segunda-feira, 30 de novembro de 2015

AS MULHERES NÃO SÃO BEM TRATADAS EM MUITAS IGREJAS

Lucetta Scaraffia é uma historiadora italiana envolvida há muitos anos com causas feministas. Ela foi uma das 32 mulheres convidadas a participar do sínodo dos bispos da Igreja Católica sobre a família, realizado no mês passado. Seu relato mostra as dificuldades da Igreja Católica em lidar bem com as mulheres:

...O que mais me espantou nesses cardeais, bispos e padres foi sua perfeita ignorância sobre o sexo feminino, seu pouco conhecimento em relação a essas mulheres tidas como inferiores, como as freiras, que geralmente lhes serviam de domésticas... para a imensa maioria deles, o constrangimento sentido pela presença de uma mulher como eu era palpável... minha presença era no máximo tolerada... Bem que tentei dividir minhas impressões com as outras poucas mulheres presentes no sínodo, mas elas sempre me olhavam com espanto; para elas, esse tratamento dos homens era totalmente normal... A simplificação excessiva é uma realidade... todos falam em uma linguagem autorreferencial, quase sempre incompreensível para quem não pertence à "panelinha" do clero: "afetividade" para se referir a "sexualidade"... falam também em "arte do acompanhamento"... Quase todos estão convencidos de que basta um curso de preparação para o casamento para superar todas as dificuldades e talvez também um pouco de catecismo antes das núpcias.
Achei esse relato interessante porque toca em alguns problemas muito comuns a diversas denominações cristãs, inclusive as evangélicas - afinal, não é só a Igreja Católica que tem dificuldades em tratar bem as mulheres. Muitas igrejas continuam, até mesmo sem querer, reproduzindo comportamentos machistas, que alienam as mulheres. 

Dentre as muitas questões que poderiam ser levantadas com base no relato acima, separei duas, que vou discutir com um pouco mais de profundidade, pois acredito que resumem bem o problema como um todo: 

Falta de vontade de lidar com o problema real
A liderança religiosa do sexo masculino com frequência nem faz muito esforço para entender os sentimentos e as necessidades reais das mulheres. Não procura conhecer o problema real e assim não consegue lidar bem com ele. No caso da Igreja Católica, essa questão é ainda mais aguda porque os padres não são casados, portanto não vivem uma experiência - a vida matrimonial - que ensina muito os homens sobre a condição feminina. 

É justo dizer que em muitos casos até são feitos esforços para reduzir o machismo nas igrejas, mas como o problema não é corretamente entendido, as medidas tomadas mostram-se inadequadas - um bom exemplo é o que aconteceu com as mulheres convidadas a participar do sínodo da Igreja Católica, conforme o relato acima, que estavam lá apenas para constar, para "sair bem na foto". 

Gênero (masculino ou feminino) nunca deveria ser critério para escolha de lideranças dentro das igrejas cristãs. Simples assim. Afinal, o Novo Testamento está cheio de exemplos de mulheres que lideraram igrejas, como Priscila, e isso numa época em que a mulher de fato pouco representava em termos sociais. O que deve comandar a escolha de uma pessoa para a liderança religiosa são suas características individuais, seu chamado espiritual. Nada mais. 

Muitas igrejas, na tentativa de reduzir o machismo, procuram reservar um espaço de trabalho para as mulheres. O problema é que as funções normalmente reservadas para elas - como a decoração dos templos ou a ministração de aulas para crianças na escola dominical - são escolhidas por serem mesmo "coisa de mulher", acabando por perpetuar o machismo que esse tipo de atitude procura superar.  

Uma das piores consequências da discriminação é a geração de apatia entre as mulheres. A maioria delas acaba se conformando com essa situação e achando que as coisas precisam ser assim mesmo e não há muito a fazer. E quando isso acontece, a comunidade cristã perde uma parte importante das vocações espirituais com as quais poderia contar, pois as mulheres constituem cerca de dois terços dos frequentadores das igrejas - não é por acaso, portanto, que a Igreja Católica, onde esse problema é bem agudo, passe por uma grande crise de lideranças.

Interpretações distorcidas
Outro problema comum é a distorção da doutrina para facilitar a manutenção da visão machista. E há várias formas de fazer isso, como a simplificação excessiva de conceitos complexos ou a interpretação errada de ensinamentos bíblicos. 

No relato acima, a autora falou sobre a excessiva simplificação no trata de determinados assuntos delicados, como no caso em que os líderes católicos pensam ser suficiente um simples curso pré-matrimonial (umas poucas aulas durante um mês)  para dar aos noivos a orientação necessária para a vida de casado.

Conforme o relato, essa excessiva simplificação também passa pelo uso de jargão, onde são usadas palavras neutras, como "afetividade", para se referir a conceitos mais incômodos, como "sexualidade". Ora, sexualidade é certamente bem diferente de afetividade e tratar uma coisa como se fosse a outra só leva a conclusões e medidas erradas.  

As mulheres são particularmente prejudicadas por esse tipo de abordagem, por exemplo quando a discussão sobre sexualidade se limita a falar sobre "pureza". E das moças é cobrado um grau de pureza que não é exigido dos rapazes, caso claro de "dois pesos e duas medidas". 

Tem ainda a questão da interpretações erradas dos textos bíblicos, como por exemplo, na questão do papel da mulher dentro do casamento. A visão mais corrente no mundo cristão, especialmente entre os evangélicos, é que o marido deve ser o "cabeça do casal", sendo isso entendido como "o marido manda e a esposa obedece". Tal orientação distorcida infelizmente é alcançada a partir da interpretação equivocada de um texto do apóstolo Paulo, onde o conceito de "cabeça", usado para significar "origem", é usado com o sentido de "liderança" - já falei sobre isso em outro post aqui no blog.

São muitos os exemplos que poderia dar, mas penso que já deu para passar a mensagem que eu queria: a discriminação é uma realidade.  

Palavras finais
Há muito trabalho a ser feito para dar mais espaço e tratar melhor as mulheres dentro das igrejas cristãs. Fico triste com essa constatação, mas essa é uma realidade da qual não se pode fugir. 

E deixar de reconhecer isso só contribui para perpetuar a discriminação. Afinal, a solução de qualquer problema começa pelo reconhecimento da sua existência.

Com carinho

sábado, 28 de novembro de 2015

UM CONSELHO IMPORTANTE PARA MELHORAR SUA VIDA

Por favor, leia este mesmo post no meu novo site http://www.sercristao.org/2015/11/28/um-conselho-importante-para-melhorar/ . 

Para viver uma vida melhor, mais feliz e ajustada, a pessoa precisa aprender uma coisa muito importante: distinguir entre o que não pode mudar, não importa o quanto se esforce, e o que pode melhorar, com trabalho e dedicação. 

