quarta-feira, 13 de julho de 2016

RESISTI AO MAL E ELE FUGIRÁ DE VÓS

Eu não gosto muito de falar do Diabo. O assunto é desagradável e acho que não se deve dar importância demais a ele, ao contrário do que fazem alguns teólogos e pregadores. Mas também não é correto não falar nada, porque fica parecendo que o Diabo não tem nenhuma importância, posição perigosa, pois minimiza um perigo real.

Os recursos do Diabo
Ele conta com dois recursos poderosos. A Bíblia diz que ele é o “pai da mentira” e sua atuação é sempre baseada nisso. Por exemplo, quando ele aparece pela primeira vez na Bíblia, no relato de Adão e Eva, ele mente para Eva, para que ela se anime desobedecer a Deus (Gênesis capítulo 3, versículos 1 a 7). 

A segunda arma dele é o conhecimento das nossas fraquezas e/ou necessidades, que ele sabe explorar muito bem. Sua experiência em fazer isso é enorme e vem sendo acumulada a milhares de anos. 

Há um bom exemplo disso na Bíblia: quando Jesus ficou jejuando por 40 dias no deserto: o Diabo o tentou com comida, necessidade premente para Jesus naquele momento (Mateus capítulo 4, versículos 1 a 11). É claro que Jesus não se deixou levar por essa artimanha, mas o ocorrido demonstra bem como o Diabo opera. 

A mentira somada à exploração dos nossos pontos vulneráveis é uma combinação muito poderosa, pois o Diabo tem por hábito nos dizer exatamente aquilo que gostaríamos de ouvir - adulações, promessas (que não vão se cumprir), minimização das consequências do pecado, etc. E isso acaba sendo a perdição de muita gente. 

As formas de atuação 
Há três formas que o Diabo usa para influenciar suas vidas. A primeira delas é a tentação. Foi justamente o que ele fez com Jesus, no exemplo que dei acima. Para tentar você, o Diabo parte de uma necessidade ou de um desejo, que até pode ser legítimo, e procura convencer você que o fim (o atendimento desse desejo ou necessidade) justifica os meios utilizados para atingi-lo, especialmente quando esses meios são baseados no pecado. 

Por exemplo, o rei Davi desejou ter uma mulher muito bonita (Bate-Seba), mas que era casada. Para conseguir seu objetivo, fez com que seu marido, Urias, fosse morto. Davi caiu na tentação a prejudicou toda a sua vida a partir daí. 

Tentação é coisa tão séria que Jesus colocou um alerta sobre isso na oração que Ele ensinou aos seus discípulos (Pai Nosso): “e não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal...” (Mateus capítulo 6, versículo 13).

Todos, rigorosamente todos, os seres humanos são tentados em diferentes momentos das suas vidas – nem Jesus ficou livre desse tipo de teste. A diferença está em como a pessoa reage a esse tipo de teste - se cede ou não. E se ceder, como vai lidar depois com o pecado cometido – esquecer, encontrar justificativas para seus erros, repetir o erro, ou se arrepender e corrigir seus caminhos.

A segunda forma de ação do Diabo é a opressão. Isso ocorre quando ele usa outras pessoas e/ou as circunstâncias da sua vida para desestabilizar você.

Por exemplo, uma jovem é gorda e a sociedade é cruel com quem tem esse tipo de aparência. Aí o Diabo se aproveita para infelicitar a vida dessa moça, submetendo-a a constrangimentos, a desilusões amorosas, etc. A partir de certo momento, a moça começa acreditar que não pode ser mesmo feliz, que não merece isso, e acaba fazendo o trabalho do Diabo sem nem perceber. 

Há muitas áreas onde as pessoas podem ser oprimidas, além da aparência física, como, por exemplo, nos seus relacionamento, na falta de dinheiro, através de doenças, etc. As possibilidades são muitas e é exatamente por isso que há tanta gente oprimida por aí, vivendo uma vida miserável.

A terceira maneira de atuação é a pior de todas: a possessão. Ocorre quando o diabo passa a controlar a mente de determinada pessoa. E a pessoa possuída acaba fazendo coisas terríveis: tendo crises de ira inexplicáveis, machucando a si mesma, ofendendo os outros, etc.

Tal controle da mente de uma pessoa pode ser intermitente - se manifesta de vez em quando - ou permanente, como no caso do rapaz que Jesus encontrou, que vivia entre as tumbas de um cemitério (Lucas capítulo 8, versículos 26 a 34).

A possessão normalmente se dá porque a pessoa tinha algum tipo de brecha séria na sua vida: pecado que não foi abandonado (pois a pessoa não queria mudar sua vida); ou a recusa consciente em aceitar Jesus; ou trabalho espiritual (como macumba) feito por terceiro para destruir, que frutificou porque a pessoa não tinha proteção espiritual.

A Bíblia conta sobre o momento em que o Diabo entrou em Judas, o discípulo de Jesus que o traiu, por causa da ganância daquele homem (João capítulo 13, versículos 21 a 27). E isso acabou levando Judas à destruição - ele traiu Jesus e se suicidou por conta do remorso.

Possessões não tratadas - isto é, quando a pessoa afetada não é libertada da ação do Diabo - sempre levam à destruição. E é preciso muito cuidado com isso. 

