sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

UM CHAMADO À HONESTIDADE: O OITAVO MANDAMENTO

Parte de uma série sobre os Dez Mandamentos

O oitavo mandamento, assim como o sexto e o sétimo, também é bastante simples no seu conteúdo: “não furtarás” (Êxodo capítulo 20, versículo 15). Agora, como acontece com os outros, o oitavo mandamento parece trivial de entender mas há nuances que tornam a caracterização do certo ou errado não tão simples assim de fazer. 

Para exemplificar o que acabei de dizer, como você responderia às perguntas abaixo. Elas são ou não violações ao oitavo mandamento? 
  • O empregador que não paga um salário justo para aumentar seu lucro está roubando o empregado? 
  • Comprar produtos piratas é roubo dos direitos autorais de alguém? 
  • Usar o dinheiro público de forma ineficiente, gastando a maior parte em burocracia inútil, é roubar o contribuinte? 
  • Aumentar o lucro da empresa à custa do meio ambiente é roubar o público? 
  • Colar nas provas da escola é roubar o conhecimento do outro?
Todas essas questões são exemplos de violações ao oitavo mandamento. Mas o fato é que algumas dessas violações – como colar na prova ou comprar produtos piratas – gozam de certa aceitação social e a maioria das pessoas que procede assim acha que não está roubando, permanecendo com sua consciência em paz. 

Na verdade o oitavo mandamento não se refere somente a roubar bem ou dinheiro que pertença a outro. Envolve também não roubar um direito da outra pessoa para ganhar qualquer tipo de vantagem. 

O espírito desse mandamento, portanto, é fazer um chamado para as pessoas levarem uma vida de honestidade radical.

Dilemas morais
Agora, costumam aparecer uma série de dilemas morais relacionados com esse mandamento. Vou dar um exemplo típico: é legítimo roubar para dar de comer a quem está morrendo de fome?

O dilema aparece porque há aí um choque entre dois mandamentos: entre o que preserva o direito de propriedade e aquele que defende a vida. E, em situações como essa, a prioridade da Bíblia é sempre a preservação da vida. Em outras palavras o roubo não pode ser incentivado, mas em situações extremas, onde vidas precisam ser preservadas, ele pode ser justificado. É claro que se trata de situação muito, mas muito, extrema. 

A Bíblia traz um caso que dá sustentação ao que acabei de falar. Davi e seus homens entraram no Tabernáculo (a tenda precursora do Templo de Jerusalém) e comeram os doze pães consagrados que ali estavam (representavam as doze tribos de Israel). Seus homens tinham fome e Davi não encontrou outra solução. E ele não foi criticado por Deus por causa dessa atitude.

O fato é que o conceito de propriedade privada é aceito pela Bíblia mas não de forma absoluta. Tanto assim que, segundo a Lei Moisaica, a cada 50 anos, no chamado ano do Jubileu, toda terra vendida ao longo daquele período de tempo deveria voltar para seu proprietário original. E as dívidas deveriam ser anuladas (Levítico capítulo 25, versículos 10 a 16 e 23 a 31). 

Para a Bíblia, portanto, há limitações impostas ao direito de propriedade, mais ou menos como reconhece hoje em dia a maioria dos sistemas legais das democracias ocidentais. E tais limitações não constituem violações ao oitavo mandamento. E quando isso é entendido, os dilemas morais a que me referi acima são resolvidos sem muitas dificuldades.

Com carinho

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

QUATRO LIVROS CLÁSSICOS

Livros “clássicos” são aqueles que acabam por se tornar referências para todos os cristãos. Sempre podem ser usados e recomendados, pois não envelhecem. O vigor do seu texto permanece com a passagem do tempo.

A maioria dos livros cristãos publicados acaba simplesmente no esquecimento, mas isso não acontece com os "clássicos". Eles continuam a ser lembrados. Mas são poucos os textos que acabam alcançando essas estatura. 

Quero falar hoje sobre quatro livros que, para mim, são "clássicos" da literatura cristã. Dentre os seus autores, estão alguns dos meus preferidos, como C. S. Lewis e Philip Yancey. Esses livros não estão apresentados em ordem de preferência ou importância. Nenhum deles é caro e, como são bem difundidos, podem ser encontrados em sebos, para aqueles que quiserem pagar ainda mais barato.

