quarta-feira, 29 de junho de 2016

EU POSSO SER VOCÊ, AMANHÃ

Arrogância é um mal bem comum. Funciona assim: quem está em boa situação, melhor do que a maioria das outras pessoas, começa a se sentir superior, merecedor dessa situação privilegiada. Quanto mais tempo a pessoa estiver vivendo essa de privilégio, maior o risco dela se tornar arrogante.

Sei bem como é isso pois fui um pouco assim durante boa parte da minha vida. Até quase os meus cinquenta anos, praticamente tudo tinha dado certo para mim. Só tinha colhido vitórias. Bem lá no fundo, comecei a me senti superior - mais competente, mais atilado, etc - do que a maioria das outras pessoas.

Aí tudo mudou de repente: Deus permitiu que os problemas viessem todos de uma vez só para me ensinar - e se isso não tivesse acontecido isso, eu não estaria aqui hoje, escrevendo este texto para você. 

A arrogância é um sentimento que cega - impede que a ajuda recebida de terceira seja devidamente percebida e reconhecida, até mesmo quando essa ajuda vem de Deus. 

Fiz um dos vestibulares mais difíceis do Brasil com apenas 17 anos. E passei. Naturalmente, minha família ficou muito orgulhosa. Meus pais quiseram fazer um culto de ação de graças a Deus e eu, lá no meu íntimo, fiquei questionando por que agradecer a Ele, quando quem tinha estudado e feito o trabalho pesado tinha sido eu? Lembro muito bem desse sentimento.

Eu fiquei muito nervoso durante a segunda prova do vestibular - durante duas horas, metade do tempo disponível, não fiz nada, parecia que minha cabeça estava oca. Aí pedi para ir ao banheiro, para lavar o rosto e tentar romper aquela situação de impasse. A pessoa que me acompanhou percebeu meu estado de espírito e foi me acalmando, dizendo palavras de encorajamento. Ele não precisava ter feito isso, mas fez. E meu estado de espírito mudou, tanto assim que fiz a prova toda na outra metade do tempo. E passei.

Sei hoje que Deus olhou por mim ali. Não sei bem a razão, até porque Ele sabia como aquele sucesso haveria de me subir à cabeça. Mas Deus me ajudou assim mesmo e sem isso certamente eu teria ficado pelo meio do caminho. O que dizer então das inúmeras outras bençãos que recebi e me deram condições de obter vitória naquele vestibular: a família maravilhosa que tive e que me deu estabilidade emocional, as boas escolas onde estudei, a saúde perfeita e assim por diante.

Eu tinha muitas razões para agradecer a Deus mas a arrogância dos meus 17 anos não me permitiu ver isso naquela época. Mas meus pais sabiam de tudo isso e agradeceram mesmo assim... 

Foi preciso que a vida me apresentasse uma enorme quota de problemas para que eu mudasse. Para que deixasse a arrogância de lado.

Ninguém é superior - basta um instante para que uma vida de sucesso seja destruída por um escândalo - temos vistos vários casos assim durante a operação Lava Jato -, por uma doença, por uma crise financeira, etc. 

E o sentimento de superioridade não é o único mal relacionado com a arrogância. Há outro problema, igualmente grave: a insensibilidade. Se alguém se julga superior é natural que não se preocupe muito com quem está em condições piores. Parece ser que essas pessoas não têm méritos para estar melhor...

Uns cinco anos atrás um amigo e eu passávamos perto da favela da Água Espraiada, em São Paulo, onde eu fazia uma obra social. E meu amigo saiu-se com a seguinte declaração: “eles [referindo-se as pessoas que ali moravam na na favela] vivem assim porque querem”. 

Ora, como alguém pode querer morar numa casa sem esgoto, onde os ratos mordem as pessoas durante a noite? Ou querer ver seu barraco pobre queimado num incêndio criminoso, como aconteceu tempos depois, naquela mesma comunidade? Na verdade, aquelas pessoas viviam ali por outros motivos e não por desejarem isso.

Na verdade, meu amigo foi insensível à situação daquelas pessoas. Como a vida para ele estava boa - tinha conforto e segurança financeira - não se importava muito com o que acontecia no seu entorno. E a forma de acalmar sua consciência era acreditar que as pessoas viviam naquela condição por que, bem lá no fundo, queriam viver mesmo assim.

Agora, como podemos combater a arrogância? O Império Romano tinha um hábito que dá a pista para a resposta certa. Quanto um general vencia uma guerra, ele tinha direito a uma procissão triunfal pelas ruas de Roma, onde as riquezas conquistadas eram exibidas e a população aplaudia o vitorioso.

O general passava vestido em roupa de gala, com uma coroa de louros na cabeça. Mas, na própria biga que conduzia o general e bem atrás dele, ia um escravo dizendo a seu ouvido: "lembre-se que tu és apenas humano".

É isso aí: especialmente quando tudo vai muito bem, precisamos ser sempre lembrados que somos humanos. Que as coisas podem mudar do dia para a noite. Eu me lembro de um anúncio antigo que dizia: “eu sou você amanhã”. O significado desse anúncio é simples: aquilo que acontece com uma pessoa hoje, tanto de bom como de ruim, pode acontecer com qualquer outra amanhã, basta que as circunstâncias mudem. Ninguém é melhor do que ninguém.

A arrogância só pode ser combatida se formos continuamente lembrados das nossas limitações, da nossa total e completa dependência de Deus. Se aprendermos a ser gratos a Ele. A louvá-lo pelo que Ele é e faz continuamente por nós.

Precisamos também a aprender a sermos solidários com a dor e a necessidade dos(as) menos favorecidos(as). Entender que, se esperamos ser ajudados nos momentos difíceis, precisamos estar dispostos a fazer o mesmo por quem precisa. E foi exatamente isso que Jesus ensinou ao ordenar seus seguidores a terem amor pelo próximo. 

Com carinho

segunda-feira, 27 de junho de 2016

A VOZ DO POVO NÃO É A VOZ DE DEUS

O tão conhecido ditado popular “a voz do povo é a voz de Deus”, que muita gente aceita como verdade, não têm qualquer respaldo na Bíblia.

A voz do povo abrange um monte de coisas, tanto pequenas - quando eu era garoto, dizia-se ser perigoso comer manga com leite -, como muito importantes – por exemplo, “quem tem padrinho não morre pagão”, caracterizando que a ajuda de familiares e amigos é quase sempre imprescindível.

A voz do povo se faz ouvir tanto pela repetição contínua de determinada ideia - de tanto ouvi-la, as pessoas acabam por acreditar nela - ou pelo chamado "clamor das ruas", quando uma multidão se junta para cobrar determinada medida, como aconteceu no Brasil, no "Movimento das Diretas Já", em 1984, ou mais recentemente, nas manifestações pelo impeachment da Presidente Dilma..