Como se defender
A Bíblia nos diz: “mas resisti ao Diabo e ele fugirá de vós” (ver Tiago capítulo 4, versículo 7). E foi isto que Jesus fez, quando foi tentado. Então devemos fazer o mesmo: resistir à ação do mal com todas as forças e com as ferramentas que temos à disposição. Mas como fazer isso?

Começo a responder lembrando da resistência contra os pensamentos impuros. Certa vez um amigo me perguntou: “Como faço isso, pois não consigo impedir que pensamentos pecaminosos apareçam na minha mente?” Nem ele conseguia, nem ninguém consegue evitar de todo tal tipo de pensamento. Pensamentos pecaminosos aparecem mesmo e quando menos se espera.

Mas é possível sim impedir que eles façam "ninho", ou seja dominem a mente ao criar corpo e se fortalecer. Quando o pensamento impuro chega é preciso combatê-lo de imediato, antes que ele crie raízes. Simples assim.

Outra forma de resistência à ação do Diabo é a oração. Ore sempre e peça a Deus forças para resistir. E confesse sempre seus pecados para Ele - fale com Deus abertamente e lembre-se que Deus já sabe mesmo de tudo. Depois de confessar, peça perdão e se deixe envolver pela Graça de Deus - isso vai fechar suas eventuais brechas espirituais. 

Outra coisa importante é não ter medo. Você precisa levar a sério a ameça do Diabo, mas não deve temê-la, pois o poder que está à sua disposição, mediante a ação do Espírito Santo, é maior que o poder do Diabo. Nunca se esqueça que o Inimigo já foi derrotado por Cristo na cruz - por enquanto ele continua por aqui , atrapalhando, mas sua derrota final já está decretada.

Outra forma de resistir ao Diabo é usar a Bíblia contra suas mentiras, conforme Jesus fez. Lembre-se que não serão suas palavras que terão sucesso na tarefa de fechar as portas para o Diabo e sim a própria Palavra de Deus. Não se esqueça nunca disso.

Finalmente, procure ajuda quando necessário - em casos mais sérios, costuma ser necessário contar com o apoio de quem tenha ministério (dom) de discernimento espiritual e libertação.

Jesus libertou diversas pessoas das mãos do Diabo durante seu ministério na terra e os apóstolos fizeram o mesmo. E assim deram o exemplo.

Portanto, não há vergonha nenhuma em recorrer a um(a) irmão(ã) - pastor(a) ou leigo(a) - que funcione como "médico(a)" para sua "doença" espiritual.

Com carinho

segunda-feira, 11 de julho de 2016

CONHEÇA-TE A TI MESMO

A famosa frase “conheça-te a ti mesmo” é atribuída ao filósofo Sócrates, que viveu mais de 400 anos antes de Cristo. Ela indica o caminho que a filosofia ainda hoje entende ser necessário para viver uma vida mais feliz e plena: o autoconhecimento. A pessoa precisa conhecer suas dificuldades, anseios, crenças, valores, etc para aprender a lidar com as dificuldades naturais da vida e conseguir tomar as decisões adequadas.

Para a maioria dos filósofos o autoconhecimento deve ser baseado inteiramente na razão – daí a importância de acumular saber. E, segundo essa linha de pensamento, as emoções são apenas empecilhos para que a razão atue de forma plena e livre. Elas precisam ser controladas pois obscurecem o pensamento lógico.

A partir de Freud, uma outra abordagem para o autoconhecimento passou ser considerada importante. As emoções são tomadas como parte fundamental da pessoa e o autoconhecimento não é possível sem lidar adequadamente com elas. Sem percepção de como os próprios sentimentos – bons e maus – funcionam, a pessoa carrega consigo uma enorme lacuna que impacta sua vida como um todo.

Esse desafio é ainda maior porque sentimentos humanos não costumam ser lógicos: são misturados, contraditórios e confusos - é possível até amar e odiar a mesma pessoa. Portanto, reconciliar sentimentos é tarefa delicada e complexa – daí porque há tantas pessoas emocionalmente adoecidas. 

Essas duas vertentes do conhecimento humano, primeiro a filosofia - com sua proposta de analisar racionalmente todas as coisas -, e depois as ciências de corte psicológico - com sua proposta de conhecer e aprender a lidar com as próprias emoções -, são ambas propostas extremamente importantes para levar as pessoas a vidas melhores e mais equilibradas, mas não dão conta de tudo. Não mesmo.

Questões como o amor ao próximo; o sentimento de paz mesmo em meio a uma guerra; e o desapego aos bens materiais, não conseguem ser explicadas nem pela filosofia e nem pelas ciências psicológicas. Essas coisas não fazem sentido lógico e nem nascem das emoções humanas. 

Isso porque há uma terceira vertente – a espiritual – que é fundamental para qualquer ser humano. Deus nos criou à sua imagem e semelhança e por causa disso reside em nós uma centelha divina. Tal centelha – conhecida na linguagem teológica como espírito – é nossa forma de acesso à dimensão espiritual.

Na noite anterior ao da sua crucificação, Jesus disse: “o espírito está pronto mas a carne é fraca” (Mateus capítulo 26, versículo 41). Com essa frase, Ele comprovou a existência do campo espiritual e mostrou que ele difere do campo material (representado na frase pela palavra "carne").