Recomendo cada um deles a todos os leitores deste blog. Tenho certeza que vocês vão aproveitar a sabedora contida nesses textos. 

1) Cartas de um diabo a seu aprendiz, de C S Lewis
C. S. Lewis foi professor de inglês nas Universidades inglesas de Oxford e Cambridge e seguramente continua a ser um dos mais importantes escritores cristãos das últimas décadas (morreu na década de 60 do século passado). 

Produziu vários textos clássicos - como "Cristianismo Puro e Simples", quase todos já traduzidos para o Português. Além de livros mais teológicos, escreveu também o clássico infanto-juvenil “As Crônicas de Nárnia”, que já foi parcialmente filmado com bastante sucesso.

"As cartas de um diabo a seu aprendiz" é muito diferente de quase tudo que ele publicou. Trata-se de um “manual de operações” que um diabo velho escreveu para ensinar seu aprendiz a agir de forma efetiva no processo de desviar os seres humanos do caminho certo. O diabo mais velho inclui no tal "manual" todos os truques do ofício que aprendeu durante muitos séculos de exploração das fraquezas humanas.

O livro de Lewis é um mergulho profundo na alma humana, expondo suas fraquezas e dificuldades. Quando perguntado onde tinha se inspirado para escrever com tanta propriedade, Lewis respondeu simplesmente: “nas minhas próprias fraquezas”. 

Embora profundo, o livro é muito fácil de ler e há certas passagens hilárias. É simplesmente imperdível.

2) O Jesus que eu nunca conheci, de Philip Yancey
Esse autor norte-americano vai aos poucos ocupando um lugar parecido com o que C. S. Lewis ocupou em meados do século passado. Seus livros são invariavelmente excelentes e muito populares.

Yancey foi durante muito tempo o Editor-Chefe da mais famosa publicação cristã - a revista Christianity Today. Escreve de forma fácil e agradável, mas seus textos são profundos e levam à reflexão. 

O texto recomendado ganhou o prêmio de melhor livro do ano, da própria Christianity Today, em 1995. Sua visão sobre Jesus é realmente inspiradora. Não deixe de lê-lo.

3) Enigma da Graça: um comentário bíblico sobre o livro de Jó, de Caio Fábio
O pastor autor desse livro foi, sem dúvida, a maior figura do meio evangélico brasileiro durante as décadas de 80 e 90 do século passado. Sua abordagem inovadora da doutrina cristã, dando espaço para os aspectos psicológicos da caminhada do ser humano na sua fé, realmente se destacou da mesmice de outros autores - eu aprendi muito com ele.

Infelizmente passou por alguns problemas pessoais, por volta do ano 2000, e foi “crucificado” impiedosamente por boa parte da comunidade evangélica, sempre pronta a acusar e pouco preparada para perdoar. Sua confissão pública, na revista Vinde, dos problemas pessoais que viveu foi extremamente corajosa e o dignificou muito. Hoje dirige uma comunidade cristã que funciona basicamente na Internet, chamada "Caminho da Graça".

O texto recomendado, sobre o livro de Jó, foi publicado logo após Caio ter voltado à cena evangélica, depois de um período de silêncio que se auto impôs. Reflete bem seu sofrimento pessoal no período. 

É um texto lindo e traz abordagem inovadora do sofrimento humano - Caio o liga à Graça de Deus, daí o título do livro. Simplesmente o melhor comentário que já li sobre o livro de Jó. Não perca.

4) Mananciais no deserto, Lettie Cowman
Esse é um livro de leituras devocionais diárias muito simples, mas cheias de espiritualidade. Talvez seja o livro mais popular e influente entre os evangélicos brasileiros. 

É fácil de encontrar e muito barato. Se você ainda não o leu, faça isso. Se já leu, compre outro e abençoe alguém, dando-o de presente.

Com carinho

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O ADULTÉRIO ONTEM E HOJE: O SÉTIMO MANDAMENTO

Parte de uma série sobre os Dez Mandamentos

O sétimo mandamento diz simplesmente: “não adulterarás” (Êxodo capítulo 20, versículo 14). E a definição de adultério é manter relações sexuais ilícitas, que violem as regras estabelecidas pela sociedade. 