A voz de Deus chega até nós de diferentes formas. Em primeiro lugar, através da Bíblia, que é a sua Palavra. Mas também chega através de profetas, pessoas especialmente escolhidas por Deus para transmitir sua vontade. Finalmente, há casos também onde Deus falou ao povo diretamente - por exemplo, quando Jesus foi batizado, ouviu-se uma voz vinda do céu dizendo que ali estava Seu filho amado (Lucas capítulo 3, versículos 21 e 22).

Levando tudo isso em conta, é possível que a voz de Deus seja igual à voz do povo? Sim, é possível. Por exemplo, a Bíblia descreve a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, no Domingo de Ramos. E o povo saiu atrás d´Ele, cantando e clamando "salva-nos" (Hosana em hebraico). Os fariseus estranharam e pediram que Jesus repreendesse as pessoas, para que elas se calassem. E Ele lhes respondeu, dizendo: “se eles se calarem, as próprias pedras clamarão” (Lucas capítulo 19, versículos 37 a 40). 

É interessante perceber que, nessa oportunidade, o povo falou a vontade de Deus mesmo sem entender bem quem a missão de Jesus - os judeus esperavam outro tipo de Messias, alguém que viria libertá-los do jugo dos romanos.

Portanto, é possível sim que a voz do povo seja igual à voz de Deus. Mas isso acontece raramente e por várias razões. Primeiro, porque a voz do povo costuma conter erros - como no exemplo de evitar comer manga com leite. Frequentemente ela é simplesmente a voz da ignorância ou do medo, como quando os judeus clamaram para que Jesus Cristo fosse crucificado e um bandido, Barrabás, fosse solto (Lucas capítulo 23, versículos 13 a 25). 

A voz do povo é imperfeita porque é simplesmente o resultado da soma do que cada um(a) de nós, seres imperfeitos, acredita. Assim, produz verdades, é fato, mas também muitas mentiras.E tanto contribui para o progresso da sociedade como para seu atraso.

Já a voz de Deus é sempre perfeita, amorosa e só fala a verdade. Portanto, frequentemente é diferente da voz do povo. As duas vozes até podem se aproximar ocasionalmente, mas na maioria das vezes andam bem distantes.

A Bíblia ensina que não devemos nos preocupar muito com a voz do povo, ou seja com as opiniões das pessoas que nos cercam, com o clamor das ruas ou com as manchetes na mídia. Precisamos sim prestar atenção na voz de Deus, naquilo que a Bíblia ensina e Ele espera que venhamos a ouvir.

Quando a voz do povo defende o que é justo, como liberdade e justiça para todo mundo, melhor. Podemos nos juntar a ela sabendo que também estamos seguindo a voz de Deus. Mas quando a voz do povo divergir da voz de Deus, devemos ficar com a segunda, por mais difícil que isso seja.

A Bíblia conta sobre o momento em que os apóstolos Pedro e João receberam a ordem dos líderes judeus, falando em nome de todo o seu povo, para que não pregassem mais o Evangelho de Jesus. E eles responderam que mais valia obedecer a Deus que aos homens (Atos dos Apóstolos capítulo 5, versículo 29). Esse é o exemplo que precisamos seguir.

Procure sempre seguir a voz de Deus e tome cuidado com a voz do povo, pois nem sempre ela é boa conselheira.

Com carinho

sábado, 25 de junho de 2016

BENÇÃO NÃO É RECOMPENSA

É muito comum que cristãos(ãs) confundam benção com recompensa e, quando fazem isso, geram problemas sérios para sua própria vida espiritual. 

Por definição, benção é algo que a pessoa recebe sem ter tido qualquer merecimento. Bençãos, portanto, são sempre fruto da Graça que Deus. Os melhores exemplos de bençãos são a própria vida e a salvação.

A minha vida não foi criada pelos meus pais - ela me foi dada por Deus e, como eu não existia ainda, quando recebi o dom da vida, não tive qualquer mérito nesse processo. Recebi a vida de graça, portanto, trata-se de uma benção.

A salvação chega até o ser humano através do sacrifício de Jesus na cruz, não pelas boas obras que vier a fazer. De cada pessoa, só é exigido aceitar Jesus como seu Salvador e reconhecer que precisa d´Ele. Só isso. Portanto, aí está outro exemplo de benção. 

Agora, todos nós já somos continuamente abençoados de outras formas: a saúde de que gozamos, um emprego que parece ter caído do céu, uma pessoa que foi colocada em nosso caminho para nos ajudar em momento difícil e assim por diante. 

Deus é muito generoso e sua Graça está sempre presente nas nossas vidas de diversas formas. Somos continuamente abençoados e muitas vezes nem percebemos que o que recebemos d´Ele - por exemplo, costumamos valorizar a benção da saúde somente quando a doença chega... 

Recompensa é diferente: decorre de alguma ação que merece reconhecimento. É como um prêmio: se eu venço uma corrida, devo receber algo como reconhecimento pelo desempenho que tive. Um bônus que meu empregador vier a me dar, por conta dos bons resultados que alcancei, é um excelente exemplo de recompensa. Como também é uma recompensa alcançar uma boa forma física pelo fato de me exercitar constantemente e levar uma vida saudável. 

Deus também pode nos dar recompensas: por exemplo, Jesus prometeu que ninguém que abandonasse sua família e seu conforto para segui-lo, deixaria de receber seu prêmio (Mateus capítulo 19, versículo 29). E há muitas outras promessas de prêmios (na linguagem bíblica, "galardões") decorrentes das nossas boas ações.

No caso da recompensa, portanto, há uma causa (a boa ação) e um efeito (o prêmio) que inclusive devem ser proporcionais. Quanto mais difícil tiver sido a boa ação, maior deve ser a recompensa fruto dela. Por exemplo, na vida militar, as ações corajosas são sempre premiadas. E de forma crescente, começando com um simples elogio em público, diante de toda a tropa formada, e culminando com uma medalha por bravura entregue pelo Presidente da República, depois de aprovada pelo Congresso Nacional.

Já não há necessidade de haver qualquer proporcionalidade na benção, pois não houve causa (ação) que justificasse o benefício recebido. Portanto, não se pode nunca dizer que determinada benção foi injusta ou desproporcional, simplesmente porque não houve merecimento prévio (caso contrário não seria benção).

Infelizmente, para muitos(as) cristãos(ãs) essa diferença entre benção e recompensa não é muito clara. Eles(as) pensam mais ou menos assim: "eu sigo Jesus, dou meu dízimo, não mato, não furto, faço algumas boas ações, logo mereço as bênçãos de Deus". Tal tipo de pensamento é extremamente comum nas igrejas evangélicas. 

O problema é que quando esse tipo de percepção, que confunde benção com recompensa, se torna predominante, aparecem inúmeras distorções no comportamento espiritual das pessoas.

