quarta-feira, 4 de março de 2020

O EVANGELHO SEGUNDO PAULO


A carta de Paulo aos Romanos é tida por muitos teólogos como a mais completa exposição da doutrina cristã existente na Bíblia. Ela é um texto fundamental, pois complementa e organiza aquilo que é dito nos Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João.

Sou sincero em reconhecer que Romanos não é um texto fácil de ler e estudar. A linguagem de Paulo é rebuscada e ele usa muitos conceitos filosóficos e teológicos complexos. É muito mais fácil estudar os Evangelhos ou o livro do Atos dos Apóstolos, pois esses textos se baseiam em relatos de fatos interessantes, tornando sua leitura bem mais interessante.

Mas, se você quer entender de fato a doutrina cristã, não pode deixar de estudar o texto de Romanos. Simples assim.
O contexto 
A carta do apóstolo Paulo à igreja cristã situada em Roma foi escrita entre os anos de 57 e 58. O apóstolo estava em Corinto, hospedado na casa de Gaio, seu amigo quando escreveu esse texto.
Paulo tinha o sonho de fazer um trabalho evangelístico na Espanha, região ainda pouco explorada pelos missionários cristãos. E, naturalmente, pretendia passar por Roma, no seu caminho para Espanha. Isso porque Roma era a capital do império que dominava o mundo naquela época. Sem esquecer que Roma já tinha uma vibrante igreja cristã, justamente para quem a carta foi dirigida. Em outras palavras, esse carta foi como um preparativo para a missão que Paulo pretendia desenvolver na Espanha.

Os planos de Paulo foram frustrados. Ele precisou ir antes até Jerusalém, para levar uma oferta de dinheiro para a igreja local, que passava por grandes dificuldades financeiras. E Paulo acabou preso por um desentendimento com os judeus, conforme relata o livro de Atos dos Apóstolos.

Por ironia dos fatos, Paulo acabou sendo posteriormente enviado para Roma para ser julgado pelo Imperador, por causa das acusações que os judeus fizeram contra ele. Paulo era cidadão romana e tinha esse direito, caso se sentisse prejudicado pela justiça praticada no local onde tinha sido preso.
O apóstolo acabou morando vários anos em Roma e acabou sendo martirizado, cerca de seis anos de pois de escrever essa carta. E nunca conseguiu ir até a Espanha.
Esses fatos demonstram que os seres humanos não têm controle verdadeiro sobre suas vidas. Os planos mais cuidadosos acabam sendo atropelados por fatos inesperados. Paulo acabou por conhecer Roma e conviveu com a igreja local, mas em condições muito diferentes daquela que tinha planejado.

A igreja em Roma já existia  há cerca de 20 anos, quando Paulo escreveu sua carta. Provavelmente, aquela comunidade cristã foi formada depois que judeus e simpatizantes do judaísmo, moradores de Roma, participaram da chegada do Espírito Santo, no dia de Pentecoste (Atos capítulo 2, versículo 10). E forma convertidos ao cristianismo pela pregação que o apóstolo Pedro fez naquele dia.

E quando voltaram para casa, essas pessoas tentaram levar sua fé adiante, da melhor forma que puderam. Nessa fase inicial da igreja em Roma, nenhum dos líderes cristãos mais importantes, como Pedro, Paulo, Tiago ou João, tiveram oportunidade de conhecer a obra que se desenvolvia ali. Mais aina assim a obra prosperou ali.
A importância de Romanos
Paulo ditou a carta para seu amigo Tércio, que funcionava como uma espécie de secretário do apóstolo. O texto original foi escrito em grego, língua que Paulo falava muito bem. Mas, Romanos não foi sua primeira carta, pois escreveu antes Gálatas, 1 Tessalonicenses, 1 Coríntios e 2 Coríntios.
O texto de Romanos, assim como o de outras cartas famosas de Paulo, acabou sendo usado como referência teológica por todas as igrejas cristãs (Colossenses capítulo 4, versículo 16). E desde cedo teve enorme importância para a igreja cristã, que ainda estava na sua infância.
E essa importância somente aumentou com a passagem do tempo. Diversos líderes cristãos importantes relataram o papel fundamental que Romanos teve na sua formação. Por exemplo:
  • Santo Agostinho vivia uma vida desregrada, apesar dos pedidos de sua mãe para que mudasse seus caminhos. Certo dia, ouviu crianças cantando uma cantiga cuja letra dizia: “pega e lê”. Entendendo que se tratava de uma mensagem de Deus, pegou a Bíblia e abriu ao acaso. E apareceu a passagem de Romanos capítulo 13, versículos 13 e 14. Ele leu e o texto mudou sua vida.
  • Martinho Lutero, o monge que iniciou a Reforma Protestante, estudou o livro de Romanos com seus discípulos, entre novembro de 1515 e setembro de 1516. Esse estudo mudou seu pensamento sobre a doutrina cristã e foi fundamental na Reforma.
  • John Wesley ouviu uma pregação feita com base no livro de Romanos e essa mensagem mudou sua vida espiritual para sempre.
Os principais ensinamentos de Romanos                                             
Vou me concentrar aqui em apenas quatro dos muitos ensinamentos contidos em Romanos. O primeiro deles é a salvação (justificação) do ser humano exclusivamente pela fé. Paulo ensinou que a salvação não depende daquilo que a pessoa faz ou mesmo de qualquer sacramento que receba. Depende somente da sua resposta ao chamado do Espírito Santo para aceitar Jesus como Salvador.
Esse ensinamento enterra a ideia que salvação venha a ocorrer por mérito, isto é pelas boas obras praticadas pela pessoa. E a razão é simples: ninguém conseguiria juntar merecimento suficiente para ser salvo.

