terça-feira, 31 de março de 2015

A VOZ QUE GRITA NO DESERTO

João Batista foi um homem diferente do padrão: vivia no deserto, comia gafanhotos e mel silvestre. Vestia-se de pele de camelo, certamente uma roupa que não era elegante. Sua barba e cabelo não eram aparados com frequência. João não devia ser uma visão muito charmosa. Provavelmente sua aparência era até ridícula.

Ainda assim, Jesus disse que João Batista foi o maior dentre os homens (Mateus capitulo 11, versículo 11). Qual a justificativa para elogio tão grande?

A Bíblia conta que João veio para preparar os caminhos de Jesus: 
“...voz do que clama no deserto, preparai os caminhos do Senhor, endireitai as suas veredas...Mateus capítulo 3, versículos 1 a 3
Portanto, o ministério de João deveria anteceder e preparar as pessoas para o ministério de Jesus, que viria depois. E João cumpriu sua missão, pregando o arrependimento - era só sobre isso que ele falava. E chamava as pessoas para serem batizadas, daí o apelido que ganhou ("Batista", isto é "Batizador").

Agora, o batismo de João não tinha o mesmo significado que o batismo cristão, aquele estabelecido pelo próprio Jesus. O de João significava arrependimento pelos pecados, enquanto o de Jesus significa mais, muito mais: morte, para a vida dominada pelo pecado, e novo nascimento, para a vida reconciliada com Deus. 

E João sabia que haveria diferença entre aquilo que ele pregava e a mensagem do Messias. E que o batismo pregado por Jesus seria mais importante (Mateus capítulo 3, versículos 11 e 12).
Mas não é possível aceitar Jesus como Salvador se a pessoa não tem consciência de que peca. Afinal, se não houvesse pecado, a obra de Jesus não seria necessária. Simples assim. 

Portanto, a mensagem que ajuda a pessoa a tomar consciência dos próprios pecados precede necessariamente o momento em que ela aceita Jesus (é convertida). 

João Batista foi o precursor de Jesus justamente porque pregou o arrependimento - para chegar até Jesus, as pessoas precisam primeiro ouvir a pregação de João Batista. É por isso que este homem tão estranho, coberto de pele de camelo, parecendo ter raiva de tudo e todos, sem amigos, foi tão importante na obra de Deus. Ele foi a voz que gritou no deserto e abriu os caminhos para o Messias. 
Com carinho

domingo, 29 de março de 2015

VOCÊ DEVE DEIXAR DEUS CONTROLAR SUA VIDA?

A resposta para a pergunta que dá título a este post, por incrível que pareça, é DEPENDE do que se quer dizer. Eu me explico.

Começo por lembrar que a formulação dessa pergunta, usando a palavra "deixar", subentende a ideia que podemos delegar o controle das nossas vidas para alguém (no caso, Deus). Ora, não podemos delegar algo que não temos. 

Nossas vidas dependem em boa parte das nossas próprias decisões, da nossa vontade, mas também das decisões de outras pessoas - daqueles(as) que amamos, de nossos chefes, dos dirigentes do nosso país e até das pessoas com quem cruzamos nas ruas. Isso sem contar as coisas que podem nos acontecer e não dependem da vontade de ninguém, como é o caso das doenças.

A discussão se devemos ou não passar o controle das nossas vidas para Deus envolve, na verdade, uma grande dose de orgulho e auto-suficiência típica dos seres humanos. Em outras palavras: a pergunta que intitula este post não faz sentido, pois não podemos ceder um controle que nunca tivemos. Simples assim.

O segundo aspecto relevante é entender que Deus não está interessado em segurar o "controle remoto" das nossas vidas, mesmo que tal coisa existisse. Deus não quer nos dizer o que fazer a cada passo pois isso seria nos infantilizar. E a maior prova disso é que nos deu o direito de escolher (o livre arbítrio). Se Ele quisesse nos controlar completamente, bastava não ter feito isso.