Por exemplo, imagina-se que quem está mais perto de Deus também é mais abençoado(a) por Ele - era esse o pensamento que prevalecia entre os fariseus, no tempo de Jesus, e que foi muito criticado por Ele. Ora, se benção é presente de Deus, ela não é indicação do mérito da pessoa junto a Ele - uma coisa nada tem a ver com a outra.

Outra distorção frequente é a inveja da benção dada a outra pessoa (e não a mim). Ora, não posso e não devo olhar para o lado e sentir inveja do que foi dada por Deus a outra pessoa. E muito menos questioná-lo porque alguém parece estar recebendo d´Ele mais do que merece (aos meus olhos).

Se não há merecimento naquilo que Deus dá a título de benção, não há porque cobrar d´Ele "justiça" nos presentes que distribui. Deus dá como quiser, quando desejar e da forma que entender ser a melhor e não nos cabe o direito de fazer qualquer crítica. 

E quando há insatisfação por aquilo que eu recebi, quando comparado à situação de outra pessoa, que pareça ter sido mais abençoada, eu entro no território perigoso da ingratidão. Afinal, como vou conseguir agradecer de todo o meu coração o que tiver recebido de Deus, se acho que houve algum tipo de injustiça por par.te d´Ele?

Cuidado para não confundir o que lhe chegou às mãos gratuitamente - as bençãos de Deus -, com aquilo que você conquistou pelo seu esforço - o seu mérito. As bençãos de Deus são fruto exclusivo do seu amor, da sua Graça que, como diz a Bíblia, se renova miraculosamente a cada manhã. 

Se você confundir benção com recompensa, irá cobrar de Deus coisas que Ele não tem obrigação de fazer, acabando insatisfeito(a). Poderá ainda ser tentado a "negociar" coisas com Ele - "eu faço isso e em troca o Senhor faz aquilo..."

Também correrá o risco de olhar para o lado e entender que há pessoas mais agraciadas do que você, o que lhe impedirá de ser verdadeiramente grato(a) pelos dádivas recebidas. E há poucas coisas que desagradam tanto a Deus como a ingratidão.... 

Com carinho

quinta-feira, 23 de junho de 2016

É PECADO SER RICO?

Há muitas dúvidas e erros de avaliação quanto à posição da Bíblia a respeito da riqueza. Como esse é um assunto importante, entendo que ser útil discuti-lo com franqueza aqui.

A riqueza por si mesma, desde que adquirida por meios legítimos, não é errada aos olhos de Deus. Abraão foi homem rico e Salomão foi rei riquíssimo e nem por isso eles foram criticados na Bíblia por causa dessa condição.

É claro que a riqueza adquirida por meios ilícitos - como a corrupção - é pecado. Mas o problema nesse caso não é a riqueza em si e sim o meio usado para adquiri-la. E Isso ficou bem claro no caso do coletor de impostos Zaqueu, que fraudou seu próprio povo. Ao se converter, quando Jesus visitou sua casa, ele prometeu devolver em dobro tudo que tinha obtido de forma fraudulenta e Jesus o apoiou (Lucas capítulo 19, versículos 1 a 9).

Agora, há três problemas relacionados com a riqueza segundo a Bíblia nos alerta. O primeiro deles é a importância excessiva que ela pode assumir, quando passa a definir toda a vida da pessoa. Em outras palavras, é pecado ter na riqueza a coisa mais importante da própria vida. E a razão é simples: quem vive assim passa a ter outro deus (a riqueza) na frente do Deus verdadeiro.

E infelizmente tal tipo de pecado é extremamente comum entre as pessoas ricas, pois a riqueza exerce uma atração quase irresistível, ao gerar poder, status e enorme segurança. Foi por isso que Jesus afirmou ser "mais fácil passar uma corda grossa pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus". Mas Ele mesmo completou: "os impossíveis para os homens são possíveis para Deus." (Lucas capítulo 18, versículos 24 a 27). Ou seja, é possível sim uma pessoa rica ser salva. 

O segundo problema relacionado com a riqueza é o mau uso. Por exemplo, quando esse uso for egoísta (voltado apenas para a própria pessoa e seus queridos) ou gerar ostentação e luxo excessivo, que afrontam a dignidade das pessoas menos favorecidas. Isso também é pecado, como a parábola do rico e do Lázaro (Lucas capítulo 16, versículos 19 a 31), contada por Jesus, deixa bem claro.

O terceiro problema com a riqueza aparece quando ela é usada para caracterizar as pessoas que dispõem dela como superiores às demais.

É claro que as pessoas não têm todas a mesma capacidade para gerar riquezas: algumas delas são mais competentes e mesmo esforçadas do que outras. E podem acabar adquirindo maior riqueza por causa disso. Nesse tipo de situação, parece ser razoável entender que os(as) mais ricos(as) têm maior mérito.

O problema é quando esse entendimento se torna generalizado: riqueza sempre é sinal de mérito maior. E era assim que a sociedade judaica pensava no tempo de Jesus e Ele criticou essa posição.

O mesmo tipo de pensamento também é muito presente na sociedade norte-americana, que é extremamente competitiva, e também vem ganhando espaço no Brasil. Existe até uma palavra muito dura que caracteriza aqueles(as) que ficam para trás na corrida pela riqueza e posição social: "perdedor(a)" ("loser" em inglês). Fiquei espantado, outro dia, ao ouvir de uma adolescente que essa palavra tornou-se comum nas nossas escolas.

É pecado classificar as pessoas dessa forma, pois muitas pessoas ditas perdedoras não adquiriram recursos suficientes porque não tiveram condições para ser mais e melhores - falta-lhes capacidade, estudo ou até condições emocionais. 

E pobreza não torna ninguém pior aos olhos de Deus - basta lembrar que Jesus e seus principais discípulos foram todos pobres. E Ele chegou a dizer que: “se alguém quiser vir a após mim, pegue sua cruz e me siga” (Lucas capítulo 9, versículo 23). Ora, cruz é sinal de dificuldade, não de prosperidade. 

Deus quer o melhor para cada um(a) de nós, sem dúvida, mas nem sempre a riqueza é o melhor para nossas vidas. Afinal, ela gera enormes riscos, conforme comentei acima. E muito pouca gente saberia lidar bem com esse tipo de situação. 

Com carinho

terça-feira, 21 de junho de 2016

CRISTÃOS CONTAMINADOS PELA INJUSTIÇA

Vivemos hoje no Brasil sob uma democracia que funciona razoavelmente, embora tenha muitas e graves distorções - um excelente exemplo é a corrupção terrível dos políticos que vem sendo desnudada pela operação Lava Jato.

Acredito que a principal distorção da sociedade brasileira ainda seja a injustiça social - pobreza, desamparo, falta de segurança, etc -, presente em nosso meio desde os tempos do Brasil colônia de Portugal. 