Muitas pessoas não conseguem perceber essa diferença e ficam lutando para mudar aquilo que não está a seu alcance fazer diferença e acabam não fazendo aquilo que deveriam nas áreas onde poderiam obter resultados positivos.

O que não pode ser mudado na vida inclui um monte de coisas, muito mais do que gostaríamos que fosse verdade, mas essa é a realidade. Vejamos alguns exemplos:
  • Muitas circunstâncias da sua vida – a economia, o clima, o ambiente social em que a pessoa vive, a situação política do seu país, alguns problemas de saúde, como doenças crônicas ou deficiências físicas, e assim por diante
  • O passado - é impressionante o quanto as pessoas gastam de tempo e esforço tentando mudar seu passado - palavras que feriram outras pessoas, escolhas erradas, etc - coisa que não podem fazer. 
  • A passagem do tempo - tudo passa, tanto as coisas boas com as ruins. O tempo leva tudo de roldão e entender isso ajuda a reduzir o sofrimento quando, por exemplo, uma coisa boa acaba.
  • A soberania de Deus - pode parecer estranho incluir isso na lista, mas as pessoas brigam muito contra a soberania de Deus. Muitas acham que Ele poderia e deveria ter feito as coisas de outra forma e não se sentem satisfeitas com aquilo que entendem ser o seu "quinhão" na vida. 
Aprender a aceitar e ficar em paz com aquilo que não se pode mudar é fundamental para alcançar paz de espírito e ter condições de concentrar-se naquilo que importa de fato. Não se trata de conformismo, mas sim de ajustar as próprias expectativas. Afinal, ficar brigando contra o inevitável somente traz frustrações.

Agora, a parte mais importante nessa questão toda é identificar e atuar naquilo que pode ser mudado - a Bíblia chama a esse processo de melhoria contínua de "santificação". É aí que a pessoa pode fazer diferença na sua vida e no mundo. 

E começo lembrando que a pessoa nunca pode mudar seu passado, no máximo pode atenuar as consequências dele. Mas sem dúvida pode alterar seu futuro para melhor. E pode fazer isso desenvolvendo os seus pontos fortes (a Bíblia chama isso de usar bem os próprios talentos), bem como contendo os pontos fracos. 

Coisas que podem ser melhoradas incluem ter mais auto-controle, ajustar as prioridades da própria vida - escapando da armadilha estabelecida pela sociedade moderna, para quem o bom é ter cada vez mais coisas -, estabelecer hábitos mais saudáveis e assim por diante. Falei bastante sobre todas essas questões em outros posts aqui no blog e sugiro a quem se interessar dar uma olhada nesses textos.

Concluindo, aprender a aceitar o que não pode ser mudado e investir naquilo que é possível melhorar, esse é um conselho útil para quem busca uma vida melhor.

Com carinho

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

POBRE DIA DE AÇÃO DE GRAÇAS

Estamos comemorando o dia mundial de Ação de Graças. Essa é uma tradição nascida nos Estados Unidos e que acabou se espalhando por muitos países. No Brasil, ela fica restrita às igrejas ditas evangélicas - na minha igreja sempre temos uma importante comemoração.

Infelizmente, há uma grande transformação para pior na comemoração do dia de Ação de Graças. Nos Estados Unidos virou o dia de comer um farto almoço em família, que precisa incluir peru assado e depois ver programações especiais na televisão. Bebe-se muito também. E o dia seguinte, a chamada "sexta feira negra" ("black friday"), é quando o comércio faz grandes promoções, atraindo multidões de consumidores ávidos - essa moda está começando a pegar no Brasil também.

Comida e bebida em excesso, programação especial na televisão e grandes descontos para incentivar o consumo, a comemoração de Ação De Graças está cada vez mais se resumindo a isso. E onde fica a gratidão a Deus? As orações, os louvores e as leituras bíblicas? 
Esse era um dia dedicado a mostrar gratidão a Deus pelas inúmeras bênçãos recebidas ao longo do último ano, a começar pelo dom da vida, mas virou algo muito, mas muito diferente.

Aqui no Brasil, vivemos uma experiência parecida com o Natal, hoje totalmente desvirtuado. Originalmente, tratava-se de comemorar o nascimento de Jesus. A festa era para Ele e essa era a justificativa para enfeitar as casas e reunir a família - ler a Bíblia, cantar músicas especiais e encenar contos de Natal. E acabou virando a festa do comércio: todo mundo nas ruas para comprar presentes, depois uma ceia no dia 24, com muita comida e bebida, e a distribuição dos presentes. E nada de lembrar de Jesus, exceto no presépio.

Com a Páscoa aconteceu algo parecido: ao invés de meditarmos sobre o sacrifício de Jesus e sua ressurreição, virou o dia para comer chocolate. Quem dá as cartas é o "coelho" - no máximo, as pessoas assistem um filme velho sobre a vida e morte de Jesus na televisão.

O fato é que as datas religiosas importantes acabaram engolidas pelo comércio e pelo lazer. As práticas seculares desvirtuaram totalmente o significado do que deveria ser comemorado.

Neste ano, mesmo não sendo feriado no Brasil, lembre-se de dedicar, no Dia de Ação de Graças, uns bons minutos para agradecer a Deus as bençãos recebidas, juntando-se a milhões de pessoas que felizmente não perderam o sentido original da comemoração. 

Somos totalmente dependentes das bençãos de Deus - afinal, tudo que existe foi criado e é mantido em funcionamento pelo poder d´Ele. Simples assim.

E quando reconhecemos isso de forma sincera, deixamos de considerar a nós mesmos como o centro e a razão para tudo que existe. Aí encontramos um novo sentido para as nossas vidas, muito maior e mais profundo. 


Com carinho

terça-feira, 24 de novembro de 2015

POR QUE JESUS NOS PEDIU PARA DAR A OUTRA FACE?

... mas a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra e ao que demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas." Mateus capítulo 5, versículos 39 a 41
Há diversos ensinamentos de Jesus difíceis de aceitar. Mas ainda assim precisamos obedecê-los se quisermos ser cristãos verdadeiros. E a melhor forma de fazer isso não é tentar obedecer cegamente porque isso foge à natureza humana. É preciso entender as razões de Jesus para pedir essas coisas e ser convencido por esse entendimento. Aí fica mais fácil de obedecer.

Um excelente exemplo desse tipo de situação é o pedido de Jesus para que o(a) cristão(ã) ofereça o outro lado quando for ferido(a) na face, conforme o texto acima. Jesus estava ensinando aqui que a pessoa não deve retribuir o mal (físico, moral e/ou espiritual) recebido e, ainda mais desafiador, deve fazer algo positivo por quem lhe tiver feito mal, caso isso for possível.