Isso parece ser relativamente simples de entender e aplicar. Mas na prática não é bem assim. Afinal, há grandes diferenças de entendimento quanto ao significado do casamento e de outros tipos de relações estáveis entre homens e mulheres desde o tempo bíblico até os dias de hoje.

O adultério na época da Bíblia
Israel era uma sociedade patriarcal, dominada pelos homens, onde a poligamia era admitida. E havia uma razão prática para isso, além do machismo: os homens morriam cedo por causa das doenças e das guerras e era necessário garantir a continuidade das linhagens. E isso era mais fácil de fazer se um homem tivesse várias mulheres - a única condição estabelecida era que o homem pudesse sustentar adequadamente suas mulheres e todos os filhos que gerasse com elas. 

Num ambiente assim, o que era considerado adultério? Tratava-se do sexo que um homem israelita fazia com a mulher (esposa ou concubina) de outro homem israelita. Portanto, um homem israelita casado poderia ter sexo com todas as mulheres que desejasse, e pudesse, inclusive aquelas pertencentes a outros homens, desde que não-israelitas. 

A razão para essa proibição era clara: garantir a pureza da descendência era muito importante, afinal o filho de um israelita tornava-se automaticamente herdeiro da Promessa de Deus. Era exatamente por causa disso que a virgindade da mulher era importante - garantia que a mulher não trazia filho de outro homem.

O adultério não era um crime apenas contra o homem a quem pertencia a mulher adúltera, mas um crime contra todo o povo israelita. Até porque os casamentos,  naquela época, eram um assunto público, resolvido através de negociações entre os pais dos noivos e com a participação da comunidade. 

O adultério hoje em dia
Temos hoje uma sociedade organizada de forma diferente. Os núcleos familiares são monogâmicos embora uma mesma pessoa possa participar de diferentes núcleos ao longo do tempo, em épocas sucessivas. Ou seja, um homem deve se relacionar sempre com uma única mulher, embora possa ter mais de uma relação monogâmica (casamento) ao longo do tempo. E vice versa.

E o casamento costuma ser resolvido mais com base em sentimentos do que em aspectos práticos, o que coloca a relação sobre bases totalmente diferentes daquela existente nos tempos bíblicos. 

Finalmente, não há uma preocupação tão grande de garantir a pureza da linhagem, não havendo mais necessidade de manter um estrito controle sobre o comportamento das mulheres.

Ora, num ambiente como esse, como fica o adultério? Para responder à pergunta, é preciso voltar ao significado do mandamento no tempo bíblico: ele foi estabelecido para garantir a estabilidade da sociedade israelita.

Mas no que se baseia a sociedade atual? Na família, estabelecida a partir de uma relação monogâmica. Portanto, isso precisa ser preservado.

Outro princípio seguido hoje é o da igualdade de direitos entre homens e mulheres. Aliás essa igualdade é um conceito bíblico pois, aos olhos de Deus, homens e mulheres têm o mesmo valor. E foi o cristianismo que levou a bandeira dessa igualdade adiante, tanto é assim que ela se faz presente nos países ocidentais, tradicionalmente cristãos, e não nos países muçulmanos ou budistas.

Sendo assim, aquilo que se aplica aos homens - direitos e deveres - também se aplica às mulheres. Não pode haver diferença.

Deve ser considerado adultério, portanto, todo sexo realizado, por homem ou por mulher, fora de uma relação monogâmica estabelecida consensualmente pelas partes, como é o caso do casamento.

E essa definição já responde imediatamente a outra questão: como ficam as relações estáveis mas não oficializadas por casamento? Para mim, quando um homem e uma mulher estabelecem um núcleo familiar desse tipo, o mandamento que veda o adultério também passa automaticamente a se aplicar a eles.

É importante perceber que não estou defendendo as relações monogâmicas informais e deixando de dar importância ao casamento, mas apenas analisando uma situação de fato, muito comum hoje em dia, para a qual não posso fechar os olhos.

Agora Jesus colocou uma "pimenta" na questão do adultério: Ele ensinou que a fidelidade apenas física não é suficiente. Assim, segundo seu ensinamento, também é violação do mandamento o adultério por pensamento e palavras, mesmo que não tenha sido consumado fisicamente (Mateus capítulo 5, versículos 27 e 28). Trata-se, portanto, de exigência muito mais abrangente.