Jesus sabia que haveria de passar pela crucificação e enfrentaria luta espiritual gigantesca - Satanás fez tudo para conseguir que Ele desistisse de oferecer sua vida por nós. Seu espírito estava pronto para enfrentar tudo, mas suas emoções eram um turbilhão, pois Jesus foi humano como nós ("a carne era fraca"). Exatamente por isso que Ele acrescentou a expressão: "minha alma está profundamente triste" (versículo 38) - nesse último versículo, alma tem exatamente a ver com suas emoções.

Sem a pessoa levar em conta seu próprio espírito, sem entender como ela se relaciona com Deus, uma parte fundamental do seu autoconhecimento fica perdida. 

Agora, é interessante perceber que há na Bíblia um ensinamento que muito parecido com o de Sócrates: “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João capítulo 8, versículo 32). A sabedoria humana normalmente entende essa frase como a mentira aprisiona, enquanto a verdade (o conhecimento) liberta o ser humano. E entendido assim, parece ser que Jesus e Sócrates ensinaram a mesma coisa.

E isso está parcialmente correto pois o autoconhecimento não deixa de ser uma busca pela verdade. Mas o ensinamento da Bíblia vai muito além daquilo que Sócrates propôs, pois toca também na questão do espírito humano.

Jesus disse que Ele mesmo é o Caminho para Deus, a Verdade Divina revelada para os seres humanos e a oferta da Vida Eterna para eles (João capítulo 14, versículo 6). Portanto, quem conhece e aceita Jesus, conhece a Verdade e é ela, ou seja, Jesus Cristo, que liberta o ser humano da escravidão do pecado e da morte eterna, sua consequência direta.

E essa Verdade somente pode ser entendida pelo espírito. Nem a razão e nem as emoções são adequadas para se apropriar dela. Somente através do espírito é que isso pode ser feito. 

Em conclusão, o autoconhecimento completo somente poderá vir da consideração dessas três dimensões a que me referi antes: da razão, das emoções e do espírito.

Usamos a razão para aprender a pensar corretamente - construir pensamentos coerentes -, avaliar corretamente as circunstâncias em que vivemos e conseguir tomar decisões práticas adequadas. Precisamos entender nossos sentimentos para ser saber como eles transformam e impactam nossas vidas. Mas sem o conhecimento da Verdade que é Jesus Cristo, não há como atingir o autoconhecimento completo.

E é exatamente nessa última dimensão, que tem a ver com o aspecto espiritual, onde cada um de nós enfrenta de fato o desafio de ser cristão.

Com carinho

sábado, 9 de julho de 2016

O NOVO ESCÂNDALO NA IGREJA EVANGÉLICA

E disse aos discípulos: É impossível que não venham escândalos, mas ai daquele por quem vierem! Melhor lhe fora que lhe pusessem ao pescoço uma mó de atafona, e fosse lançado ao mar, do que fazer tropeçar um destes pequenos. Lucas capítulo 17, versículos 1 e 2

Foi Jesus quem falou essas palavras duras especialmente dirigidas para líderes religiosos(as).

Nesse comentário, Jesus reconheceu que escândalos acabarão por acontecer, mais cedo ou mais tarde, porque a natureza humana é falha e líderes religiosos(as) são tão humanos(as) como as demais pessoas. 

Mas a razão para essa advertência terrível por parte de Jesus é simples: escândalos causados por líderes religiosos(as) geram grande impacto no meio da Igreja Cristã. Afinal, queiramos ou não, o fato é que líderes sempre acabam por se tornar referência para as demais pessoas e sua eventual queda em pecado desestabiliza muita coisa.

Primeiro, porque os escândalos expõem a Igreja Cristã ao ridículo público - por exemplo, você se lembra dos comentários decorrentes do caso dos bispos pegos pela alfândega norte-americana contrabandeando dólares dentro da Bíblia? Foi constrangedor para quem é cristão(ã).

Depois, porque esses escândalos acabam por levar pessoas com mente mais fraca e impressionável a duvidarem da sua fé - infelizmente, há quem confunda Jesus com os(as) líderes que dizem representá-lo aqui na terra. Isso não é verdade, mas as pessoas fazem essa confusão. E isso ficou muito claro, por exemplo, no caso dos padres pedófilos - um homem contou como se sentiu, ainda menino, ao ser abusado por um padre: "como dizer não para Deus".

Resumindo, líderes religiosos(as) recebem muitos dons espirituais de Deus - fé, discernimento espiritual, oratória, louvor, cura, etc - e por causa disso têm grande impacto na vida da Igreja Cristã. E também é por isso que sua responsabilidade é maior do que a das demais pessoas.

Agora, estou falando tudo isso por causa do último escândalo ocorrido dentro da igreja evangélica. Refiro-me ao caso do pastor Felipe Heiderich, casado com a conhecida pastora e cantora evangélica Bianca Toledo.

O pastor foi acusado pela própria mulher de cometer pedofilia com o filho dela (de outro casamento) de apenas 6 anos. No momento que escrevo este texto, o pastor Felipe está preso por conta dessa acusação, já que o crime do qual foi acusado é considerado hediondo. 

