sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A INVERSÃO DE VALORES NA IGREJA CRISTÃ

É uma tremenda contradição a forma como os supermercados tratam seus clientes quando eles(as) chegam nos caixas para pagar. As pessoas que compraram menos têm filas rápidas e são liberadas logo, já aqueles que compraram bastante ficam muito tempo esperando. Ora, pelo que sei, a regra do comércio manda que quem compra muito deveria ter tratamento preferencial. Por que os supermercados usam uma lógica contrária ao bom senso?

E acabamos nos acostumando com essa inversão de valores - por exemplo, já questionei dezenas de caixas de supermercados sobre isso e todos(as) sempre me olham com cara espantada, pois nunca tinham pensado nessa questão.

O pior é que a igreja cristã também vem sendo contaminada por uma inversão de valores importante. Vejamos alguns exemplos:

O culto é para quem?
É comum, ao saírem de um culto, as pessoas comentarem o que vivenciarem. E é interessante observar que os comentários sempre versam sobre se a cerimônia realizada estava ou não de acordo com o gosto ou as necessidades dos(as) participantes.

Ora, o culto é, antes de tudo, uma cerimônia de adoração e louvor a Deus. Logo, por que as pessoas nunca perguntam ao final do culto se Deus se agradou do que foi feito ali?

A inversão de valores está no fato que o culto passou a ser dirigido para as pessoas, abandonando o foco maior em Deus. As igrejas pensam ser preciso entreter as pessoas para garantir sua frequência e usam todo tipo de recurso para poder competir com as fontes de lazer, como a Internet, a televisão, os shows, etc.

E as consequências desse erro são enormes: pastores deixam de abordar nas suas pregações temas impopulares como "pecado" e "inferno", há cultos que viram verdadeiros shows, cheios de efeitos visuais, e as "estrelas" do culto passam a ser os pregadores e o pessoal do louvor.  



Quem deve influenciar quem?
Existe uma permanente tensão entre a igreja cristã e a sociedade secular, disputando quem deve influenciar quem.

Não há dúvida que a igreja precisa sofrer alguma influência da sociedade. Por exemplo, quando eu era pequeno, as igrejas passaram a aceitar guitarras e baterias no louvor, para tornar a música mais adequada ao gosto dos jovens. E não vejo qualquer problema com isso. 

Mas a igreja cristã não pode mudar a ponto de desvirtuar o testemunho que precisa dar para o mundo. Mudar  apenas para não ter uma imagem antipática é uma inversão muito perigosa de valor. E vemos tal tipo de coisa acontecendo nas discussões de temas polêmicos como aborto, limites da honestidade, etc. A igreja acaba por flexibilizar suas posições apenas para "ficar bem na fita".

Jesus nos disse que deveríamos ser o “sal da terra”, ou seja precisamos transmitir "sabor" ao que está em torno. E isso somente acontecerá se lutarmos para que os ensinamentos cristãos modifiquem o comportamento da sociedade.

E muitos cristãos(ãs) fizeram exatamente isso ao longo da história. Por exemplo, Wilberforce levou a Inglaterra a abolir a escravidão, lutando contra forças econômicas muito poderosas; Madre Teresa de Calcutá influenciou mudanças nos direitos civis na Índia, enfrentando costumes milenares; e Wesley minimizou chagas sociais, como o alcoolismo e o abandono das crianças, contra a vontade do capitalismo selvagem da Inglaterra.

Quando a igreja permite que seu discurso seja adequado às necessidades da sociedade, é essa última que sai ganhando, pois passa a ditar a agenda. E nunca podemos nos esquecer que a sociedade tem muito mais recursos e sabe bem melhor como agradar as pessoas. 

Quem está a serviço de quem?
Algumas igrejas defendem a tese de que temos direitos perante Deus, por causa das promessas que Ele teria nos feito. E basta ter fé e reivindicar para se apossar desses direitos. E tome de prosperidade para todos, saúde garantida sem precisar tomar remédios, etc.

Esses direitos, do qual podemos nos apossar, acabam fazendo de Deus um servo nosso - reivindicamos e Ele atende. Mas, somos nós que precisamos ser servos fiéis d´Ele. Trata-se de uma perigosa inversão de valores.

Conclusão
Inversões, como as que comentei acima, e outras mais estão debilitando a igreja cristã. É isso que está acontecendo com as igrejas protestantes ditas liberais nos Estados Unidos, várias delas hoje reduzidas à uma fração, em número de membros, do que já foram.

Posturas "politicamente corretas", "práticas de marketing modernas", "administração focada em objetivos" e outras coisas desse tipo acabaram virando armadilhas para o cristianismo. Inverteram nossos valores. E geram prejuízos para o testemunho cristão, que é a razão de existir do cristianismo.

A igreja cristã somente executa seu papel quando incomoda, denuncia, enfrenta o que está errado, enfim quando mostra que existe um caminho diferente ao da sociedade. Quando não faz isso, a igreja torna-se irrelevante, ou como disse Jesus, torna-se sal insípido, que serve apenas para ser jogado fora.

Com carinho

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

E QUANDO A BÍBLIA CONTRARIA O BOM SENSO?

                "...não se ponha o sol sobre a vossa ira"
                Efésios capítulo 4, versículo 26


Acho que o versículo acima é bem conhecido – pelo menos é citado com frequência. Nele o apóstolo Paulo dá um valioso conselho: as pessoas não devem deixar passar muito tempo antes de tentar reconciliar as diferenças que as separam.

Mas isso contraria o senso comum. A sabedoria popular manda esperar primeiro as coisas serenarem - o tempo faria as pessoas ficarem mais flexíveis. Mas, segundo Paulo, isso é um erro. E nessa questão, portanto, a Bíblia contraria o senso comum. Quem está com a razão?

A Bíblia está certa e isso foi comprovado por estudo realizado quatro anos atrás, publicado pelo "Journal of Neuroscience". Nele foi analisado o comportamento de 106 homens e mulheres que foram dormir experimentando emoções negativas sobre determinada pessoa. E a conclusão foi que a passagem do tempo reforçou ou, pelo menos, preservou os sentimentos negativos. Ou seja, esperar para resolver as diferenças é ruim.

É claro que deixar a "cabeça esfriar" ajuda, pois ânimos exaltados impedem o pensamento claro. Agora, devemos aguardar apenas o tempo necessário para isso ocorrer. Só isso. Dormir com pensamentos ruins tende a piorar as coisas pois acaba cristalizando essas idéias. 