Conclusão
A questão do adultério é extremamente séria pelos danos que pode causar ao tecido social. O adultério precisa ser entendido e tratado como a Bíblia o faz: como um erro grave e um pecado aos olhos de Deus. E é essa a razão para a existência do sétimo mandamento.

Com carinho

sábado, 24 de janeiro de 2015

AQUELES QUE SÃO "ANEXOS" NA VIDA

Carlão foi uma pessoa inesquecível. Morreu precocemente, de ataque cardíaco fulminante, e deixou muita gente inconsolável. Tinha no coração o ardor de converter as pessoas a Cristo e pouca paciência para a burocracia que costuma estar presente nas igrejas. Um grande servo de Cristo.

Esse amigo e eu, certa vez, chegamos juntos à conclusão que existem pessoas que são “anexos” na vida, o que acabou virando motivo de brincadeira entre nós. E eu explico o que isso quer dizer.

Um anexo é a parte de um documento importante que é colocado na parte final do texto. Fica ali porque as informações que contém não são tão importantes como o conteúdo do texto principal. De maneira similar, quando a pessoa é um “anexo”, não é um ator principal no "teatro" da vida, no máximo um "coadjuvante". Não fica na parte principal mas apenas complementa o que acontece ali.

“Anexos” são pessoas que dão suporte e cuidam dos outros(as), muitas vezes ajudando de maneira quase silenciosa. Enquanto ficam invisíveis, outras pessoas aparecem mais, estão em maior evidência.

No fundo, cada pessoa quer se sentir importante e reconhecida - ninguém quer ser um mero “anexo”. É por causa disso que algumas atividades, como cuidar da casa, não são populares - as pessoas as evitam enquanto podem.  
Falei tudo isso para chegar à obra de Deus. Ali também existem tarefas que parecem menos importantes e proeminentes. Em outras palavras, também existem "anexos" na obra de Deus.

Entregar folhetos na porta de entrada da igreja, ficar com bebês no berçário para que os pais possam assistir o culto, dar manutenção nas instalações da igreja ou mesmo gastar horas orando por outras pessoas, não dão visibilidade - parecem ser tarefas de menor importância. São todas do tipo "anexo". Por outro lado, fazer uma pregação inspirada, dirigir o louvor na frente da congregação, revelar profecias ou curar doentes parecem ser mais importantes. Fazem as pessoas serem notadas.

Agora, nunca podemos esquecer que na lógica do Reino de Deus importante mesmo são os "anexos", aqueles(as) que fazem atividades simples, movidos(as) apenas pelo desejo de servir ao próximo. Foi isso que Jesus ensinou. 

Na noite mesmo em que foi traído e preso, Ele lavou os pés dos discípulos, como sinal de humildade. E disse que quem quisesse ser maior no Reino de Deus deveria servir aos outros, ser pequeno, ser "anexo". Tal mensagem contraria a lógica humana. 

Por incrível que pareça, você e eu somos chamados para sermos “anexos”Somente quem aceita e entende isso vai cumprir as tarefas mais humildes com um sorriso nos lábios e alegria no coração. Vai se sentir gratificado com as pequenas vitórias, obtidas a cada dia: uma alma ganha aqui ou ali, uma pessoa que é consolada ou uma necessidade material que é satisfeita.

Eu mesmo posso dar testemunho disso: fui professor de Escola Dominical por cerca de 20 anos em diferentes igrejas, maiores e menores, importantes e extremamente simples. E lembro-me com especial carinho de um momento da minha “carreira”. Foi quando dei aulas numa igreja na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. O ambiente ali era pobre e o grupo pequeno, mas as pessoas apareciam na igreja com suas melhores roupas e demonstravam alegria genuína.

Se você quer mesmo fazer diferença na obra de Deus, saiba que o seu chamado é para servir. E, parafraseando o grande poeta Carlos Drummond de Andrade, é como se o Espírito Santo dissesse para cada um(a) de nós: “Vai, vai ser um “anexo” na vida..." 

Com carinho

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

NÃO MATARÁS: ANALISANDO O SEXTO MANDAMENTO

Parte de uma série sobre os Dez Mandamentos

O sexto mandamento – “não matarás” (Êxodo capítulo 20, versículo 13) – inicia a parte dos Dez Mandamentos que se refere ao relacionamento dos seres humanos entre si, estabelecendo as bases mínimas para a vida em sociedade. 