Esse ensinamento é muito mais exigente e desafiador do que a Lei dada no Velho Testamento - ali foi ensinado retribuir "olho por olho e dente por dente", ou seja o mal deveria ser retribuído de forma proporcional ao prejuízo sofrido (Êxodo capítulo 21, versículo 24). Mas, para Jesus, a orientação é retribuir o mal até com o bem. Isso envolve duas coisas: abandonar qualquer vontade de retribuição do mal recebido e, se possível, ainda fazer o bem, caso possível.

A pergunta que fica aqui é: por que Jesus pediu isso? Afinal, a lei do Velho Testamento parece justa e razoável. Acredito que há três razões para isso. 

A primeira é que a tal "retribuição justa" não é possível de aplicar na prática. Eu me explico. Digamos que eu mate o filho de alguém e essa pessoa mate meu filho, em retribuição. Pela matemática, parece ter ficado tudo certo. Mas, se eu tiver apenas um filho e a outra pessoa três, eu teria perdido tudo e o outro apenas um terço da sua prole. 

Na prática, é praticamente impossível estabelecer uma retribuição justa ao mal recebido pois são muitas as variáveis a considerar. E, por conta disso, a regra do "olho por olho" tende a perpetuar os conflitos - um dos lados sempre vai achar que sofreu mais e vai querer descontar a diferença.

Voltando ao exemplo anterior, digamos que eu ache que matar meu único filho foi injusto. Vou lá e, para equilibrar as coisas, no meu ponto de vista, mato os outros dois rapazes do meu inimigo. Aí o pai dos rapazes mortos vai achar que a conta ficou desequilibrada e irá retaliar. E assim acabará sendo gerado um ciclo de vinganças e retaliações.

É por isso que o ditado "quando se usa a regra do olho por olho, a longo prazo todos acabam cegos" é tão sábio. Retrata com clareza a circunstância de que não é possível encontrar a retribuição justa ao mal recebido e inicia-se um ciclo de retaliações.

A segunda razão pela qual Jesus nos pediu para não retaliar é que a lógica do Reino de Deus é baseada na Graça e não na "causa e efeito". Graça significa que Deus deixa de punir a pessoa de acordo com seus malfeitos, através do sacrifício de Jesus. Isso significa que se a pessoa aceitar Cristo como seu Salvador, ela não será cobrada pelos seus erros. E isso vale para todos(as).

E a Graça está disponível para todos - basta aceitá-la. Por isso não há justiça maior. Mas se alguém entra no campo de Graça, é exigido dessa pessoa que aja de forma semelhante - aprenda a perdoar e não retaliar. E dessa percepção também decorre o mandamento de Jesus.

A terceira razão tem a ver com a exigência de fazer o bem a quem fez mal, caso seja possível. Isso porque uma ação positiva, que traga bem para quem fez o mal, pode iniciar um processo de restauração da relação quebrada. E isso é ainda melhor do que apenas acabar com o ciclo de retaliação. Os resultados são muito mais significativos.

É por isso que precisamos orar por aqueles(as) que nos ofendem. Ajudá-los(as) nas suas necessidades. E assim por diante. É de ações como essa que gera um ciclo positivo, onde o bem gera mais bem.

Com carinho

domingo, 22 de novembro de 2015

POR QUE JESUS FOI BATIZADO PARA ARREPENDIMENTO?


Um dos fatos mais importantes da vida de Jesus foi o seu batismo logo no início do seu ministério. E o batismo a que Jesus se submeteu foi ministrado por João Batista e se tratava de um chamado ao arrependimento – o povo judeu devia abandonar seus maus caminhos e se arrepender dos pecados cometidos (Mateus capítulo 3, versículos 1 a 10).

Agora, por que Jesus se deixou batizar já que não tinha pecados, isto é não tinha do que se arrepender? Essa é uma pergunta muito coerente que merece atenção.


Como Deus lidou com o povo de Israel
Deus lidou com o povo de Israel, segundo o relato do Velho Testamento, de forma diferente do que Ele lida conosco hoje. Israel era o povo escolhido e estava debaixo da promessa dada a Abraão e depois reafirmada a Moisés, Davi, etc. Portanto, quem nascia dentro desse povo herdava automaticamente todas as promessas feitas por Deus, em especial passava a fazer parte da Aliança feita com Abraão. Mas como havia promessas coletivas para Israel, cuja posse podia ser reivindicada por qualquer pessoa que pertencesse a esse povo, também havia responsabilidades coletivas para as mesmas pessoas.

Assim, certos pecados cometidos por um único homem judeu podiam ter reflexo no povo como um todo. Um bom exemplo disso é o caso de Acã, que desobedeceu a Deus e causou a derrota de Israel na batalha pela cidade de Aí (Josué capítulo 7).

É claro que também existiam pecados - como o adultério ou o roubo - para os quais a responsabilização era individual, como aconteceu com o Rei Davi, no caso do adultério com Bate-Seba.

Os pecados que tinham impacto coletivo eram aqueles relacionados diretamente com a Aliança de Israel com Deus - adoração a outros deuses, desobediência a Deus, revolta contra os líderes indicados por Ele, etc.

Jesus e o pecado do povo de Israel
Jesus era judeu e vivia as práticas religiosas daquele povo – respeitava os feriados religiosos, foi circuncidado, não comia alimentos proibidos, etc. Pode parecer estranho afirmar isso, mas Jesus, como parte do povo escolhido, estava dentro da Aliança feita por Deus com Abraão. Assim, Ele também era coletivamente responsável pelos pecados cometidos por outros judeus contra a Aliança com Deus.

Em outras palavras, Jesus não pecou pessoalmente mas carregou sua parte da culpa coletiva de Israel. E a Bíblia explica isso com clareza: quando Jesus se aproximou para ser batizado, João Batista lhe disse que não podia praticar tal ato, pois não era digno de fazer isso. E Jesus respondeu: "...Deixa, por enquanto, para que se cumpra toda a justiça..." (Mateus capítulo 3, versículos 13 a 15).

"Justiça" na frase acima tem o significado de cumprimento da Lei dada por Deus a Moisés. Ou seja, como judeu, Jesus tinha sobre Ele os pecados coletivos de Israel, embora não fosse diretamente responsável por nenhum deles. Daí ser apropriado que Jesus se batizasse pelo arrependimento coletivo do povo, cumprindo a Lei dada por Deus a Moisés.

Comentários finais
Vivemos hoje dentro da chamada Nova Aliança, caraterizada pela morte de Jesus na cruz para remissão dos nossos pecados (Mateus capítulo 26, versículos 26 a 28). A Nova Aliança não é coletiva, como a Aliança feita por Deus com o povo de Israel. Ela é individual.
Cada pessoa entra na Nova Aliança quando aceita Jesus como seu Salvador. Ninguém pode transferir sua salvação para um(a) descendente - cada pessoa terá que tomar esse passo por si mesma. 
Por outro lado, na Nova Aliança ninguém tem que carregar pecados coletivos. Cada pessoa é responsável apenas pelo que faz individualmente e só precisa se arrepender disso. 