É exatamente por isso que temos dificuldade para dormir depois de ter uma experiência negativa com outra pessoa. De certa forma, é nossa natureza dizendo que isso não é o melhor caminho. Conclusão muito interessante.

Um comentário final: quando a Bíblia é confirmada, como nesse caso, a mídia não dá manchetes. Imagine o que teria acontecido se o estudo tivesse chegado à conclusão contrária! 

Com carinho 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A FÉ QUE "GRUDA"

 Ditado cristão                                                       Deus não tem netos. Somente filhos
Esse ditado é ouvido com frequência nas igrejas cristãs. Chama atenção para o fato que ninguém adquire garantias junto a Deus por ser filho(a) de cristãos leais. Afinal, a salvação é individual e cada um(a) precisa construiu seu relacionamento pessoal com Deus. Alerta para o fato que os pais precisam se preocupar com o que vai acontecer na vida espiritual dos(as) filhos(as).

Agora, existe uma percepção generalizada que os(as) jovens criados(as) na igreja têm caminho espiritual mais fácil. Têm maiores chances de construir uma boa relação com Deus. Mas será isso verdade? O que os pais podem fazer de fato para desenvolver nos(as) filhos(as) uma fé que "gruda”?

Uma pesquisa feita pelos cientistas sociais Clara Power e Chap Clark, incluída no livro “Sticky Faith” (literalmente “Fé que gruda”) responde exatamente essas perguntas. O estudo foi desenvolvido no Seminário Fuller, nos Estados Unidos, junto a adultos jovens, alguns anos atrás. Os pesquisadores buscaram analisar qual a melhor estratégia para levar os jovens até Jesus e para mantê-los nesse caminho. 

As conclusões obtidas foram muito interessantes. Comprovaram na prática que existe sim uma relação direta entre as práticas religiosas dos pais e a fé futura dos seus filhos. Vejamos alguns detalhes importantes:
  • Crianças e adolescentes cujos pais são cristãos verdadeiros têm probabilidade três a cinco vezes maior de também seguirem o cristianismo quando adultos. 
  • Essa probabilidade aumenta ainda mais se os pais fizerem devocionais no lar  junto com a família. 
  • Pais que são muito defensivos e fechados no tratamento das dúvidas que seus filhos(as) venham eventualmente levantar sobre a doutrina cristã, atrapalham o desenvolvimento espiritual deles(as) e podem até afastá-los(as) da fé cristã. A discussão franca das dúvidas cria nos(as) jovens uma fé mais sólida e capaz de enfrentar as dificuldades da vida. 
  • A maioria dos jovens que não mais se considera cristão(ã), embora criados(as) nessa fé, admite levar seus próprios filhos para participar de atividades nas igrejas, inclusive da Escola Bíblica, comprovando que a boa semente não morre - a Bíblia diz que a "palavra nunca volta vazia" (Isaías capítulo 55, versículo 11).
Esse estudo comprova que é possível sim ter uma fé que realmente “grude” nos(as) filhos(as). E forneceu conselhos interessantes para orientar os pais a como fazer isso. Tudo isso, acredito eu, deve ser motivo de incentivo para as pessoas que lutam continuamente para levarem seus filhos(as) à igreja, enfrentando todo tipo de dificuldade, tais como Escolas Bíblicas pouco efetivas, pressões contrárias da sociedade, concorrência de atividades de lazer mais atrativas, etc.  

Também apontam para a responsabilidade que os pais têm em relação à futura vida espiritual dos(as) filhos(as). É claro que a escolha desses(as) filhos(as) sempre será individual, mas os pais que investem na tarefa de encaminhar bem seus(suas) filhos(as) têm chance muito maior de obter sucesso. Afinal, a fé cristã realmente "gruda". E Graças a Deus por isso.

Com carinho 

sábado, 21 de fevereiro de 2015

O PROBLEMA DAQUELES QUE NÃO TÊM DEUS

"...Semanas atrás, descobri que tinha metástase múltipla no fígado...esse tipo particular de câncer não pode ser contido. Cabe a mim agora escolher como viver os meses que me restam...Isso não significa que desisti da vida...e quero...no tempo que me resta aprofundar minhas amizades, dizer adeus para as pessoas que amo, escrever mais, viajar se tiver forças, atingir novos níveis de entendimento e compreensão. Isso vai envolver audácia, clareza e simplicidade no discurso; tentar acertar minhas contas com o mundo..."  Oliver Sacks         Publicado no O Estado de São Paulo em 20/02/2015
Este texto triste foi escrito por um conhecido cientista, bastante famoso pelos seus estudos sobre a evolução do cérebro humano. Sua forma de encarar a morte próxima é admirável, mas certamente deixa um travo amargo para quem lê o texto. Pelo menos, assim foi comigo.

Sacks é um ateu convicto e boa parte das suas pesquisas tiveram como objetivo demonstrar que Deus não foi necessário para que a humanidade chegasse onde chegou. Nesse sentido tem sido um crítico forte do cristianismo. E agora, infelizmente,  sua vida vai chegando ao fim - o mundo certamente ficará mais empobrecido depois da sua partida.

O travo amargo a que me referi antes vem não somente da expectativa da morte iminente desse homem, mas também de uma pequena frase sua no texto citado acima: "tentar acertar minhas contas com o mundo". Repare bem: Sacks, um ateu, sabe que precisará prestar contas do que fez durante sua vida. 

E ele não está sozinho - todos temos dentro de nós a percepção que precisaremos prestar contas a um poder maior. Isso está "gravado" na nossa mente. Não há como fugir dessa percepção. 

Sacks pretende prestar contas para o mundo - para ele, aí reside o poder maior ao qual se curva. Mas o que é o "mundo". Não acredito que ele tenha se referido ao universo físico, às leis naturais, pois isso não faria sentido. Acho que ele se referiu à sociedade na qual vive. À opinião pública.

O erro de Sacks é imaginar que "sociedade" ou "opinião pública" são entidades às quais se pode prestar contas. Afinal, elas nada mais são do que conceitos abstratos procurando descrever forças complexas que atuam no dia-a-dia das pessoas, influenciando seu comportamento. A "opinião pública", por exemplo, tanto é formada por pessoas conservadoras, que assistem todos os dias os jornais da televisão, como os jovens que trocam ideias via Twitter ou Facebook. E esses dois grupos pensam de forma totalmente diferente. Valorizam coisas distintas. 

