quinta-feira, 31 de março de 2016

LIDANDO COM FALSAS PROFECIAS

Profecia é coisa muito importante - trata-se de uma mensagem enviada por Deus para alguém, através de um(a) mensageiro(a), o(a) profeta. A mensagem pode envolver advertências, previsões sobre o futuro, conselhos, etc.

Infelizmente, o conceito de profecia tem sido muito abusado hoje em dia, especialmente no que se refere a predições de eventos futuros e/ou informações sobre os planos de Deus. Estou cansado de ver pessoas nas igrejas evangélicas afirmando com toda segurança: "Deus me disse isso ou aquilo..." E muitas vezes as mesmas pessoas falam verdadeiros absurdos em nome de Deus, sem se preocupar muito com as consequências do que fizeram.

Certa vez, numa reunião de oração, a esposa de um pastor disse-me que tinha recebido uma mensagem de Deus dirigida para mim: eu deveria deixar de viajar de avião sob pena de sofrer um acidente sério. Ora, naquela época eu viajava a trabalho todas as semanas - cheguei a fazer cerca de 100 viagens num único ano. Parar de viajar de avião, mesmo que por período limitado, teria enorme impacto na minha vida - provavelmente eu precisaria procurar outro emprego. Fiquei num dilema nada agradável e tudo por conta de uma profecia errada. 

A grande maioria das profecias apresentadas hoje em dia não são mensagens de Deus e sim pensamentos das próprias pessoas que elas erradamente atribuem a Ele por confusão espiritual ou interesses os mais diversos. E como sei disso? São duas as razões. 

Primeiro, porque a quantidade de profecias dadas hoje em dia é muito grande, enquanto na Bíblia esse tipo de coisa era relativamente rara, somente acontecia em situações especiais. Hoje há profecia para tudo, virou coisa banal.

Depois, porque a maior parte das "profecias" que envolvem predições sobre o futuro não é confirmada pelos fatos. E profecias reais, aquelas vindas de Deus, são sempre confirmadas. Simples assim.

Ora, falsas profecias abusam do nome de Deus, uma clara violação dos mandamentos d´Ele (veja mais). Em outras palavras, emitir uma falsa profecia é pecado sério. 

Outro problema com as falsas profecias é que podem gerar consequências muito ruins sobre a vida das pessoas: confusão espiritual, decisões erradas, decepção com Deus e assim por diante. 

Agora, o que fazer se você vier a receber uma profecia? O mais importante é pedir confirmação a Deus.  E há vários exemplos na Bíblia de pessoas que fizeram isso, como Gideão (Juízes capítulo 6, versículos 36 a 40). E Deus sempre honrou tais pedidos - afinal, não seria razoável que Ele exigisse obediência a uma mensagem de origem duvidosa. Simples assim.

Pedir confirmação não é desobedecer a Deus e sim tomar as coisas espirituais com seriedade. E até que tal confirmação venha, não assuma que a profecia é verdadeira.

Na situação em que vivi, disse a Deus que somente iria aceitar a mensagem recebida como profecia verdadeira quando recebesse confirmação vinda de pessoa diferente. Até lá, iria continuar a viajar de avião normalmente - confesso que quando entrei num avião na primeira vez depois de receber a tal mensagem, meu coração apertou, mas fui em frente. A confirmação nunca veio e continuei a viajar normalmente, sem medo, e nada aconteceu - a profecia era falsa.

Há outro problema que ainda agrava mais a epidemia de falsas profecias que experimentamos: as pessoas não cobram dos(as) falsos(as) profetas as besteiras que dizem. 

Muitos anos atrás, ouvi de certo pastor, falando de púlpito, uma das grandes Escolas de Samba do Rio de Janeiro não conseguiria desfilar naquele ano, pois Deus estava agindo para acabar com elas. A platéia aplaudiu emocionada, deu glórias a Deus, etc. E nada disso aconteceu - o tal pastor continuou a pregar como se nada tivesse acontecido e ninguém cobrou nada dele. 

Eu não confrontei a senhora que me passou a falsa profecia - naquela época eu não achava isso necessário. Levei em conta que ela tinha tido boa intenção. Mas deveria ter feito isso, não para obter algum tipo de reparação e sim para que ela tivesse aprendido uma lição espiritual importante.

Usar indevidamente o nome de Deus, interferindo na vida de outras pessoas, é erro sério. E quando esse problema acontece, o fato deve ser apontado com clareza. Doa a quem doer.

Com carinho 

terça-feira, 29 de março de 2016

AS CORAJOSAS FILHAS DE LÓ


Subiu Ló de Zoar e habitou no monte, ele e suas duas filhas ... habitou numa caverna, e com ele as duas filhas. Então, a primogênita disse à mais moça: Nosso pai está velho, e não há homem na terra que venha unir-se conosco, segundo o costume de toda terra. Vem, façamo-lo beber vinho, deitemo-nos com ele e conservemos a descendência de nosso pai... E assim as duas filhas de Ló conceberam do próprio pai. A primogênita deu à luz um filho e lhe chamou Moabe: é o pai dos moabitas, até o dia de hoje. A mais nova também deu à luz um filho e lhe chamou Ben-Ami: é o pai dos filhos de Amom, até o dia de hoje. Gênesis capítulo 19, versículos 30 a 37
Ló era sobrinho de Abraão e habitava na região à sudeste do Mar Morto, na cidade de Sodoma. Deus resolveu destruir Sodoma e Gomorra por causa da sua corrupção moral mas resolveu poupar Ló e sua família, porque ele se mantivera íntegro, além de ser parente de Abraão. 

Dois anjos foram então enviados a Sodoma com essa missão destruidora e advertiram Ló, sua esposa e duas filhas solteiras - as casadas moravam com seus maridos - para que deixassem imediatamente a cidade e não olhassem para trás. Durante a fuga, a mulher de Ló contrariou essa orientação e foi transformada em estátua de sal. Ló e suas duas filhas acabaram se refugiando numa caverna, onde viveram como reclusos durante o resto da vida dele - é possível dizer que ele não suportou o fardo emocional do que acontecera e decidiu se “enterrar” em vida. 

Ora, naquela época, as filhas solteiras tinham que obedecer os desejos do pai porque as mulheres não tinham voz própria. Mas, ao obedecer, estavam destruindo seu próprio futuro pois, quando o pai morresse estariam velhas para procurar marido e constituir família, condição necessária para ter garantia de sustento e obter aceitação social. 