Assim, na Nova Aliança o gesto de Jesus, de se deixar batizar por João Batista, não faz sentido, pois Ele não tinha pecados pessoais. Mas o mesmo ato, quando olhado sob o ponto de vista da Aliança de Deus com Israel, à qual Jesus também pertencia, como judeu, passa a fazer todo sentido.
Com carinho 

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

AS TRAGÉDIAS EM MARIANA E EM PARIS

Vivemos recentemente duas tragédias horríveis: o rompimento da barragem de uma mineradora em Mariana e o ataque terrorista em Paris. Ambas geraram muitas mortes e uma delas, a de Mariana, trouxe consigo também um grande dano ecológico, enquanto o ataque terrorista deixou um rastro de medo que vai afetar o futuro da França.

Ambos eventos foram terríveis e merecem repúdio de todas as pessoas decentes. Num dos casos uma empresa se mostrou irresponsável ao deixar de tomar os cuidados necessários com sua barragem - a tragédia poderia ter sido evitada pois não houve nenhuma circunstância especial para justificar o ocorrido como uma enchente gigantesca ou um terremoto. Por causa disso uma pequena comunidade sumiu do mapa e muitas cidades terão seu meio ambiente afetado por décadas.

O atentado em Paris foi diabólico - pessoas indefesas foram metralhadas em restaurantes e numa casa de shows. Muitas famílias tiveram suas vidas mudadas para sempre. Impressiona a decisão dos terroristas de causar o mal ao maior número possível de pessoas - é claro que há um propósito político nesse aparente desatino, mas nem vou entrar nessa discussão aqui.

Essas duas tragédias geraram enorme comoção nas redes sociais, com pessoas se manifestando com palavras emocionadas. E de repente começou uma "competição": qual delas deveria indignar mais as pessoas. Aquelas pessoas que se manifestavam sobre uma eram cobradas por não terem mostrado a mesma solidariedade com as vítimas da outra. Como se o mal pudesse ser medido, pudesse ser comparado. Como se a indignação num caso fosse mais justa do que no outro.

Ora, isso é um absurdo. Os dois casos são terríveis e tentar estabelecer uma escala do mal e ficar cobrando das outras pessoas que se comovam ou se solidarizem mais com uma ou com outra não tem o menor sentido. Sem contar, que tal tipo de julgamento dos outros foi condenado por Jesus.

É perfeitamente compreensível que uma pessoa com laços afetivos com Mariana ou cidades vizinhas certamente se senta mais tocada pelo que aconteceu lá e nada há de errado nisso. Uma pessoa que ame Paris e tenha raízes na cultura francesa pode ficar mais emocionada com o atentado e isso também é perfeitamente natural.

Aos olhos bíblicos, essa situação é explicada pelo conceito de "próximo" que Jesus usou quando contou a parábola do bom samaritano (Lucas capítulo 10, versículos 30 a 37). Ele ensinou que temos sim responsabilidades de solidariedade e fornecimento de ajuda com as pessoas próximas a nós. Agora, o conceito de "próximo" tem mudado muito a partir do advento da Internet e redes sociais. Você que lê este blog é meu "próximo(a)", embora possa viver até em outro país. E pode ser mais próximo(a) do que uma pessoa que more no mesmo bairro meu, mas a quem eu não conheça ou não cruze meu caminho.

O que nos foi cobrado é que façamos o possível pelas pessoas com quem temos contacto. O sofrimento dessas pessoas precisa nos afetar e precisamos ajudá-las no que estiver a nosso alcance. 

Isso não quer dizer que devemos desprezar outras tragédias, menos próximas de nós, física ou emocionalmente, mas se trata simplesmente de levar em conta que ninguém consegue abarcar tudo. Ninguém consegue se emocionar e se indignar com todo o mal que acontece no mundo. Simples assim.

Portanto, resta-nos lamentar ambas as tragédias e pedir a Deus que console todas as pessoas afetadas. E se pudermos fazer algo pelas pessoas afetadas - por exemplo, mandar água e roupas para as pessoas da região de Mariana - devemos fazer isso sem hesitar. Sem fazer comparações. Sem estabelecer escalas de importância. 

Com carinho 

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

VOCÊ JÁ LEU ATOS DOS APÓSTOLOS?

Dois livros da Bíblia - "Evangelho de Lucas" e "Atos dos Apóstolos" - foram escritos pela mesma pessoa, Lucas, médico e companheiro de Paulo em algumas de suas viagens missionárias. Na verdade, os dois livros formam uma única obra, sendo que a primeira parte (Evangelho) trata da vida e do ministério de Jesus na terra, enquanto a segunda (Atos) conta a história dos primeiros tempos da igreja cristã.

Esse período inicial de vida do cristianismo também é conhecido como "igreja apostólica" pois foi liderado pelos apóstolos, o grupo de doze homens escolhidos diretamente por Jesus para testemunhar a respeito do seu ministério. Posteriormente, a esse grupo inicial, juntou-se Paulo, tornado apóstolo após uma visão que teve de Cristo, e Tiago, irmão de Jesus, homem de grandes princípios morais, cujo apelido era "o Justo". 

Paulo acabou se tornando a principal figura da igreja apostólica, tendo escrito cerca de metade do Novo Testamento e implantado bom número de igrejas entre os gentios (não judeus). Tiago tornou-se o chefe da igreja-mãe de todas, a de Jerusalém. E Pedro também teve grande papel de liderança, especialmente depois que foi viver em Roma, onde dirigiu a igreja cristã local.

O livro de Atos descreve , dentre outras coisas, os seguintes acontecimento:
  • O Pentecostes, o derramar do Espírito Santo que deu início à história da igreja. Naquela oportunidade, cerca de 3 mil homens foram convertidos ao Evangelho de Jesus (Atos capítulo 2, versículos 1 a 41).
  • As primeiras perseguições sofridas pelos cristãos, por serem considerados hereges pelos judeus. Foi nessa época que ocorreu o primeiro martírio de um cristão, o diácono Estevão, que morreu apedrejado (Atos capítulos 6 e 7).
  • A descrição de como os primeiros cristãos viveram - compartilhando seus bens e usando-os para suprir as necessidades de cada pessoa (Atos capítulo 2, versículos 42 a 47).
  • As primeiras desavenças dentro da comunidade cristã, causadas pela diferença cultural entre os judeus originários da Palestina e os provenientes do mundo gentio (Atos capítulo 6, versículos 1 a 7). 
  • O Primeiro Concílio da igreja cristã, liderado por Tiago, Pedro e Paulo, que resolveu a questão das exigências que deveriam ser feitas para as pessoas se tornarem cristãs. Foram abolidas, dentre outras, diversas exigências, como a circuncisão dos homens, que atrapalhavam o crescimento da fé cristã (Atos capítulo 15).
  • Os acontecimentos relacionados com as três viagens missionárias de Paulo pela Ásia Menor (atual Turquia) e Grécia, quando plantou igrejas, desenvolveu a teologia cristã (em cartas como Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, etc) e resolveu conflitos no seio das comunidades cristãs.
  • A prisão de Paulo e sua viagem a Roma para ser julgado pelo Imperador (Atos capítulo 28, versículos 16 a 31). Sabe-se, embora não esteja relatado em Atos, que o apóstolo ficou preso dois anos naquela cidade, antes de ser martirizado.  
Esses são apenas alguns exemplos dos fatos relatados neste importante livro. Há muito mais a ser aproveitado ali. Trata-se de leitura fácil, pois Lucas tem forma de escrever muito agradável, diferentemente do que acontece, por exemplo, com Paulo. 