Sei que o pastor não foi julgado e, portanto, ainda precisa ter oportunidade para se defender melhor, assim é preciso ter cuidado no que se afirma contra ele (a justiça chama isso de "presunção da inocência").

Mas os indícios de que algo grave aconteceu são sérios e há uma criança pequena envolvida. E é estarrecedor pensar na possibilidade que um pastor possa ter feito isso e com o próprio filho da mulher com a qual escolheu se casar. 

O que nos cabe fazer e dizer numa situação como essa? Qual a postura que se espera do(a) cristão diante desses fatos?

Antes de tudo, precisamos orar por todos(as) os(as) envolvidos(as). Certamente, essas pessoas estão carregando grande carga de vergonha, tristeza, raiva, culpa, etc. E precisam da orientação do Espírito Santo. Merecem que intercedamos por elas e isso vale inclusive para quem tenha errado. Afinal, esse é o espírito do cristianismo.

Depois, temos que nos manter informados sobre o que aconteceu, buscando fontes de informação sérias e confiáveis. E não por causa de uma curiosidade excessiva e sim porque precisamos esclarecer as dúvidas daquelas pessoas que ficarem confusas com tudo o que aconteceu e tiverem suas vidas espirituais afetadas. 

Finalmente, é preciso aprender com esses tristes fatos. Tirar lições para nossas próprias vidas. Afinal, ninguém está livre de esbarrar em situações de riscos - lembro de uma moça que conheci, muitos anos atrás, que me contou sobre o momento em que flagrou um convidado à sua casa praticando atos libidinosos com seu bebê de poucos meses.

Precisamos ficar aprender a ficar atentos e a proteger melhor os nossos entes queridos, pois ninguém está livre de riscos. É triste constatar isso, mas é a mais pura verdade. 

Comportamentos como aquele do qual o Pastor Felipe é acusado sempre deixam sinais - por exemplo, as babás da tal criança contaram que ele se trancava por muito tempo com a criança no quarto dela. Ora, isso não parece ser um comportamento adequado - se não há maldade, por que trancar a porta do quarto?

Esses sinais precisam ser notados e temos que usá-los para tomar medidas para nos proteger (e aos nosso entes queridos). A Bíblia nos aconselha a sermos prudentes (Mateus capítulo 10, versículo 16), tomar cuidado com o que fazemos, com quem nos relacionamos, com os ambientes que frequentamos e assim por diante. 

Com carinho

quinta-feira, 7 de julho de 2016

ONDE ESTAVA DEUS?

“Na noite que meu filho Lukas morreu atropelado saindo de uma festa com os irmãos, antes de ir ele me ligou e me disse que estava meio cansado, a fim de dormir, e que se fosse seria apenas pelos irmãos da Igreja Presbiteriana Betânia ... “Vá meu filho! Vai ser legal! ... foi o que eu disse; e ele foi... eu sabia que não fora a “minha força” que o pusera no chão daquela estrada fria de Itaipú. Havia um caminho naquela estrada que estava para além de mim... A gente aprende que todos estão a um passo de qualquer coisa. A gente aprende que por vezes nem todos os esforços do mundo mudam determinadas realidades. A gente aprende que muita dor culposa que se sente decorre da culpa da bondade cristã salvadora, a qual assume para si poderes de salvação que não estão em nossas mãos. A gente aprende a discernir quais são as coisas que  se pode esperar ante um desespero e quais não se pode... A gente aprende, sutilmente, o que é agenda da estrada e o que é agenda do caminho.” Pastor Caio Fábio 

As tragédias se sucedem, umas após as outras. A enchente na região serrana do Rio de Janeiro, o assassinato de 12 crianças por um psicopata numa escola carioca, o terremoto e a tsunami no Japão, o assassinato de 73 pessoas, na sua maioria jovens, num acampamento na Noruega, os atentados terroristas em Paris, os massacres nos Estados Unidos, a guerra na Síria e assim por diante.

Quando nos vemos diante de fatos como esses, muitas pessoas ficam perplexas e perguntam: Onde estava Deus, que permitiu essa tragédia?

No começo deste post transcrevi o depoimento do conhecido Pastor Caio Fabio sobre a perda do seu filho Lukas - ele falou isso numa carta aberta que mandou para uma evangelista, que tinha passado por perda similar. Ele demonstra que há quem responda de forma diferente aos dramas da vida. Há quem ensine com seu exemplo 


O texto acima, na beleza triste de quem sabe o que é sofrer, ensina três coisas muito importantes. Em primeiro lugar, que há coisas sem explicação, além do entendimento humano.

Essa percepção é fundamental para que quem sofre não fique buscando causas, razões, cadeias de responsabilidade e outras coisas assim e acabe atribuindo culpa a si mesmo ou às outras pessoas. Por exemplo, Caio Fabio entendeu não ter sido seu conselho a razão para colocar seu filho no caminho da morte (e se pensasse assim, seria corroído pela culpa, como acontece com muita gente.

O segundo ensinamento importante está presente na frase: “...a culpa da bondade cristã salvadora, a qual assume para si poderes de salvação que não estão em nossas mãos...” Caio Fabio alertou que muitos(as) cristãos(ãs), até de forma bem intencionada, ensinam que os seguidores de Jesus estão livres das tragédias. Estão imunes a elas. E isso não é verdade.