Na parábola dos talentos (Mateus capítulo 25, versículos 14 a 30), Jesus contou que o rei (Deus) deu moedas de ouro (talentos) para três servos (pessoas como nós) e ordenou que administrassem bem o que receberam enquanto Ele ia se ausentar.

Dois dos servos decidiram correr algum risco e investiram o dinheiro para receber rendimentos, enquanto o último, não querendo correr riscos, enterrou a moeda para preservá-la. Quando o rei voltou, cobrou resultados. Os dois servos que investiram mostraram os lucros auferidos, enquanto aquele que enterrou seu talento nada teve para apresentar. E foi, por conta disso, repreendido pelo rei (Deus), que lhe tirou a moeda sob sua guarda e passou-a para o servo que tinha conseguido o melhor resultado.

O fato é que Deus nos dá habilidades e dons (representados pelas moedas) para que os coloquemos em uso. E receber talentos e deixá-los ociosos é pecar por omissão. 

O rei não deu instruções detalhadas para os servos sobre como agir. Apenas lhes entregou as moedas e disse-lhes para administrar bem o dinheiro. Isso porque entendia que os servos tinham suficiente discernimento para fazer as escolhas corretas. E, se não fosse assim, como eles poderiam ter sido responsabilizados pelos resultados que conseguiram? 

O que Deus espera de nós, isso sim, é obediência aos mandamentos d´Ele. E, depois, que usemos as habilidades e dons que nos foram dados para obedecê-lo. E quando nos comportamos assim, aí é possível dizer que Deus está no controle. Não diretamente, mas sim através da obediência que demonstramosSó isso.

Com carinho      

sexta-feira, 27 de março de 2015

ENTENDENDO DEUS ATRAVÉS DA MÚSICA

Como entender Deus em toda sua majestade e glória? Como explicar esse Ser tão diferente para aqueles que não acreditam?

Na verdade, é difícil falar sobre Deus porque as palavras humanas não foram desenvolvidas para descrevê-lo. Elas simplesmente não são suficientes para explicar um Ser tão magnífico, tão especial.

Para mim, a melhor forma de entender Deus é pensar na música. Ela funciona a partir de melodia, ritmo e harmonia e não através de conceitos racionais e, por isso, torna-se impossível descrevê-la com palavras. A música não é para ser compreendida pela razão e sim para ser sentida, isto é "vista" através dos "olhos" dos sentimentos.

E assim também é com Deus: Ele somente pode ser "visto" por nós com os “olhos” da fé, isto é através do nosso espírito, a centelha divina que reside dentro de cada ser humano.

Tal como Deus, a música é muito poderosa. Tem poder até para mudar as circunstâncias das nossas vidas. Por exemplo, experimente assistir um filme de mistério ou de amor sem a música de fundo. O "clima" de suspense ou romantismo vai simplesmente sumir. 

A compatibilidade entre a música e Deus é tão grande que eles estão sempre juntos. A Bíblia nos diz que Deus “habita” no meio dos nossos louvores. E a música é parte muito importante em todo culto a Ele . 

Tenho para mim - essa é apenas uma opinião pessoal - que a boa música não é de fato criada pelo seu compositor. Ela já existe, criada por Deus. O compositor apenas é o primeiro ser humano a captá-la e trazê-la ao nosso conhecimento. Para mim, a Nona Sinfonia de Beethoven prova exatamente isso. Essa obra magnífica foi composta quando Beethoven já estava surdo - ele nunca ouviu a obra que compôs mas a captou através da sua mente. 

Concluindo, se alguém lhe pedir para você falar de Deus, comece dizendo: "pense numa música da qual gosta muito, que fez diferença na sua vida..." 

Com carinho

quarta-feira, 25 de março de 2015

FOME DE MILAGRES

O ser humano tem fome de milagres. Ansiamos por ações extraordinárias de Deus para nos livrar dos problemas que não conseguimos resolver pelas nossas próprias forças. Queremos sentir o poder de Deus atuando em nossas vidas - isso nos dá enorme conforto. Nos faz sentir amados e protegidos por Deus.