Vale a pena investir tempo para ler esse livro, o que pode ser feito em pouco mais do que três horas. Você não vai se arrepender.

Com carinho 

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O CRISTÃO QUE VIVE COMO SE DEUS NÃO EXISTISSE

No Apocalipse capítulo 3, versículos 14 a 21, João, o autor do texto, recebeu sete mensagens de Cristo, dirigidas a igrejas localizadas na Ásia Menor. Na mensagem para a igreja de Laodiceia, Cristo alertou que aquela comunidade era morna (nem fria e nem quente) na sua fé e por causa disto poderia ser “vomitada” da sua boca. Palavras assustadoras. 

A situação da igreja em Laodiceia é exatamente a mesma de muitos(as) cristãos(ãs) de hoje em dia, portanto a mensagem do Apocalipse continua muito atual. Essas pessoas dizem acreditar em Jesus, como Salvador de suas vidas, mas vivem na prática como se isso não fosse um fato. Vivem como se Deus não existisse. 

Cristãos(ãs) "mornos(as)” são aqueles(as) que nada fazem para modificar suas vidas, tornando-as mais de acordo com os ensinamentos de Jesus. Essas pessoas até pensam ser sinceras na sua fé, mas sua crença não é suficiente para modificar seu comportamento. 

A verdade é que a fé dessas pessoas não tem raízes suficientemente profundas para gerar resultados concretos, para impactar suas vidas de maneira significativa. Ora, a Bíblia (Tiago capítulo 2, versículos 17 e 18) fala que a fé sem resultados (obras) é morta e para nada serve. Ou seja, os resultados concretos é que medem a "saúde" da fé da pessoa.

Agora, que resultados Deus espera de nós? Em primeiro lugar, é preciso colocá-lo antes de tudo. O que significa, dentre outras coisas, confiar n´Ele inteiramente, estar constantemente com Ele (em oração e louvor) e levar a sério o que Ele pede aos seres humanos. 

Cristãos(ãs) mornos(as) não dão muito espaço para Deus em suas vidas - outras coisas são mais importantes, como lazer, trabalho, família e até o time de futebol. E isso precisa mudar.

A segunda coisa que Deus pede é que venhamos a manter um relacionamento de amor com o próximo. Essa exigência pode ser resumida na seguinte frase: agir com os outros como gostaríamos que agissem conosco

Há muitas coisas relacionadas com esse mandamento. Uma delas é a necessidade de fazer um esforço constante para levar outras pessoas para Cristo. Isso porque se achamos que Cristo é imprescindível em nossas vidas, devemos querer o mesmo para as demais pessoas. É simples assim. Não podemos ficar calados e omissos em relação à pregação do Evangelho de Cristo.

Mas o amor ao próximo inclui também paciência, boa disposição, gentileza, caridade, perdão, etc. Sem esquecer o autocontrole em relação às outras pessoas, principalmente ter cuidado com o que falamos para elas. 

É verdade que o progresso obtido nessas diferentes áreas das nossas vidas costuma ser desigual. Alguém pode ser caridoso, mas ter muita dificuldade em perdoar ou ter baixo autocontrole. Eu mesmo, tenho tido dificuldades com a questão da oração - é bem mais simples para mim ter fé. Confesso sentir inveja “santa” daquelas pessoas que conseguem ficar longo tempo orando, sem perder a concentração.
 
O importante é que o(a) cristão(ã) avance sempre – mesmo que de forma desigual. Passe por um processo de aperfeiçoamento contínuo, rumo a um ideal traçado por Jesus. 

Mas se o tempo vai passando e nenhuma transformação significativa na vida do cristão(ã) acontece - se ela não abandona maus hábitos e cria outros melhores - essa pessoa precisa fazer um autoexame para verificar se sua fé não está “doente”. Se ela não se tornou espiritualmente "morna". 

E se for esse o caso, a pessoa "morna" não pode e nem deve hesitar em procurar ajuda com urgência. Essa ajuda pode vir através de pastores(as), irmãos(ãs) na fé, bem como do estudo aprofundado da Bíblia, de muita oração, etc. 

Não corra o risco de deixar sua fé esfriar. Faça algo a respeito, corrigindo as deficiências que encontrar, enquanto houver tempo. E quanto antes melhor.

Com carinho

sábado, 14 de novembro de 2015

NEM JESUS FOI PROFETA NA PRÓPRIA TERRA

Há uma verdade da qual ninguém consegue fugir: não é possível exercer liderança espiritual junto a pessoas com quem se tem intimidade. Até Jesus teve enorme dificuldade em vencer essa barreira - veja o que a Bíblia diz a esse respeito: 
Tendo Jesus partido dali, foi para sua própria terra... passou a ensinar na sinagoga e muitos, ouvindo-o, se maravilhavam dizendo: ...Que sabedoria é essa que lhe foi dada? ...Não é este o carpinteiro, filho de Maria, irmão de Tiago, José, Judas Judas e Simão? ...Jesus, porém, lhes disse: não há profeta sem honra senão na sua terra, entre os seus parentes e na sua casa. [Jesus] não pôde fazer ali nenhum milagre, senão curar uns poucos enfermos...                Marcos capítulo 6, versículos 1 a 5
E é fácil entender porque isso acontece. Imagine que eu tivesse sido criado com um primo, jogando futebol, indo à praia e festinhas com ele, etc. Sempre percebi que meu primo era uma pessoa inteligente e bondosa, mas ainda assim um garoto normal. E anos depois recebo a notícia que esse meu primo tornou-se um grande líder religioso e que muitas pessoas estão afirmando ser ele o Messias, o Salvador da humanidade. Será que iria acreditar nisso? Dificilmente. 