O princípio seguido por Deus ao estabelecer esses mandamentos é o respeito incondicional pela dignidade humana, mais especialmente pela vida, que a Bíblia considera um dom de Deus. 

O sexto mandamento parece ser bem fácil de cumprir: não podemos matar e pronto. Mas a realidade é mais complexa do que parece à primeira vista e há vários dilemas éticos – situações em que é difícil diferenciar o que está certo do que está errado - a serem considerados.

Pena de morte
A Bíblia tem diversas leis estabelecendo pena de morte, o que significa que há crimes que merecem esse tipo de punição. Sendo assim, fica difícil ser filosoficamente contra tal tipo de punição.

A primeira consequência dessa conclusão é que o significado real do sexto mandamento é não assassinarás, em outras palavras, não matarás de forma ilegal. Assim, por exemplo, é aceitável matar em autodefesa ou na defesa de outra pessoa. O mesmo pode ser dito sobre a guerra.

A Bíblia não questiona a validade da pena de morte em si mas discute a forma pela qual ela é decretada e aplicada. Há alguns princípios a serem seguidos. Primeiro,  a pena de morte somente pode ser decretada por quem tem autoridade legal e também moral para fazer isso. E há uma passagem que exemplifica esses conceitos com clareza. 

Uma mulher adúltera, que pela Lei Mosaica deveria ser morta por apedrejamento, é trazida até Jesus. E os homens questionam Jesus sobre o que deveria ser feito. Aí Jesus lhes disse: "...aquele que dentre vós estiver sem pecado,  seja o primeiro que lhe atire a pedra" (João capítulo 8, versículo 7).  Em outras palavras, a pena de morte, naquele caso, era legal, ou seja seguia a Lei, mas os homens que iriam aplicá-la não tinham autoridade moral para executar aquele ato. É claro que ninguém atirou pedra na mulher adúltera.

É exatamente por causa disso que sou contra a pena de morte: não vejo nos sistemas legais dos diferentes países, e muito menos ainda no Brasil, legitimidade moral para aplicar esse tipo de pena. Vale lembrar que, se tivermos pena de morte no Brasil, certamente vamos acabar matando pessoas inocentes, porque os erros judicias são uma realidade em nosso país.

Concluindo a pena de morte não viola o sexto mandamento. Mas sua aplicação precisa seguir princípios de legalidade e moralidade que raramente estão presentes na prática.

Suicídio
Aos olhos da Bíblia o suicídio é errado porque o suicida considera que sua vida é um "bem" sobre o qual ele(a) tem total direito e controle. Mas o dom da vida é dádiva de Deus e os seres humanos são apenas "fiéis depositários" desse dom. 

Por isso não somente o suicídio é errado, como também vai contra a vontade de Deus abusar do próprio corpo com práticas como fumo, bebida, excesso de comida, etc.  

Aborto
Acredito que nenhum cristão possa ser a favor do aborto, especialmente depois de ver filmes de fetos sendo extraídos do útero materno – são imagens que causam arrepios.

Mas há situações que envolvem dilemas éticos. Vou tratar pelo menos dois casos. O primeiro deles é aquele em que a vida da mãe corre risco por conta da gravidez. Há aí uma escolha: qual vida deve ser preservada? Sei de situações desse tipo em que a mãe resolveu dar continuidade à gravidez e algumas até se sacrificaram pelos filhos. Em outros casos as mães escolheram interromper a gravidez. É uma decisão difícil.

Minha opinião é que cabe à mãe (se ela estiver lúcida) decidir o que fazer, com o apoio do pai. E ninguém tem direito de passar julgamento sobre a decisão tomada - não há nada na Bíblia que critique uma mãe que decida preservar sua vida em risco.

Outra situação complexa é a gravidez decorrente de estupro. O estupro é crime hediondo, que traumatiza fortemente as mulheres vítimas dele. Ora, quando ao estupro se junta uma gravidez indesejada pela mulher, o problema é de grande seriedade.


Os homens não têm condição de avaliar como uma mulher se sente em uma situação como essa, assim como não podem avaliar o que é dar à luz. Por isso discordo frontalmente do Arcebispo Católico, que anos atrás excomungou uma menina que abortou, depois de ter sido estuprada pelo padrasto. Essa menina foi vitimada duas vezes, uma pelo seu agressor e a outra pela sua igreja.