Segundo, Paulo ensinou também que toda pessoa tem acesso direto a Deus, através do estudo da Bíblia e de práticas como oração e louvor. A principal consequência desse ensinamento é a eliminação de qualquer sistema religioso que permita a exploração dos seres humanos através de sacerdotes que arroguem para si mesmos o direito de intermediar c vida espiritual das pessoas com Deus. Essa é a base da liberdade individual que cada pessoa tem para exercer sua fé e explorar seu próprio caminho com Deus.

O terceiro ensinamento de Paulo fala da santificação: o processo pelo qual as pessoas verdadeiramente convertidas mudam seu interior e acabam ficando mais semelhantes a Jesus Cristo. Isso significa que o cristianismo é um caminho em direção a Deus, que começa quando a pessoa se converte e acaba na sua morte, onde a pessoa vai continuamente se aperfeiçoando.

Finalmente, Deus é justo e por causa disso precisa punir os pecados humanos. Mas, quem aceita Jesus como seu salvador pessoa, tem seus pecados perdoados e escapa dessa punição. Isso porque Jesus já levou sobre si mesmo a punição merecida pelos seres humanos, ao morrer na cruz. E essa é a maior expressão da graça de Deus. 

Leia mais sobre este tema aqui.

Com carinho

segunda-feira, 2 de março de 2020

COLHEITA

Na obra de Deus, frequentemente uns plantam, enquanto outros fazem a colheita. Por exemplo, trabalhamos com uma pessoa por longo tempo, falando de Jesus, respondendo suas dúvidas e exortando-a a mudar sua vida. Ajudamos essa pessoa a enfrentar seus recuos na sua vida espiritual e nos alegramos com seus avanços. Mas, o processo só se completa, ou seja, a conversão e a mudança de vida daquela pessoa só ocorre tempos depois, já nas mãos de outro discipulador.

Outras vezes acontece o oposto: acabamos de conhecer uma pessoa e uma simples palavra nossa já faz com que ela se entregue a Jesus. Na verdade, já havia longo trabalho anterior, para que essa conversão acontecesse, trabalho feito por outro. Mas, a colheita se deu naquele momento, já nas nossas mãos.

É assim mesmo na obra de Deus: colhemos aquilo que outros plantaram, como também plantamos para que outros venham a colher. E não há qualquer problema com isso. Afinal, não importa quem faça a colheita e sim que ela venha.

O fundamental é ser parte desse processo e ajudar a levar pessoas para Jesus, mudando suas vidas. E é sobre isso que o Rogers fala no seu mais novo vídeo - veja aqui.

Veja outros vídeos recentes dele aqui e aqui.

sábado, 29 de fevereiro de 2020

FICANDO LIVRE DO REMORSO EXCESSIVO


Remorso é um sentimento comum e bastante destrutivo. As pessoas que nutrem esse tipo de sentimento por muito tempo, sem conseguir se livrar dele, acabam passando por problemas sérios, inclusive de saúde.
Os depoimentos de pessoas que sofrem com o remorso são praticamente unânimes ao registar que a vida parece perder todo o encanto. Essas pessoas sentem que perderam o direito de serem felizes a ate´de receber bençãos de Deus.