Provavelmente, eu iria lembrar toda a minha história de vida com aquela pessoa e teria muita dificuldade de vê-la preenchendo um papel espiritual tão importante. Eu seria uma das pessoas mais difíceis de ser convencida quanto ao alcance do ministério do meu primo. E foi exatamente isso que aconteceu com os irmãos e conterrâneos de Jesus, conforme o texto acima demonstra.

Qualquer pessoa que tenha um ministério espiritual passa por esse mesmo tipo de barreira. Por exemplo, minha família dificilmente se interessa pelos posts que publico neste blog - meu trabalho aqui simplesmente está fora do radar dessas pessoas. Todos os(as) pastores(as) com os(as) quais convivi experimentam o mesmo tipo de barreira nas suas vidas. 

Agora, você pode estar se perguntando: o que isso tem a ver comigo? Muito, mais do que pode parecer à primeira vista. Eu me explico. 

Se você tem alguém na família ou um(a) amigo(a) próximo(a) que não é convertido, certamente vai se interessar por ver essa pessoa se rendendo ao Evangelho de Jesus. E quando procurar falar sobre isso, sobre a importância que Jesus tem para a humanidade, provavelmente vai enfrentar a mesma barreira. Vão aparecer resistências.  

Afinal, um familiar ou amigo(a) próximo(a) conhece você muito bem (seus defeitos e qualidades) e dificilmente vai conseguir ver em você uma referencia de vida espiritual cristã.

Mas ainda assim, é preciso seguir o mandamento de pregar o Evangelho. mesmo para que vier a rejeitar a mensagem que você venha transmitir. É preciso sempre ter em mente que quem converte as pessoas é o Espírito Santo e não quem prega o Evangelho. Assim, quem leva a palavra é apenas o "cano" que conduz a "água viva". Sem o "cano", a "água" não poderá chegar onde se faz necessária, mas não é o "cano " que mata a "sede" e sim a "água".

Portanto, quando você tentar falar do Evangelho para alguém próximo e enfrentar resistências, não desanime pois isso já é esperado. Não tente empurrar seus argumentos pela goela da pessoa abaixo. Não se irrite com a eventual resistência e nunca brigue com a pessoa por causa disso. 

Fale apenas o mínimo indispensável, sem esquecer de convidar a pessoa para ir com você até a igreja. Em resumo, faça a sua parte. Eu, por exemplo, sempre que surge algum assunto aqui no blog que pode interessar meus familiares ou amigos(as), falo sobre ele e resumo o argumento apresentado no meu post. Às vezes, dias depois, recebo comentário de alguém dizendo que meu texto ajudou. Outras vezes ninguém fala nada. 

Isso nunca me aborrece, pois fiz a tarefa que me cabia. O resto é com o Espírito Santo. Cabe a ele converter a pessoa. Afinal, ninguém é mesmo profeta na sua própria terra.

Com carinho  

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O SONHO DA MULHER DE PILATOS

De vez em quando, pessoas comuns, como você ou eu, são colocadas diante de situações que podem ter repercussões muito grandes. Por exemplo, os tripulantes do avião que transportou a bomba atômica lançada sobre a cidade de Hiroshima não tinham a menor ideia da dimensão do que estavam fazendo, tanto foi assim que o piloto apelidou o avião de "Enola Gay", nome da sua própria mãe, que acabou ficando tristemente famosa por causa disso.

Cláudia Prócula, esposa de Pôncio Pilatos, o Governador da Judeia que condenou Jesus à morte na cruz, passou por uma situação desse tipo. Cláudia vinha de família romana importante e foi o casamento com ela que abriu para Pilatos as portas para uma vida melhor. Ele subiu rapidamente no serviço público, culminando com a designação para governar a Judeia no tempo de Jesus.

Agora, para você entender o que aconteceu com ela é preciso falar um pouco sobre o contexto dos fatos que levaram à condenação de Jesus. Ele foi preso na madrugada de uma sexta feira por ordem dos líderes religiosos judeus. Esses homens tinham poder para prender e julgar qualquer judeu mas uma condenação à morte precisava, segundo as leis romanas, ser confirmada pelo Governador (João capítulo 18, versículos 28 a 31).

Os principais sacerdotes judeus estavam vivendo um dilema naquela oportunidade. Foram avisados por Judas Iscariotes (o discípulo que traiu Jesus) que haveria uma oportunidade para prendê-lo na noite de quinta para sexta feira. Segundo o relato bíblico, esse aviso chegou até os principais sacerdotes por volta de nove horas da noite de quinta. Eles levaram algum tempo para preparar tudo e conseguiram prender Jesus já na madrugada de sexta feira.

O dilema ao qual me referi consistia no prazo extremamente curto que eles tinham para julgar, condenar e executar Jesus - o prazo acabava às seis da tarde de sexta feira, pois aí começaria o sábado judaico e todo trabalho precisava ser interrompido. E havia um agravante: os judeus estavam comemorando na mesma data a Páscoa e, após o sábado, viriam mais 7 dias de feriado. Assim, se não conseguissem condenar e executar Jesus naquelas poucas horas, somente poderiam fazê-lo cerca de 8 dias depois.

Ora, durante a Páscoa, Jerusalém ficava lotada de peregrinos (a população era multiplicada por quase 10) e Jesus era uma figura muito popular por causa dos muitos milagres que tinha realizado. Quando a notícia da prisão d´Ele se espalhasse, havia grande risco de haver uma revolta popular, coisa que os principais sacerdotes judeus queriam evitar a qualquer custo. 

Portanto, antes de prender Jesus, os sacerdotes precisavam se assegurar que Pilatos iria confirmar a condenação à morte e que concordaria em fazer isso muito cedo, já na manhã de sexta feira. Assim, quando receberam o aviso de Judas Iscariotes, o sumo-sacerdote correu para o palácio do Governador, para conversar com Pilatos. 

A Bíblia não relata essa conversa, mas percebemos que ela ocorreu por várias razões. Primeiro, porque era a coisa lógica naquela situação. Depois, porque houve uma demora de mais de duas horas entre o aviso de Judas e a partida do grupo que foi prender Jesus, conforme fica claro na cronologia do relato bíblico - esse foi o tempo necessário para manter a conversa, tomar a decisão final e dar ordens à guarda do Tempo (que fez a prisão).

Como o sumo- sacerdote procurou o Governador já tarde da noite (as pessoas deitavam e acordavam cedo naquela época), o que era surpreendente, é natural que Pilatos tenha comentado o ocorrido com sua esposa, que também estava em Jerusalém ( a residência oficial do Governador da Judeia era na cidade de Cesareia Marítima).

Então, Cláudia foi dormir com a informação que Jesus seria condenado e executado na manhã seguinte, com a concordância de Pilatos. E aí ela teve um sonho para avisar Pilatos a não dar apoio ao que estava para acontecer. 

