quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O ÚLTIMO NATAL DE MARIA

Texto de ficção apoiado nos relatos da Bíblia

Sentada à porta da sua casa, seus dedos hábeis teciam uma nova túnica para seu filho. Sua mente estava longe, bem longe, nos fatos ocorridos quase trinta anos antes. 

Ela ainda era uma garota, com apenas quatorze anos. Todos diziam que era bonita e por isso já estava até noiva de José, homem bom, temente a Deus e respeitado na sua comunidade. 

Inesperadamente uma figura parecida com um homem, usando trajes resplandecentes, lhe apareceu e disse  chamar-se Gabriel. Era um mensageiro do Deus Altíssimo que ali estava para trazer-lhe uma notícia maravilhosa: ela seria fecundada pela semente do próprio Deus e daria à luz um filho, que haveria de ser o tão esperado Messias.

Quando percebeu que estava grávida, passou a enfrentar um grande problema: como explicar sua situação? Todos sabiam que seu noivo ainda não tinha estado com ela, seguindo o costume. Alegar que tinha sido fecundada pelo próprio Deus seria cair no ridículo. Ninguém iria acreditar nela. Alías ninguém acreditava mesmo no que as mulheres afirmavam.  

Felizmente José veio em seu auxílio e evitou que fosse punida. Não somente aceitou a situação (falou algo a respeito de um sonho), escolheu o nome da criança, como defendeu sua noiva perante todos. E, o mais importante, casou-se com ela, tornando-se o pai de Jesus diante da Lei. 

Mas as fofocas nunca cessaram totalmente e voltaram com mais força depois da morte do seu marido, pois ele não estava mais ali para defendê-la com a força da sua autoridade. Recentemente passaram a identificar seu filho apenas como “filho de Maria”, como se José não fosse seu pai legal. Ela sabia que no íntimo Jesus sofria com isso, mas nada podia fazer.

Seu pensamento voltou para o final da sua gravidez, quando chegou a terrível notícia do recenseamento e da necessidade de irem até Belém da Judeia para se cadastrar. Ela estava pesada e não tinha mais posição para dormir. Não seria fácil viajar de Nazaré até Belém por estradas esburacadas e enlameadas. José fez o melhor que pode, arrumando emprestado um burrico, para que ela viajasse sentada, sem precisar caminhar.

Foram vários dias de viagem num terrível desconforto. Ela não sabia como Jesus não nascera durante o trajeto. Quando chegaram a Belém, ela estava morta de cansaço, tinha fome e frio. E a dorzinha no ventre, que vinha sentindo nas últimas horas, aumentara bastante.

Precisavam conseguir logo um lugar para ficar. José saiu perguntando para todos. Qualquer lugar serviria. Mas não encontraram nada, pois as hospedarias estavam todas ocupadas pelos viajantes que tinham vindo a Belém por causa do recenseamento.

Afinal, um dono de hospedaria, com pena dela, permitiu que ficassem no estábulo, junto com os animais. O lugar era escuro, muito sujo e o cheiro horrível. Mas não havia o que fazer. Pelo menos não ficariam ao relento, na noite fria.

As dores começaram a vir em intervalos regulares. Parecia que seu ventre ia rasgar. E ela entendeu que a hora chegara. Seu coração tinha uma ponta de tristeza por saber que seu filho viria ao mundo naquele lugar tão feio. Ele merecia coisa melhor, muito melhor. 

Não havia nenhuma parteira disponível e José teve que ajudar. Os partos eram arriscados e as mulheres sempre corriam risco de vida. Muita coisa podia dar errado, tanto com ela como com o bebê. Mas ela não tinha medo, pois confiava cegamente no Deus Altíssimo.

Perto da meia noite o bebê enfim nasceu. Foi um parto difícil, mas não dos piores. O bebê estava bem e era saudável. 

Esgotada pela viagem e pelo parto, ela mal tinha forças para abrir os olhos. Mas pegou o bebê, enrolou-o em faixas, como era tradição, e o colocou no cocho onde os animais comiam. Não era um bom lugar, mas era o melhor que tinham. 

Como por milagre, os animais ficaram imediatamente quietos e não reclamaram de perder seu lugar de comer. E ela e o bebê puderam dormir por umas poucas horas.

Quando acordou, José lhe contou que havia uma estrela nova no céu, que estava exatamente sobre Belém. Era um fato extraordinário e todos estavam dizendo que um rei havia nascido.

Logo depois chegaram uns pastores. Contaram que tinham recebido uma mensagem vinda do Deus Altíssimo, que o Messias estaria ali, deitado num cocho. Entraram no estábulo, mas nem se atreveram a chegar perto. E adoraram o menino de longe mesmo. 

José ficou muito confuso com aquilo, pois não era adequado para um judeu adorar outro ser humano, muito menos um simples bebê. Já ela disfarçou um sorriso, tendo a mensagem do anjo Gabriel ainda bem viva na sua mente. 