O remorso nasce quando a pessoa toma consciência de ter cometido um pecado muito sério. Nessa situação, duas coisas podem acontecer. A primeira delas é a pessoa pedir perdão a Deus, aceitar sua graça e sentir-se perdoada. E o problema do remorso é superado, embora cada vez que a pessoa se lembre do pecado cometido ela sinta um aperto no coração. Esse aperto funciona como a "cicatriz" de um ferimento já curado. mas que costuma latejar quando o tempo muda.

É a pessoa com remorso ficar meio "congelada" espiritual e emocionalmente. No seu íntimo, essa julga que seu pecado foi tão sério que ela não mais é digna de perdão. Aí, a pessoa acaba se entregando ao remorso.

Ora, do ponto de vista da doutrina cristã, somente a ofensa contra o Espírito Santo não pode ter perdão e é muito raro que as pessoas venham a cometer esse tipo de pecado (veja mais). Portanto, na esmagadora maioria dos casos, as pessoas continuam a sentir remorso por pecados que podem, e muitas vezes até já fora perdoados.

Lembro do caso de uma mulher que fez um aborto, num momento de desespero, e nunca mais teve paz de espírito. Sua vida tornou-se uma longa e contínua tortura. Seu remorso tornou-seu tão sério que, quando ela engravidou de novo, ficou aterrorizada com a possibilidade do seu bebê nascer com algum problema físico, como punição pelo pecado que tinha cometido. Essa mulher acabou se curando dessa doença espiritual, mas somente depois de muita oração e contando com o apoio de vários irmãos na fé, que oraram com ela e por ela.

O problema com o remorso
A raiz do remorso sem esperança é a falta de confiança na graça de Deus. Um bom exemplo disso é a história de dois apóstolos, que tomaram caminhos diferentes, depois de cometerem o mesmo tipo de pecado: trair Jesus. Um deles Judas, depois de se dar do conta do que tinha feito, acabou se suicidando, por não mais acreditar que poderia ser perdoado por Deus. Já Pedro, apóstolo que negou Jesus três vezes, confiou na graça de Deus, foi perdoado e seu ministério restaurado.

Dois apóstolos, ambos pecadores e ambos sofrendo de remorso. Um recuperou-se, enquanto o outro levou esse sentimento às últimas consequências e destruiu a própria vida. A diferença entre o destino deles foi consequência exclusiva da sua relação com a graça de Deus: Pedro manteve a confiança nela e foi restaurado. Já Judas, duvidou da graça e se viu sem saída.

Não importa qual tenha sido seu pecado, se você se arrepender e confiar na graça de Deus, você será perdoado(a). E, depois disso, poderá seguir em frente com sua vida normalmente, inclusive exercendo o ministério espiritual que Deus eventualmente tenha separado para você.

E a sua garantia para o perdão é simples: a graça de Deus. E o selo dessa graça é o sangue que Jesus derramou na cruz por cada um de nós. É assim que funciona a fé cristã.

Com carinho

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

CUIDADO COM O ABUSO DA BÍBLIA

Tem gente que comete abuso com o texto da Bíblia. E isso é coisa muito séria porque a Bíblia é a Palavra de Deus e nosso preceito de vida. É ela que nos ensina sobre a vontade de Deus e as consequências dos nossos atos.

O texto da Bíblia não tem erros, por ser a Palavra de Deus, e assim pode ter toda a nossa confiança. Essa é uma verdade conhecida. Mas, a mesmo confiança não pode ser garantida quanto às interpretações feitas a partir do texto bíblico. Essas interpretações são humanas e, portanto, passíveis de erros.

Interpretações erradas, mesmo quando não tenham sido construídas de propósito, acabam sendo uma forma de "abuso" da Bíblia. Afinal, quando alguém consegue convencer outras pessoas a aceitar ideias erradas, apoiando essas ideias erradas na Bíblia, as consequências costumam ser muito sérias. 

Os abusos da Bíblia são bem mais comuns do que você possa pensar à primeira vista. Um bom exemplo desse tipo de coisa é o ensinamento que Deus quer nos ver prósperos, bastando, para que isso aconteça, ter fé e fazer grandes contribuições a determinadas igrejas. Outro exemplo de abuso é a imposição de controles indevidos sobre o comportamento das pessoas para "impedi-las" de pecar. Aí vale proibir todo tipo de música que não seja gospel, vestir-se de determinada forma, ver determinados filmes e programas de televisão, conviver com pessoas não convertidas e assim por diante.

Muitas vezes, por causa desses abusos ao texto bíblico, pessoas são convencidas a carregar culpas que não deveriam ter. Este site mesmo é testemunha dos depoimentos de inúmeras pessoas que sofreram com esse tipo de situação.