Além disso, pessoas que foram aprovadas pela opinião pública e a sociedade da época em que viveram, podem passar a ser execradas posteriormente - ficam na história como seres humanos horríveis. Bons exemplos disso são Stalin e Lenin, que implantaram e consolidaram o comunismo na Russia. Portanto, Sacks pode até ser aprovado hoje e reprovado mais adiante, como qualquer um de nós. 

Em outras palavras, quando colocamos nossa confiança e expectativas nas mãos de entidades humanas não há garantia de nada. Simples assim. E é exatamente aí que reside o problema daqueles que são ateus e das pessoas que dizem acreditar em Deus, mas vivem de fato como se Ele não existisse. Sabem que precisam prestar contas dos seus atos neste mundo mas pensam que entidades humanas podem servir como "juiz". Mas a "sociedade" ou a "opinião pública" não podem prestar esse papel.

E, ao por perceber esse problema, muitos ateus convictos acabam por se converter no final de suas vidas. Um caso famoso é o filósofo Anthony Flew, que passou anos escrevendo artigos que procuravam provar que Deus não existe, e mudou de opinião poucos anos antes de morrer.

Todos vamos prestar contas. E todos têm essa certeza dentro de si. A questão é saber para quem essa satisfação será dada. Se a entidades humanas, como a "opinião pública", seja lá o que isso queira dizer, ou a um Deus Santo. Eu acredito na segunda hipótese.

E se você concorda comigo, não viva como se esse fato não fosse verdade. Não deixe de levar em conta Deus na "equação" da sua vida. É isso que importa de fato.

Com carinho

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

POR QUE EXISTE O MAL NO MUNDO? 2ª parte

Na primeira parte desse estudo, postado dois dias atrás, apresentei o chamado “Problema do Mal”, que pode ser resumido assim: se Deus é bom e onipotente, por que permite a existência de mal no mundo? Se Ele não faz isso, é porque não é onipotente ou não é bom de verdade.

Apresentei ali a resposta básica do cristianismo: a essência do mal que existe no mundo se deve às escolhas erradas e livres feitas pelos próprios seres humanos, escolhas essas que geram injustiças, desigualdade social, corrupção, crime, poluição, etc. E a liberdade de escolher que os seres humanos têm é fruto do livre arbítrio que Deus lhes concedeu.

Mas essa explicação não cobre todo o mal existente no mundo, já que não contempla, por exemplo, os desastres naturais, os chamados “atos de Deus". Coisas como o tsunami que matou centenas de milhares de pessoas na Indonésia cerca de 10 anos atrás. E não é possível atribuir a origem desses terríveis eventos às escolhas erradas dos seres humanos. 

DEUS E OS DESASTRES NATURAIS
Mesmo nas catástrofes, parte do mal é causado por escolhas humanas erradas. Por exemplo, se as pessoas constroem casas em locais sujeitos a deslizamentos de terra, como na região serrana do Rio, e os governos nada fazem para impedir isso, quando as chuvas chegam e muitas pessoas morrem, é justo considerar Deus responsável? Poderia citar muitos outros exemplos, como as usinas nucleares construídas em regiões sujeitas a terremotos ou as cidades construídas ao pé de vulcões. 

Mas ainda assim há sofrimento gerado por esses desastres que não depende das escolhas das pessoas. Como explicar tal fato sem caracterizar que Deus é ruim ou não tem poder para impedir tais situações? 

Começo a fazer isso lembrando de uma das mais importantes forças da natureza: a gravidade. E ela que nos mantem "grudados" à superfície da Terra e sem ela não seria possível haver vida. Agora, essa mesma força irá causar a morte de uma pessoa que cai de certa altura. Seria Deus responsável pela morte dessa pessoa por ter criado a força da gravidade? Isso significa que Deus é mau?

Vamos olhar essa mesma questão de outra forma: seria possível para Deus ter criado um mundo viável sem contar a força da gravidade? Se isso fosse possível, seria razoável dizer que Deus não fez seu trabalho criador da melhor forma e assim teria responsabilidade pelas consequências negativas da força da gravidade. 

Agora, qual ser humano teria suficiente conhecimento e capacidade para "bolar" um mundo alternativo, onde não ocorressem problemas semelhantes aos causados pela gravidade? Nenhum, com certeza. 

Na verdade, penso que Deus fez o melhor mundo que poderia ser feito, mas isso não quer dizer que as forças necessárias para seu funcionamento estejam isentas de eventualmente gerar consequências negativas para as pessoas. 

Por exemplo, a superfície da terra é formada por enormes placas de rocha que flutuam sobre material derretido pelo calor (magma). Quando essas placas se roçam é criado o relevo (montanhas altas, vales, etc), que protege a superfície da terra da erosão. E é o relevo que permite o desenvolvimento da diversidade biológica, porque cria ecossistemas separados - por exemplo, sabe-se que a diversidade biológica da floresta amazônica se deve à formação da Cordilheira dos Andes. Esse processo também re-circula o CO2 (com ajuda dos vulcões) o que é fundamental para a vida. Agora, o mesmo roçar das placas tectônicas gera terremotos e tsunamis, com suas terríveis consequências. É uma situação semelhante à da força da gravidade.

E as forças necessárias ao funcionamento do mundo não podem ser "ligadas e desligadas" quando for conveniente. Até porque é preciso haver previsibilidade no funcionamento do mundo - imagine como seria acordar de manhã e perguntar, antes de sair de casa: será que a gravidade está "ligada" hoje? As forças vão funcionar sempre, tantos nos momentos em que são necessárias, como quando geram sofrimento humano e não há como evitar isso.

O que fica claro dessa discussão é não ser justo considerar Deus mau por causa desse tipo de situação. Na primeira parte do estudo, eu lembrei que a onipotência de Deus significa que Ele pode fazer tudo que é lógico. Não pode fazer o que é ilógico, por exemplo, se suicidar.

Em conclusão, Deus não pode criar um mundo previsível, onde as forças necessárias estejam em funcionamento e , ao mesmo tempo, impedir que as consequências dessa realidade se façam presentes. Isso não seria lógico. 

Desastres naturais continuarão a ocorrer e não há como evitar isso. A única coisa a fazer é alterar as escolhas humanas: construir com mais segurança, manter as pessoas longe dos locais de risco, criar sistemas de alertas para o perigo, etc. Quedas indesejadas podem ser evitadas colocando grades, guarda-corpos e redes de proteção. E assim por diante.

Mas ainda assim haverá sofrimento, não há como evitar isso. Mas não é justo acusar Deus por conta desse tipo de situação.

