cristianismo. Por exemplo, Santo Agostinho falou sobre isso no seu livro "Confissões", escrito no século V. Muitos outros teólogos cristãos têm usado essa mesma metáfora.

O outro livro revelado por Deus é a Bíblia, cujo texto está dividido em duas partes. A primeira é o Antigo Testamento (também conhecido como Bíblia Hebraica), que conta como Deus criou o universo e fala sobre a história da Aliança que Ele fez com o povo de Israel, com o objetivo de tornar esse povo um exemplo para toda a humanidade.

É ali que aparecem as promessas de Deus de enviar seu "Ungido" (Messias) para promover a restauração da relação dos seres humanos com Deus, fortemente prejudicada pelos nossos pecados.

O Antigo Testamento contém ainda textos ditos de sabedoria - como Salmos, Provérbios e Eclesiastes - onde Deus ensinou uma série de coisas importantes relacionadas sobre como se deve viver.

A segunda parte da Bíblia é o Novo Testamento que relata como a profecia sobre o Messias foi cumprida na figura de Jesus. Conta também como o ministério de Jesus deu origem à igreja cristã e como foram os primeiros passos dela. O texto fala ainda sobre a doutrina cristã, especialmente através dos ensinamentos do próprio Jesus e de cartas escritas pelo apóstolo Paulo.

As informações que Deus forneceu nas duas partes da Bíblia são conhecidas como revelação especial. A razão desse nome é simples: o conteúdo dessa revelação somente se torna acessível para quem lê a Bíblia, isto é, essas revelação não está disponível para todos, diferentemente das informações transmitidas pela natureza (revelação geral).

Agora, as duas revelações têm suas limitações, pois nenhuma delas pode conter todas as verdades que emanam de Deus. Por exemplo, a Bíblia nada fala sobre as leis da matemática, da física e da química. Já a natureza (revelação geral) tem muito a falar sobre isso tudo, bastando que as pessoas estudem seu funcionamento regular (como fazem os cientistas).

A natureza comprova que a vida existe e foi organizada por uma mente maravilhosa, mas, por si só, nada explica sobre a razão para a existência da vida, não explica para onde o ser humano vai depois da morte física, não transmite princípios morais (o certo e o errado) e assim por diante. Mas a Bíblia fala muito sobre tudo isso.

Há conflito entre os dois livros?
As revelações geral e especial, os dois livros de Deus, se complementam, pois a revelação divina total é uma unidade coerente. E cada um desses dois livros, na sua área de atuação, tem um papel predominante. Por exemplo, quando se discute a forma de funcionamento da natureza, as leis descobertas pela ciência predominam. Já no campo espiritual, são os ensinamentos da Bíblia que prevalecem.

Como esses livros têm natureza diferente entre si, as ferramentas usadas pelas pessoas para sua leitura e interpretação também são distintas. Os métodos e as abordagens de estudo são necessariamente diferentes nos dois casos. E não seria razoável esperar que fosse diferente.

A ciência e outras disciplinas acadêmicas são as ferramentas que permitem aos seres humanos "lerem" o livro da natureza. Já a teologia (a doutrina cristã) é a ferramenta que permite ler e interpretar corretamente a Bíblia.

Portanto, se você quiser saber algo sobre o funcionamento da natureza, as respostas devem ser buscadas essencialmente na ciência - a Bíblia não terá muito a ajudar nesse aspecto. Já se você quiser saber algo sobre o que Deus espera do ser humano, as respostas só vão ser encontradas na Bíblia. 

Existem, é claro, algumas áreas de sobreposição, isto é, respostas dadas por ambos os livros dão respostas para determinadas questões. Por exemplo, quando se procura saber sobre como a mente do ser humano funciona, a Bíblia tem coisas a falar e as ciências sociais também.

E aí costumam surgir problemas, pois, às vezes, as conclusões tiradas a partir do estudo dos dois livros (a natureza e a Bíblia) parecem ser divergentes. São essas diferenças de interpretação que dão origem aos famosos conflitos entre religião e ciência, que já causaram tantos problemas ao longo da história da humanidade.