Quando essa fome de milagres é explorada de forma inescrupulosa, encher uma igreja torna-se coisa fácil. E infelizmente vemos isso acontecer com muita frequência no mundo evangélico - basta ligar a televisão diariamente. 

Agora, tão ruim quanto a exploração de milagres inexistentes ou exagerados é a posição oposta - ceticismo total. Defender a tese que milagres não existem e, se existiram, foi apenas nos tempos bíblicos - a ação do Espírito Santo teria sido "apagada" após aqueles tempos, como uma luz que foi desligada. 

O ceticismo vai contra o ensinamento bíblico pois diminui o papel do Espírito Santo. Afinal, Jesus disse que, mediante a fé e a ação do Espírito Santo, aqueles(as) que creem poderiam fazer milagres ainda maiores do que os realizados por Ele mesmo (João capítulo 14, versículos 12 a 14). E foi exatamente isso que aconteceu: os apóstolos realizaram milagres impressionantes, conforme relata o livro dos Atos dos Apóstolos.

Eu mesmo já presenciei alguns milagres, portanto acredito na existência deles. Mas não acho que eles acontecem a toda hora e muito menos que podemos marcar dia e hora para eles. 

Agora, é interessante perceber que o tema "milagres" é muito pouco estudado dentro das igrejas. Ao longo de mais de 50 anos de vida cristã, eu ouvi muitos sermões prometendo milagres, mas vi muito poucos estudos sérios sobre esse tema discutindo, por exemplo, as razões pelas quais Deus realiza (ou não realiza) milagres, quando se deve supor que os milagres poderão ocorrer, o que é de fato um milagre, etc. E é essa lacuna que estou tentando preencher aqui.

E começo por perguntar: por que Deus às vezes decide violar as leis naturais que Ele mesmo estabeleceu e fazer milagres? Na verdade, não temos uma resposta completa para tal pergunta, pois não nos é possível entender completamente a mente de Deus - mal conseguimos entender uns aos outros, que dirá Deus.

Mas podemos ter certeza que Deus sempre tem razões fortes para realizar milagres. Ele não atua de forma aleatória. Nunca. E se estudarmos a Bíblia dá para estabelecer alguns padrões para seu comportamento. 

Por exemplo, há quatro períodos bíblicos onde os milagres foram muito presentes. É claro que existiram milagres em outros momentos, mas nunca de forma tão constante e grandiosa:
  • Época de Moisés (Êxodo do Egito): Deus queria tirar o povo de Israel da escravidão e constituir uma nova nação. 
  • Época dos profetas Elias e Eliseu: o culto a Baal ameaçava dominar o povo de Israel e contava até com o apoio dos governantes da época. Os representantes da fé verdadeira na terra precisavam ser revestidos de poder suficiente para enfrentar essa ameaça.  
  • Época de Jesus: os milagres d´Ele testemunharam sobre sua Missão. 
  • Época da Igreja Apostólica: os milagres atestaram a autoridade espiritual dos apóstolos como continuadores da obra de Jesus.
Ao olhar para esses períodos "milagrosos" é fácil perceber que Deus pratica milagres para fazer seus planos avançarem. Ele queria constituir um povo (Israel), encarregado de levar adiante suas leis e de ser a matriz para o Messias (Jesus). Foi preciso proteger esse povo para que ele não se perdesse na idolatria. Quando Jesus chegou, foi necessário autenticar sua missão. E, finalmente, foi necessário dar poder para os primeiros seguidores de Jesus, de forma que pudessem estabelecer a igreja e enfrentar perseguições e incompreensões.

Não é difícil entender o que ocorreu nos quatro períodos citados, especialmente porque hoje temos perspectiva completa dos fatos. Mas nem sempre conseguimos tal tipo de perspectiva, especialmente quando estamos vivendo os fatos. 

Aí precisamos que Deus nos revele o que está acontecendo em nossas vidas. Pode crer que, se você pedir a Ele para lhe dar a perspectiva necessária, ajudando você a entender o que está acontecendo em sua vida e permitindo que você faça a sua vontade e cumpra seus planos, pode ter certeza que Ele vai atender. Isso aconteceu com vários personagens da Bíblia.