Há muitos outros temas relacionados com o Problema do Mal que eu ainda poderia discutir, por exemplo, o caso das crianças que nascem com defeitos genéticos. Mas a lista seria interminável. Por isso vou parar por aqui.

Acredito que esse estudo já mostrou como tais questões podem e devem ser tratadas e, mais ainda, que ficar culpando Deus pelo mal existente no mundo é uma abordagem simplista e até arrogante, de quem acha que sabe mais e melhor do que Deus.  

Com carinho

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

POR QUE EXISTE O MAL NO MUNDO? 1ª parte

O problema do mal
Provavelmente esse é o tema mais controvertido dentro do cristianismo é pode ser resumido da seguinte forma: se Deus é Bom e Onipotente por que permite a existência do mal? Uma outra forma comum de apresentar a mesma questão é: por que pessoas boas e/ou inocentes sofrem?   

Essa questão é muito usada pelos ateus para atacar o cristianismo. E também gera muito desconforto para os próprios cristãos, quando notam algum tipo de sofrimento que parece injusto. 

Não é fácil dar uma resposta simples ao problema do mal. Mas, isto não quer dizer que devemos fugir dessa questão pois ela é parte importante do "desafio de ser cristão". Então, vamos enfrentar essa questão. 

O argumento contra o cristianismo
Quem ataca o cristianismo argumenta que a existência do mal somente pode ser explicada por uma das três seguintes alternativas:
  • Deus não existe. 
  • Ele não tem poder para impedir que o mal ocorra (não é onipotente). 
  • Deus pode mas não quer eliminar o mal (não é bom).
Se qualquer uma dessas alternativas fosse verdadeira, o estrago para a fé cristã seria terrível. Mas felizmente esse raciocínio é errado. Há outra alternativa para explicar a existência do mal. E ela é simples: Deus pode ter uma boa razão para permitir que o mal exista. 

A razão 
O livre-arbítrio é a liberdade que o ser humano tem para fazer suas próprias escolhas, mesmo que elas não agradem a Deus. E Ele não pode dar o livre-arbítrio para o ser humano e ao mesmo tempo pré-programar as escolhas que o ser humano faz. Isso não teria lógica e não pode ser feito. 

Pode parecer estranho dizer que Deus não pode fazer determinada coisa. Afinal, Ele não é onipotente? Na verdade, tal atributo quer dizer que Deus pode fazer qualquer coisa lógica. E vou dar dois exemplos de coisas que Deus não pode fazer por não serem lógicas. 

Ele não pode se suicidar pois é um Ser eterno, não tem início (nascimento) ou fim (morte). Deus também não pode criar uma pedra que Ele mesmo não possa levantar por ser pesada demais. 

Agora, é importante lembrar que Deus conserva o poder (capacidade)  para acabar com o livre-arbítrio e passar a pré-programar o ser humano, se assim decidisse. O livre-arbítrio é uma concessão d´Ele ao ser humano e não afeta sua onipotência.

Portanto, é por causa do pecado livremente praticado pelo ser humano que o mal existe. Mas os responsáveis por esse mal são os próprios seres humanos por conta das suas escolhas. Deus não tem qualquer responsabilidade. 

Nesse ponto, é preciso discutir outra questão importante: por que Deus deu o livre-arbítrio para o ser humanoA resposta é simples: Ele quer ser amado voluntariamente porque somente o amor livre e voluntário tem valor. 

Para comprovar isso, basta que você pense como gosta de ser amado pelas demais pessoas: de forma livre ou por obrigação? Acredito que prefira ser amado de forma voluntária. E Deus também. 

E para que o amor seja livre o ser humano precisa ter o direito de escolha, o livre-arbítrio. Concluindo, o livre-arbítrio é uma necessidade lógica do desejo de Deus de ser amado livremente.  

E o resto?
Já expliquei, acredito, a maior parte do sofrimento humano, ou seja aquele causado pelas próprias pessoas devido às suas escolhas erradas, fruto do egoismo, inveja, ciúme, etc. 

Mas, essa argumentação não contempla todas as situações em que o mal aparece. Por exemplo, como explicar o mal causado pelos desastres naturais (terremotos, furacões, tsunamis, etc) que não depende das escolhas humanas? 

As respostas para essa e outras questões importantes serão discutidas na continuação deste post, a ser publicada daqui há dois dias. 


Com carinho

domingo, 15 de fevereiro de 2015

SENDO USADO POR DEUS

  Como um farol que brilha à noite                           Como ponte sobre as águas                                 Como abrigo no deserto                                     Como flecha que acerta o alvo                               Eu quero ser usado da maneira que te agrade       Aline Barros 
Os versos acima são da música "Sonda-me, usa-me", da qual gosto muito. Ela fala sobre alguém que pede a Deus para ser usado(a) por Ele, dando um novo sentido à sua vida.  

O pedaço da letra acima fala sobre como aquela pessoa gostaria de ser usada por Deus através de quatro lindas metáforas. A primeira é a de um "farol que brilha ao longe", indicando o caminho para aqueles que viajam no mar à noite. E foi o próprio Jesus que disse que seus seguidores deveriam ser "luz para o mundo" e que sua luz não poderia ficar escondida (Mateus capítulo 5, versículos 14 e 15).

A luz é importante porque afasta as trevas que, na linguagem bíblica, representam o domínio de Satanás. Jesus disse que seus seguidores, através de seus atos neste mundo devem contribuir para afastar o Mal e ajudar as pessoas a seguirem por caminhos seguros. 

A segunda metáfora é a de uma "ponte sobre as águas". O conceito de águas na Bíblia significa o mundo e seus grandes problemas. Essa mesma imagem foi usada no Apocalipse, quando a Besta (o Anticristo) emerge das águas do mar (capítulo 13, versículo 1). 

Ser "ponte sobre as águas" significa, portanto, ajudar as pessoas a superarem os problemas deste mundo, indo com segurança de uma "margem" para outra. 

O deserto, na Bíblia, é o lugar de dificuldade, onde as intenções reais das pessoas são testadas. Jesus passou 40 dias no deserto antes de começar seu ministério, quando inclusive Ele foi tentado por Satanás (Mateus capítulo 4, versículo 1). 

Ora, quem é "abrigo no deserto" ajuda as pessoas em momento de grande aflição, tanto através de ajuda material (comida, bebida, abrigo, roupas, etc), como espiritual (consolo, ensinamento, oração, etc). 