O fato é que os(as) cristãos(ãs) que vivem num ambiente injusto, como o nosso, correm o sério risco de se "contaminar" com essa situação iníqua, deixando de se incomodar com o que ocorre ao seu redor. Passam a considerar natural que haja pessoas desabrigadas, com fome, passando frio, presas por engano e assim por diante. Sei bem disso, porque já fui assim, quando mais jovem.

A ciência mostrou que o processo de contaminação pelas injustiça do meio onde se vive é mais perigoso do que a gente consegue se dar conta. Há um famoso estudo, conduzido pelo pesquisador norte-americano Philip Zimbardo, da Universidade de Stanford, que comprovou isso muito bem.

Esse cientista construiu, num porão de um prédio dessa Universidade, um ambiente simulando uma cadeia. Alunos foram convocados a participar do experimento, sendo que alguns deles representaram o papel de "preso" e os demais de "guarda" - a escolha foi feita por sorteio. 

O sistema prisional simulado no experimento era propositadamente injusto e iníquo, exatamente como acontece na maioria das cadeias da vida real.

No princípio da experiência, os alunos comportaram-se de forma parecida, pois todos vinham da mesma matriz. Mas após uma semana apenas encarnando os diferentes papéis, as pessoas começaram a mudar: os “guardas” foram ficando arbitrários e violentos, enquanto os “prisioneiros” tornaram-se dissimulados e revoltados contra os maus tratos sofridos.

O mal espalhou-se rapidamente. A contaminação das pessoas, que pareciam boas e esclarecidas, foi muito mais fácil e rápida do que os pesquisadores previram. Tanto assim, que o estudo precisou ser interrompido antes do prazo previsto (três semanas), pois a situação fugiu totalmente ao controle.

Um outro exemplo desse tipo de contaminação pelo mal é o da comunidade dirigida pelo pastor Jim Jones. No início, tratava-se de comunidade cristã normal, caracterizada pelo fervor extremo e a liderança incontestada do pastor Jones. Mas como não havia qualquer esquema de controle externo, o grupo rapidamente transformou-se num ambiente demoníaco, com final trágico (suicídio coletivo).

A contaminação pelo mal, levando as pessoas a achar que as coisas são assim mesmo, acaba por perpetuar a injustiça. Lembro que, quando era garoto, minha avó tinha duas empregadas domésticas que moravam na casa dela. E era um enorme conforto jantar aos domingos uma comida excelente preparada por essas pessoas.

Só muitos anos depois me dei conta que aquele conforto se dava às custas de uma situação injusta, onde pessoas pobres e negras não tinham direitos trabalhistas reconhecidos (não havia lei protegendo as empregadas domésticas naquela época). Isso mudou, e para melhor, provando sim que é possível tornar as coisas mais justas, desde que haja vontade social para fazer isso (e contrariar os privilégios já adquiridos).

A verdade é que compramos roupas baratas sem nos preocupar se elas foram fabricadas em pequenas fábricas que exploram a mão de obra semi-escrava de imigrantes ilegais - tempos atrás uma confecção evangélica foi pega fazendo exatamente isso.

Também não nos preocupamos como deveríamos quando as escolas de periferia dão ensino de péssima qualidade. Ou ainda quando os hospitais públicos não têm vagas suficientes e deixam pacientes no corredor, às vezes até no chão. Ou também quando o transporte coletivo atendem mal a milhões de pessoas.

É fácil se deixar contaminar e passar a aceitar como normais as injustiças de uma sociedade como a nossa. E ao fazer isso, sem perceber, estamos contribuindo para a perpetuação desse mal. 

Mas o que o cristão pode fazer para evitar cair nessa "armadilha”? Vejamos algumas recomendações simples:

Em primeiro lugar e o mais importante: aprenda a tratar o próximo como gostaria de ser tratado(a). Sempre que analisar a situação de outra pessoa, coloque-se no lugar dela e veja como gostaria de ser tratado e tente fazer com ela dessa forma. Isso significa, na prática, dentre outras coisas, reconhecer para as demais pessoas os mesmos direitos e vantagens que você quer para si mesmo(a).

Significa também nunca demonizar quem pensa diferente. É comum que os evangélicos(as) acusem de serem agentes de Satanás todos(as) aqueles(as) que pregam e vivem com base em idéias diferentes das deles(as). Idéias erradas podem e devem ser combatidas, mas com ideias melhores e mais adequadas (e temos certeza que a doutrina cristã defende as melhores idéias).

Em segundo lugar, procure sempre pensar pela sua própria cabeça e acostume-se a verificar as coisas que lhe são ditas usando as referências da Bíblia. Lembre-se que os grupos sociais onde você está inserido(a), inclusive a igreja que frequenta, têm poder para acabar dirigindo sua vidas em direções que não são boas e até lhe fazer apoiar coisas absurdas.

Por exemplo, tempos atrás, o teto de um templo evangélico caiu sobre a cabeça de pessoas, matando algumas. Os dirigentes dessa denominação, ao invés de assumirem sua culpa (o problema foi fruto da má manutenção do prédio), preferiram culpar Satanás e a mídia e, infelizmente, grande parte dos seguidores engoliu essa explicação sem questionar. 

Em terceiro lugar, cuidado para não se deixar contaminar um pouquinho a cada dia. Há um experimento interessante que demonstra bem esse perigo: a rã, quando jogada numa panela de água fervendo, pula e se salva. Mas quando é colocada numa panela de água fria, aquecida depois até a fervura, não sente o perigo e acaba morrendo.

Os seres humanos se parecem com as rãs no sentido que não percebem o perigo que chega aos poucos. O mal que se espalha passo a passo - foi assim que o nazismo dominou a Alemanha, país culto e desenvolvido. Portanto, é preciso orar e vigiar continuamente, denunciando qualquer desvio dos ensinamentos de Jesus.

Finalmente, lembre-se que os fins nunca justificam o uso de meios errados. Justificar a prática do mal como ferramenta para alcançar um resultado bom (fazer o bem) não está certo. Por exemplo, explodir centros médicos que fazem aborto (como aconteceu nos Estados Unidos várias vezes) ou invadir centros de religião afro e destruir tudo (como já aconteceu no Brasil), não é aceitável aos olhos de Deus. O bem nunca pode ser construído em cima do mal.

Concluindo, cada um(a) é responsável por lutar para não se deixar contaminar pelo mal que causa a injustiça na sociedade onde se vive. É como diz o velho ditado: “não podemos evitar que um pássaro pouse em nossa cabeça, mas podemos evitar que ali faça o seu ninho ali”. Foi exatamente isso que o apóstolo Paulo ensinou em Romanos capítulo 12 versículo 2): “e não vos conformeis com este mundo” .

Com carinho

domingo, 19 de junho de 2016

QUANDO FICA DIFÍCIL SABER O QUE É CERTO OU ERRADO

Há situações na vida onde há um escolha a ser feita e nenhuma das alternativas disponíveis parece ser moralmente certa ou todas parecem ser igualmente boas. Nessas situações as pessoas, mesmo as muito bem intencionadas, têm dificuldade em definir a conduta certa, aquilo que é realmente aprovado por Deus.