Na época em que a teologia dominava (até a chamada Idade Média), esse tipo de conflito levou alguns cientistas a serem acusados de heresia e até serem injustamente punidos. A partir do Iluminismo, com o crescente domínio da ciência e da tecnologia, a religião passou a ser cada vez mais vista como atrasada e até desnecessária. Hoje em dia, para muita gente, vale apenas o que a ciência consegue explicar e nada mais importa.

Como tratar as diferenças entre os dois livros
Antes de tudo, é preciso separar a verdade revelada por Deus nos seus dois livros e a interpretação dessas informações feita pelos seres humanos (teólogos, de um lado, e cientistas, de outro). A interpretação é sempre humana e frequentemente está errada. É comum, por exemplo, que as teorias científicas sejam corrigidas ao longo do tempo, assim como conceitos teológicos errados passam a ser melhor entendido e são alterados com o tempo.

A ciência não pode corrigir a Bíblia, mas pode alertar os teólogos que estão interpretando as coisas de forma errada. Por exemplo, existem teólogos que defendem a ideia de que a terra tem apenas cerca de 10 mil anos de idade. Ora, a geologia já comprovou que a idade da terra é de cerca de 4 bilhões de ano e isso é confirmado por inúmeros outros ramos da ciência. Portanto, a interpretação do relato do Gênesis sobre a criação do mundo não pode considerar os 7 "dias" de duração como tendo cada um deles 24 horas literais.

Da mesma maneira, a Bíblia precisa corrigir certas interpretações científicas. Por exemplo, quando cientistas ateus defendem que somente existe o mundo físico e não há nada no campo sobrenatural. A Bíblia mostra que isso não é verdade. Existe um campo sobrenatural - que chamamos espiritual - onde coisas muito importantes acontecem. E por isso as pessoas recebem informações de Deus, orações são respondidas e assim por diante.

Concluindo, quando esse trabalho de mútua iluminação é feito de forma bem intencionada e ordenada, os conflitos gerados pela "leitura" diferente dos dois livros tende a ser perfeitamente harmonizada. Afinal, como eu lembrei acima, não há contradições naquilo que Deus revelou para os seres humanos na natureza e na Bíblia.

Com carinho

sábado, 18 de julho de 2020

A MÃE DE TODAS AS MENTIRAS


Hoje vou falar da mãe de todas as mentiras, ou seja, da maior mentira dentre todas. E começo com um texto bem conhecido, que está em Isaías capítulo 14, versículos 12 a 15:
Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da alva! Como foste lançado por terra, tu que debilitavas as nações. Tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei meu trono, e no monte da congregação me assentarei ... Contudo serás precipitado para o reino dos mortos, no mais profundo do abismo.  
O texto acima explica como foi a queda de Lúcifer, o principal arcanjo da corte celestial. Ele que acabou expulso por Deus e virou Satanás, o Acusador, nosso principal inimigo. A queda de Lúcifer se deu por motivo muito simples:  ele deixou que o orgulho e a vaidade dominassem sua mente. Achou que podia ser igual a Deus. E alguém achar que pode ser igual a Deus é a maior de todas as mentiras. 
O mais surpreendente é que essa mentira continua a ser explorada por Satanás para desviar as pessoas do caminho certa. Ela é usada para convencer muitas pessoas que elas podem ser tão grandes quanto desejarem ser e que não há limite para a glória humana.

Slogans do tipo "você merece tudo" ou "você pode ser aquilo que quiser", explorados constantemente pela mídia são exemplos disso. Os Estados Unidos, por exemplo, são vistos por muita gente como o país das oportunidades, onde qualquer pessoa pode alcançar grande sucesso e obter tudo aquilo que seu coração desejar. E isso certamente não é verdade - essas são grandes mentiras.
Livros de auto-ajuda costumam bater na tecla que o único limite da pessoa está dentro dela mesma. Basta que ela se convencer que pode e usar sua força mental, que vai realizar feitos extraordinários. E isso certamente também não é verdade - essas são outras mentiras grandes. 
Penso ser saudável incentivar as pessoas a darem o máximo de si e procurarem preencher todo seu potencial, conseguindo concretizar o maior número possível de seus sonhos. Mas, isso não quer dizer que você, ou eu, podemos ser tudo aquilo que sonhamos, que não há limites para nós. Isso é uma mentira.