Quando os pastores saíram, ela aconchegou seu flho ao seio e lhe deu alimento pela primeira vez. O bebê comeu gulosamente e depois voltou a dormir em paz. Ela nunca esqueceria aquele momento, quando ela e Jesus dividiram uma intimidade somente reservado às mães e seus filhos.

Seus pensamentos voltaram ao presente, quase trinta anos depois. Os dedos teciam automaticamente e a túnica já estava quase pronta. Era uma túnica especial, pois não teria qualquer costura, já que fora tecida como peça única. Decidira tecê-la pouco dias antes, por causa do aniversário de Jesus. Seria seu presente para Ele. 

Sabia que Ele iria partir em breve, chamado pelo Deus Altíssimo para desenvolver sua missão. E a túnica que ela tecia iria sempre envolvê-lo com seu amor de mãe. Iria aquecê-lo no inverno e mantê-lo sempre bem apresentável. Era feita da melhor lã e iria durar bastante, mesmo com uso diário.

A comemoração do aniversário seria dali há dois dias. O último aniversário comemorado em família. Por isso precisaria ser especial. Dando um suspiro, afastou aqueles pensamentos da mente. Tinha muito serviço para fazer. Queria ainda preparar a comida que Ele mais gostava. Era seu papel de mulher e de mãe.


Com carinho
Vinicius

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

UM ALERTA CONTRA "COMIDA ENVENENADA"

A Internet trouxe muitas coisas boas para a nossa civilização, mas também muitas que são ruins, como o fácil acesso a pornografia. E uma das piores é a falsa atribuição de pensamentos a pessoas que são famosas e admiradas. Outro dia recebi de um amigo uma mensagem “linda” atribuída a Nelson Mandela, pessoa que muito admiro por sua capacidade de perdoar. A mensagem atribuída a Mandela dizia mais ou menos o seguinte: “O nosso maior medo não é o de sermos inadequados e sim o de sermos poderosos, acima de qualquer medida. É a nossa luz e não nossa escuridão que mais nos amedronta... À medida que sejamos liberados do nosso medo, nossa presença automaticamente libera os outros.”

Fui verificar a autenticidade do texto – esse é um lado bom da Internet - e acabei achando a verdadeira autora dessa citação: ele pertence à guru da autoajuda Marianne Williamson. Ou seja, alguém pegou deliberadamente o texto dessa escritora e o “embalou” como se fosse de Nelson Mandela, para ganhar mais penetração e credibilidade.

O problema é que muitas pessoas de boa fé acreditam nessas mensagens e as reproduzem para seus amigos, sem verificar a autenticidade. E sem perceber que, ao circular esse tipo de mensagem, colocam sobre ela o “selo” da sua própria credibilidade. 


Lembro bem – e até escrevi neste blog sobre o tema – que depois das inundações da região serrana do Rio de Janeiro, uma pessoa cristã e bem intencionada, repassou, num blog de discussões do qual participo, um texto atribuído a uma autoridade sanitária internacional, dizendo que tinham morrido muito mais pessoas e que haveria uma epidemia na região, o que certamente causou pânico em muitas pessoas. Seis meses depois, como nada aconteceu, cobrei no mesmo blog, da pessoa que tinha divulgado o texto falso. Ela se defendeu dizendo que foi um texto que tinha recebido de um corretor de imóveis, do seu conhecimento e simplesmente repassou. Ela não percebeu que, ao repassar um texto falso sem o verificar, também tinha colaborado para as consequências ruins que ele porventura causou. 

Agora imagine o estrago que um pensamento atribuído a Jesus pode causar? E infelizmente a Internet está cheia desses textos também. Aliás, esse fenômeno de atribuir pensamentos falsos a Jesus e seus apóstolos não é novo. Ao longo dos primeiros 100 anos após a morte e ressurreição Dele, muitas pessoas escreveram Evangelhos e os atribuíram a Pedro, Maria Madalena, Tiago e outras pessoas de prestígio no relato da Bíblia. Por causa disso esses textos são chamados de Evangelhos Apócrifos. O mais recente e famoso é o tal Evangelho de Tiago, que muitos estudiosos chegam a dar a mesma importância que aos quatro evangelhos canônicos (Mateus, Marcos, Lucas e João).

E os relatos desses Evangelhos, tais como os textos modernos da Internet, têm as coisas mais absurdas – por exemplo, um deles fala de Jesus quando criança fazendo milagres para punir outras crianças que tinham feito ironias.

Tome cuidado com mensagens que você receber, especialmente aquelas que dizem conter pensamentos de Jesus. Muitas vezes se trata de “comida envenenada”, que pode desviar você do caminho certo. E lembre-se que, se você repassá-los para alguém, sem verificar a autenticidade, está colaborando para espalhar o “veneno” ali contido.

Se tiver dúvidas quanto ao conteúdo faça uma pesquisa na própria Internet para verificar a autenticidade. Se não conseguir respostas fale com seu pastor ou com alguém da sua igreja que conheça melhor a Bíblia do que você. Pode também escrever para mim, que eu responderei com prazer. Mas tome cuidado para não se deixar “envenenar”, ou colaborar sem perceber, para prejudicar os outros.

Com carinho
Vinicius