É chocante perceber que um pai tenha conscientemente condenado suas próprias filhas a destino tão doloroso. Ló pensou apenas em si mesmo e não teve qualquer consideração com suas filhas, que dedicaram sua vida a cuidar dele - tal postura de Ló me faz lembrar o costume antigo na Índia que obrigava as viúvas dos marajás a serem enterradas vivas junto com os cadáveres dos maridos.   

O fato é que as duas filhas de Ló não aceitaram passivamente sua sorte e usaram de criatividade, dentro dos limites da sua situação, para encontrar uma saída. A Bíblia têm vários exemplos desse tipo de atitude corajosa e desesperada - lembro aqui do caso de Tamar, que engravidou do próprio sogro, Judá, quando ficou sem marido.

As filhas embebedaram o pai e mantiveram relações sexuais com ele. Ambas engravidaram e seus filhos deram origem a dois povos - os edomitas e os amonitas - que viveram em constante rivalidade com os descendentes de Abraão (Israel).

Certo ou errado?
Esse caso é um daqueles em que as pessoas ficam em dúvida sobre o que pensar: as filhas de Ló fizeram certo ou errado? Será que elas pecaram? 

As relações sexuais entre parentes próximos, na época de Ló, não tinham a mesma conotação de imoralidade dos dias atuais – basta lembrar que Abraão e Sara eram meio irmãos. Só bem depois do tempo de Ló, na época de Moisés, esse tipo de relacionamento foi proibido por Deus (Levítico capítulo 18, versículo 3).  

Ora, o apóstolo Paulo ensinou (Romanos capítulo 2, versículo 14) que na ausência de lei formal proibindo determinada coisa, a consciência da pessoa deve servir de lei para ela. E as filhas de Ló sabiam que estavam erradas, tanto assim que decidiram embriagar o pai antes de manter relações sexuais com ele. Sabiam que estavam erradas e ainda assim foram em frente, logo não há dúvida que pecaram. 

Agora, é interessante perceber que Deus aceitou bem a atitude das duas mulheres e isso fica bem claro no texto. Primeiro, o texto bíblico não critica diretamente as ações delas e muito menos fala sobre qualquer punição dada a elas por Deus. Tanto foi assim, que ambas foram abençoadas com filhos e tornaram-se matriarcas de povos importantes. 

Depois, as duas mulheres conseguiram voltar, mesmo de forma indireta, à linha da Promessa de Deus, que começou com Abraão e culminou com Jesus. Digo isso porque uma mulher moabita, Rute, e outra amonita, Naamã, acabaram ambas na genealogia de Jesus.

Vemos nessa história mais uma prova de como Deus é misericordioso. Muito mais do que imaginamos! Ele entendeu o desespero das filhas de Ló e o fato delas estarem sem saída - tinham que obedecer o pai e não poderiam constituir famílias próprias. E as aceitou como eram. Entendeu sua situação.

É triste observar que o nome dessas duas mulheres corajosas e sofridas não foi preservado no texto bíblico. Foi-lhes tirado pelo autor do texto, segundo a tradição, Moisés, algo fundamental: sua individualidade. Entraram para a história apenas como as filhas de Ló.

Esse foi um ato de machismo, coisa comum entre os homens, tanto daquela época como de hoje em dia. Machistas não apreciam atos de independência exercidos por mulheres. Simples assim.

As duas filhas de Ló passaram para a história anônimas, mas aqui vai minha pequena homenagem a elas.

Com carinho

domingo, 27 de março de 2016

O DEUS DA RESSURREIÇÃO

Há várias relatos na Bíblia sobre ressurreição. A mais famosa e importante é a ressurreição de Jesus, que comemoramos hoje. Mas também há outros casos, como o de Lázaro (João capítulo 11, versículos 1 a 46) e a do filho da viúva de Naim (Lucas capítulo 7, versículos 11 a 17).

Esses fatos provam que cremos num DEUS DA RESSURREIÇÃO. Onde há morte, Ele age para gerar vida. 

Lázaro estava morto há quatro dias, enterrado numa gruta fechada por grande pedra. Jesus chegou e o chamou de volta à vida. E Lázaro apareceu vivo, ainda enrolado nas faixas que eram usadas naquela época para enterrar pessoas.

Seguir o Deus da Ressurreição significa ter certeza que a história humana vai muito além da aparência e onde parece haver morte, a vida pode voltar a florescer. E é exatamente isso que Ele tem feito muitas e muitas vezes.

Nelson Mandela, o grande líder da África do Sul, ficou preso durante décadas, por ser contra o regime de discriminação racial que havia em seu país. Sofreu muito mas não perdeu a fé (ele era metodista), mesmo quando parecia não haver esperança. 

Certo dia, o regime ditatorial que governava aquele país percebeu que não mais tinha como controlar a população negra e querendo evitar um banho de sangue, buscou Mandela para fazer um acordo. Prometeram a Mandela que ele iria ser libertado e poderia até se tornar Presidente do pais, com a condição que abrisse mão da vingança, da retribuição de todo mal que os brancos tinham causado aos negros. 

Mandela sabia que o regime em vigor estava fraco e podia ter se negado a fazer o acordo e simplesmente aguardado que o governo caísse de “podre”, como aconteceu em outros países da África. E depois cobrar a vingança com “juros e correção monetária”. Mas como cristão, Mandela sabia que esse caminho não iria construir uma sociedade estável, somente perpetuar a vingança e a violência. 

Ele se tornou Presidente e usou seu prestígio para reconciliar os dois lados da nação. Instituiu um Tribunal da Verdade, onde os torturadores precisavam ir e confessar seus crimes, expondo à luz do dia o mal que tinham feito. Mas não sofriam punição física - nenhum dos perseguidores foi para a cadeia ou sofreu violência - somente moral. E cenas de perdão quase impensáveis aconteceram naquele tribunal. Coisas que a gente só acredita porque há registros confiáveis do que aconteceu ali. 

A África do Sul, naquele Tribunal, caminhou para a reconciliação, para cicatrizar suas feridas. Tudo isso porque um cristão decidiu apostar que o amor e o perdão, mortos até então na África do Sul, iriam ressurgir, com a ajuda de Deus. Mandela simplesmente teve fé no Deus da Ressurreição.

Comemoramos hoje a ressurreição de Jesus. O dia em que os discípulos testemunharam que seu corpo não mais estava no túmulo e as promessas da Bíblia sobre o Messias tinham sido cumpridas n´Ele. 

Por isso o dia de hoje fala de ressurreição e não só a de Jesus, mas também todas as outras trazidas por Deus, como aquela liderada por Mandela. E também pode significar o início de uma ressurreição na sua vida.  