Cada um de nós tem limites, por mais que nos esforcemos para superá-los. E em alguns casos é fácil perceber isso. Por exemplo, eu nunca teria conseguido correr 100 m em menos de 10 segundos, por mais que tivesse me esforçado. Isso é coisa para poucos atletas extraordinários, com o biotipo certo, e que, ainda assim precisam, passar por muitos anos de treinamento. 

Eu nunca vou descobrir uma teoria à altura daquelas que Einstein criou e que mudaram a história da ciência. Nem serei tão charmoso e bonito quanto vários artistas de cinema. Em casos como esse, é fácil perceber os próprios limites. Mas, em outros casos, essa percepção de limites torna-se mais difícil, embora eles continuem a existir.

Por exemplo, um parente meu nasceu com algumas limitações de cognitivas - a explicação que escutei dizia que seu parto foi muito difícil. Mas, seus pais nunca aceitaram isso e queriam a todo custo que ele conseguisse alcançar o mesmo rendimento escolar que outros rapazes da sua idade obtinham, o que era impossível. O limite estava presente, mas as algumas pessoas se recusavam a vê-lo e o resultado foi uma grande frustração. 
Agora, o fato de termos limitações não significa que não tenhamos valor aos olhos de Deus. O próprio fato dele nos amar incondicionalmente prova o valor que temos para Ele. Mas, mesmo nos amando, Deus nos impõe limites - por exemplo, somos seres mortais.
Mas, quando a pessoa se deixa convencer que pode e merece tudo da vida, vai ter dificuldades de aceitar os limites impostos por Deus. E foi exatamente isso que aconteceu com Adão e Eva. Deus lhe disse que podiam fazer qualquer coisa no Jardim do Éden, exceto comer do fruto da árvore do "bem e do mal". Mas, incentivados por Satanás, Adão e Eva convenceram-se que aquela limitação era absurda e que eles mereciam poder comer da árvore proibida. Desobedeceram a Deus e pagaram enorme preço por isso, conforme o relato de Gênesis capítulo 3.

Precisamos conhecer nossas próprias limitações, tanto aquelas decorrentes dos nossos limites físicos e/ou intelectuais, como também os de cunho moral (por exemplo, não conseguimos viver sem pecar em algum momento). Cada pessoa tem seus limites - algumas são mais bonitas e charmosas, mas têm menos resistência física; outras tem enorme capacidade intelectual, mas  não são belas ou charmosas; e assim por diante.

E cada um de nós precisa aprender a aceitar os próprios limites. Precisamos nos esforçar por fazer o melhor possível e obter os resultados mais expressivos que pedimos, mas sempre vamos esbarrar em limites.

Algumas pessoas, por terem mais talentos e/ou se esforçarem mais, irão mais longe. Mas, isso não significa que Deus as protege ou foi injusto conosco. Em conclusão, saber aceitar o que se tem é demonstração de maturidade espiritual. E é justamente essa maturidade que impede a pessoa de ser seduzida pela mãe de todas as mentiras. 

Com carinho   

quinta-feira, 16 de julho de 2020

EXPECTATIVAS

A vida é feita de expectativas. E elas são de todos os tipos e formas, indo desde as mais simples, como "espero que minha comida fique boa", até as mais complexas e transformadoras, como "espero conseguir aquele emprego". 

Vivemos em cima das expectativas que nós mesmos criamos. E elas dirigem boa parte das nossas vidas e também balizam nossos sentimentos (esperança, ansiedade, alegria, tristeza, etc).

Agora, um dos grandes ensinamentos da Bíblia é que precisamos aprender a ancorar nossas expectativas em Deus. Primeiro, colocando nas mãos dele as expectativas que criamos e tendo fé que ele sempre fará o melhor por nós.

Depois, aceitando as coisas que Deus vier a colocar no nosso caminho, mesmo que elas não estejam exatamente de acordo com as expectativas que criamos antes. É preciso ter fé que Deus sabe mais e melhor do que nós e também que nem sempre aquilo que esperamos ardentemente fazer ou conseguir vai ser de fato o melhor para nossas vidas. É por isso que Deus pode fazer algo diferente daquilo que esperávamos. E, frequentemente, somente anos depois dos fatos é que conseguimos entender que aquilo que Deus fez de fato foi o melhor.

E é sobre isso que eu falo no meu mais novo vídeo - veja aqui.

Veja outros vídeos recentes meus aqui e aqui.