Então é possível estabelecer um principio para o comportamento de Deus: Ele não realiza milagres gratuitamente - suas ações estão sempre ancoradas nos seus próprios planos para os seres humanos.

Ora, se milagres são coisas especiais, que Deus resolve fazer por razões muito importantes, precisamos tomar cuidado para não banalizá-los. Nunca. Assim, ninguém pode ficar prometendo milagres a torto e a direito, marcar cultos onde milagres vão ocorrer e assim por diante. Afinal, o Espírito Santo não é nosso servo para ficar fazendo aquilo que comandamos. É exatamente o contrário: nós é que somos servos de Deus.

Um terceiro ponto importante é que precisamos aprender a identificar os milagres quando ocorrem. E sei que é mais fácil perceber e dar valor aos milagres visíveis, como a travessia a seco do Mar Morto ou a ressurreição de Lázaro. 

Os milagres que ocorrem silenciosamente, sem grandes demonstrações exteriores, frequentemente não são facilmente percebidos e valorizados. Por exemplo, a conversão surpreendente de um pecador renitente como Zaqueu, o chefe dos coletores de impostos na época de Jesus. Ou a transformação, em apenas 40 anos, de um bando de escravos num povo guerreiro, como aconteceu com Israel, durante o período de peregrinação no deserto. 

Finalmente, precisamos confiar que Deus sempre age, mesmo quando não conseguimos perceber isso. Mas quase nunca age como queremos ou pensamos que deveria fazer e menos ainda no tempo que esperamos. Mas Ele age.

E como podemos ter certeza disso? Sabemos disso porque acreditamos nas promessas que Ele nos fez. Esse é o território da fé. Isto é, sabemos porque temos confiança n´Ele. Simples assim.

Com carinho

segunda-feira, 23 de março de 2015

COMO CONSOLAR QUEM SOFRE

Não há dúvida que a Bíblia chama cada cristão(ã) para consolar quem sofre. Para dar apoio moral e espiritual para quem perdeu tragicamente um ente muito querido, ou sofre com doença incurável, ou passa por sérias crise familiar e assim por diante. Consolar quem sofre é certamente uma das atividades mais nobres para qualquer cristão(ã). 

Agora, por que é tão difícil consolar? Conseguir dizer as coisas certas para quem sofre? É o que vou tentar responder.

O problema parece estar ligado ao sentimento de impotência que surge em quem tenta atuar como consolador(a). Frequentemente parece ser que não há muito a fazer, só chorar junto com quem sofre. Chega até a ser frustrante. 

Essa sensação de impotência fica evidente em algumas reações comuns a quem tenta consolar. Algumas pessoas, na tentativa de produzir algum resultado, de sentir-se úteis, tentam preencher o vazio, o silêncio, falando “abobrinhas” do tipo “foi a vontade de Deus" ou "era chegada a hora”. Já vi isso acontecer muitas vezes. Ora, declarações desse tipo não ajudam nada e podem até ser prejudiciais, inclusive levando quem sofre a se afastar de Deus.  

Outras pessoas, até inconscientemente, tentam se afastar de quem sofre, numa forma de auto-defesa. Já que pouco podem fazer, o melhor mesmo é ficar longe. E, para se justificar, alegam que não sabem o que deveriam dizer, não têm tempo para ajudar ou qualquer outra coisa desse tipo. Pode ter certeza que essa postura é muito mais comum do que possa parecer.

Agora, o que a Bíblia ensina sobre como consolar quem sofre? A resposta talvez surpreenda você. No Evangelho de João capítulo 16, versículo 7, Jesus contou ser necessário que Ele fosse embora deste mundo, para que Deus enviasse o Consolador (Espírito Santo). Segundo Jesus, a presença do Espírito Santo no mundo iria compensar sua ausência. 