Será que há algo em você que morreu? Será que o amor ou a esperança ou mesmo a fé desapareceram, sepultados que foram debaixo da pedra gigantesca dos seus problemas ou das circunstâncias ruins às quais sua vida está presa? Será que você sente "enterrado" numa gruta escura, sem qualquer perspectiva de voltar a uma vida normal? 

Há um ditado popular que ensina uma grande verdade: “onde você colocou um ponto final, Deus vem e muda esse ponto final para uma vírgula...” E essa é uma ótima notícia para você. 

Deixe-se surpreender pelo Deus da Ressurreição. Abra seu coração e deixe Jesus entrar e agir. Basta ter fé e buscá-lo. Uma Feliz Páscoa para você

Com carinho

sexta-feira, 25 de março de 2016

A CRUCIFICAÇÃO DO BRASIL

Comemoramos hoje a crucificação de Jesus, parte de um drama em dois atos - o segundo ato foi a ressurreição, comemorada no domingo de Páscoa. Para mim, esses foram os acontecimentos mais importantes da história da humanidade. Afinal, é por causa do que aconteceu naqueles poucos dias que temos possibilidade de nos reconciliar com Deus, recebendo perdão pelos nossos pecados, lavados que foram pelo sangue de Jesus derramado na cruz. 

Hoje é dia para refletir. Não só sobre a nossa trajetória nesse mundo – nossos erros e acertos -, como também sobre o tamanho do amor de Deus por nós, que vai ao ponto de sacrificar seu próprio Filho para nos abrir as portas para a salvação. 

Hoje relembramos a cruz com o corpo massacrado de Jesus. Lembramos da sua agonia e morte. Do sofrimento da sua mãe, Maria, aos pés da cruz, vendo seu filho, carne da sua carne, martirizado por crimes que não tinha cometido. 

Mas sabemos que depois da noite vem a manhã. No domingo cedo, o túmulo de Jesus estava vazio. Jesus tinha ressuscitado – a morte não teve poder sobre Ele. A partir daí um novo tempo nasceu – a era da Graça de Deus. Portanto, a tristeza deve durar pouco. No domingo, será o momento de celebrar.

Queria agora fazer nova reflexão sobre a situação atual do nosso país, devastado por crises gêmeas – política e econômica – que estão correndo o tecido social do Brasil. O desemprego e a inflação estão altos, a esperança parece ter sumido dos corações e não há consenso sobre a forma de sairmos dessa terrível enrascada. 

Ainda ontem, foi divulgado o fato estarrecedor que importante empreiteira tinha até uma diretoria dedicada a pagar propina – era uma operação gigantesca, envolvendo somas enormes de dinheiro e com sofisticação impressionante. Uma planilha encontrada pela polícia lista quase trezentos nomes de políticos(as) que podem ter recebido dinheiro sujo. Um show de horrores.

Estamos, de certa forma, vivendo nossa “sexta feira da crucificação”. O Brasil está sendo crucificado. Mas há uma diferença: o crucificado (o povo) tem sim parte da responsabilidade pois está pelo fato de não ter levado a política a sério e votado em qualquer candidato(a). Por não ter cobrado dos(as) eleitos(as) comportamento correto. Por ter aceitado passivamente tezes como “rouba mas faz” ou “roubo sim, mas todo mundo faz o mesmo”, que buscam justificar o injustificável.

Nosso povo merece sorte melhor. Merece sair dessa cruz. Merece ter o dia da ressurreição e acordar para um futuro melhor. Vamos pedir a Deus que na sua infinita misericórdia tenha piedade e mude nossa sorte. E sare a nossa terra.

Com carinho

quarta-feira, 23 de março de 2016

O EVANGELHO SEGUNDO PAULO

A carta de Paulo aos Romanos é tida por muitos teólogos como a mais completa exposição da doutrina cristã existente na Bíblia. Ela é um texto fundamental pois complementa e organiza aquilo que é dito nos Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João.

Sou sincero em reconhecer que Romanos não é um texto fácil de estudar: a linguagem de Paulo é rebuscada e ele usa muitos conceitos filosóficos e teológicos complexos. É muito mais fácil estudar os Evangelhos ou o Atos dos Apóstolos, pois esses textos estão cheios de relatos de fatos interessantes, o que torna sua leitura bem mais viva.

Agora, se você quer entender de fato a doutrina cristã, não pode deixar de estudar o texto de Romanos. Afinal, é nele que a doutrina da salvação pela fé (e não pelas obras) e da Graça de Deus, dentre outras, são explicadas em detalhe.

O contexto
A carta do apóstolo Paulo à igreja cristã situada em Roma foi escrita entre os anos de 57 e 58. O apóstolo estava em Corinto, na casa de Gaio, seu amigo e cristão convertido. E como pretendia realizar trabalho de evangelização na Espanha, região ainda pouco explorada pelos missionários cristãos, queria passar por Roma, no seu caminho, para conhecer a igreja local. Daí entendeu que deveria escrever uma carta para a igreja em Roma, preparando sua viagem próxima.

Os planos de Paulo foram frustrados porque, antes de ir para a Espanha, foi até Jerusalém levar uma oferta de dinheiro para a igreja local, que passava por dificuldades. E acabou preso lá. Por ironia dos fatos, acabou sendo posteriormente enviado para Roma para ser julgado pelo Imperador – Paulo era cidadão romana e tinha esse direito. O apóstolo acabou morando vários anos em Roma onde foi martirizado naquela cidade.

Esses fatos demonstram que os seres humanos não têm controle sobre suas vidas – os planos mais cuidadosos acabam sendo atropelados por fatos que fogem ao seu controle. Paulo pretendia visitar Roma, mas de passagem em sua viagem para a Espanha, mas acabou sendo enviado para aquela cidade, preso. Conheceu Roma, mas em condições muito diferentes daquela que tinha planejado e não conseguiu visitar a Espanha.

Roma era a capital do mundo desenvolvido daquela época, por ser a sede do Império Romano. Sendo assim, tratava-se de local fundamental para o crescimento do cristianismo. Já havia uma igreja naquela cidade há cerca de 20 anos, quando Paulo escreveu sua carta - provavelmente, essa comunidade cristã foi formada depois que judeus e simpatizantes, todos moradores de Roma, participaram da chegada do Espírito Santo, no Pentecostes (Atos capítulo 2, versículo 10). 