Popularmente, chamamos essa situação de "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come..." Por exemplo, imagine uma situação onde um bandido ameaça assassinar uma pessoa e a única forma de evitar que isso aconteça seria matá-lo. Se nada for feito, uma pessoa inocente acabará morta, situação típica de pecado por omissão. Mas para evitar esse crime será preciso matar o bandido, o que também irá violar um mandamento bíblico. 

Conflitos éticos são bastante comuns e não há como evitá-los - cruzamos com eles todos os dias. Por exemplo, devemos dar dinheiro (pagando impostos) para um governo sabidamente corrupto? O patrão deve mandar um empregado embora, para melhorar a situação da empresa, mesmo sabendo que ele vai ter dificuldade para encontrar outro emprego? A igreja deve investir os recursos escassos de que dispõe em missão ou em assistência social? E assim por diante.

Às vezes a solução do conflito ético parece ser simples, como no caso de ser preciso matar um bandido para salvar uma pessoa inocente - a própria lei brasileira estabelece isso, definindo que a morte do bandido foi feita em !legítima defesa de terceiros".

Já em muitos outros casos, as respostas são bem mais difíceis. Por exemplo, escolher qual dos vários filhos deve receber uma bolsa de estudos que "caiu do céu", dando-lhe condições de estudar na melhor faculdade possível. Ora, seja qual for o critério para fazer a escolha do filho a ser beneficiado, ela vai acabar criando uma hierarquia de filhos "ganhador" e "perdedores". Há um filme - “A escolha de Sofia” - que trata exatamente de uma situação desse tipo.

Quando um(a) cristão(ã) é envolvido num conflito ético o que ele(a) deve fazer? Como enfrentar esse tipo de situação? A regra mais recomendada pelos(as) filósofos(as) é buscar fazer o maior bem possível ou evitar o mal maior. Em outras palavras, dentre as alternativas disponíveis, deve ser escolhida aquela que leva ao maior bem que estiver ao alcance ou evita o mal maior. 

Por exemplo, imagine que seja preciso permitir o sacrifício de duas pessoas (digamos, dois policiais) para evitar a morte de uma centena de inocentes. Haveria justificativa ética em fazer isso, pois estaria sendo evitado um mal maior (a morte de maior número de pessoas). 

Mas escolher o maior bem ou evitar o mal maior pode até levar à escolha correta mas ainda assim ela não deixa de gerar sofrimento para as pessoas envolvidas. No exemplo acima, as famílias dos dois policiais sacrificados vão sofrer com a morte deles, embora venham a encontrar algum consolo no fato que seu sacrifício evitou a morte de cem pessoas. Mas o sofrimento vai existir das famílias vão existir e não há como evitar isso.

A história da família de Jacó Famílias costumam ter problemas – não conheci nenhuma que não tivesse sua quota deles. Mas, a de Isaque e Rebeca excede todas as medidas (Gênesis capítulos 27 a 32).

Os filhos gêmeos deles, Esaú e Jacó, não se pareciam fisicamente nem agiam como irmãos. Disputavam tudo: os direitos de primogenitura, o amor dos pais e a benção de Deus.

Isaque e Rebeca eram marido e mulher, mas não se comunicavam. Cada um deles preferia um dos filhos - Isaque preferia Esaú e Rebeca preferia Jacó - o que acirrava ainda mais a rivalidade entre os rapazes.

Jacó tinha perdido a primeira "batalha" da "guerra" entre os irmãos, ao nascer depois de Esaú. Desde seu nascimento, ele teve sempre que correr atrás do irmão mais velho para, por exemplo, garantir o afeto do pai. Mas sempre esteve em desvantagem. Isaque via no filho mais velho, robusto e viril, o líder ideal para a família - Jacó era mais intelectual e caseiro.

Para complicar ainda mais o quadro, uma profecia dada a Rebeca, antes dos filhos nascerem, estabeleceu que Jacó, embora mais novo, haveria de herdar a Promessa originalmente dada por Deus ao avô deles, Abraão. Esaú também seria pai de um povo numeroso, mas a linhagem da Promessa de Deus passaria por Jacó.

Rebeca, ciente da profecia, viu-se diante de um conflito: pensava ser sua obrigação proteger Jacó para garantir que a profecia fosse cumprida. Por outro lado, ao fazer isso, Rebeca alienou Esaú, que se sentiu discriminado pela própria mãe. 

O drama se acentuou quando Isaque estava no seu leito de morte e ia transmitir a benção da Promessa ao herdeiro, tendo escolhido, como seria lógico, o primogênito, Esaú.

Na verdade, Isaque não conseguia ver seus filhos como realmente eram: confundia a robustez de Esaú com capacidade de liderança (que o filho não tinha) e era insensível às maiores qualidades de Jacó. 

Naquele momento crucial, Rebeca entendeu que precisava agir para não permitir a escolha do filho errado. Ela incentivou Jacó a enganar o pai, que tinha vista muito fraca - o rapaz "disfarçou-se" de Esaú e literalmente roubou a benção destinada ao irmão. Ao se dar conta do que tinha acontecido, Esaú ficou enfurecido e Jacó teve que fugir para a terra dos parentes de seu pai, Harã, onde ficou exilado por longos anos.

Essa história mostra vários dilemas éticos. O primeiro deles lida com a questão: é correto privilegiar um filho por ser o mais adequado para dar suporte à família? No caso do exemplo que citei acima, de escolher qual filho deve receber a bolsa de estudos, o benefício poderia ir para o mais inteligente e que fosse melhor aluno dentre eles, imaginando que esse rapaz provavelmente irá ter mais sucesso profissional mais condições de sustentar a família. 

Mas o que fazer então com os filhos não escolhidos? Não é fácil responder essa questão e o exemplo de Rebeca mostra bem as consequências desse dilema. Certamente a resposta correta não é ficar indiferente aos filhos que não forem beneficiados, como Rebeca fez (talvez ela tenha agido assim por não saber bem como lidar com a situação que vivia). 

O segundo dilema ético foi colocado diante de Jacó: até quando alguém deve ir para garantir um direito seu? Se Jacó nada fizesse, perderia a posição de líder da família, à qual entendia ter direito. Por outro lado, não havia uma forma ética para fazer o pai escolhê-lo em lugar de Esaú.

Jacó é um dos mais interessantes personagens da Bíblia - trata-se do primeiro anti-herói dela. Sobrecarregado emocionalmente, facilmente manipulável e inescrupuloso, não parecia ter as qualidades necessárias para um Patriarca bíblico.

Jacó entendeu que o fim (ser escolhido para receber a benção da promessa) justificava meios menos éticos (enganar o pai e trair o irmão). É claro que sua ação errada acabou lhe trazendo muitos problemas: precisou se exilar em Harã e acabou sendo afastado para sempre da sua mãe.