E aí está a resposta para as perguntas do início deste post: quem consola é o Espírito Santo, não somos nós, por mais bem intencionados que sejamos. O papel de quem quer ajudar é apenas servir de canal para a ação do Espírito Santo. 

É a presença do Espírito Santo que faz toda a diferença. Ele dará, para quem ajuda a consolar, a palavra certa, na hora precisa. Irá ensinar quais atitudes serão importantes ou deverão ser evitadas. Quem quer ajudar os(as) que sofrem deve deixar o Espírito Santo agir. Afinal, esse é o seu papel. 

Sendo assim, aí vão alguns conselhos práticos para quem pretende ajudar as pessoas que sofrem:   
  • Ore bastante, antes de entrar em contato com quem sofre, e peça a ajuda do Espírito Santo. Insista na oração até se sentir seguro de saber o que fazer. 
  • Haja assim que possível. Não deixe o tempo passar. O quanto antes, melhor.
  • Fale com a pessoa que sofre aquilo que o Espírito Santo tiver orientado você a dizer.   
  • Mantenha-se tranquilo(a) – quando excitadas, as pessoas tendem a falar demais e não costumam avaliar bem o que vão dizer. 
  • Não tente preencher o silêncio se não tiver nada a dizer. Afinal, não há obrigação de falar. Às vezes é até mais efetivo apenas ficar ao lado da pessoa que sofre, abraçando-a ou segurando sua mão. 
  • Faça pequenos gestos que traduzam seu apoio continuado ao longo do tempo: telefone sempre, dê pequenos presentes, ofereça-se para acompanhar a pessoa que sofre até uma igreja, etc. 
  • Ouça com atenção e paciência os desabafos da pessoa em sofrimento. 
  • Ore com ela sempre que puder
Com carinho

sábado, 21 de março de 2015

QUAL DOS "RETRATOS" DE JESUS É O VERDADEIRO?

Há três diferentes “retratos” de Jesus que podem ser construídos:
  • Real: descrição do homem que viveu na Galiléia cerca de 2.000 anos atrás - o que Ele gostava, a quem amava, por onde andou, o que vestiu, o que falou, etc.
  • Histórico: retrato construído com base nos textos bíblicos (por exemplo, os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João) e outros registros históricos. 
  • Espiritual (aceito pela fé): retrato que os cristãos construíram ao interpretar os relatos históricos sobre a vida d´Ele. Por exemplo, pertence ao retrato espiritual a declaração que Jesus é o Salvador da humanidade.
Boa parte das controvérsias que existem a respeito da figura de Jesus nascem na falta de entendimento das características desses retratos e da forma como foram construídos. É o que explico a seguir:

Histórico x Real 
O Jesus histórico é necessariamente uma visão simplificada do homem real. A própria Bíblia reconhece que o relato da vida d´Ele nela contido reflete apenas uma parcela do que Jesus fez durante sua vida.

Mas a diferença entre "histórico" e "real" não é um problema restrito a Jesus. Ela aparece com qualquer personagem histórico. Afinal, nunca se pode conhecer tudo sobre a vida de uma pessoa, como os pensamentos mais íntimos dela. Sempre há uma limitação física nas informações que os historiadores conseguem captar, processar e apresentar num relato (livro) histórico.   

Os historiadores sempre precisam fazer uma seleção daquilo que será incluído no retrato histórico que vão construir.  Usarão seu melhor julgamento para definir o que vão incluir e o que vão deixar de fora. Isso é inevitável. Um exemplo é a descrição do nascimento de Jesus: apenas dois evangelhos, Mateus e Lucas, abordaram essa questão. Os outros dois escolheram nada falar.

E ao fazer sua seleção dos fatos, o autor do retrato em construção pode introduzir distorções, voluntárias ou propositais. Pode ser, por exemplo, esconder fatos ruins para "pintar" uma imagem mais favorável da pessoa retratada. 

É exatamente isso que muitos historiadores ateus alegam que os autores dos quatro evangelhos fizeram. Acusam os evangelistas de terem maquiado a imagem de Jesus, escondendo coisas ruins e incluindo apenas o que era bom. Será que isso aconteceu mesmo?  