Jesus nos chamou para amar o próximo como a nós mesmos e isso significa ser "abrigo no deserto" para quem precisa muio de ajuda.

A "flecha que acerta o alvo" cumpre sua função. Em termos espirituais, trata-se da pessoa que obtém os resultados que Deus esperava dela, para os quais chamou-a.

Essas linhas de letra terminam com uma declaração muito importante: "quero ser usado(a) da maneira que te agrade". A pessoa pediu que Deus a use como Ele desejar - pode ser das quatro formas descritas antes, ou de qualquer outra. Mas o importante é que essa participação na obra ocorra sempre segundo a vontade de Deus. 

A frase faz eco com o que Jesus disse no jardim das Oliveiras, pouco antes de ser preso (Mateus capítulo 26, versículo 39): "Pai, se é possível, passe de mim este cálice, todavia, não seja como eu quero, mas sim como tu queres". 

Essa é a chave de tudo.

Com carinho

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

CICLOS DA VIDA

Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus: tempo para nascer, e tempo para morrer; tempo para plantar, e tempo para arrancar o que foi plantado;... tempo para demolir, e tempo para construir; tempo para chorar, e tempo para rir;... tempo para dar abraços, e tempo para apartar-se... tempo para calar, e tempo para falar; tempo para amar, e tempo para odiar; tempo para a guerra, e tempo para a paz.           Eclesiastes capítulo 3 versículos 1 a 8

O que descrevo a seguir aconteceu dois anos antes da morte do meu pai. Peguei-o lendo um livro chamado "Como morremos". O tema pareceu-me pessimista e falei isso para ele. E ele me deu uma resposta inesquecível: "se eu não pensar nisso agora, com 82 anos, quando será a hora de fazer isso?" 

Meu pai tinha razão: há um tempo certo para tudo, até para pensar na morte. A Bíblia ensina a mesma coisa no livro do Eclesiastes: há tempo para trabalhar e para descansar, para plantar e para colher os frutos, para ficar alegre e para se entristecer, para amar e odiar e para diversas outras coisas.

Na verdade, a vida das pessoas é composta por uma sucessão de ciclos, sendo que cada um deles envolve coisas boas e ruins, coisas que trazem alegria e tristeza.   

Por exemplo, é fácil perceber o ciclo da vida econômica das pessoas. Quando crianças e adolescentes, elas são sustentadas e assim podem ter tempo para se desenvolver fisicamente e para obter os conhecimentos que serão necessários para desenvolver sua futura vida profissional. 

Mais adiante, começam a trabalhar e passam a se sustentar. Um pouco mais adiante passam a sustentar outras pessoas, como pais (já velhos) ou filhos. Quando chegam na fase final do seu ciclo econômico, as pessoas se aposentam e a sociedade passa a lhes devolver um pouco do que fizeram ao longo das suas vidas. E pode ser que precisem de ajuda econômica de outras pessoas (como seus filhos). 

Agora, há pessoas que têm dificuldade para aceitar esses ciclos naturais. Lembro que certa vez uma boa amiga me disse: "minha vida está tão boa, que fico com medo de que as coisas mudem para pior." Ela sabia que os ciclos se sucedem, mas não imaginava que não poderia ficar melhor do que estava, logo o ideal seria "congelar" o tempo. Mas isso não é possível.

Os ciclos da vida vão se suceder e não há nada que possa ser feito para pará-los. Há um ditado famoso que sempre se aplica: "não há bem que sempre dure e mal que não se acabe". 

E quando as pessoas se recusam a aceitar as mudanças inevitáveis da vida, acabam por gerar problemas para si mesmas. Entram em "guerras" que não podem vencer. Isso é muito evidente, por exemplo, na questão do envelhecimento. 

Não estou dizendo que as pessoas não devam ter vaidade, nem procurar se manter saudáveis e jovens pelo tempo que for possível. Mas os efeitos da idade vão se fazer sentir, cedo ou tarde e é preciso aceitar isso. Aprender a conviver com as perdas que a vida traz: perda da beleza, do vigor físico, etc. Revoltar-se não vai adiantar nada, somente trazer sofrimento. Lembro aqui das mulheres deformadas por plásticas excessivas ou homens já idosos se vestindo e comportando como garotões, atraindo ridículo para si mesmos. 

O que a Bíblia ensina
Há três ensinamentos que a Bíblia traz sobre os ciclos da vida. O primeiro, conforme já comentei acima, é que eles são inevitáveis e é preciso aceitá-los, aprender a conviver com eles. Pessoas nascem, crescem, amadurecem, envelhecem e morrem. Assim acontece com todo mundo e é preciso aceitar essa realidade. Simples assim. 

O segundo ensinamento é a necessidade de valorizar os momentos bons e as realizações obtidas Eclesiastes capítulo 3, versículos 12 e 13. Por exemplo, uma viagem de férias com toda a família, uma festa de casamento ou uma vitória profissional. Podem até ser coisas mais simples, como ler um bom livro numa tarde de chuva ou apreciar um lindo por do sol com alguém que se ama. 

E essa valorização das coisas boas precisa incluir a gratidão a Deus. O reconhecimento que tudo vem d´Ele. É claro que é preciso também reconhecer o esforço pessoal que levou a pessoa a conseguir aquela coisa boa, mas é preciso ter consciência que sem Deus nada teria sido possível.

O último ensinamento lembra ser preciso preparar-se para as mudanças que irão acontecer mais cedo ou mais tarde. Em algumas áreas da vida isso está bem claro na mente das pessoas - por exemplo, a necessidade de poupar na juventude para ter uma velhice melhor. Mas em outras áreas da vida essa necessidade não é percebida e as pessoas não se preparam adequadamente. Por exemplo, poucas pessoas constroem atividades paralelas para se manter ativas depois de se aposentar, fazendo algo de útil - e muitas acabam por aí, meio "mortas-vivas", sem saber como preencher seu tempo. 

Mas como as pessoas podem se preparar de fato para as mudanças futuras? A única forma é aproximar-se e manter-se junto a Deus (Eclesiastes capítulo 12 , versículo 1 e Tiago capítulo 4, versículo 8). 

Com carinho

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

EVITANDO A DISCRIMINAÇÃO

O hábito de discriminar - por raça, gênero, condição social, etc - é difícil de identificar e controlar. Bem mais do que parece à primeira vista. Muitas vezes a pessoa pensa estar fazendo tudo certo, agindo como cristã, e ainda assim, sem nem perceber, contribui para perpetuar a discriminação.