Ele aprendeu, de maneira dura, que os meios escolhidos são tão importantes quanto o fim avisado. Em outras palavras, é preciso sempre medir as conseqüências do que se faz.

Agora, o caso da família de Isaque e Rebeca traz um outro ensinamento importante sobre os dilemas éticos: é sempre preciso envolver Deus nas escolhas que fazemos. E Rebeca não fez isso, cometendo um erro grave.

Ela pensou que tinha apenas duas alternativas: nada fazer e deixar que fosse escolhido o filho errado ou enganar o marido, para garantir a escolha do filho certo. Mas havia um terceira alternativa que ela não considerou: deixar o assunto nas mãos de Deus. Afinal, a profecia tinha sido estabelecida por Ele e lhe cabia fazer cumpri-la. Bastava que ela deixasse Deus atuar, para que tudo tivesse sido resolvido da melhor forma possível. 

É interessante perceber que em nenhum momento essa terceira alternativa correu nem a Rebeca e nem a Jacó. E aí está outro grande ensinamento: muitas vezes definimos mal as alternativas que estão á nossa frente. Ao não chamar Deus para dentro do dilema ético, deixamos de explorar a melhor solução, aquela que virá d´Ele. 

Concluindo, dilemas éticos são naturais. E quando colocados diante deles, precisamos analisar com cuidado as alternativas disponíveis, Princípios como garantir o maior bem ou evitar o mal maior ajudam muito nessa análise.

Mas, sobretudo, precisamos sempre consultar Deus sobre o que escolher. Qual caminho tomar. Afinal, as escolhas d´Ele serão sempre as melhores e poderão apontar para possibilidades e caminhos que nem tínhamos imaginado serem possíveis.

Com carinho

sexta-feira, 17 de junho de 2016

LIBERDADE AINDA QUE TARDIA

Jesus, na sua primeira pregação em público, feita na sinagoga de Nazaré, estabeleceu com clareza o objetivo da sua missão aqui na terra: libertar os cativos (Lucas capítulo 4, versículos 16 a 21). 

Quando a gente analisa essa declaração, uma pergunta aparece de imediato: quem são os cativos que Ele veio libertar? A resposta é simples: cada um(a) de nós. Todos(as) somos cativos. A missão de Jesus vale para toda a humanidade.

A outra dúvida importante é: libertar de quê? A resposta tradicional fala em libertar do pecado que escraviza todo ser humano. Mas a missão de Jesus vai muito além disse: também liberta o ser humano da desesperança, da insegurança, da ansiedade, da solidão, da tristeza, etc. Ou seja, de inúmeros males da alma e do espírito.

Sendo assim, podemos afirmar que o cristianismo deveria ser uma religião libertadora. Agora, seja sincero(a) comigo: quando você olha em torno, para as igrejas evangélicas de forma geral, esse é o panorama que você vê? Elas são libertadoras? Acredito que não. 

Infelizmente, o cristianismo atual tornou-se em boa parte uma religião que faz exatamente o contrário: aprisiona as pessoas num enorme conjunto de regras, obrigações e controles de comportamento. Nas igrejas cristãs as pessoas costumam ser continuamente ameaçadas de perder a salvação por causa disso ou daquilo. 

Não é de se estranhar, portanto, que as denominações cristãs estejam encontrando dificuldade crescente para reter as pessoas, principalmente os(as) mais jovens. E boa parte daqueles(as) que permanecem dentro das igrejas experimentam vidas espirituais medíocres, pois acabam perdendo a maior parte do seu tempo em cumprir regras desnecessárias.

Lembro a você que a igreja dos apóstolos, descrita na Bíblia no livro de Atos, não era controladora assim, muito ao contrário. Basta lembrar o que aconteceu no Primeiro Concílio, em Jerusalém.

Logo no início da vida da Igreja, todos os cristãos eram também judeus e, portanto, circuncidados e seguidores das práticas de restrição alimentar. Quando cristianismo começou a apelar para os não judeus, criou-se um impasse: deveria ser exigido dos novos convertidos circuncidar-se e abster-se de diversos alimentos? 

O problema estava no fato que essas exigências não eram fáceis de serem cumpridas - por exemplo, a circuncisão de um adulto é operação dolorosa e, naquela época, relativamente arriscada.

Os líderes da igreja se reuniram (Atos dos Apóstolos capítulo 15) e decidiram abolir tais regras. Entenderam que era mais importante a "circuncisão" do coração - a aceitação de Jesus como Salvador - do que essas práticas tradicionais. Em outras palavras, os líderes cristãos daquela época libertaram o povo de práticas que estavam dificultando sua vida. E aí o cristianismo pode crescer rapidamente.

Esse exemplo não é seguido hoje em dia. Mais e mais líderes religiosos evangélicos estabelecem regras de fé e de comportamento que deixam as pessoas confusas e aprisionadas. Há quem proíba o uso de árvores e outros símbolos de Natal, quem afirme que crente não pode ouvir música secular, quem diga que se não pode dançar, quem proíba maquiagem e por aí vai. Há uma denominação bem conhecida que até estabeleceu um "cronograma" de como os(as) jovens podem e devem namorar. 

Todo dia encontro uma proibição nova - outro dia um leitor aqui do site me contou sobre a proibição de chamar Jesus por outro nome que não seja Yeshua ou Yehoshua. Durma-se com um barulho desses...

Gostaria de fazer um parêntesis para responder o argumento mais usado para estabelecer esse tipo de regra: a Bíblia diz de fato que o(a) cristão(ã) deve fugir da aparência do mal (1 Tessalonicenses capítulo 5:22). Assim, se determinada coisa, mesmo não sendo um mal em si, parece ser, o(a) cristão precisa se afastar dela. 

Ora, levado ao extremo, quase tudo nas nossas vidas poderia ser proibido com base nesse versículo. E evidentemente não foi essa a intenção da Bíblia.

O que os(as) líderes que defendem tal postura não explicam é quem determina o que é o mal, de cuja aparência devemos todos fugir. Na prática, eles(as) pensam deter esse direito, daí proíbem um monte de coisas. Eu penso diferente: mal é aquilo claramente estabelecido na Bíblia. Se não estiver clara tal proibição, não me cabe ou a quem quer que for vedar a prática. 

Por exemplo, a Bíblia não proíbe ouvir música secular, então esse tipo de proibição não pode ser feita. Alguém poderia argumentar que há músicas que pregam drogas, satanismo, promiscuidade, etc. É claro que essas músicas devem ser evitadas por conta do seu conteúdo deletério e o mesmo acontece com alguns programas de televisão, filmes e livros. Mas a proibição não pode ser estendida para todas as músicas seculares, filmes e livros. Simples assim. 

E o mesmo vale para outras coisas, como a dança, o uso de maquiagem ou os enfeites de Natal. Podem parecer coisas más para alguns, mas não são definidas assim na Bíblia, portanto, não há base para proibi-las.