Abusos bíblicos podem nascer tanto de erros sinceros, como também de interesses desonestos. É claro que o resultado final de um erro sincero ou de um abuso desonesto pode ser igualmente grave, mas, aos olhos de Deus, certamente existem diferenças entre esses dois casos. E, se não fosse assim, não me atreveria a escrever neste site, pois, certamente, em meio a mais de 700 textos, já cometi erros sinceros. E não há como evitar isso, pois seres humanos são imperfeitos e limitados. 

Mas, quem erra de forma sincera nunca pode se esquivar de consertar seus erros, assim que se der conta deles. É preciso ser humilde. E, sobretudo, tomar cuidado para nunca se beneficiar pessoalmente dos próprios erros.

Agora, quem abusa conscientemente da Bíblia, costuma fazer isso para tentar usá-la para obter algum benefício ou concorrer para alguma agenda pré-estabelecida. E a própria Bíblia alerta que haverá grande rigor no julgamento final para quem cometer esse tipo de pecado (Mateus capítulo 23, versículos 1 a 8).

A experiência mostra que há três tipos de abuso consciente da Bíblia:
O contrabando de ensinamentos
Afirmar que a Bíblia fala coisas que não estão no texto bíblico. Por isso sempre que peço à pessoa que fez uma afirmação sobre tema que desconheço para mostrar onde a Bíblia dá suporte para aquela ideia. Não tenho prazer de dizer isso, mas já vi muita gente embaraçada por causa desse expediente bem simples.
Os contrabandos variam quanto ao nível de periculosidade. Alguns são tão grosseiros que são mais fáceis de identificar - por exemplo, afirmar que a voz do povo é igual à voz de Deus. Para provar que isso não é verdade, basta lembrar que o povo judeu em Jerusalém preferiu que Pilatos soltasse Barrabás no lugar de Jesus.

Mas, há abusos que embutem armadilhas sutis, pois parecem se encaixar no quadro bíblico, mas são "comida envenenada". Por exemplo, afirmar que todos os seres humanos são filhos de Deus. Ora, a Bíblia diz que todos somos criaturas de Deus, mas somente quem aceita Jesus torna-se filho/a de verdade.

Não é fácil para quem tenha pouco conhecimento da Bíblia separar o joio do trigo, quando alguém faz uma afirmação desse tipo. Por isso recomendo que você, quando preciso, procure ajuda de quem alguma pessoa em quem confie e que saiba mais sobre a Bíblia.
Eliminação do que incomoda
A segunda forma de abusar da Bíblia é deixar de reconhecer como válidas ensinamentos reais mas que são incômodos. As estratégias mais conhecidas para fazer isso são: atribuir o ensinamento indesejado a um erro de tradução; ou alegar que o ensinamento não se aplica aos dias de hoje; ou ainda simplesmente omitir o ensinamento incômodo.
É claro que há erros de tradução. Um exemplo conhecido é aquele em que a tradução tradicional diz que pessoas, no tempo de Gideão, adoraram uma estola sacerdotal (Juízes capítulo 8, versículo 27). Esse é um erro de tradução pois, na verdade, trata-se da adoração a um ídolo vestido com roupa, o que faz muito mais sentido no texto.

Erros de tradução são muito fáceis de perceber quando se usa traduções de origens diferentes, bastando comparar as diferentes versões.

É verdade que existem sim ensinamentos que não se aplicam mais aos dias de hoje, como as referencias a trajes especiais ou hábitos alimentares. Mas, é preciso muito cuidado ao alegar esse tipo de coisa. Um bom exemplo é a questão do dízimo, que muitos defendem não ser mais necessário. Ora, se fosse assim, como então igrejas e sacerdotes iriam ser mantidos?

A omissão pura e simples é fácil de perceber pois basta checar o que foi dito em comparação com o texto bíblico. Você deve sempre tomar a precaução de fazer tal comparação. E é por isso eu procuro quase sempre citar o versículo bíblico de onde tirei a firmação que acabei de fazer num dos meus textos.