Por exemplo, há palavras e brincadeiras que parecem inocentes e inofensivas mas que discriminam. Vejamos alguns exemplos;
  • O verbo "judiar" tem sua origem na palavra "judeu". Ela nasceu do conceito que os judeus (como povo) maltrataram Jesus - na verdade foram as autoridades judaicas que fizeram isso. Por causa disso, os judeus sempre foram injustamente discriminados e sofreram muito ao longo da história. O verbo "judiar" é parte do processo de associar os judeus a coisas ruins.
  • A “loura burra” representa a mulher fútil, que somente pensa na sua aparência e diz as maiores besteiras. É claro que há mulheres assim, mas também há homens que se comportam igual. Por que não existe então o "louro burro"? Simples, por puro machismo. 
  • A frase “quando preto não faz besteira na entrada faz na saída...” parece ser uma brincadeira inocente mas é fruto da discriminação racial.
  • Já ouvi pessoas da classe média dizerem que os miseráveis são assim porque querem” ou que "são pobres mas são felizes". Ora, ninguém gosta de ser miserável e quase sempre os miseráveis nem têm culpa de sua condição. Tal tipo de pensamento é discriminação social, pura e simples.
  • A expressão "boa aparência" em alguns anúncios de oferta de emprego costuma ser equivalente a "de cor branca", sendo uma expressão racista.  
Sem perceber as pessoas vão reproduzindo diariamente os comportamentos discriminatórios. E como esse problema não é percebido, ele não é corrigido. 

A discriminação também está presente nas comunidades cristãs, embora de forma mais disfarçada. E muitas vezes a Bíblia é usada para justificar tal tipo de comportamento - o exemplo histórico é a defesa da escravidão. Mas ainda hoje, em muitas igrejas, mulheres são impedidas de serem sacerdotes (pastores ou padres) e nunca ocupam os postos de maior importância. É reservado às pessoas de condição socioeconômica mais baixa as tarefas mais simples - como servir mesas, limpar ou carregar objetos pesados. Já vi isso acontecer muitas vezes.  

O ensinamento de Jesus é muito claro: ninguém deve ser discriminado por raça, gênero, condição social ou mesmo por ser pecador(a). E Ele sempre deu exemplo de comportamento inclusivo:
  • Salvou a mulher adúltera da morte certa por apedrejamento – ela não adulterou sozinha, é claro, mas o adúltero nunca correu qualquer risco, pois o ônus desse tipo de ato quase sempre caía apenas sobre a mulher.
  • Curou leprosos, pessoas tão discriminadas que eram condenados a viver isolados da sociedade. 
  • Interagiu com prostitutas e coletores de impostos, pessoas consideradas pecadoras e, portanto, impuras, a quem todos deviam evitar.
  • Lidou normalmente com os gentios (não judeus), o que contrariava as regras sociais da época. 
Jesus veio para todos, rigorosamente todos. E seus atos provaram isso. E somos desafiados a agir exatamente assim. Portanto, não podemos conviver ou apoiar atitudes de discriminação de qualquer espécie. Não cair na armadilha de achar que tudo está normal quando alguma discriminação estiver acontecendo. 

Com carinho

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

É ILEGAL, IMORAL OU ENGORDA

Então o que fazer...                                                   Se tudo que eu gosto                                                 É ilegal, é imoral ou engorda
Letra da música "Ilegal, imoral ou engorda"         de Roberto Carlos
Há uma grande diferença entre legalidade e moralidade. Uma ação é legal quando está de acordo com a lei da sociedade (dos homens). Uma ação é moral quando obedece os mandamentos dados por Deus. Assim, é possível haver medidas que sejam legais mas violem completamente os mandamentos de Deus. E vice versa. 

O fato é que as leis de Deus e dos homens nem sempre coincidem e essa discrepância acontece com relativa frequência. Basta lembrar as leis que os nazistas implantaram na Alemanha para perseguir os judeus. Foram leis aprovadas pelo Parlamento e seguiam, portanto, o arcabouço legal da época. Mas certamente contrariavam a vontade de Deus pelo que carregavam de ódio, discriminação e injustiça.

Outros exemplos históricos importantes desse tipo de situação são as leis racistas do sul dos Estados Unidos, do "apartheid" na África do Sul ou de exceção durante as ditaduras militares no Brasil e em outros países da América do Sul. 

Seres humanos não fazem leis como Deus

As leis dos homens e de Deus podem divergir entre si porque o ponto de vista de quem legisla em cada caso é diferente. As leis humanas são normalmente feitas por Parlamentos enquanto as leis morais nascem da mente de Deus. As pessoas que fazem as leis têm agendas próprias: promover o que entendem ser a justiça social, mas também conquistar o poder, obter vantagens para si mesmas ou seus protegidos, etc. As leis de Deus visam evitar o pecado humano, ou seja as condutas que o venham afastar de Deus. Portanto, são sempre feitas para o bem geral, sem privilegiar a quem quer que seja. Afinal, Deus não segue agendas ocultas.

Não é de surpreender, portanto, que haja divergência entre esses dois tipos de lei - eu diria que isso até deve ser esperado. Um bom exemplo desse tipo de divergência aparece no Velho Testamento, com a chamada lei do jubileu, estabelecida por Deus. Essa norma determinava que, a cada 50 anos, todas as dívidas que as pessoas tivessem feito deveriam ser apagadas e as terras porventura vendidas ao longo desse período deveriam voltar aos seus donos originais (estabelecidos quando da partilha da Palestina entre as 12 tribos de Israel, conforme o livro de Josué).

É claro que tal tipo de lei garantiria a manutenção da igualdade social ao longo do tempo, mas ela não interessava aos negócios e acabou abandonada. Não "pegou". Virou apenas uma curiosidade bíblica. E também não seria aplicável nas sociedades atuais.

Leis permanentes e temporárias 
As leis dos homens costumam ser válidas por tempo determinado. Depois os costumes e as necessidades mudam e as leis precisam se adaptar. Mesmo nos países onde a legislação é bastante estável - como Estados Unidos ou Inglaterra - essas adaptações ocorrem. E aí aparecem as revisões da Constituição ou leis novas que revogam outras mais antigas.

As leis de Deus tanto podem ser permanentes como terem validade temporária, dependendo do seu objetivo. Exemplo de lei permanente, ou seja válida em qualquer tempo e circunstância, é a obrigação da pessoa de não ter outros deuses diante do nosso Deus. Essa é uma exigência absoluta. 