Agora, são tantas as proibições e os controles estabelecidos pelas igrejas evangélicas e tantas as ameaças de punições para quem descumpri-los, que a maior parte dos emails e comentários que recebo aqui trata dessa questão. As pessoas querem ter certeza que se fizerem isso ou aquilo não vão acabar perdendo a salvação.

Infelizmente, as proibições sem sentido acabam por desviar a atenção das pessoas daquilo que interessa de fato no cristianismo: como seguir verdadeiramente a Jesus. Quase nunca recebo perguntas de quem queira discutir isso e a culpa não é dos(as) fiéis e sim de quem fica enchendo a cabeça dessas pessoas com proibições e ameças inúteis, que somente servem para aprisionar. 

Jesus não gastou seu tempo aqui na terra impondo regras de vida - basta ler os Evangelhos que isso fica muito claro. Ele estabeleceu princípios fundamentais de comportamento - amar a Deus sobre todas as coisas e amar o próximo como a si mesmo -, que definem a forma correta de nos relacionarmos tanto com Ele como com as demais pessoas.

E se concentrou nas questões realmente básicas. Assim, condenou o legalismo dos fariseus (reproduzida hoje pela maioria das denominações evangélicas ), ensinou o perdão, criticou a hipocrisia e a falta de compromisso com o Reino de Deus. E sobretudo ensinou as pessoas a pensarem e a tomarem decisões corretas por si mesmas.

O povo de Deus precisa ser libertado dessa situação absurda que vive hoje. Basta de imposições excessivamente moralistas e esquemas de controle que escravizam as pessoas. Precisamos voltar ao espírito original do cristianismo: a libertação do ser humano. 

Com carinho

quarta-feira, 15 de junho de 2016

A BÍBLIA É MACHISTA?


Uma das críticas frequentes à Bíblia é ser um texto machista, o que obrigatoriamente tornaria o cristianismo uma religião também machista - já ouvi isso de muita gente respeitada. Na verdade, essas críticas não são justas. Muito ao contrário. E é relativamente simples demonstrar isso.

É certo que a Bíblia, além de ser a Palavra inspirada por Deus - uma das crenças básicas da fé cristã - também é um texto com raízes históricas. Por causa disso o texto bíblico reflete o contexto social e cultural da época em que foi escrito - entre 2.000 e 3.500 anos atrás. E é fácil perceber isso através das inúmeras referencias feitas no texto bíblico a tipos de roupas e alimentos, formas de governo e organização social e outros aspectos típicos daquela época.

O contexto em que as pessoas viviam então passou para o texto bíblico porque o processo de inspiração divina respeitou as individualidades dos autores dos vários livros da Bíblia. Em outras palavras, a inspiração divina permitiu que cada autor permanecesse no controle de suas faculdades mentais, dando-lhe condições de escrever a partir da sua própria matriz cultural. Cada autor escreveu na língua na qual se sentia confortável, com as palavras que conhecia e usou sua experiência de vida para compor o texto sendo escrito.

Assim, não é de estranhar que a sociedade descrita na Bíblia seja muito diferente da nossa. A sociedade bíblica era patriarcal e machista e nela as mulheres tinham posição social tão inferior que nem eram contadas nos recenseamentos (Números capítulo 1). Na prática, as mulheres dependiam dos homens para tudo.

Essa era a realidade está refletida com precisão no texto bíblico. Apenas isso. Portanto, essa descrição precisa de uma realidade não significa que Deus aprovava tal estado de coisas. Muito pelo contrário.

E tanto isso é verdade que poderemos perceber, se lermos a Bíblia com cuidado, que Deus agiu para mudar a injustiça da discriminação contra as mulheres. Apenas fez isso de forma gradual porque hábitos profundamente entranhados na sociedade somente podem ser mudados aos poucos. Costuma ser necessária a passagem de gerações para mudar de fato as coisas e essa é uma verdade demonstrada inúmeras vezes ao longo da história.

É fácil encontrar na Bíblia outros exemplos dessa abordagem gradualista de Deus no combate a práticas que Ele abomina, além da questão da discriminação contra as mulheres. Posso citar de imediato também as questões da violência contra os inimigos e da escravidão. Vejamos como isso se deu.

Começo por lembrar que há cerca de dois mil anos separando os Patriarcas de Israel - Abraão, Isaque e Jacó -, cujas vidas estão relatadas no início do Velho Testamento, de Jesus e seus seguidores, cujos feitos constam do Novo Testamento.

No início do Velho Testamento, a sociedade era nômade e rural e se organizava em tribos. Já no tempo de Jesus, o gigantesco e poderoso Império Romano dominava o mundo e grandes cidades, como Roma ou Jerusalém, já eram comuns. 

No tempo de Abraão, Isaque e Jacó prevalecia a ideia de retribuir sempre o mal recebido e causar o máximo possível de danos ao inimigo - por exemplo, se o inimigo matasse uma pessoa de determinada tribo, a resposta adequada seria massacrar toda uma aldeia da tribo inimiga. Isso era feito para gerar respeito e medo nos adversários, dando maior segurança à tribo capaz de fazer isso. 

Ora, num ambiente desses, uma lei mandando retribuir com proporcionalidade o mal recebido - "olho por olho e dente por dente" -, como Deus fez no início do Velho Testamento, já foi um grande avanço em relação às práticas da época. Já demonstrou mais justiça e consideração com o próximo.

Milhares de anos depois, Jesus fez a apologia do perdão e do amor mesmo ao inimigo. Um grande passo adiante e isso foi possível porque Jesus viveu num outro tipo de sociedade. O fato é que as pessoas que viveram na época dos Patriarcas de Israel nunca teriam entendido o que Jesus propôs. E mesmo no tempo d´Ele, poucos dentre os seus discípulos seguiram de fato o mandamento do amor. 

Quando não percebem esse gradualismo existente na Bíblia, as pessoas chegam a conclusões erradas. Quando se olha para o significado da lei dada na época patriarcal, parece, com base nos padrões atuais, que Deus era vingativo e cruel. Mas quando se olha para os ensinamentos Jesus, o quadro muda: Deus parece ser completamente diferente, amoroso, capaz de perdoar, etc. Há até quem pense que são retratados na Bíblia dois seres diferentes. 

Outro bom exemplo de abordagem gradual é a questão do combate à escravidão - essa prática estava arraigada na sociedade há milhares de anos e também não poderia ser erradicada de uma hora para outra. Deus primeiro estabeleceu, ainda no tempo de Moisés, que os escravos precisavam ser tratados com humanidade (Êxodo capítulo 21, versículos 1 a 16). Já era um avanço sobre as práticas normais daquela época e basta comparar essa lei com o tratamento dado pelos egípcios aos seus escravos judeus para comprovar o que acabei de falar. Mais tarde, depois de Jesus, Paulo chegou a dizer que os escravos deviam ser tratados como amigos (Filemon capítulo 1, versículos 1 a 17), o que significava uma abolição da prática.