Numa enchente na região serrana do Rio de Janeiro, somente numa única igreja metodista, cerca de 100 pessoas morreram e muitas outras perderam tudo. Sofreram o que todas as outras da mesma região sofreram.

Não há promessa bíblica afirmando que cristãos(ãs) serão poupados de tragédias - as catástrofes relatadas na Bíblia, de forma geral, caíram tanto sobre o justo como o injusto. Não há uma grande "redoma" protegendo os(as) filhos(as) de Deus e acreditar nessa falácia é meio caminho para a pessoa acabar desapontada com Deus. 

A diferença que existe entre cristãos(ãs) e outras pessoas é simplesmente a fé que a morte, por mais dolorosa que seja, constitui a porta de entrada para algo melhor (nossa vida junto a Deus). E aí está o consolo do(a) cristão(ã) em meio à dor.

O terceiro ensinamento do texto acima é que o desespero não pode paralisar a vida espiritual de quem sofre. A “agenda da estrada” - a trajetória do ser humano no mundo - não pode desviar a pessoa da “agenda do caminho” (Jesus Cristo). 

Há um outro ponto que não foi abordado por Caio Fábio mas é igualmente importante. A pergunta "onde estava Deus?", feita após a desgraça, é dirigida à pessoa errada. Ela aponta para Deus quando deveria ser dirigida para sua Igreja (aqui entendida como o grupo de pessoas que segue os ensinamentos de Cristo).

Afinal, foi para essa comunidade de fé que Jesus deixou a tarefa de mudar o mundo e se fazer presente nas necessidades daqueles(as) que sofrem. 

E essa pergunta é feita porque a Igreja de Cristo, isto é, nós mesmos, falhamos nas nossas responsabilidades. Por exemplo, será que o assassino das crianças na escola no Rio de Janeiro teria cometido aquele crime horrível se, na manhã do dia fatídico, alguém tivesse lhe falado sobre Jesus e orado com ele? Acredito que não.

A evangelista Bráulia Pedroso, para quem Caio Fabio dirigiu o depoimento acima, contou publicamente uma conversa que teve, exemplificando tudo isso:

“Certa amiga perdeu dois de seus três filhos. Encontrei com ela depois da morte do segundo, muda, sem saber o que dizer. Ela se queixou do abandono. Ninguém a visitava. Além dos filhos, perdeu também os amigos. A morte incomoda. As pessoas não sabem como se portar diante da dor dos outros e se afastam. Até os cristãos têm medo do contágio da dor, como de uma lepra. Por quê?”

A dor de um(a) irmão(ã) tem que ser a dor de todos(as). E é no rosto de cristãos(ãs) solidários(as) e amorosos(as) que quem sofre vai sentir a presença de Jesus. E poderá enfim dizer: "Deus não me abandonou, pois mandou seus filhos(as) para ficarem comigo". 

Com carinho

terça-feira, 5 de julho de 2016

O LIVRO MAIS SURPREENDENTE DA BÍBLIA

O “Cântico dos Cânticos” (“Cantares de Salomão”), um pequeno poema de não mais do que mil e quinhentas palavras, é o livro mais surpreendente de toda a Bíblia. Atribuído ao rei Salomão (teria sido escrito na sua juventude), o livro, parte do Velho Testamento, surpreende por ser erótico. Bem erótico.

E isso faz com que os líderes cristãos tenham dificuldade em usar Cantares como base para pregações ou estudos bíblicos. Não desconhecem sua existência, é claro, mas ficam constrangidos(as) em basear um estudo sério num texto erótico. Assim, na prática, Cantares quase nunca é usado - não me lembro de ter ouvido nenhum sermão ou estudo baseado nesse livro em quase 50 anos de vida cristã.



Perceba o eroticismo do texto, por exemplo, no conteúdo do capítulo 7 (versículos 1 a 9) reproduzido abaixo:
Ó filha de um príncipe, como são bonitos os seus pés calçados de sandálias! As curvas dos seus quadris são como jóias, são trabalho de um artista. O seu umbigo é uma taça onde não falta vinho. A sua cintura é como um feixe de trigo cercado de lírios. Os seus seios parecem duas crias, crias gêmeas de uma gazela. O seu pescoço é como uma torre de marfim. Os seus olhos são como os poços que ficam ao lado dos portões da grande cidade de Hesbom. O seu nariz é tão belo como a torre do Líbano, de onde se avista Damasco. A sua cabeça está sempre erguida como o monte Carmelo. Os seus cabelos são como a púrpura; até um rei ficaria preso nas suas tranças. Como você é linda, minha querida! Como você me dá prazer! Como é agradável a sua presença! Você é tão graciosa como uma palmeira; os seus seios são como cachos de tâmaras. Vou subir na palmeira e colher os seus frutos. Os seus seios são para mim como cachos de uvas. A sua boca tem o perfume das maçãs, e os seus beijos são como vinho delicioso.

Tomando emprestada a expressão de um famoso comentarista desse texto, é como se “Deus falasse a linguagem dos enamorados” no texto de Cantares.

Esse livro fala da paixão física entre duas pessoas jovens e belas. Trata-se do diálogo entre um Príncipe (Salomão) e sua amada (Sulamita, feminino de Salomão), acompanhados aqui e ali por um coro. Há pouco contexto para o relato, dando a impressão que o casal estava meio isolado de tudo e de todos, simplesmente vivenciando seu amor. 