Mas há leis de Deus que variam ao longo do tempo. Por exemplo, no caso do mandamento relacionado a como tratar os inimigos, a orientação de Deus variou ao longo de tempo, de acordo com as circunstâncias e os costumes da época. No Velho Testamento aparece a lei do talião - "olho por olho e dente por dente" (Êxodo capítulo 21, versículo 24) -, ou seja o inimigo deveria receber a retribuição proporcional ao mal que tivesse feito. Já no Novo Testamento, cerca de 1.000 anos depois, Jesus mandou perdoar e dar a outra face, no caso de ofensa (Mateus capítulo 5, versículos 38 e 39).

São posições muito diferentes e a explicação para essa variação é simples: na fase inicial, a sociedade era tribal e nômade, não havendo governos centrais - cada um fazia o que queria. Assim, as tribos precisavam se fazer respeitar pelos inimigos, para poder se sentir seguras, daí a necessidade de sempre retribuir a violência sofrida. Mil anos depois, os Romanos dominavam a Palestina, havia ordem e leis que todos respeitavam. Nesse segundo cenário, já é possível falar de perdão, de misericórdia, etc. Dois momentos, duas necessidades e duas leis morais diferentes.

A quem obedecer
A Bíblia ensina os cristãos, em princípio, a respeitar as leis do país onde vivem. E nem poderia ser diferente, pois nenhuma sociedade pode funcionar bem sem leis válidas para todos. Portanto, seguir as leis do país onde se vive, para o cristão, é tanto uma obrigação legal como moral (desejo de Deus). 

Mas o que fazer quando a lei dos homens contraria a lei de DeusA resposta a essa questão está numa passagem da Bíblia. Certa vez os apóstolos Pedro e João foram presos pelas autoridades judaicas e lhes foi ordenado que não mais pregassem o Evangelho de Jesus. Os apóstolos responderam que mais importante era obedecer a Deus do que aos homens e continuaram a pregar mesmo sob risco de suas próprias vidas (Atos capítulo 5, versículos 25 a 29).

Para os cristãos, as leis de Deus têm preferência sobre as leis dos homens. E a experiência ensina que, quando a pessoa escolhe obedecer aos homens, em detrimento dos mandamentos de Deus, as consequências são muito ruins. E a história está cheia de exemplos desse tipo de situação. Vejamos um desses casos.  

Quando a Segunda Guerra Mundial acabou, os países aliados estabeleceram um tribunal na cidade de Nuremberg, na Alemanha, para julgar os criminosos de guerra nazistas. E na lista dos réus, para surpresa geral, estava certo juiz, homem muito conceituado em todo o mundo. Ele permanecera no seu posto quando o regime nazista se instalou no poder entendendo que poderia evitar um mal maior, por conta da sua grande autoridade em meio ao judiciário alemão. Mas acabou se deixando corromper e participando voluntariamente de erros terríveis. 

E ao perguntaram àquele homem, durante o julgamento, quando ele tinha começado a cair, sua resposta foi exemplar: "na primeira vez em que passei uma sentença iníqua. Ali comprometi minha alma para sempre". 

O exemplo de Jesus ensina o cristão a não hesitar frente a questões que envolvam a vontade de Deus, suas leis. É preciso se posicionar. Escolher o lado certo. Por exemplo, quando Jesus verificou que os principais sacerdotes judeus ganhavam dinheiro explorando a religiosidade do povo e o controle que tinham sobre o Templo de Jerusalém, Ele protestou e expulsou simbolicamente os vendedores do pátio do Tempo de Jerusalém (Mateus capítulo 21, versículos 12 e 13). 

E assim aprenderam a fazer todos os seus principais seguidores, como Pedro ou Paulo. Não há duvida que esses homens pagaram alto preço pela sua coragem, pois numa sociedade totalitária, como aquela em que viviam, qualquer discordância dos poderosos gerava enormes riscos pessoais. 

Felizmente hoje é diferente: os cristãos podem discordar do que acontece à sua volta, normalmente sem medo de sofrer retaliações. Mas ainda assim há custos em contrariar a vontade dos homens. Por exemplo, a discriminação social - ser considerado chato ou inconveniente.   

Permanecer no caminho legal e moral nunca é fácil. Trata-se de desafio diário para o qual é preciso contar com a presença e a orientação do Espírito Santo. Com seu conselho diário. 

PS Não falei sobre engordar porque ninguém gosta mesmo de falar sobre isso (risos).

Com carinho 

sábado, 7 de fevereiro de 2015

OS DOIS LIVROS DE DEUS

Deus fala de si, das suas obras e dos seus planos para a humanidade em dois grandes "livros": o universo (o mundo físico que nos cerca) e a Bíblia. O universo é um "livro" que pode ser visto e apreciado por todos e, por causa disso, tal "livro" é chamado de Revelação Geral. 

A metáfora de tratar a natureza como um "livro" é muito antiga dentro do cristianismo. Por exemplo, Santo Agostinho, que viveu entre 354 e 430 da nossa era, falou sobre isso no seu livro "Confissões". A mesma abordagem se faz presente na obra de muitos outros teólogos cristãos. É bem comum.

O outro livro de Deus é a Bíblia, texto dividido em duas partes. O chamado Velho Testamento (Bíblia Hebraica) conta a história da Aliança que Deus fez com um povo, Israel. É ali que Deus prometeu enviar seu Ungido, o Messias, para liderar a humanidade na restauração da relação com Deus (a salvação). O Novo testamento conta como essa profecia foi cumprida, na figura de Jesus, filho de Deus. Também conta como o ministério de Jesus deu origem à igreja cristã e os primeiros passos dela. 

O que Deus nos conta nas duas partes desse segundo livro é conhecido como "Revelação Especial". É claro que seu conteúdo somente está acessível para quem lê a Bíblia, daí a enorme importância de tornar esse livro disponível para todas as pessoas.

As duas formas de revelação, a Geral e a Especial, os dois livros de Deus, se complementam e reforçam. Isso porque a Revelação de Deus é uma unidade coerente, embora tenha sido transmitida em duas partes. É por causa disso que a Bíblia ensina que a mensagem da Revelação Geral precisa ser tomada seriamente (Salmo 19 e Romanos capítulo 1).  

Agora, as duas Revelações têm suas limitações - nenhuma delas pode conter todas as verdades que emanam de Deus. Por exemplo, a Bíblia nada fala das leis da matemática, da lógica, da química e assim por diante. Mas os conceitos desenvolvidos por essas ciências são tão verdadeiros quanto, por exemplo, a Aliança que Deus fez com Israel.