É interessante perceber que os defensores da abolição da escravidão no Brasil procederam da mesma forma: patrocinaram a aprovação de várias leis, sucessivamente restringindo cada vez mais o alcance da escravidão: a primeira lei estabeleceu que quem fosse filho de escravos estaria livre (Lei do Ventre Livre), a segunda lei garantiu a libertação de cada escravo que chegasse à velhice (Lei dos Sexagenários) e assim por diante. 

Olhar para a Bíblia e dizer que Deus convivia bem com a escravidão é um absurdo total. Seria o mesmo que dizer que José do Patrocínio, o maior dos abolicionistas no Brasil, apoiava essa prática horrível. A abordagem gradualista foi uma necessidade frente à dificuldade em mudar uma prática social muito arraigada. 

E foi exatamente assim que aconteceu com a luta contra a discriminação das mulheres. O combate a ela foi gradual, através de leis dadas aos poucos, até que Paulo, no passo final, deixou claro que todos - homens e mulheres - são iguais perante Deus, já no final do Novo Testamento (Gálatas capítulo 3, versículo 28).

Não é por acaso que a Bíblia relata Deus prestigiando as mulheres de forma nunca vista antes. Por exemplo, Ele sancionou que mulheres, como Débora, liderassem o povo de Israel e transmitissem sua vontade (profecias). Estabeleceu leis defendendo o direito das mulheres mais vulneráveis, como as viúvas. E assim por diante.

Jesus levou essa ideias ainda mais além e isso ficou claro em situações como a da mulher adúltera que ia ser apedrejada e foi salva por ele (João capítulo 8, versículos de 1 a 11) - é importante perceber nesse evento que nenhum homem tinha sido acusado junto com aquela mulher, embora ninguém possa adulterar sozinho...

E tanto Jesus inovou nesse campo, demonstrando consideração incomum pelas mulheres, que elas foram suas mais fieis seguidoras. 

Concluindo, a Bíblia não é machista, assim como não apoia a escravidão ou defende a violência contra os inimigos. Seu texto apenas registra a realidade de uma sociedade com características machistas, escravocratas e violentas.

Deus tratou de mudar esse estado de coisas e fez isso de forma gradual, pois mudanças de hábitos sociais arraigados somente podem acontecer aos poucos, pelas próprias características dos seres humanos.

Portanto, quem afirma que a Bíblia é machista não estudou suficientemente seu texto. Ou, se o fez, busca encontrar um pretexto para criticar o cristianismo. Simples assim. 

Com carinho

segunda-feira, 13 de junho de 2016

COMO JOSÉ DO EGITO CONSEGUIU PERDOAR?

A história de José, vendido como escravo pelos próprios irmãos (Gênesis capítulo 37) gera muita perplexidade. Como pode ser que pessoas aparentemente normais - os irmãos - tenham cometido ato tão cruel por causa de ciúme do pai , Jacó? Não é fácil de entender.

E maior perplexidade ainda causa o fato de José ter conseguido perdoar os irmãos (Gênesis capítulo 45). Eu não sei se teria capacidade de agir como José - não sei se teria essa mesma disposição para perdoar. 

Como José conseguiu fazer issoQue lições podemos tirar do seu exemplo para instruir nossas vidas? São essas duas perguntas que vou tentar responder.

José era uma pessoa especial: adolescente carismático e precoce, encantava a todos pela sua inteligência e auto-confiança. Mas, ao mesmo tempo, como é típico dos adolescentes, era egocêntrico - considerava-se o centro da família. E também insensível - nunca se mostrou preocupado com o efeito que seu comportamento arrogante causou nos irmãos. 

É interessante perceber que José sempre despertou sentimentos fortes nas pessoas com as quais conviveu. Era pessoa muito carismática. O pai o amou sem medidas, os irmãos tiveram ciúme intenso dele, a mulher de Potifar apaixonou-se perdidamente por ele e faraó o fez seu favorito, o segundo homem no comando do Egito. 

O relato do Gênesis conta em detalhes a longa jornada de José, desde o momento em que foi ferido emocionalmente pelos irmãos até sua cura emocional. Do sofrimento causado pela traição que sofreu até o perdão dado a seus algozes. 

O momento de perdoar chegou quando os irmãos de José precisaram ir até o Egito (Gênesis capítulo 42) pois a terra onde moravam (Palestina) passava por grande seca e não havia mais alimento para a família de Jacó. O encontro com os irmãos lançou José num furacão emocional: raiva e desejo de vingança, misturados à saudade da família e à vontade de se reunir com o pai e o irmão menor, Benjamim (que não tinha participado do golpe contra ele).

E aí começou um jogo de "gato e rato" entre José e seus irmãos. José simulou um roubo e incriminou os irmãos. E exigiu que os irmãos trouxessem Benjamim à sua presença e fingiu que ia punir o irmão caçula. Na verdade, somente quando os irmãos demonstram estar totalmente vulneráveis e um deles, Judá, até admitiu ficar preso no Egito, em lugar de Benjamim, que José conseguiu perdoar. 

Percebeu naquele momento que passará a ele o papel de provedor e líder da sua família, naquele momento totalmente indefesa (nem comida tinha). A profecia que tinha sido dada a José, ainda na sua adolescência, através de alguns sonhos, enfim se realizara: a família estava totalmente dependente dele. 

Agora, é interessante perceber que a interpretação que José deu a essa profecia mudou ao longo do tempo: quando era adolescente, ficou deslumbrado com a informação que seria a pessoa mais importante da família. Já maduro, percebeu que essa posição de liderança trazia uma enorme responsabilidade em relação à própria família. 

Quando adolescente ele se impressionou com a honra que iria lhe caber, mais tarde percebeu ter herdado uma grande responsabilidade (garantir a sobrevivência da linhagem de Abraão). 

Era hora de agir e não mais ficar remoendo mágoas passadas. E José mostrou-se à altura da tarefa. Aqui vale fazer um comentário importante: o ser humano demonstra maturidade quando deixa de perguntar o que as outras pessoas podem  fazer por ele e toma consciência do que ele mesmo pode fazer pelo próximo. Isso ocorre, por exemplo, quando o homem deixa de ser filho e assume o papel de pai. 

Perdoar é ato de obediência ao mandamento que Jesus deixou - afinal, somente seremos perdoados por Deus na medida em que conseguirmos perdoar o próximo. Mas perdoar também é ato que demonstra maturidade. É isso que permite a quem foi ofendido(a) ou prejudicado(a) entender as limitações e as fraquezas das pessoas que lhe causaram mal. 

José conseguiu perdoar porque foi sensível ao mandamento de Deus. Mas também porque conseguiu amadurecer como homem - fez a transição que cada um de nós também precisa fazer em algum momento da vida.

Com carinho