É curioso perceber que a mulher é a principal personagem do relato – as falas dela representam 53% do texto, contra apenas 34% do homem. E isso também surpreende, pois a sociedade da época de Salomão era extremamente machista (basta lembrar que esse rei teve setecentas esposas e trezentas concubinas). 

Outro fato também surpreendente é não haver qualquer citação a Deus no texto – a mesma coisa acontece no livro de Ester, mas ali há citações indiretas a Deus, como quando é feita referência ao jejum. Em Cantares nem isso.

Ora, sabemos que Deus não faz as coisas por acaso. Por que então esse livro foi parar na Bíblia? O que Deus pretendia com um texto desse tipo?

Há duas respostas tradicionais para essas perguntas. A primeira delas argumenta que Cantares fala, na verdade, do amor entre Deus e seu povo - afinal, tanto Israel (no Velho Testamento), como a Igreja Cristã (no Novo Testamento), são tratados como a “noiva” ou a “esposa” de Deus (ou Jesus). Cantares seria, portanto, um texto simbólico cujo objetivo é lembrar a importância do amor entre Deus e seu povo e que esse relacionamento deve ser tão forte e presente como o sentimento ligando um casal apaixonado. 

Penso que essa explicação faz sentido mas não cobre todos os aspectos envolvidos. E digo isso porque as descrições eróticas contidas no Cantares são muito detalhadas para serem apenas parte de um relato simbólico. Normalmente, os relatos desse tipo não perdem muito tempo com detalhes e passam apenas a ideia geral, a moral do ensinamento - por exemplo, na parábola do bom samaritano, Jesus não descreveu como o homem assaltado ou o samaritano eram fisicamente, nem contou quais eram seus nomes ou o que faziam para ganhar a vida.

Como as descrições de Cantares são bem detalhadas, como o extrato de texto que apresentei acima comprova, certamente há mais coisas acontecendo nesse texto do que uma simples referencia simbólica ao amor entre Deus e seu povo.

A segunda explicação para a presença de Cantares na Bíblia decorre exatamente desse raciocínio: o texto demonstra a importância, para Deus, do amor físico entre homem e mulher, sentimento que está na base da formação da família. 

E ninguém deveria ficar surpreendido ao perceber que Deus dá tanta importância a esse aspecto da vida humana. Afinal, Ele nos criou como seres sexuados e isso não se deveu apenas à necessidade de garantir a reprodução humana (como alguns comentaristas afirmam), pois existe na natureza formas de reprodução sem a necessidade de sexo. Deus nos fez assim porque a vida sexual é parte importante do seu plano de criação. Simples assim.

Amor, paixão e sexo têm lugar fundamental na obra de Deus e precisam ser tratados com sensibilidade e maior naturalidade, sem a carga de pecado que as igrejas costumam atribuir a esses temas. 

Nessa segunda linha de argumentação, há muitos ensinamentos que podem ser tirados do Cantares para aconselhar mulheres e homens sobre como levar seus relacionamentos amorosos - não tenho espaço aqui para desenvolver toda essa linha de discussão, o que ficará para textos futuros. Mas esses ensinamentos estão lá no meio do texto de Cantares.

Sendo assim, é surpreendente que Cantares não seja mais usado como fonte de estudo em Encontros ou Discipulados para Casais - confesso que nunca vi isso acontecer. Surpreendentemente, o texto bíblico mais usado para orientar a relação homem-mulher é 1 Coríntios capítulo 13, onde Paulo falou mesmo do amor cristão e não do amor físico entre homem e mulher. Basta lembrar que no seu texto Paulo afirmou que o amor "não arde em ciúmes", o que evidentemente não descreve adequadamente o comportamento de pessoas apaixonadas.

Há ainda outro comentário importante a fazer, nessa pequena introdução ao livro de Cantares. Sabemos que a chave de interpretação da Bíblia para os(as) cristãos(ãs) é Jesus. Portanto, devem ser procuradas referências a Ele em toda parte do texto bíblico, inclusive em Cantares. E onde encontramos Jesus em meio a um poema erótico? Vou dar uma pista de como isso é feito. 

No começo da história da Igreja Cristã, as pessoas conheciam bem o Velho Testamento, que era a Bíblia usada pelo povo judeu (de onde veio a maioria dos primeiros convertidos). Assim, quando os(as) cristãos(ãs) ouviam um texto do Novo Testamento, por exemplo, falando sobre a vida de Jesus, era fácil para eles(as) detectar no texto que ouviam ecos de citações do Velho Testamento - hoje isso é mais difícil, pois conhecemos bem menos o Velho Testamento que os(as) primeiros(as) cristãos(ãs).

Em João capítulo 20, versículos 1 a 18, está relatado que Maria Madalena visitou a tumba onde Jesus foi enterrado e, não encontrando o corpo (pois Ele tinha ressuscitado), ficou procurando seu Senhor. 