Não é o que podemos verificar ao ler os evangelhos com cuidado – existem vários relatos que poderiam ter sido facilmente excluídos para "embelezar" o retrato de Jesus. O fato de terem sido mantidos indica que houve preocupação dos evangelistas de relatar a realidade. Vejamos alguns exemplos: 
  • Jesus disse que sua preocupação maior não era com sua família mas sim os seus discípulos - essa declaração parece demonstrar falta de amor por sua mãe e irmãos (Mateus capítulo 12, versículos 46 a 50). 
  • O questionamento quanto a paternidade real de Jesus, presente durante toda a sua vida. Há relatos na Bíblia em que Jesus é referido apenas como filho de Maria, o que era uma ofensa naquela época. 
  • A indicação que as primeiras testemunhas da ressurreição de Jesus foram mulheres. Ora, naquela época, a palavra das mulheres não era aceita nos tribunais por não ser considerada confiável. O relato dos evangelhos teria sido muito mais facilmente aceito se as testemunhas fossem homens. 
Há muitos outros exemplos, mas esses bastam para provar que não houve maquiagem do retrato histórico de Jesus. Os autores dos evangelhos escreveram a verdade, como a conheciam. Nada mais e nada menos. 

Histórico x Espiritual
Como já disse, os retratos históricos de uma figura importante da história são necessariamente incompletos. Ainda assim é esse material que serve de base para qualquer reflexão sobre o significado maior da vida daquela pessoa. 

E tal tipo de reflexão é bastante comum. Por exemplo, existem várias biografias de Getúlio Vargas, que foi Presidente do Brasil por muitos anos. Agora, o entendimento de como ele inspirou o comportamento dos seus seguidores e a sociedade brasileira vai além desses retratos históricos. E o resultado desse tipo de análise depende da forma como os analistas olham para a realidade - por exemplo, se eles(as) têm uma visão dita de direita vão chegar a conclusões diferentes daqueles(as) ditos(as) de esquerda.

E o mesmo se pode dizer de outros personagens históricos importantes, como Mahatma Ghandi, Maomé, Confúcio, etc. Cada um deles representa hoje, para aqueles que os admiram e seguem seus ensinamentos, bem mais do que seus respectivos retratos históricos indicam. O primeiro, é o pai da Índia moderna, o inspirador de uma nova sociedade. O segundo é o profeta de uma grande religião. E o terceiro o fundador da sabedoria chinesa.

O mesmo tipo de análise foi feito em relação a Jesus. Seus seguidores fizeram reflexões, a partir dos fatos históricos relatados, e chegaram a conclusões teológicas sobre o significado mais amplo da sua vida. Vemos isso claramente nas cartas do apóstolo Paulo - elas fazem uma avaliação ampla do significado de Jesus como Salvador da humanidade, filho de Deus, membro da Trindade, etc.

Essas reflexões vêm se acumulando há cerca de 2.000 anos, pois depois de Paulo muitos outros teólogos, como Santo Agostinho, São Tomás de Aquino e Calvino aprofundaram essas conclusões. Sendo assim, o retrato espiritual de Jesus tem sofrido evoluções ao longo da história. As bases dele tem sido mantidas, mas os detalhes tem evoluído e isso é bom, pois a cultura humana também tem mudado ao longo do tempo. 


Portanto, o que os cristãos fizeram não é diferente do que é feito em relação à vida de todos os grandes homens. Logo, não há qualquer problema na existência de um retrato espiritual d´Ele, construído pelos seus seguidores.

A questão verdadeira é se esse retrato mais amplo de Jesus, além do histórico, tem suporte nos fatos conhecidos. Se houver conflito entre, aí poderia ser afirmado que os cristãos criaram uma lenda. E isso tem acontecido com frequência em relação a outros personagens históricos. Por exemplo, a imagem que os muçulmanos hoje fazem de Maomé não bate com a realidade de um homem que liderou guerras de conquista, ou ainda a imagem de defensor das liberdades que muitos(as) intelectuais de esquerda fazem de Fidel Castro não está de acordo com a realidade das perseguições políticas em Cuba. 