Essas pessoas se converteram e levaram o Evangelho, quando voltaram para suas casas. Em outras palavras, a igreja de Roma nasceu sem a participação de qualquer dos grandes líderes cristãos, como Pedro, Paulo ou João.

Paulo ditou essa carta para o amigo Tércio, que funcionou como uma espécie de secretário para ele. Ditou o texto em grego, língua que falava muito bem. Não foi sua primeira carta, pois escreveu antes de Romanos pelo menos as cartas de 1 Tessalonicenses, 1 Coríntios e 2 Coríntios.

O texto de Romanos, assim como o de outras cartas famosas de Paulo, acabou sendo usado por todas as igrejas cristãs (Colossenses capítulo 4, versículo 16), não somente pela igreja para a qual foi escrito. Na verdade, o povo cristão rapidamente reconheceu que os textos de Paulo tinham grande valor teológico e eram importantes para a fé cristã.

A carta aos Romanos foi extremamente importante para o desenvolvimento espiritual de muitos líderes cristãos:
  • Santo Agostinho vivia uma vida desregrada, apesar dos pedidos de sua mãe para que mudasse seus caminhos. Certo dia, ouviu crianças cantando uma cantiga cuja letra dizia: “pega e lê”. Entendendo que se tratava de uma mensagem de Deus, pegou a Bíblia e abriu ao acaso. Caiu em Romanos capítulo 13, versículos 13 e 14. Ele leu e mudou sua vida.
  • Martinho Lutero, o monge que iniciou a Reforma Protestante, estudou o livro de Romanos com seus discípulos, entre novembro de 1515 a setembro de 1516. Esse estudo mudou seu pensamento sobre a doutrina cristã e foi fundamental no seu ministério.
  • John Wesley ouviu uma pregação feita com base no livro de Romanos e essa mensagem mudou sua vida espiritual para sempre.

Os ensinamentos da carta
Há muitos ensinamentos importantes no texto de Romanos, mas vou me concentrar aqui em apenas três. O primeiro é a salvação (justificação) exclusivamente pela fé: Paulo ensinou que a salvação não depende daquilo que a pessoa faz ou mesmo de qualquer sacramento que receba. Depende somente da sua resposta ao chamado do Espírito Santo para aceitar Jesus como Salvador.

Paulo ainda ensinou que toda pessoa tem acesso direto a Deus, através do estudo da sua Palavra (Bíblia) e da prática de atos como oração louvor. Em outras palavras, a Graça de Deus é derramada diretamente sobre cada pessoa, sem intermediários.

Esses ensinamentos acabam com a ideia de que salvação possa ocorrer por mérito, através das boas obras praticadas pela pessoa, até porque ninguém conseguiria juntar merecimento bastante para ser salvo.

Outra consequência importante é a eliminação de qualquer sistema de exploração dos seres humano por sacerdotes investidos de ordenação divina, que agem como intermediários entre Deus e as pessoas (como ocorria no judaísmo na época de Paulo). Essa é a base da liberdade individual que cada pessoa tem para exercer sua fé e explorar seu próprio caminho com Deus.

O segundo ensinamento de Paulo fala da santificação, o processo pelo qual as pessoas verdadeiramente convertidas mudam seu interior e acabam ficando mais iguais ao ideal, Jesus Cristo. Em outras palavras, o cristianismo é na verdade um caminho em direção a Deus, que começa quando a pessoa se converte e acaba na sua morte.

O terceiro grande ensinamento de Paulo é que a justiça de Deus não se limita à punição das pessoas pelos pecados que cometem. Vai muito além, pois também justifica perante Ele mesmo quem aceitar sua Graça, isto é reconhecer seu Filho, Jesus, como Salvador.

Não há doutrina cristã que faça sentido e seja realmente libertadora sem levar em conta aquilo que Paulo ensinou. Simples assim.

Com carinho

segunda-feira, 21 de março de 2016

OS GEMIDOS IMPRESSIONANTES DO ESPÍRITO SANTO

O Espírito Santo atua a nosso favor no dia-a-dia de três formas: concedendo-nos dons espirituais (profecia, ensino, línguas, etc) para ajudar-nos a realizar a obra de Deus; promovendo mudanças no nosso interior, mudanças essas que geram o chamado "fruto" do Espírito (amor ao próximo, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade, serenidade e domínio próprio), e intercedendo por nós junto a Deus.

As duas primeiras formas de atuação do Espírito Santo são bem conhecidas e exploradas em muitos sermões e estudos bíblicos - eu mesmo já falei sobre esses temas várias vezes aqui no blog. Mas a terceira forma - a intercessão por nós - é pouco lembrada. Confesso não ter ouvido um sermão ou ensinamento sobre isso há muitos anos. Por que será?

A razão é simples: essa atividade tem a ver com nossos pecados e as pessoas não gostam de ser lembradas que pecam. Preferem falar sobre as promessas de Deus. Pregadores que falam muito sobre pecado não ficam populares, assim esse tema acaba ficando meio esquecido.

A intercessão do Espírito Santo é meu tema de hoje. E começo por um texto impressionante do apóstolo Paulo: ele contou que o Espírito Santo intercede por nós usando gemidos inexprimíveis (Romanos capítulo 8, versículo 26) - são gemidos tão sofridos e profundos que não há linguagem humana capaz de descrevê-los.

O fato é que muitas coisas relacionadas com Deus não podem ser bem explicadas pelos recursos de que dispomos - existem muitas outras além dos gemidos do Espírito Santo.

E isso não deve surpreender você. Afinal, em muitas esferas das nossas vidas, mesmo deixando de fora os aspectos relacionados com Deus, com coisas que não podem ser bem explicadas com os recursos de que dispomos.

Por exemplo, pense na música que mais emociona você. E tente descrevê-la em palavras - não me refiro aos seus sentimentos ao ouvi-la, mas sim como é a melodia dela. Depois, tente explicar porque essa música em particular emociona você. Verá que isso é quase impossível - palavras não conseguem exprimir essas realidades. Só ouvindo para conseguir entender.

Da mesma forma, não conseguimos explicar adequadamente como o Espírito Santo intercede por nós - a Bíblia fala em gemido mas, para mim, essa é uma metáfora para angustia e sofrimento.

O Espírito Santo fica angustiado e sofre por nós. Como o Ele é nosso aliado permanente e incondicional, angustia-se com a possibilidade de sermos punidos pelos erros (pecados) que cometemos.

Não devemos esquecer que o texto de Paulo que usamos para essa discussão é dirigido para pessoas convertidas, ou seja fala diretamente para nós.