Obrigar uma mulher a levar a termo uma gravidez que lhe lembrará a cada segundo a violência de que foi vítima, é desumano – eu não faria isso com uma filha minha. Por outro lado, a criança sendo gestada não tem culpa do que aconteceu e tem tanto direito de viver como você ou eu. 

Novamente trata-se de situação que somente pode ser resolvida pela própria mulher que vive esse tipo de experiência. E ela precisará contar muito com o apoio e o aconselhamento dos seus líderes espirituais e pais. E, mais uma vez, a ninguém mais cabe julgar a decisão tomada.

Eutanásia
Há duas situações a considerar. A primeira delas é a orto-eutanásia, ou seja aquela situação em que os médicos deixam de fazer novos procedimentos, que prolongariam a vida da pessoa de forma artificial. Em outras palavras, deixa-se a natureza seguir seu curso sem intervenções externas. 

Como todos vão morrer mesmo, essa é uma posição aceitável e que não contraria o que diz a Bíblia. A maioria das igrejas cristãs concorda com essa posição.

A outra situação é quando a morte é provocada, para diminuir o sofrimento, por exemplo, através de uma injeção letal. Entendo que essa postura viola o sexto mandamento e não deve ser aceita. As razões teológicas para essa posição são parecidas com a do suicídio.

Palavras finais
Há muitas outras situações não abordadas aqui, mas que poderiam ser discutidas: aborto no caso de feto sem cérebro, uso de cobaias humanas para testar tratamentos novos, as guerras injustas, etc. 

Não tenho espaço para discutir cada uma dessas possibilidades aqui, mas acredito que meus comentários anteriores tenham ajudado você a entender como aplicar o sexto mandamento na prática. 

Com carinho

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

PAI, MÃE E O QUINTO MANDAMENTO

Parte de uma série sobre os Dez Mandamentos

Honra a teu pai e a tua mãe, como o Senhor teu Deus te ordenou, para que se prolonguem os teus dias e para que te vá bem na terra que o Senhor teu Deus te dá.”                                          Deuteronômio capítulo 5, versículo 16
O mandamento para honrar pai e mãe tem duas características diferentes dos outros. Primeiro, é um mandamento positivo, ou seja estabelece algo que precisa ser feito, enquanto a maioria dos demais mandamentos tem cunho negativo ("não faça isso ou aquilo"). Ocorre que mandamentos positivos geram duas dificuldades adicionais para quem deseja cumpri-los: é preciso definir com clareza o que deve ser feito e também saber quando já se fez o bastante.

A outra diferença desse mandamento em relação aos demais é ter uma promessa ligada ao seu cumprimento. E se trata de uma promessa muito importante e especial.

O que é "honrar" pai e mãe

A palavra "honrar" (em hebraico, "kabed”) significa "dar peso ou importância". E esse é o significado do mandamento: os pais precisam ter importância e peso nas vidas dos seus filhos. Ou seja, aquela situação muito comum, onde os pais idosos são deixados em um “depósito” de velhinhos e os filhos nem vão lá visitá-los, é uma clara violação do andamento. Os pais podem até estar bem cuidados no tal asilo, mas se não mantiverem sua importância e peso na vida dos filhos, o mandamento está sendo violado. Simples assim. 

A explicação para essa exigência de Deus é fácil de entender. Durante a infância, a criança precisa ser protegida e cuidada pelos seus pais - são eles que se interpõem entre ela e os problemas do mundo. Essa necessidade de proteção vai diminuindo ao longo do tempo, até que a situação se inverte, quando os pais chegam à velhice. Aí são eles que passam a depender da proteção dos filhos. 

E se os pais têm obrigação de zelar e prover as necessidades dos seus filhos enquanto eles não podem fazer isso, nada mais justo que aconteça a recíproca quando são os pais que se vêem limitados. É justo.



Mas há mais. Para o povo de Israel, para quem esse mandamento foi originalmente transmitido, havia uma razão adicional. Ocorre que a Aliança que Deus fez com esse povo estava baseada no sangue, isto é as pessoas entravam nela ao nascer. Portanto, os pais funcionavam como "porta de entrada" para os filhos. Daí vinha a grande importância dos pais. 