Ma,s há uma situação particularmente grave de omissão. Ela ocorre quando as Bíblias dadas aos fiéis são expurgadas daquilo que não interessa. O exemplo clássico é a Bíblia publicada pela Sociedade Torre de Vigia, entidade da seita Testemunhas de Jeová, que amputa vários versículos do texto original sem fazer referência a isso.
Desconsideração do contexto
A forma de abuso mais comum e também a mais efetiva: tirar o ensinamento bíblico do contexto. Isto é, usar o que foi dito numa determinada circunstância para dar suporte a circunstância totalmente diferente, onde o ensinamento não mais se aplica.
Um bom exemplo é o uso do texto de Gênesis capítulo 3, versículo 19, onde Deus disse a Adão "no suor do seu rosto , comerás o teu pão..." para justificar a proibição de jogos de azar. Ora, esse texto aparece quando Deus amaldiçoou a Adão, porque ele e Eva tinham sido desobedientes. Deus quis dizer que não iria mais dar a Adão e Eva seu sustento, como até então tinha acontecido no Jardim do Éden. Eles iriam precisar trabalhar para se sustentar. Ora, isso nada tem a ver com jogos de azar. Nada mesmo.

Não estou dizendo que apoio os jogos de azar, mas sim que não é possível ir contra eles com base nessa passagem. É preciso buscar outro tipo de suporte.
Palavras finais
Esteja sempre atento(a) ao uso que é feito da Bíblia, especialmente quando as pessoas tentarem convencer você de alguma coisa, recomendar algum tipo de comportamento ou pedir sua ajuda com base em alguma passagem bíblica.
Nunca tenha vergonha de sempre conferir o que foi afirmado. Afinal, é até sua obrigação agir assim. 
Com carinho

domingo, 23 de fevereiro de 2020

ORAÇÃO E O SILÊNCIO DE DEUS

Muitas vezes parece ser que nossas orações encontram como resposta apenas o silêncio de Deus. Parece não haver qualquer reação dele em resposta aos pedidos, até meio desesperados, que fazemos, quando precisamos de ajuda e proteção. E esse silêncio de Deus causa grande perplexidade.

É sobre isso que o profeta Habacuque fala no começo do seu livro na Bíblia. Ali o profeta se queixa que o silêncio de Deus ficou ainda mais insuportável porque, enquanto Israel corre enorme perigo, os ímpios parecem prosperar - tudo vai indo bem para eles. Habacuque demonstra estar muito confuso com esse tipo de situação. Não sabe bem o que pensar ou dizer.

Se olharmos à nossa volta, aqui no Brasil, vivemos uma situação bem parecida. Vemos muitas pessoas de bem passando por grandes dificuldades, geradas pela difícil situação econômica do país. Enquanto isso políticos corruptos e criminosos de toda a espécie nadam em dinheiro e vivem uma vida farta. E é difícil aceitar esse estado de coisas. É difícil se conformar com a situação.

Como lidar com esse paradoxo? Como entender os planos de Deus em momentos como esse? É sobre isso que o Rogers fala no seu mais novo vídeo - veja aqui.

Veja outros vídeos recentes meus aqui e aqui.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

A IRA NÃO JUSTIFICADA


A ira é sempre um pecado? Talvez você se surpreenda em saber que não. Somente a ira não justificada é pecado. Veja o que Paulo ensinou a esse respeito em Efésios 4:26:
Quando vocês ficarem irados, não pequem. Apaziguem a sua ira antes que o sol se ponha, e não deem lugar ao diabo.
Fica claro pelo texto acima que é possível ter ira, e ainda assim não pecar. Isso porque o pecado não está no sentimento em si e sim naquilo que motiva a ira e nas ações que a pessoa toma a partir dela.

É possível sim haver situações em que a pessoa fique irada, mas não peque, tanto porque o motivo da sua ira é justo aos olhos de Deus, como também porque as ações decorrentes desse sentimento não violam os mandamentos divinos. Um bom exemplo de ira justificada é quando uma pessoa fica fortemente incomodada por conta de uma grave injustiça social e atua para minorar esse mal. Em situações desse tipo, a ira até aproxima a pessoa de Deus e podemos, portanto, dizer que ela é boa.

Não vamos tratar aqui da ira justificada aos olhos de Deus, pois isso vai ser feito em outra oportunidade. Vamos nos concentrar na situação bem mais comum da ira não justificada, que normalmente leva a pessoa ao pecado. 
O que provoca a ira não justificada
Esse tipo de sentimento costuma ser a resposta da pessoa ao que ela entender ser uma transgressão aos seus “direitos”. Esses “direitos” podem ser reais, ou apenas imaginados. E a transgressão não precisa se materializar, podendo ficar apenas no campo da fantasia (a pessoa acha que sofreu um ataque, quando de fato nada ocorreu).
Vamos ver um exemplo simples. Imagine que alguém tenha um compromisso importante, mas saiu de casa atrasada para esse encontro. E a pessoa vai tentando chegar ao local do encontro a tempo, dirigindo em meio a um trânsito pesado. E o trânsito parece conspirar contra o desejo da pessoa e ela vai se atrasando mais e mais.