E estando ele [Pilatos] no tribunal, sua mulher mandou dizer-lhe: Não te envolvas com esse justo [Jesus], porque hoje em sonho muito sofri por seu respeito.                                                             Mateus capítulo 27, versículo 19
O sonho de Cláudia é mais uma prova de que ela sabia da conversa entre Pilatos e o sumo-sacerdote, ocorrida na noite de quinta feira, caso contrário o tal sonho não teria feito o menor sentido para ela.

Isso tudo deixa claro que, na manhã de sexta feira, ao acordar, Cláudia percebeu que Pilatos já saíra para tratar do caso de Jesus. Avisada em sonho, ela percebeu que estava diante de um momento que pode mudar toda a história de uma vida, conforme comentei no começo deste post.

Ela então decidiu mandar avisar o marido para não seguir em frente com o combinado pois isso traria maldição para sua vida. Pilatos recebeu a mensagem e realmente mudou de comportamento - o relato bíblico conta que ele tentou por várias vezes inocentar Jesus, chegando a oferecer trocá-lo por outro prisioneiro, Barrabás (Mateus capítulo 27, versículos 15 a 18).

Sua mudança inesperada de comportamento enfureceu os líderes judeus, que começaram a ameaçar Pilatos, dizendo que iriam denunciá-lo para o Imperador romano (João capítulo 19, versículo 12). E o Governador não teve personalidade suficiente e acabou cedendo à pressão. Num último gesto, tentou tirar a responsabilidade dos seus ombros, lavando de forma simbólica as suas mãos (Mateus capítulo 27, versículo 24).

Não adiantou: Pilatos passou para a história como o carrasco de Jesus e, a partir daquele acontecimento, sua carreira política foi por água abaixo - poucos anos depois ele acabou perdendo seu cargo e foi para o exílio, em desgraça perante o Imperador.

Uma pessoa comum - Cláudia - foi colocada numa situação desafiadora: sabia que seu marido ia cometer um ato muito grave e tentou evitar isso. Mas não teve sucesso.

É provável que Cláudia pudesse ter feito mais - talvez se tivesse ido pessoalmente falar com Pilatos, o resultado teria sido outro -, mas não podemos saber com certeza. O fato é que ela não conseguiu evitar a má ação do marido e acabou pagando um alto preço, pois as consequências ruins que vieram sobre Pilatos certamente também afetaram sua vida.

Fica aí um importante ensinamento: há momentos na vida onde não a pessoa não pode deixar de fazer a coisa certa, pois as consequências de um erro naquela situação podem ser desastrosas.

Com carinho

terça-feira, 10 de novembro de 2015

QUAIS NORMAS SOCIAIS VOCÊ SEGUE?

Você segue uma série de normas sociais que talvez nem se dê conta de obedecer? Por exemplo, quando entra no elevador, fica sempre de frente para a porta pois seria considerado pouco educado ficar encarando as outras pessoas. Mas, no metrô, fica encara as outras pessoas e ninguém reclama.

Normas sociais são diferentes de país para país e é por isso que às vezes torna-se tão difícil se adaptar à vida num país estranho. Aqui no Brasil, se você for convidada para uma festa às oito da noite, calibrará sua chegada para mais ou menos meia hora depois. Nos Estados Unidos ou na Alemanha, esse atraso seria considerado falta de educação.

Seguimos muitas normas sociais e elas de certa forma controlam nossas vidas.

E elas acabam impactando também a vida das comunidades cristãs. Por exemplo, quando alguns jovens da igreja metodista do Catete, no Rio de Janeiro, cerca de 50 anos atrás, quiseram introduzir guitarras e bateria no louvor, até então restrito ao tradicional órgão, foram execrados e alguns deles(as) até saíram da igreja de tão decepcionados(as). Dois anos depois, a mesma igreja instituiu o culto jovem, onde eles(as) passaram a usar esses mesmos instrumentos. E hoje quase toda a música cantada nas igrejas evangélicas usa os mesmos instrumentos - o órgão ficou restrito a ocasiões bem especiais.

Normais sociais geram também um jargão - basta ver como os jovens se comunicam por mensagens. E os evangélicos não são diferentes: “graça e paz” serve como saudação e  “benção pura” refere-se a uma coisa boa.

Agora, há hoje uma norma social muito seguida pelo público evangélico: evangélicos(as) fazem negócios ou se relacionam de preferencia com outros(as) evangélicos(as). Assim, evangélico(a) deve votar em candidato(a) evangélico(a) porque ele(a) defenderá causas que são importantes para o público evangélico, embora a maioria da chamada "bancada evangélica" tenha um comportamento ético lamentável no Congresso nacional.

A mesma norma diz que evangélico(a) só deve fazer terapia com profissional cristão para ter garantia que seu pensamento não vai ser subvertido. Mas há vários terapeutas evangélicos(as) mal formados, que frequentaram cursos simples de aconselhamento cristão, e conduzem terapias totalmente inadequadas. Já vi isso acontecer.

Mais recentemente essa norma foi levada ao ponto que evangélico(a) deve comprar roupa de loja evangélica, porque aí são fabricadas roupas apropriadas para mulheres e jovens cristãs. Sem contar que esse tipo de loja faz patrocínio de conjuntos de música gospel e realiza ações de evangelização. 

Agora, tempos atrás, o programa Profissão Repórter, da Globo, fez uma corajosa denúncia sobre trabalho escravo no ramo de confecção. E na denúncia apareceu uma das mais importantes lojas de roupas evangélicas, revendendo tranquilamente produtos que tinham sido fabricados com base em trabalho escravo.  Questionados, os donos da tal grife negaram saber que seus fornecedores cometiam esse crime - portanto, ou eram completamente desavisados ou lucravam de forma incompatível com os ensinamentos cristãos.

Para mim, a norma "evangélico(a) faz negócios e se relaciona de preferencia com evangélicos(as)" é totalmente furada. Devemos fazer negócios com pessoas sérias e competentes e se forem evangélicos, melhor ainda. Mas ser evangélico não deve ser passaporte para ninguém, pois há muita hipocrisia por aí.

E há outras normas furadas operando nas igrejas como, por exemplo, "ninguém toca nos ungidos de Deus" (leia-se pastores(as) não podem ser criticados façam o que fizerem) ou toda atividade que tenha o rótulo "gospel" torna-se santificada. E tome de "balada gospel", "carnaval gospel" e talvez venhamos chegar a ter "inferno gospel", como bem me alertou um amigo meu outro dia. 

Portanto, tomem cuidado com isso.

Com carinho. 

domingo, 8 de novembro de 2015

AS DUAS NATUREZAS DE JESUS

A doutrina cristã ensina que Jesus era tanto homem como Deus. Mas esse entendimento nem sempre foi aceito por todos e outras interpretações apareceram ao longo da história, gerando muito debate. Por exemplo:
  • Houve quem defendesse que Jesus foi apenas um homem, mas tão especial que Deus o ressuscitou e o chamou para junto de si. Essa linha teológica foi defendida, por exemplo, pelos Ebionitas.