E se nossos pecados inveja, hipocrisia, orgulho, maledicência, falta de caridade, egoismo, etc - não fossem sérios, não haveria motivo para o Espírito Santo ficar tão angustiado.

Precisamos ser gratos a Deus pela presença do Espírito Santo em nossas vidas. Sem isso, estaríamos perdidos. Simples assim.

Com carinho   

sábado, 19 de março de 2016

O "RONCO DAS RUAS" E A CONVERSÃO DO BRASIL

As manifestações populares da tarde do domingo passado e da noite da última quarta feira comprovaram uma coisa: o povo brasileiro finalmente despertou duma enorme letargia que durou alguns anos. 

A operação Lava Jato já tem dois anos de vida e quase todos os dias vem deixando a nu esquemas de corrupção, comportamentos mentirosos de autoridades e empresários, enfim práticas escusas de todo tipo. Um verdadeiro show de horrores. 

Infelizmente, as pessoas protestavam apenas nas redes sociais e nas conversas particulares. Viviam como anestesiadas, parecendo sem ter capacidade de reagir. E isso encorajou os corruptos a tomarem medidas ainda mais audaciosas.

O quadro parece finalmente ter mudado e o “ronco das ruas” começou a ser ouvido. E isso é bom e ruim. Bom, porque os protestos populares são fundamentais para recolocar o país no caminho certo – foi assim, por exemplo, nos idos de 1984, quando o Brasil ainda vivia uma ditadura e nasceu o Movimento Diretas Já.

Também é ruim porque está nítido que as pessoas somente sabem o que não querem – fora fulano, fora beltrano –, mas não sabem o que querem. Assim, convivem debaixo do mesmo guarda-chuva dos protestos gente de todos os tipos, desde aqueles que pedem o absurdo da volta dos militares até aqueles que defendem o parlamentarismo. Uma verdadeira salada.

Ainda não há consenso sobre aquilo que as pessoas querem e muito menos o que deve ser feito para sairmos do buraco onde nos metemos. E sem medidas objetivas, a crise não será superada. 

E há muito perigo se nada mudar - com o tempo as pessoas vão perder a esperança e as manifestações pacíficas poderão se tornar violentas. O flerte com soluções não democráticas poderá aumentar. O risco ficará maior para todos. É isso que a história ensina.

Não tenho qualquer pretensão de propor aqui soluções políticas e/ou econômicas para nosso país. Eu não tenho competência para isso e esse não é o espaço para falar disso – falo aqui sempre de Jesus e da diferença que Ele pode fazer na vida das pessoas.

Mas a análise que acabei de fazer é importante porque ela vai permitir construir uma correlação entre duas situações que me parecem bem similares: a crise atual e o processo de conversão das pessoas a Jesus. Há um paralelo perfeito entre o que o Brasil está vivendo e o que as pessoas costumam viver antes de se converterem.

Há um ditado muito conhecido no meio evangélico que afirma haver dois caminhos para as pessoas chegarem a Cristo: pelo bem (pelo amor) ou pela dor. E isso é uma grande verdade. E são poucas as pessoas que se convertem pelo amor, ao serem convencidas das verdades que testemunham sobre Jesus, quando está tudo bem nas suas vidas. Muito poucas mesmo. 

A maioria das pessoas se converte e muda suas vidas ao passar por momentos de sofrimento. Ao ficarem buscando por um alívio para sua angustia, respostas que expliquem as perdas que sofreram e por uma fonte de esperanças que lhes garanta haver saídas para sua crise existencial.

E ao se sentirem assim, acabam descobrindo Jesus, por exemplo ao bater na porta de uma igreja e/ou ler um texto inspirado na Internet. Passam a encontrar n´Ele as respostas que buscavam - chegam a Jesus através da dor que sentiam. Aí são consoladas, adquirem nova esperança e mudam a história das suas vidas. 

Já perdi a conta do número de vezes em que vi isso acontecer. Variam os perfis das pessoas – homens ou mulheres, jovens ou velhos, ricos ou pobres, solteiros ou casados – mas o processo é sempre o mesmo: a dor faz com que corações se entreguem a Jesus.

O sofrimento serve como um catalisador para as mudanças - sem ele, as pessoas teriam continuado a viver sem mudar. Não estou afirmando aqui que Deus manda sofrimento para forçar as pessoas a mudarem. Não penso que ser assim que as coisas acontecem, salvo em situações excepcionais. Na verdade, Deus aproveita o sofrimento das pessoas, causado tanto pelas más escolhas que fizeram, como pelas circunstâncias da vida, para convencê-las a mudar. Convencê-las que sem Jesus não haverá saída.

O paralelo com a situação atual do Brasil. A crise política se somou à crise econômica, uma reforçando a outra. E os mais pobres, que têm menos proteção, estão pagando a maior parte da conta trazida pela recessão profunda. Como sempre. 

Por outro lado, essa mesma crise profunda está gerando as condições para uma grande depuração no meio político e empresarial, fato inédito. Empresários poderosos estão na cadeia. Negociatas escusas e acordos políticos espúrios vem sendo expostos à luz do dia e desbaratados. 

Talvez não seja possível ver agora, mas acredito que o país vai sair disso melhor do que entrou. Vivíamos uma grande fantasia, alimentada pelo crédito fácil e o consumo irresponsável. E o falso clima de prosperidade anestesiou o povo e deu condições para o submundo da política e dos negócios prosperar. Isso acabou agora. 

Acredito que, ao final desse processo de depuração, as pessoas entenderão melhor que sem uma vida ética não há como prosperar. Acredito que haverá uma conversão no sentido de uma mudança para hábitos mais saudáveis. Elas já não votarão com tanta facilidade em políticos corruptos, do tipo “rouba mais faz”. Muito menos aceitarão argumentos do tipo “roubei, mas todos roubam igual...”

O sofrimento pelo qual o país passa hoje é a condição para momentos melhores mais adiante. Para uma conversão em prol de hábitos melhores. Do entendimento de que devem haver consequências para quem pratica o mal - quem prejudica o povo em prol dos seus interesses pessoais deve ser severamente punido.

Há sinais concretos dessas novas ideias ganhando força. Isso pode ser visto no fim da impunidade de ricos e poderosos – hoje já há gente muito importante na cadeia. A “conversão” do Brasil está vindo pela dor. Simples assim.

A nós, cristãos(ãs), cabe fazer duas coisas. Primeiro, dar o bom exemplo. Sempre. Depois, nos cabe orar por aqueles(as) que têm poder para endireitar as coisas, nas suas respectivas esferas de atuação – Executivo, Legislativo, Judiciário e iniciativa privada. Pedir para que Deus ilumine essas pessoas e lhes dê sabedoria.