E se olharmos com atenção não é difícil de perceber na descrição de João ecos Cantares capítulo 3, versículos 1 a 4, onde Sulamita fica procurando seu amado pela cidade, sem encontrá-lo - as palavras usadas em ambos os textos são bem parecidas, mostrando que João se inspirou em Cantares para compor seu relato. Em outras palavras, a busca da Sulamita pelo seu amado é um símbolo da busca de Maria Madalena pelo corpo de Jesus. 

Leia Cantares. Acredito que você vai gostar.

Com carinho

domingo, 3 de julho de 2016

COMO NÃO CAIR EM TENTAÇÃO

Todos sabem que não devemos acreditar completamente nas propagandas que aparecem na mídia, porque quase sempre a realidade mostrada nelas está distorcida - só são mostradas as vantagens e nunca as desvantagens - para nos levar a comprar os produtos anunciados.

Se formos acreditar no que vemos nesses anúncios, qualquer homem se tornaria irresistível se usasse determinado desodorante ou uma mulher de meia idade poderia voltar à forma dos seus gloriosos vinte anos apenas usando determinado creme. E assim por diante.

E não adianta tentar fugir delas, pois as propagandas estão em toda parte - somos atingidos quando menos esperamos. Os anunciantes usam os meios mais engenhosos para se comunicar - outro dia vi uma linda camiseta distribuída numa escola. A criança me mostrou toda orgulhosa o que tinha ganho e estava impressa nela uma mensagem dirigida para os pais dela. 

O que está por trás desses esforços são técnicas de marketing cuidadosamente calibradas para despertar o desejo de compra no público consumidor cobiçado pela empresa. E esses esforços sempre acabam tendo algum resultado, conseguindo despertar nas pessoas o desejo de comprar tal ou qual produto. 

Há uma certa semelhança entre esse processo e o que acontece com relação às tentações às quais todos somos expostos. Tentação é toda ação que é feita no sentido de nos fazer pecar, isto é para nos desviar dos caminhos estabelecidos por Deus.

Mas quem provoca a tentação? Simples: a força espiritual que é contrária a Deus, Satanás, cuja grande alegria é nos afastar do caminho do bem. Queiram ou não, essa força do mal existe e está por aí bem atuante, conforme a Bíblia conta e a experiência diária comprova.

O Inimigo é muito ousado e não respeita ninguém - não podemos nos esquecer que ele teve a ousadia de tentar o próprio Jesus.

E ele usa técnicas de marketing bem sofisticadas: sempre procura apresentar o incentivo para ceder à tentação como se fosse uma coisa boa ou sem perigo. Satanás sempre tenta nos deixar relaxados(as) com a perspectiva de pecar, para aumentar nosso desejo de fazer tal tipo de coisa. 

O Inimigo sabe onde e como "atacar", porque ele conhece bem as fraquezas humanas. Assim, é comum que ele influencie a que venhamos construir pensamentos do tipo “isso não faz mal de verdade", ou “eu mereço tal coisa, mesmo que seja errada” ou ainda “todo mundo faz, logo eu também posso fazer”, quando a tentação está diante de nós.

Frequentemente as pessoas “brincam com fogo” e pensam que vão conseguir resistir à tentação. E isso é um enorme perigo, pois a fraqueza humana é maior do que imaginamos - na verdade, basta que as condições necessárias se apresentem, que a maioria das pessoas peca. Simples assim.

Por exemplo, o rei Salomão era muito sábio e poderoso, mas foi levado por suas inúmeras mulheres, aos poucos, a adorar outros deuses. Abriu a guarda aqui e ali e quando se deu conta, já tinha pecado. 

Os três melhores conselhos que já vi sobre como resistir à tentação são simples e bem objetivos. O primeiro foi dado pelo próprio Jesus: peça a Deus que lhe dê forças para não cair em tentação - Jesus falou sobre isso quando ensinou a famosa oração do “Pai Nosso”. Precisamos da força do Espírito Santo, atuando em nós, porque sozinhos não vamos conseguir.

O segundo conselho é: não fique perto da tentação, caso possa se afastar dela. Não vá a lugares onde você vai estar exposto a esse tipo de coisa ou tenha muito contacto com pessoas que gerem esse tipo de situação para você. Proteja-se.

O terceiro conselho é: quando você estiver motivado a ceder, pense nas consequências dos seus atos. Pense o que acontecerá na manhã seguinte, no mês seguinte ou no ano seguinte. Avalie bem o que seus atos poderão causar, tanto para você, como para seus entes queridos. 

São conselhos simples e todos apontam na direção do conhecido ditado: "eu não posso impedir que o passarinho (a tentação) pouse na minha cabeça, mas posso impedir que ele faça ninho ali". Em outras palavras, a tentação virá - isso é uma certeza - mas eu posso não me deixar dominar por ela.

Com carinho

quarta-feira, 29 de junho de 2016

EU POSSO SER VOCÊ, AMANHÃ

Arrogância é um mal bem comum. Funciona assim: quem está em boa situação, melhor do que a maioria das outras pessoas, começa a se sentir superior, merecedor dessa situação privilegiada. Quanto mais tempo a pessoa estiver vivendo essa de privilégio, maior o risco dela se tornar arrogante.

Sei bem como é isso pois fui um pouco assim durante boa parte da minha vida. Até quase os meus cinquenta anos, praticamente tudo tinha dado certo para mim. Só tinha colhido vitórias. Bem lá no fundo, comecei a me senti superior - mais competente, mais atilado, etc - do que a maioria das outras pessoas.