  • Outros acreditavam que Jesus é Deus, mas viveu na terra "disfarçado" de homem - sua morte, na verdade, foi uma grande encenação. Essa doutrina foi defendida pelos docetistas.
Somente no começo do século V, no Concílio de Calcedônia, a igreja cristã resolveu de uma vez por todas essas questões e aceitou a doutrina que Jesus teve duas naturezas simultâneas - humana e divina. 

Mas aí a dúvida somente mudou de lugar. As pessoas passaram a questionar como essa dupla natureza funcionou na prática - afinal, não parecia haver nenhum paralelo para essa ideia na natureza. Em outras palavras, a dupla natureza de Jesus parecia não ser mais do que uma invenção dos teólogos cristãos. E, em resposta, os(as) cristãos(ãs) só podiam oferecer sua fé. 

E a física ajudou a teologia 
Por incrível que pareça, foram os(as) cientistas que vieram em "socorro" dos teólogos cristãos, apesar de muitos deles(as) serem ateus. Encontraram um exemplo de dupla natureza no mundo físico. Refiro-me ao comportamento da luz, somente entendido mais completamente ao longo da primeira metade do século XX.

Tradicionalmente a luz sempre foi vista comportando-se como uma onda, como acontece com o som. A famosa experiência do prisma, que divide a luz branca em faixas de cores (desde infra-vermelho até ultra-violeta) leva em conta exatamente esse tipo de comportamento.

Mas o avanço da ciência mostrou algumas "anomalias" no comportamento da luz como onda. Sabe-se que ondas precisam de um meio físico para se difundir - por isso no vácuo não há som. A luz, porém, anda pelo espaço vazio sem qualquer problema.

E os cientistas acabaram descobrindo que a luz também funciona como um feixe de partículas - como se um "canhão" ficasse disparando balas minúsculas (chamadas fótons), uma atrás da outra. Essas "balas" andam em qualquer meio, mesmo no vácuo.

Portanto, a luz tem duas naturezas - ora se comportando como onda e ora como feixe de partículas. São naturezas que se "complementam" e é preciso as duas para explicar como a luz funciona de fato.

Os teólogos cristãos ficaram muito felizes pois a luz tornou-se um excelente exemplo de algo com duas naturezas e a realidade de Jesus deixou de parecer tão impossível assim, algo a ser acreditado apenas com base na fé. 

Os sinais da natureza divina de Jesus
Assim, se a dúvida quanto a natureza for levantada na sua presença, basta responder: "pense nas duas naturezas de Jesus como se fosse o comportamento da luz..." E nunca podemos esquecer que Ele é mesmo a luz do mundo - que linda constatação!

Agora, como essas duas naturezas funcionaram na prática? A resposta é relativamente simples: para poder viver dentro do frágil invólucro do corpo humano, Jesus precisou se "esvaziar" da sua glória e majestade como Deus. Ele não perdeu as características divinas, apenas abriu mão temporariamente delas - foi como se o Rei "despisse" as vestes reais e passasse a vestir uma "roupa" de simples cidadão.

Será que há provas da existência dessas duas naturezas? É fácil entender que Jesus foi homem, pois Ele viveu na terra e morreu numa cruz - sofreu e sangrou como qualquer pessoa. 

Mas e quanto à sua natureza divina? Há provas quanto a isso? A demonstração de que era Deus certamente requereu d´Ele fazer algo que nenhum outro ser humano, nem antes nem depois, conseguiu fazer. 

Assim, não foram os milagres que Jesus fez que atestaram sua divindade, pois seus apóstolos (Paulo, Pedro e João), bem como vários profetas (Moisés, Elias e Eliseu) fizeram milagres tão grandes quanto os d´Ele.

E não foram também seus ensinamentos, pois outros homens também falaram e escreveram palavras sábias, como Salomão ou Moisés e até filósofos como Sócrates ou Confúcio.

Se não foram os milagres e os ensinamentos, o que foi? Primeiro, Ele perdoou pecados: nenhum profeta tinha feito isso e nenhum apóstolo o fez depois d´Ele. Tanto assim que, quando Jesus fez esse tipo de afirmação, sempre causou escândalo, pois os judeus pensaram que Ele estava usurpando uma atribuição divina.

Mas os críticos do cristianismo sempre podem argumentar que não há como comprovar a veracidade desse tipo de perdão. Ou seja, é certo que Jesus declarou ter perdoado pecados, mas essa pode ter sido uma declaração gratuita, onde Ele tentou passar por mais do que de fato era.

Portanto, essa não é uma prova aceitável da natureza divina de Jesus. No máximo prova que Jesus acreditava ter natureza divina, só isso.

E o mesmo tipo de dúvida é levantada a respeito de outras declarações suas, como quando garantiu que algumas pessoas estavam salvas (como o ladrão crucificado ao seu lado na cruz) ou que vai voltar no final dos tempos. São declarações que somente podem ser validadas pela fé da pessoa, não por evidencias físicas.

Mas há sim fatos que destacam Jesus dentre os demais seres humanos. Por exemplo, o episódio da sua transfiguração, quando suas vestes brilharam e Elias e Moisés apareceram para falar com Ele, testemunhado por três apóstolos (Mateus capítulo 17, versículos 1 a 8).

E também o seu comportamento logo depois da ressurreição, quando apareceu e desapareceu diante dos discípulos, conservou as marcas da tortura na cruz e foi elevado aos céus diante de muitas pessoas (Lucas capítulo 24, versículos 50 a 53). Essas são as evidencias que de fato demonstram a divindade de Jesus.

Mas os(as) críticos(as) do cristianismo nunca vão se satisfazer: quando um dúvida é respondida, aparecem outras. Por exemplo, em relação aos episódios que acabei de citar, os(as) críticos(as) alegam que as testemunhas mentiram ou exageraram.

E não há com escapar da "armadilha" de serem pedidas mais e mais evidencias. Isso ficou bem claro para mim certa vez, quando estava conversando com um ateu. Eu lhe perguntei qual evidencia seria suficiente para ele acreditar que Jesus era mesmo o Filho de Deus. A resposta demonstrou bem essa "armadilha": nada o faria se convencer. Se Deus escrevesse essa verdade nos céus, meu amigo disse que iria procurar uma explicação científica para essa evidencia. Simples assim.

Portanto, para os(as) cristãos(ãs), a Bíblia fornece provas claras sobre as duas naturezas de Jesus e o paralelo com o comportamento da luz é excelente para explicar como isso é possível. Mas muita gente boa nunca vai acreditar nisso. 

Com carinho