Hoje, na Nova Aliança, caracterizada pelo sacrifício de Jesus na cruz, os pais continuam a ser "porta de entrada", mas de forma diferente: eles têm responsabilidade de encaminhar seus filhos no caminho da fé em Cristo, levando-os à igreja, ensinando-lhes a vontade de Deus, dando-lhes o exemplo, etc. Trata-se de papel de enorme importância. 

Ora, tudo isso deixa claro que o quinto mandamento é dirigido para adultos e não para crianças. É preciso ter entendimento pleno para poder "honrar" pai e mãe. Portanto, é errado os pais cobrarem obediência dos filhos pequenos citando esse mandamento. Não é sobre isso que o quinto mandamento fala.

Uma pergunta que ouço com frequência é: e se os pais tiverem sido maus - abandonado ou tratado mal os filhos na infância e adolescência -, ainda assim o quinto mandamento se aplica? Sei que a resposta não será fácil de aceitar para muitos(as), mas não há exceções ao mandamento. Ele é válido sempre - a Bíblia não diz que somente devem ser honrados pais bons e amorosos. Todos devem ser honrados.

Mas não é exigido dos filhos amarem os pais ou fecharem os olhos para os desmandos deles. Nada disto. O mandamento é para que os filhos não abandonem os pais à própria sorte, especialmente quando eles ficarem velhos. E os pais que tiverem descumprido suas obrigações terão que se entender com Deus pelo que fizerem de errado. A Ele cabe a punição (Efésios capítulo 5, versículo 3).

A promessa
O quinto mandamento é o único com promessa. E, na verdade, há duas versões para o que é prometido. A primeira está no livro do Deuteronômio (ver a citação no início deste post). A outra versão aparece em Efésios capítulo 5, versículos 2 e 3, sendo ligeiramente diferente: “Honra a teu pai e tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa, para que te vá bem e sejas de longa vida sobre a terra”.


Em ambas as versões a promessa é composta de duas partes. A primeira fala em prolongar a vida sobre a terra - viver mais tempo - o que é bastante simples de entender.

A segunda parte refere-se a "ir bem", ou seja ter uma vida recheada de coisas positivas. Na versão do Deuteronômio, o texto fala em ir bem na terra de que Deus deu (a Palestina ou Terra Prometida). Isso faz sentido porque o público original dos Dez Mandamentos era o povo de Israel, herdeiro dessa terra. 

Já na carta aos Efésios, escrita cerca de 1.500 anos depois do Deuteronômio, o público era constituído tanto de israelitas como gentios (não judeus). Aí Paulo tirou a referência à terra que Deus tinha dado, pois ela não se aplicava ao seu público ouvinte. Mas manteve o mesmo sentido, preservando o conceito de "ir bem". O sentido é exatamente o mesmo.

Resumindo, a promessa relacionada com esse mandamento está relacionada com longevidade e ter uma vida boa, o que acredito seja o desejo de cada pessoa. Portanto, se você não foi convencido a cumprir o quinto mandamento pelas razões que apresentei na primeira parte deste post, acredito que a promessa a ele atrelada seja motivo suficiente para que você faça isso.  



Com carinho

domingo, 18 de janeiro de 2015

O SÁBADO E O QUARTO MANDAMENTO

Parte de uma série sobre os Dez Mandamentos

Lembra do dia do sábado para o santificar. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o shabbat do Senhor teu Deus...                  Êxodo capítulo 20, versículos 8 a 10

O mandamento referente à guarda do sábado é um dos que mais gera discussões. E há duas questões diferentes envolvidas: qual é o dia da semana que precisa ser preservado e o que é “santificar” o sábado. 

A qual dia o mandamento se aplica?

O livro do Gênesis (capítulo 2, versículos 1 e 2) diz que o mundo foi criado em seis dias e que no sétimo dia Deus descansou. Por causa disso esse último dia deve ser considerado santo (separado) para Deus.



Agora, não se pode esquecer que, quando o Gênesis descreveu a criação do mundo, um evento muito complexo, era natural que o texto usasse para compor a narrativa as referencias de tempo mais conhecidas, ou seja o dia e a semana. Afinal, dias e semanas sempre foram facilmente observados pelo movimento do sol e pelas fases da lua. 

E o texto usa "dias" e "semanas" de forma metafórica, ou seja não se refere a eles exatamente como um período de 24 horas e a soma de 7 períodos de 24 horas. Portanto, quando o texto bíblico fala do sétimo dia não está se referindo ao dia que hoje conhecemos como "sábado". 