Aí tudo mudou de repente: Deus permitiu que os problemas viessem todos de uma vez só para me ensinar - e se isso não tivesse acontecido isso, eu não estaria aqui hoje, escrevendo este texto para você. 

A arrogância é um sentimento que cega - impede que a ajuda recebida de terceira seja devidamente percebida e reconhecida, até mesmo quando essa ajuda vem de Deus. 

Fiz um dos vestibulares mais difíceis do Brasil com apenas 17 anos. E passei. Naturalmente, minha família ficou muito orgulhosa. Meus pais quiseram fazer um culto de ação de graças a Deus e eu, lá no meu íntimo, fiquei questionando por que agradecer a Ele, quando quem tinha estudado e feito o trabalho pesado tinha sido eu? Lembro muito bem desse sentimento.

Eu fiquei muito nervoso durante a segunda prova do vestibular - durante duas horas, metade do tempo disponível, não fiz nada, parecia que minha cabeça estava oca. Aí pedi para ir ao banheiro, para lavar o rosto e tentar romper aquela situação de impasse. A pessoa que me acompanhou percebeu meu estado de espírito e foi me acalmando, dizendo palavras de encorajamento. Ele não precisava ter feito isso, mas fez. E meu estado de espírito mudou, tanto assim que fiz a prova toda na outra metade do tempo. E passei.

Sei hoje que Deus olhou por mim ali. Não sei bem a razão, até porque Ele sabia como aquele sucesso haveria de me subir à cabeça. Mas Deus me ajudou assim mesmo e sem isso certamente eu teria ficado pelo meio do caminho. O que dizer então das inúmeras outras bençãos que recebi e me deram condições de obter vitória naquele vestibular: a família maravilhosa que tive e que me deu estabilidade emocional, as boas escolas onde estudei, a saúde perfeita e assim por diante.

Eu tinha muitas razões para agradecer a Deus mas a arrogância dos meus 17 anos não me permitiu ver isso naquela época. Mas meus pais sabiam de tudo isso e agradeceram mesmo assim... 

Foi preciso que a vida me apresentasse uma enorme quota de problemas para que eu mudasse. Para que deixasse a arrogância de lado.

Ninguém é superior - basta um instante para que uma vida de sucesso seja destruída por um escândalo - temos vistos vários casos assim durante a operação Lava Jato -, por uma doença, por uma crise financeira, etc. 

E o sentimento de superioridade não é o único mal relacionado com a arrogância. Há outro problema, igualmente grave: a insensibilidade. Se alguém se julga superior é natural que não se preocupe muito com quem está em condições piores. Parece ser que essas pessoas não têm méritos para estar melhor...

Uns cinco anos atrás um amigo e eu passávamos perto da favela da Água Espraiada, em São Paulo, onde eu fazia uma obra social. E meu amigo saiu-se com a seguinte declaração: “eles [referindo-se as pessoas que ali moravam na na favela] vivem assim porque querem”. 

Ora, como alguém pode querer morar numa casa sem esgoto, onde os ratos mordem as pessoas durante a noite? Ou querer ver seu barraco pobre queimado num incêndio criminoso, como aconteceu tempos depois, naquela mesma comunidade? Na verdade, aquelas pessoas viviam ali por outros motivos e não por desejarem isso.

Na verdade, meu amigo foi insensível à situação daquelas pessoas. Como a vida para ele estava boa - tinha conforto e segurança financeira - não se importava muito com o que acontecia no seu entorno. E a forma de acalmar sua consciência era acreditar que as pessoas viviam naquela condição por que, bem lá no fundo, queriam viver mesmo assim.

Agora, como podemos combater a arrogância? O Império Romano tinha um hábito que dá a pista para a resposta certa. Quanto um general vencia uma guerra, ele tinha direito a uma procissão triunfal pelas ruas de Roma, onde as riquezas conquistadas eram exibidas e a população aplaudia o vitorioso.

O general passava vestido em roupa de gala, com uma coroa de louros na cabeça. Mas, na própria biga que conduzia o general e bem atrás dele, ia um escravo dizendo a seu ouvido: "lembre-se que tu és apenas humano".

É isso aí: especialmente quando tudo vai muito bem, precisamos ser sempre lembrados que somos humanos. Que as coisas podem mudar do dia para a noite. Eu me lembro de um anúncio antigo que dizia: “eu sou você amanhã”. O significado desse anúncio é simples: aquilo que acontece com uma pessoa hoje, tanto de bom como de ruim, pode acontecer com qualquer outra amanhã, basta que as circunstâncias mudem. Ninguém é melhor do que ninguém.

A arrogância só pode ser combatida se formos continuamente lembrados das nossas limitações, da nossa total e completa dependência de Deus. Se aprendermos a ser gratos a Ele. A louvá-lo pelo que Ele é e faz continuamente por nós.

Precisamos também a aprender a sermos solidários com a dor e a necessidade dos(as) menos favorecidos(as). Entender que, se esperamos ser ajudados nos momentos difíceis, precisamos estar dispostos a fazer o mesmo por quem precisa. E foi exatamente isso que Jesus ensinou ao ordenar seus seguidores a terem amor pelo próximo. 

Com carinho