Queira Deus que essa nova era para o nosso país, mais justa e saudável, chegue logo. E que os anjos digam amém. 

Com carinho

quinta-feira, 17 de março de 2016

TENTAÇÃO, ONTEM E HOJE

O relato da queda de Adão e Eva (Gênesis capítulo 3) diz que os primeiros seres humanos pecaram ao comer o fruto proibido de uma árvore situada no meio do Jardim do Éden, onde viviam. Eles desobedeceram a Deus depois de serem tentados pela serpente (Satanás) e, por causa do que fizeram, acabaram expulsos do Jardim do Éden e foram forçados a viver uma vida de dificuldade.

O desejo de Adão e Eva de desobedecer veio por conta de três coisas. Em primeiro lugar, o fruto da tal árvore era bonito, atraente e parecia gostoso (versículo 6). 

E é exatamente assim que o pecado costuma se apresentar - cara bonita, desejável, até mais do que isso, algo que a pessoa merece ter. Se o pecado tivesse cara feia ou fosse ruim, ninguém pecaria. Pecamos, dentre outras coisas, porque o pecado é agradável e gera prazer. Simples assim.

Por isso o pecado se torna extremamente perigoso: é muito difícil ficar livre de maus hábitos depois deles se instalarem.

Adão e Eva pecaram também por não acreditar que Deus cumpriria sua palavra e iria castigá-los por desobedecer (versículos 3 e 4). A realidade é que muita gente simplesmente não tem temor (respeito) a Deus. Pensam que têm direito de fazer as coisas que desejarem e se não cometerem crimes graves - não matar, não roubar, etc - estão no bom caminho e vai dar tudo certo. 

Essas pessoas pensam que Deus é misericordioso e certamente não vai condenar pessoas a sofrer castigo permanente (o inferno). Assim, cedo ou tarde, todo mundo será perdoado de uma forma ou de outra. 

Mas não é isso que a Bíblia diz - nela está dito que muitas pessoas serão salvas e outras tantas condenadas. Isto é, o pecado tem sim consequências sérias. E é preciso ter temor a Deus.

A terceira é última razão para o pecado de Adão e Eva foi a vontade deles de serem parecidos com Deus (versículo 5). A serpente usou isso para levá-los a pecar, argumentando que Deus não queria que eles tivessem mais conhecimento porque temia que ficassem como Ele mesmo, ou seja Deus tinha ciúme do crescimento intelectual dos seres humanos.

Ora, isso é um absurdo pois os seres humanos foram criados por Deus e nunca poderão ser como Ele - não há comparação possível com um Ser que sabe tudo, pode fazer tudo, está fora do tempo e do espaço, etc.

É interessante perceber que essa percepção - podemos "competir" com Deus -, que chamo de arrogância intelectual, continua presente hoje em dia. Boa parte dos cientistas não acredita em Deus e pensam ocupar seu lugar quando desvendam e manipulam os segredos do universo e da natureza. 

O fato é que os seres humanos têm conhecimento entendimento moral e, portanto, noção do que está certo ou errado. Mas aquilo que sabem é limitado e sempre será assim. Só Deus tem conhecimento absoluto e sabe tudo aquilo que há para saber. 

Tendo conhecimento limitado, os seres humanos podem tirar conclusões erradas e, assim, tanto acertar nos seus julgamentos como cometer injustiças, quando avaliam as intenções e propósitos de outras pessoas. 

E essa é a razão pela qual Deus nos proibiu de julgar o próximo (Mateus capítulo 7, versículos 1 a 5) - simplesmente nos falta competência para tanto. Mas, infelizmente, julgar o próximo é um dos pecados mais comuns - continuamos iludidos pela ideia que podemos saber tudo aquilo que precisamos. 

As causas do pecado de Adão e Eva - a atração do mal, a falta de temor a Deus e a arrogância intelectual - continuam presente hoje tanto quanto estavam presentes no passado. Continuam levando as pessoas a pecar e a escolher caminhos que as afastam de Deus. 

A tentação que destruiu a vida espiritual de Adão e Eva continua a se fazer presente hoje, tão forte como antes. E é preciso muito cuidado para também não cairmos nela.

Com carinho  

terça-feira, 15 de março de 2016

DEUS, POR FAVOR SARA A NOSSA TERRA


E se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e buscar a minha face e se converter dos seus maus caminhos, então eu ouvirei dos céus, e perdoarei os seus pecados, e sararei a sua terra.  2 Crônicas capítulo 7, versículo 14
O Brasil viveu ontem as maiores manifestações populares da sua história - superaram em muito o que aconteceu no “Movimento pelas Diretas Já”, ocorrido em 1984. Foi emocionante ver milhões de pessoas na rua, passando uma mensagem política de forma ordeira, sem qualquer violência. Defendendo causas que visam dar um futuro melhor para a população brasileira, pois estão cansadas de tanta roubalheira, hipocrisia e tantos outros pecados cometidos pela classe política, empresários de alto escalão e dirigentes de empresas públicas. Isso em meio à mais terrível crise econômica da história brasileira recente – o desemprego crescendo a olhos vistos e a crise econômica batendo à porta de muita gente.

Como chegamos nessa situação? O que fizemos de errado? Essas perguntas são importantes porque se não fizermos essa reflexão e chegarmos às conclusões certas, certamente iremos repetir no futuro os mesmos erros do passado.

Há muitas explicações para nossos problemas, como a falta de educação da população, a desigualdade social, a fragilidade do nosso sistema político e assim por diante. Certamente essas causas explicam muito do que está acontecendo, mas penso que não explicam tudo. Há algo muito mais importante que está por trás disso tudo.

O problema está no fato que a sociedade brasileira é tolerante com o pecado. As pessoas não levam as coisas a sério como deveriam e vivem com base em valores que podem ser distorcidos – por exemplo, nas escolas, os(as) alunos(as) que estudam são ridicularizados pelos(as) demais.

É essa “flexibilidade” moral que gerou a “cultura do jeitinho”: é aceitável fazer quase tudo, inclusive violar as leis, para resolver um problema que incomoda ou conseguir uma vantagem desejada. Está presente também na famosa “lei de Gerson”: “gosto de levar vantagem em tudo...”