E, de repente, a ira chega, passando a ser dirigida a qualquer outro motorista que pareça estar atrapalhando. A pessoa atrasada detesta o sentimento de impotência que está sentindo, ao ficar retida no trânsito congestionado, sem ter como sair da armadilha onde se meteu. E a ira se torna uma válvula de escape - os outros motoristas passam a ser culpados por não “colaborarem”.

A pessoa atrasada acha que tem o “direito” de ter caminho livre e imagina que seu “direito” está sendo transgredido por outros motoristas. E aí, normalmente, bate a raiva, que se materializa em xingamentos e direção agressiva.

Quanto maior a frustração e a sensação de injustiça sendo sofrida, mais virulenta será a resposta e maior será a raiva.
Os problemas com a ira não justificada
São dois os problemas relacionados com a ira não justificada. Um deles é que a ira se dá pelas razões erradas. Por exemplo, a pessoa está atrasada por culpa dela mesma (saiu atrasada e não levou o trânsito em conta), mas acaba se irando contra terceiros. Outro exemplo interessante é quando a pessoa se ira porque não recebeu determinada promoção, à qual julgava ter direito, sem nem procurar saber as razões para a decisão da direção da empresa. Ainda um outro bom exemplo ocorre quando a pessoa recebe uma crítica justa, mas dolorosa, e se ira contra quem a criticou, acusando quem fez isso de agressivo, mal-educado ou intolerante.
O outro problema decorrente da ira injustificada é que ela costuma ser dirigida contra as pessoas erradas. Veja o que disse Davi no Salmo 109:1-13:
Ó Deus, a quem louvo, não fiques indiferente, pois homens ímpios e falsos dizem calúnias contra mim, e falam mentiras a meu respeito. Eles me cercaram com palavras carregadas de ódio; atacaram-me sem motivo. Em troca da minha amizade eles me acusam, mas eu permaneço em oração. Retribuem-me o bem com o mal, e a minha amizade com ódio. Designe-se um ímpio como seu oponente; à sua direita esteja um acusador. Seja declarado culpado no julgamento, e que até a sua oração seja considerada pecado. Seja a sua vida curta, e outro ocupe o seu lugar. Fiquem órfãos os seus filhos e a sua esposa, viúva. Vivam os seus filhos vagando como mendigos, e saiam rebuscando o pão longe de suas casas em ruínas. Que um credor se aposse de todos os seus bens, e estranhos saqueiem o fruto do seu trabalho. Que ninguém o trate com bondade nem tenha misericórdia dos seus filhos órfãos. Sejam exterminados os seus descendentes e desapareçam os seus nomes na geração seguinte.
Davi estava irado, e acredito até que tivesse uma boa razão para se sentir assim. Mas, ele não justificativa para dirigir sua raiva para as famílias das pessoas que eventualmente lhe fizeram mal. Os familiares não tinham qualquer culpa.

E esse não é o único caso em que os Salmos registram acessos de ira não justificada. O grande escritor cristão C. S. Lewis observou, com muita razão, que os textos dos Salmos frequentemente não refletem as virtudes cristãs, e sim a cultura do “olho por olho”, típica do Velho Testamento.