Já a natureza nada conta sobre a razão pela qual a vida existe, para onde o ser humano vai depois da morte, sobre princípios morais (certo e errado) e assim por diante. Mas a Bíblia tem muito a dizer sobre tudo isso.

E cada um dos livros, no seu campo, tem prioridade. Quando se discute o mundo físico, a natureza, as leis descobertas pela ciência predominam. Elas estabelecem o que vai ou não acontecer no mundo físico. Já no mundo sobrenatural (espiritual), são os ensinamentos da Bíblia que prevalecem.

Há conflito entre os dois livros?
A ciência e as outras disciplinas acadêmicas são as ferramentas que permitem "ler" o livro da natureza. Já a teologia é a ferramenta que lê e interpreta a Bíblia. São livros diferentes e, portanto, as ferramentas para sua interpretação também são distintas - usam métodos e abordagens diferentes. E não seria razoável esperar que fosse diferente.


Agora, muitas vezes as verdades reveladas por Deus podem ser interpretadas tanto pela ciência como pela teologia. E as conclusões acabam por ser até conflitantes. É isso que dá origem aos famosos conflitos entre teologia (religião) e ciência, que tem causado tantos problemas ao longo da história da humanidade. 

Quando a teologia dominava (até a chamada Idade Média), esse tipo de conflito levou cientistas a serem acusados de hereges e até punidos. A partir da chamada Renascença, com o crescente domínio da ciência e da tecnologia, a religião passou a ser vista cada vez mais como antiquada, intolerante e até desnecessária. Hoje em dia, para uma grande quantidade de pessoas, vale apenas o que a ciência consegue explicar. E nada mais importa.

Como tratar as diferenças

É preciso separar a verdade em si, revelada nos dois livros, e sua interpretação feita pelos seres humanos. A primeira vem de Deus e não está sujeita a erros. Mas a segunda é humana e frequentemente erra. É comum, por exemplo, as teorias científicas serem corrigidas ao longo do tempo, assim como conceitos teológicos errados importantes já foram melhor entendido e alterados. 

A ciência não pode corrigir a Bíblia, mas pode sim alertar quando foi feita uma interpretação teológica errada. Por exemplo, existem cristãos que defendem que a terra tem apenas cerca de 10 mil anos de existência. Ora, a geologia já comprovou que a idade da terra é de alguns bilhões de ano. Assim, não é possível, interpretar o relato da criação do mundo, contido no Gênesis, como se referindo a 7 dias literais - é preciso perceber que são períodos de tempo dos quais não conhecemos a duração, chamados de "dias". 

Da mesma maneira, a Bíblia precisa corrigir certas interpretações científicas. Por exemplo, aquela que defende somente existir o mundo físico e não haver campo sobrenatural (espiritual), como defendem os materialistas. A Bíblia pode e deve demonstrar que isso não é verdade. 


Se essa compreensão existir com clareza - cada livro, cada Revelação, tem uma área de predominância e que cada um deve e precisa instruir o outros, esses conflitos acabam por ser minimizados. Afinal, não há contradições naquilo que Deus revelou para nós.  

Com carinho 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A RAIZ DE TODOS OS MALES: O DÉCIMO MANDAMENTO

Parte de uma série sobre os Dez Mandamentos

"Eu não posso evitar que um passarinho pouse na minha cabeça, mas posso evitar que faça ninho." Ditado popular
O último mandamento não trata de atos concretos e sim de um determinado tipo de pensamento: o desejo por algo que não se deveria desejar por pertencer a outra pessoa. É a isso que a Bíblia chama "cobiçar". O décimo mandamento diz: "Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença a teu próximo." (Êxodo capítulo 20 versículo 17). 

É interessante perceber que os demais mandamentos proíbem determinadas ações (matar, roubar, mentir, adulterar, etc) ou cobram que as pessoas façam determinadas coisas (honrar pai e mãe ou guardar o sábado). Mas o décimo mandamento é diferente. Procura prevenir pensamentos errados para que eles não venham se materializar em ações erradas.

E o ditado que dá início a este post explica a razão. O "passarinho" é a tentação, o pensamento errado. Ninguém consegue evitar tal tipo de pensamento. Volta e meia ele cruza a mente de todo mundo - "pousa na cabeça" de qualquer pessoa. 

O problema não está em ter tal tipo de pensamento, porque isso é inevitável, e sim deixá-lo criar raízes na mente - fazer "ninho". É isso que o décimo mandamento pretende combater.

Para evitar a formação de "ninho", a pessoa precisa conseguir perceber quando um "passarinho" pousou na sua "cabeça" para poder "espantá-lo" logo. Em outras palavras, conseguir perceber que a tentação se faz presente. 

Pode parecer meio desnecessário dizer isso, mas não é. Na verdade, as pessoas costumam ter muita tolerância consigo mesmas. Tendem a justificar as coisas erradas que pensam e/ou com todo tipo de justificativas como "isso não vai ser tão errado assim", ou "vou fazer por pouco tempo, depois paro"São desculpas desse tipo que permitem o "ninho" se formar, os pensamentos errados criarem raízes.

O texto do décimo mandamento proíbe cobiçar coisas que são propriedade de outra pessoa. Mas parece estranho que sejam citados como exemplos de propriedades a mulher e os servos, mas é fácil de explicar a razão. Nos tempos bíblicos, as mulheres pertenciam aos homens e era admissível ter servos (escravos). Não se trata de aprovação dessas coisas mas simples reconhecimento de uma realidade. 

Como são citadas propriedades parece ser que a grande preocupação do décimo mandamento é evitar o roubo, mas ele vai muito além. Afinal, a cobiça acaba por ser raiz de quase todos os males. Por exemplo, cobiçar a mulher do próximo pode levar ao adultério, a vontade de se apossar de algo pertencente a outra pessoa pode levar à violência física ou à inveja (e daí a fofocas) e assim por diante. 

Visto dessa perspectiva, o décimo mandamento é uma "lei de cerca", ou seja um mandamento para evitar que outros mandamentos sejam violados. Afinal, é mais fácil combater a tentação enquanto ainda não se enraizou na mente da pessoa do que lidar com atos concretos e suas consequências reais.

Por conta disso tudo, o décimo mandamento é muito importante. Bem mais do que possa parecer à primeira vista. 

Com carinho