De forma geral, as pessoas acreditam que um pouco de pecado não faz mal. Assim, se tornam tolerantes com mentira, hipocrisia, corrupção, nepotismo, etc. Por exemplo, lembro de um caso acontecido muitos anos atrás: um brasileiro morava nos Estados Unidos e foi convidado para uma festa, sendo que o convite chegou pelo correio (como é comum por lá). Ele não quis ou não pode ir à festa e quando o dono da festa lhe perguntou a razão, o brasileiro mentiu, dando a desculpa que o convite não tinha sido entregue a tempo pelo correio. O dono da festa, furioso, foi até o Correio e ameaçou processar a organização. E o Correio, por sua vez, veio em cima do mentiroso, pois tinha provas de que entregara o convite a tempo. E o brasileiro, muito envergonhado, teve que admitir sua mentira.

A cultura norte-americana, por exemplo, valoriza muito o falar a verdade e por causa disso as pessoas acreditam umas nas outras. É claro que muitos americanos(as) mentem, mas quando a mentira aparece, o(a) mentirosos(as) fica desmoralizado(a) – muitos políticos brasileiros já teriam perdido seus mandatos se morassem naquele país.

Aceitamos bem um pouco de mentira, um pouco de corrupção (por exemplo, dar dinheiro ao guarda para se livrar uma multa) ou um pouco de nepotismo (arrumar um emprego para um parente que não merece). Pecado é aceitável, se for “pequeno” e, principalmente, beneficiar a pessoa.

Ora, a corrupção que está sendo descoberta agora pela Operação Lava Jato não nasceu ontem e muito menos inventada pelo atual governo. É claro que a corrupção atingiu nos últimos anos uma dimensão insuportável, mesmo de uma sociedade leniente como a nossa. E aí apareceu a reação.

As coisas começaram a mudar porque um pequeno grupo de procuradores e um juiz de primeira instância da Justiça Federal do Paraná concluíram que as coisas não podiam continuar assim. Cumpriram com seu dever e não se intimidaram com cara feia - só isso. E o Brasil está sendo mudado para sempre - umas poucas pessoas estão fazendo a diferença.

O que elas vêm fazendo é algo muito importante: estão colocando a nu os pecados cometidos por um monte de gente que se dizia respeitável, mas são criminosos. Estão obrigando essas pessoas a reconhecer o mal que fizeram. E esse é um primeiro passo muito importante.

Mas é preciso mais do que isso, como o versículo bíblico que abre este texto demonstra. É preciso que a sociedade brasileira reconheça sua parcela de responsabilidade nesse estado de coisas – pela sua omissão de seus atos – e peça perdão a Deus. E depois mude seus caminhos, deixando de tolerar o pecado. Sem isso, não há como pedir ajuda a Deus para mudar nossa sorte, “sarar” nossa terra. Simples assim.

Os(as) brasileiros(as) precisam aprender a viver de fato o cristianismo - não basta se dizer cristãos(ãs) enquanto se vive na prática como se Deus não existisse. O Brasil precisa de um “choque” de ética, de novos princípios de comportamento e de vida que privilegiem a verdade, a justiça, o mérito, etc.

E a nós, evangélicos(as), cabe liderar pelo exemplo. Servir de luz para clarear os caminhos das pessoas. Funcionar como sal para mudar o “sabor” das coisas. Foi isso que Jesus nos pediu para fazer. É essa a nossa responsabilidade.

Com carinho

domingo, 13 de março de 2016

O SOAR DAS TROMBETAS

A trombeta ("shofar" no hebraico) sempre muito importante na história de Israel e ainda haverá de ter papel significativo nos eventos futuros.

Trombetas podiam ser feitas dos mais diferentes materiais e assumir formas diversas. A Bíblia se refere a trombetas de prata, usadas apenas pelos sacerdotes (Números capítulo 10, versículo 2). Mais comum eram as trombetas feitas de chifres de carneiro (Josué capítulo 6, versículo 8), parecidas com os berrantes tão conhecidos no interior do Brasil.

Elas eram usadas para dar avisos de diferentes naturezas para o povo. Podiam ser tocadas por sacerdotes, vigias ou outras pessoas que tivessem esse encargo.  Por exemplo, as trombetas soaram para ...

  • Convocar Moisés ao topo do monte Sinai para receber os Dez Mandamentos (Êxodo capítulo 19, versículos 19 e 20).
  • Convocar o povo para a guerra (Juízes capítulo 3, versículo 27). 
  • Avisar ao povo sobre perigo iminente (Amós capítulo 3 versículo 6).
  • Chamar o povo para participar de festas religiosas, como o dia do Perdão ou a Páscoa (Levítico capítulo 25, versículo 9).
  • Avisar ao povo sobre a coroação de novo rei (1 Reis capítulo 1, versículo 34).
  • Alertar que Deus vai falar - por exemplo, logo no início da visão dada a João, conforme registrado no Apocalipse (veja mais), a trombeta toca para avisar que o Cristo Glorificado vai falar.   
Agora, as trombetas irão tocar também no final dos tempos, marcando o início de acontecimentos fundamentais para a história - sete trombetas sucessivas irão anunciar esses acontecimentos (Apocalipse capítulo 8, versículo 2).

Outros chamados de trombetas acontecerão ao longo dos eventos que vão caracterizar o final dos tempos, para ...: 

  • Reunir o povo de Israel, hoje disperso pelo mundo, fazendo todos voltarem para Jerusalém, onde irão adorar a Deus (Isaías capítulo 27, versículo 3).
  • Marcar o arrebatamento dos(as) salvos(as), aqueles(as) que irão se juntar a Jesus, antes de sua volta (1 Coríntios capítulo 15, versículos 50 a 55)
...nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta. A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados... 
  • Marcar o retorno de Jesus (Zacarias capítulo 9, versículo 14).

Com carinho

sexta-feira, 11 de março de 2016

CONVERSANDO SOBRE PERDÃO

A revista Veja (28/07/2010) publicou grande e importante reportagem sobre o tema "perdão". O texto tentou definir o ato de perdoar dentro de uma visão secular: um processo composto de duas partes, sendo a primeira delas o arrependimento sincero de quem causou mal e a segunda a disposição, por parte de quem foi ofendido, de superar seus ressentimentos naturais. 

Essa visão torna o perdão um processo muito difícil. por conta de dois problemas. O primeiro é o fato da iniciativa ficar com quem originou o problema (a pessoa que ofendeu ou causou mal). O processo começa nela. 

O segundo problema nasce da dificuldade de conseguir avaliar se o arrependimento de quem cometeu a ofensa é verdadeiro. Como não é simples ter essa certeza, o perdão pode ficar "preso" dentro da pessoa ofendida.