A ira não justificada, tanto por não ter base sólida, como por se dirigir ao objeto errado, acaba sendo feia, destruidora e vingativa. 
Causas da ira não justificada
Há duas causas mais comuns para esse tipo de ira. A primeira delas é o desejo de ter agora um mundo melhor e mais tolerável. A pessoa se irrita quando percebe não ter controle sobre as coisas, pessoas e circunstâncias da sua vida. 
Saul era o rei de Israel, mas não cabia a ele conduzir sacrifícios e outras ministrações junto a Deus, ministério reservado ao profeta Samuel. Certa vez, Saul viu-se na contingência de aguardar Samuel e acabou ficando irado por causa disso (1 Samuel 13:8-14):
Ele esperou sete dias, o prazo estabelecido por Samuel; mas este não chegou a Gilgal, e os soldados de Saul começaram a se dispersar. Então ele ordenou: "Tragam-me o holocausto e os sacrifícios de comunhão". Saul ofereceu então o holocausto, e quando ele terminou de oferecê-lo, Samuel chegou, e Saul foi saudá-lo. E perguntou-lhe Samuel: "O que você fez? " Saul respondeu: "Quando vi que os soldados estavam se dispersando e que você não tinha chegado no prazo estabelecido e que os filisteus estavam reunidos em Micmás, pensei: ‘Agora, os filisteus me atacarão em Gilgal, e eu não busquei o Senhor’. Por isso senti-me obrigado a oferecer o holocausto". Disse Samuel: "Você agiu como tolo, desobedecendo ao mandamento que o Senhor seu Deus lhe deu; se você tivesse obedecido, ele teria estabelecido para sempre o seu reinado sobre Israel. Mas agora seu reinado não permanecerá; o Senhor procurou um homem segundo o seu coração e o designou líder de seu povo, pois você não obedeceu ao mandamento do Senhor".
A pessoa sente não ter a autonomia na sua vida que gostaria de gozar e não se conforma com isso. Revolta-se e quer, a todo custo, fazer algo para ganhar controle da situação. 
A outra causa comum para a ira não justificada é a frustração do desejo de conseguir algo importante, ou mesmo o risco de perder algo de valor. Nesses casos, a pessoa afetada se acha com toda a razão do mundo para ficar irada, afinal está defendendo seu direito. E vale até o uso da violência.
Por exemplo, a criança pequena vê seu amiguinho tentando brincar com o velocípede que ela acabou de ganhar no Natal. E, mesmo quando não está usando o novo brinquedo, ela fica enraivecida com o amiguinho, pois o percebe como um rival que ameaça seu direito de posse.
A Bíblia tem um exemplo muito chocante desse tipo de situação. Caim estava obcecado em obter o favor de Deus e se enraiveceu quando percebeu que a mão divina favorecera Abel, seu irmão. E matou o irmão por causa disso (Gênesis 4:3-8):
Passado algum tempo, Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao Senhor. Abel, por sua vez, trouxe as partes gordas das primeiras crias do seu rebanho. O Senhor aceitou com agrado Abel e sua oferta, mas não aceitou Caim e sua oferta. Por isso Caim se enfureceu e o seu rosto se transtornou. O Senhor disse a Caim: "Por que você está furioso? Por que se transtornou o seu rosto? Se você fizer o bem, não será aceito? Mas se não o fizer, saiba que o pecado o ameaça à porta; ele deseja conquistá-lo, mas você deve dominá-lo". Disse, porém, Caim a seu irmão Abel: "Vamos para o campo". Quando estavam lá, Caim atacou seu irmão Abel e o matou.
A doutrina cristã ensina que tal sentimento desmedido de posse é fruto do vazio da alma humana, que aparece quando a pessoa está distante de Deus. A pessoa sente o vazio e quer, a todo custo, preenchê-lo. E pensa que vai conseguir fazer isso por meio da posse de coisas e/ou pessoas.
É fácil para quem se sente assim achar que Deus é injusto. Afinal, há gente no mundo mais bonita, com mais riquezas, com sucesso maior e com realizações mais expressivas. É fácil a pessoa achar que merece mais do aquilo que já tem. 

Na verdade, ambos os casos são formas de revolta contra Deus, como Criador e Mantenedor do universo. As pessoas se iram porque querem ter uma autonomia que Deus não lhes franqueou ou porque se sentem injustiçadas por Deus. E a ira injustificada vira um "martelo" que a pessoa usa para tentar romper as cadeias daquilo que lhe parece ser uma servidão. Por isso a ira injustificada afasta a pessoa de Deus. Por isso ela vira pecado.

A ira não justificada nunca produz a justiça e ela tende a fazer com que a pessoa se afaste de Deus, portanto é preciso ter muito cuidado com ela. É  esse o ensinamento de Tiago 1:19-20:
Meus amados irmãos, tenham isto em mente: Sejam todos prontos para ouvir, tardios para falar e tardios para irar-se, pois a ira do homem não produz a justiça de Deus.
Concluindo, é preciso ainda comentar sobre a resposta que Deus deu à ira humana. E ela é surpreendente. Deus não faz valer sua soberania e seu poder incontestável. Sua resposta não é calar à força a ira humana, por mais surpreendente que isso seja.
Deus responde nos dando Jesus, que abre o caminho para que possamos reconstruir nossa relação com Ele. Jesus é o único remédio efetivo contra a ira humana sem justificativa.
Com carinho

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

VOCÊ SABE QUAL É A SUA MISSÃO?

É muito comum que os gestores de uma grande empresa se reúnam para escrever, em conjunto, a declaração da missão da organização que dirigem. Trata-se de alguns poucos parágrafos de texto estabelecendo o que a empresa se propõe a ser e a fazer no mercado que atende.