Será que isso aconteceu com o retrato espiritual de Jesus construído pelos cristãos? Terão os cristãos criado uma lenda? Essa é a discussão que de fato importa. 


E há muito a dizer em defesa da fé cristã e infelizmente não tenho espaço aqui para aprofundar esse debate - há vários outros posts aqui no blog onde falo sobre isso. Mas vou dar dois exemplos. 


Muitos historiadores ateus duvidam se Jesus sabia do papel que lhe iria ser atribuído pelos cristãos, o de Salvador da humanidade. Eles defendem a tese que Jesus nunca afirmou tal coisa e isso seria uma lenda criada pelos cristãos.


Na verdade, há várias passagens na Bíblia demonstrando que Jesus conhecia bem seu papel. Por exemplo, em João capítulo 6, versículo 51, Ele disse: 

"Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém dele comer viverá eternamente; e o pão que eu darei pela vida do mundo, é a minha carne." 

Outro questionamento tem a ver com o conhecimento que Jesus, depois de ressurgir dos mortos, teve a respeito dos fatos futuros. Se Ele não conhecia o que haveria de acontecer, como afirmar sua divindade? A base para essa crítica é um texto onde Jesus parece ter profetizado que o apóstolo João não morreria até sua segunda vinda (João capítulo 21, versículos 20 a 23). Como João morreu e Jesus ainda não voltou, a profecia estaria errada.


Se o texto citado for lido com cuidado, pode ser percebido que Jesus não disse nada disso. Pedro quis se meter numa conversa entre Jesus e João e aí recebeu como resposta que, se o Senhor quisesse, poderia fazer qualquer coisa, até fazer com que João permanecesse vivo

Esses são apenas dois exemplos, mas há muito mais. E você, cristão(ã), pode ter certeza que é perfeitamente possível demonstrar que nada há de lendário no retrato espiritual que os cristãos construíram de Jesus.

As pessoas podem até não acreditar em Jesus - isso é um direito delas, garantido pelo livre arbítrio que Deus lhes deu. Mas se alguém deixar de acreditar em Jesus, que não seja por conta dessas críticas infundadas à doutrina cristã. Porque a fé cristã não demonstrou ser confiável.

Nossa fé é inteiramente segura e completamente apoiada pelos fatos históricos conhecidos. Pode ter certeza disso.

Com carinho

sexta-feira, 13 de março de 2015

POR QUE JESUS TINHA QUE MORRER PARA NOS SALVAR?

Por que Jesus tinha que morrer na cruz para que nossos pecados fossem perdoados? Deus não poderia ter encontrado outra forma de garantir nossa salvação? Essas perguntas tratam do próprio núcleo da fé cristã. E é preciso entender claramente as respostas que a Bíblia dá para elas.

Todos precisam de salvação
Todos haveremos de prestar contas para Deus daquilo que fizermos ao longo de nossas vidas. E como todos pecam - por inveja, mentira, ciúme, maledicência, hipocrisia, ira, etc -, todos são culpados aos olhos d´Ele. Uns terão pecado mais e outros menos, mas todos, inclusive você e eu, teremos juntado culpa suficiente para sermos condenados. 

E como Deus é santo e abomina o pecado, nossos erros acabam por nos afastar da presença d´Ele. Assim, torna-se preciso resgatar nosso relacionamento com Deus. E a única forma de sermos aceitos de volta seria a reparação do mal feito. É exatamente assim que funciona no mundo secular: um criminoso vai para a cadeia e/ou paga multa para poder quitar suas contas com a sociedade. 

Ora, Deus é muito exigente e nossos pecados são volumosos, portanto a punição necessária para repará-los teria que ser pesada - consulte as punições previstas na Lei dada por Deus a Moisés, descritas no livro de Levítico, para ter uma melhor noção do que acabei de afirmar. 