O que a doutrina cristã tem a dizer a esse respeito? Será que perdoar pode ser um processo tão difícil assim?

O que é perdoar
Jesus nos mandou perdoar (Mateus capítulo 18, versículos 21 a 35) e Ele não pode ter nos pedido para fazer algo quase impossível. Não mesmo.

Ocorre que na visão bíblica o perdão é um processo diferente, que depende apenas da pessoa ofendida e/ou prejudicada. E basta lembrar o que Jesus fez para comprovar essa afirmação: quando estava morrendo na cruz, Ele pediu a Deus que perdoasse seus algozes (Lucas capítulo 23, versículo 34). 


Ora, nenhum dos soldados que torturaram Jesus mostraram qualquer arrependimento, tanto assim que zombaram d´Ele, deram-lhe vinagre no lugar de água para beber, etc. E ainda assim, Jesus pediu ao Pai para perdoá-los. 


E se Jesus pediu a Deus que fizesse isso é porque já tinha perdoado aquelas pessoas. Em outras palavras, Jesus perdoou mesmo sem haver arrependimento dos seus ofensores.


Para a Bíblia, o perdão ocorre quando a pessoa sabe que foi prejudicada e/ou ofendida, de forma injusta, e mesmo assim deixa de lado a “vantagem” moral que tinha e abre mão de receber a justa retribuição à qual teria direito. 

Trata-se de jogar o “lixo” do ressentimento fora, em lugar de ficar guardando-o no coração, evitando assim que contamine tudo (mente, relacionamentos, etc). 


É uma escolha unilateral de quem foi ofendido(a) ou prejudicado(a). Não depende do que pensa ou faz o(a) ofensor(a). E, sendo assim, desaparecem os problemas relacionados com a definição secular de perdão. Não importa se o(a) ofensor(a) se arrependeu de fato, o perdão vai existir, o "lixo" vai ser jogado fora. 


Evidentemente, se houver arrependimento sincero, tudo será melhor, mas o perdão não pode ficar "preso" a essa variável. Simples assim. 



Por que perdoar?
Há várias razões para perdoar. Primeiro, por que a retribuição do mal feito cabe a Deus e só a Ele (Deuteronômio capítulo 32 versículo 35).

Depois, porque todos pecam e são dependentes da Misericórdia e da Graça para serem perdoados e aceitos por Deus. E a medida de misericórdia que será usada com cada pessoa será a mesma que ela usar com quem a tiver ofendido – é isso que está dito na conhecida oração do "Pai Nosso" (Mateus capítulo 6, versículos 9 a 15): “Pai ... perdoa nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores”. Quem quiser perdão, terá que aprender a perdoar. 

A última razão para perdoar é que somente assim é possível acabar com o ciclo de ódio e ressentimento - por isso a palavra usada para transmitir o conceito de perdão no Novo Testamento significa também “liberação” ou “libertação”. 


O que o perdão não é
As pessoas dizem duas coisas erradas sobre o perdão. A primeira é que perdoar significa esquecer. Grande erro. 

Perdoar não é esquecer no sentido pleno do termo. Quem perdoa, deixa de lado a vontade de ter retribuição e/ou compensação pelo mal que sofreu, mas é claro que essa experiência ruim sempre fará parte da sua bagagem emocional. Em outras palavras, a pessoa prejudicada sempre levará em conta o que sofreu antes, na hora de reagir. 


Assim, por exemplo, uma mulher antes agredida pelo marido pode até perdoá-lo mas poderá ficar sempre insegura na sua presença e não querer ficar sozinha com ele. E isso é natural e não quer dizer ter faltado o perdão.


Seria até uma falta de sensibilidade, por parte de Jesus, cobrar das pessoas esquecer suas experiências de vida, isto é esquecer aquilo que não pode ser esquecido. 


Agora, perdão também não é reconciliação (retomar o relacionamento nas bases anteriores à ofensa). Perdão é mandamento mas reconciliação não - essa última depende de muitas outras coisas. Por exemplo, um marido que agrediu a esposa diversas vezes pode ser perdoado mas provavelmente será impossível para essa mulher retomar o relacionamento nas bases originais - simplesmente não haverá confiança suficiente para fazer isso. 


Enfrentando as “razões” para não perdoar
O senso comum coloca na nossa frente várias “razões” para não perdoar, em contraste ao ensinamento de Jesus. Vejamos duas das mais comuns e as respostas que o cristianismo dá para elas:
  • Não há justiça no perdão. Na verdade, quem perdoa desiste de ser o juiz e deixa o julgamento para Deus - Ele fará justiça e dará a justa retribuição para quem fez o mal. Não haverá impunidade pois Deus é o mais justo de todos os juízes e também é Todo-Poderoso.
  • Há o risco da repetição da ofensa. Perdoar não é a pessoa ofendida ficar indefesa diante de quem lhe causou mal e muito menos ser omissa. Mesmo tendo perdoado, essa pessoa pode e deve tomar medidas para se proteger.

Quantas vezes é preciso perdoar?
O perdão deve tornar-se um hábito. Veja o que Jesus respondeu a Pedro (Mateus capítulo 18, versículos 21 e 22): “Pedro lhe perguntou:…até quantas vezes devo perdoar meu irmão?… Respondeu-lhe Jesus:…até setenta vezes sete.” 

Perdoar é jogar o “lixo” fora e não é possível ou saudável fazer isso só uma vez. É preciso continuar fazendo isso pois o "lixo" é gerado todos os dias.

O primeiro passo é o mais importante
O caminho para perdoar não é aprender a cultivar o sentimento “certo”. Até porque perdão não é um sentimento e sim uma DECISÃO. É algo comandado pela razão e não pelo coração. 

Se a pessoa quiser esperar até conseguir ter o sentimento “certo” no coração, talvez nunca venha a perdoar. O primeiro passo do processo de perdão, portanto, é simples: querer perdoar. É aceitar o mandamento dado por Jesus e entender que se trata de importante requisito para a própria saúde mental e espiritual. 

Vou terminar com uma reflexão do teólogo Gregory Jones, ex-reitor do Seminário da Duke University, que penso resumir bem tudo que acabei de dizer: 
"Perdão não é uma palavra falada, um ato executado, um sentimento que se tem, mas sim uma forma de vida que envolve uma amizade cada vez mais profunda com Deus e com o próximo... De fato, por causa da presença constante do pecado e do mal, o perdão cristão deve ser... um comprometimento com essa forma de vida,… através da qual procura-se “desaprender” a pecar e aprender os caminhos de Deus...” 
Com carinho