Normalmente, essa declaração é criada ao fim de longo processo de estudo, onde essas pessoas analisam a empresa em todos seus aspectos - história, vocação, vantagens competitivas, desvantagens, riscos que corre, oportunidades que pode explorar, etc.

O documento contendo a missão costuma ser amplamente divulgado para todos os colaboradores, sendo emoldurado em quadros espalhados pelos escritórios da organização. 

No melhor dos mundos, o conteúdo dessa declaração acaba por se tornar parte da cultura organizacional e termina por influenciar a forma como a organização opera no dia-a-dia. Infelizmente, na maioria das vezes, as intenções ali descritas ficam limitadas ao papel, sem gerar maiores consequências práticas.

Quando Jesus apresentou sua missão 
Jesus também fez uma declaração de sua missão. E fez isso logo no começo do seu ministério, como seria de se esperar.

Ele estava visitando Nazaré, vilarejo onde fora criado, e foi até a sinagoga local. Jesus já tinha certo nome como rabino, pessoa que falava com autoridade sobre as coisas de Deus. Logo, não foi por acaso, que os líderes da sinagoga de Nazaré convidaram-no a ler a Bíblia (naquela época composto apenas do Velho Testamento) e comentar sobre o que tivesse lido.

E Jesus escolheu um texto do profeta Isaías (Lucas capítulo 4, versículos 18 a 19) que diz:
O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar aos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para por em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor.
Depois de ler esse texto, Jesus enrolou o pergaminho e declarou para todos (ver versículos 20 e 21): "Hoje se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir".

Ele não poderia ter sido mais direto: o texto de Isaías definia com perfeição sua missão na terra e Ele comentou para o as pessoas de Nazaré que já estava cumprindo essa mesma missão. E foi exatamente isso que Jesus fez durante os três anos do seu ministério.

Foi por isso que, quando João Batista já estava preso, e mandou seus discípulos irem até Jesus e perguntarem se Ele era mesmo o Messias, Jesus disse que sim e concluiu perguntando: Estou ou não cumprindo tudo isso?(Lucas capítulo 7, versículos 19 a 23) 

A missão da igreja 
Jesus tinha uma missão e a cumpriu com perfeição. E a igreja cristã também tem sua missão na terra. E cabe a nós, cristãos, cumpri-la. A missão que recebemos envolve três coisas. A primeira é agir sempre em comunidade para que uns possam ajudar e dar apoio aos outros.

É claro que as comunidades cristãs (igrejas locais) fatalmente terão defeitos pois são formadas por seres humanos imperfeitos. Mas, ainda Deus nos quer congregando. E tanto é assim que a Bíblia diz que, quando agimos nas igrejas locais, nos transformamos em sacerdotes de Deus (1 Pedro capítulo 2, versículo 9). E foi esse o exemplo que Jesus deixou ao escolher doze apóstolos (veja mais).

O segundo aspecto da missão da igreja cristã é a obrigação de falar de Jesus em todas as oportunidades (Marcos capítulo 16, versículos 15 e 16). Os cristãos precisam falar do Evangelho de Jesus à medida que seguem pelo mundo, vivendo suas vidas.

Finalmente, a missão da igreja cristã também inclui o cuidado com os pequeninos, ou seja, as pessoas despossuídas (Mateus capítulo 25, versículos 31 a 46). Isso significa:
=>  Dar de comer aos famintos e de beber aos sedentos (tanto no aspecto material como espiritual).
=>  Vestir os que estiverem nus, em outras palavras, garantir a dignidade humana daqueles que a perderam.
=> Cuidar dos que sofrem, como os doentes e os desesperados.
=> Visitar quem estiver preso, tanto fisicamente, como também aqueles aprisionados pelos vícios que os escravizam.
=>  Agir de forma amigável e respeitosa com os pecadores, ajudando-os a mudarem de vida.
=>  Acolher o estrangeiro, isto é, tanto quem muda de país ou cidade, como quem chega na igreja onde congregamos sem conhecer nada e nem ninguém
=>  Defender os mais fracos. 

Palavras finais
Cabe cristão deve se auto examinar e ver se está verdadeiramente cumprindo sua parte na missão que Deus deu para a igreja cristã, da qual somos parte.

E o cumprimento dessa missão não pode nunca se resumir a poucas atividades desempenhadas unicamente aos domingos. Nossa missão, como cristãos, deve pautar nossa vida em todos os momentos, no trabalho ou local de estudo, na família e em todos os demais locais da sociedade.

Com carinho