Nem multa ou tempo passado na prisão seriam suficientes para oferecer a reparação necessária. Somente o sacrifício de nossas vidas poderia alcançar isso. Mas aí estaríamos destruindo aquilo que desejamos preservar.

Mas não sendo oferecida a reparação necessária, não haveria como nos reconciliarmos com Deus e continuaríamos afastados d´Ele. Para sempre. E essa condição é exatamente aquilo que a Bíblia define como sendo o inferno. 

Resumindo, por nossa própria conta não conseguiríamos evitar a condenação e o inferno (o afastamento permanente de Deus). Simples assim.  

Como podemos ser salvos?
A salvação requer, conforme já disse, uma reparação justa pelo mal feito. Mas requer também que venhamos a escapar do ciclo "pecado/reparação", como acontece com o criminoso que sempre acaba voltando para a cadeia. Precisamos ser transformados em seres que não mais se deixam dominar pelo pecado, sermos regenerados. 

Nada disso pode ser feito com base nas nossas próprias forças. Tal tarefa não está ao nosso alcance. Somente o próprio Deus tem poder para conseguir fazer isso. Em consequência, a salvação não vem por nosso mérito. Depende da vontade soberana de Deus e é aí que Jesus entra na "equação".

Para cumprir a primeira condição – reparação pelos pecados cometidos - Jesus ofereceu seu próprio sangue como reparação (pagamento) pelos nossos pecados (2 Corintios capítulo 5, versículo 21). Agora, para que tal sacrifício possa ser efetivo nas nossas vidas é preciso que aceitemos o que Jesus fez, ou seja reconheçamos sua condição como nosso Salvador. 

Tudo isso também ajuda a explicar porque Jesus precisava ser homem e Deus - duas naturezas convivendo no mesmo Ser. Precisava ser homem para poder representar cada um de nós. E precisava ser Deus, porque seu sacrifício tinha que transcender o tempo. 

O sacrifício de Jesus precisava reparar tanto os pecados humanos cometidos antes da sua vinda ao mundo, como também os pecados que iriam ser cometidos depois da sua passagem pela terra (como os nossos). E somente Deus pode transcender o tempo, fazer algo que esteja fora da sua influência. Isto porque foi Ele quem criou tudo, inclusive o próprio tempo. 

A segunda condição relacionada com a salvação - mudar nossa natureza para deixamos de ser escravos do pecado - também foi satisfeita por Jesus. Quando o aceitamos como nosso Salvador, tal fé nos garante uma nova natureza. Passamos a ser novas criaturas. Funciona como se tivéssemos "nascido" de novo (João capítulo 3, versículos 1 a 15 e 2 Coríntios capítulo 5, versículo 17).

Isto não quer dizer que nos tornamos perfeitos, como Deus é. Embora tenhamos nova natureza, isto é nova consciência do pecado, ainda continuamos a viver sob influência dos pensamentos e hábitos antigos.

E o processo pelo qual essa contradição vai sendo eliminada é o que a Bíblia chama de santificaçãoE esse é o território de atuação do Espírito Santo - é sua presença nas nossas vidas que gera a regeneração necessária. 

Outras razões para a vinda de Jesus ao mundo
Além do papel fundamental no plano de salvação, a vinda de Jesus ao mundo cumpriu três outras funções importantes. Primeiro, o seu amor por nós, que motivou seu sacrifício na cruz, deu um golpe mortal em Satanás (Hebreus capítulo 2, versículo 14). A partir da morte e ressurreição de Jesus, embora o Diabo ainda continue a atuar neste mundo, sua derrota já está definida.

Depois, Jesus revelou uma série de ensinamentos - instruções sobre como o ser humano deve viver - fundamentais para que possamos agradar a Deus. 

Finalmente, a vida de Jesus entre nós foi um exemplo completo de como um ser humano pode viver em santidade absoluta. Assim, quando tivermos dúvida sobre como agir nas diferentes circunstâncias de nossas vidas, basta pensar sobre o que Ele teria feito.

Com carinho