Portanto, não há qualquer correlação real entre o sétimo dia da criação - aquele em que Deus descansou - e o sábado dos dias de hoje. Simples assim. Em outras palavras, a briga para saber qual dia da semana melhor caracteriza aquele que Deus separou para ser santificado - sábado ou domingo - não faz muito sentido. 

A única coisa que o relato do Gênesis permite afirmar é que Deus estabeleceu um dia da semana para ser separado (santificado). Nada mais. E os judeus não estão errados em obedecer o mandamento usando o dia atual do sábado, contado a partir do cair do sol de sexta feira, como também os cristãos não estão errados ao considerar esse dia como o domingo (em homenagem ao dia da semana em que Jesus ressuscitou), contado de 0 a 24 horas. Não há qualquer violação ao mandamento num ou noutro procedimento. 

E tanto é assim que a Bíblia mostra os primeiros cristãos guardando inicialmente o dia tradicionalmente seguido pelos judeus (Atos capítulo 13 versículo 14) e depois passando a observar o domingo (Atos capítulo 20, versículo  7). A escolha é essencialmente uma questão de tradição. E entendo que cada um pode seguir a tradição que preferir. 

O que é santificar o sábado?
A palavra hebraica “shabbat” quer dizer “dia separado para descanso”. E esse foi o objetivo de Deus: estabelecer um dia para descanso, evitando que as pessoas trabalhassem todos os dias do ano e acabassem como animais de carga, sem qualquer dignidade humana.

Deus estabeleceu que é preciso haver tempo para conviver em família, cantar, dançar, criar arte, conversar e, sobretudo, para se relacionar com Ele. Esse é o sentido tanto do tratamento especial dado a um dia da semana, como também do estabelecimento de feriados religiosos, como a Páscoa ou o Pentecostes.

Para que esse dia de descanso fosse respeitado por todos, e especialmente daqueles que lucram com o trabalho dos outros, nada mais efetivo do que caracterizar esse dia como separado (santo) através de uma lei divina. E essa foi a razão para o estabelecimento do quarto mandamento. 

E essa prescrição de um dia para descanso acabou migrando da prática religiosa para a legislação civil e hoje há pelo menos um dia para descanso estabelecido nas leis trabalhistas de todos os países civilizados. 

Agora, como em tal dia não podia haver trabalho, houve uma discussão entre os judeus, nos tempos bíblicos, sobre qual era a definição de “trabalhar”. Cozinhar seria trabalhar? Para a mulher que passava a semana cozinhando, certamente sim e veio daí a proibição quanto a cozinhar nesse dia. E andar, seria isso também um trabalho? É claro que andar dentro de casa não, mas andar entre uma cidade e outra talvez sim.

Com base nessas discussões, os judeus foram estabelecendo leis que passaram a regular tudo o que se poderia ou não fazer nesse dia especial. E, para piorar as coisas, surgiram as chamadas “leis de cerca”, regras que tornaram as exigências ainda maiores para trazer garantia absoluta que o mandamento não fosse violado. Por exemplo, se a distância limite que se poderia andar sem constituir trabalho fosse, digamos, 2 km, criou-se uma "cerca" estabelecendo o limite de 750 m. 

Assim, os judeus criaram cerca de 60 leis caracterizando aquilo que podia ou não ser feito no sábado. E acabou que o sábado, ao invés de ser um período para relaxamento, tornou-se motivo para ansiedade - havia discussão teológica até sobre se uma pessoa poderia ser curada nesse dia.

Foi aí que Jesus "matou" a charada quando disse (Marcos capítulo 2, versículo 27): “o sábado foi estabelecido por causa do homem e não o homem por causa do sábado”. Em outras palavras, o sábado foi feito para preservar a dignidade das pessoas, impedindo que elas se transformassem em animais de carga. Para dar-lhes condição de estabelecer um relacionamento com Deus. Mas definitivamente o sábado não foi criado para se tornar um fim em si mesmo e escravizar as pessoas. 

Portanto, guardar o sábado é reservar um dia da semana aproveitar a vida em família, relaxar, criar e, sobretudo, para estar na presença de Deus - louvando, ouvindo sua palavra e orando. Nada mais do que isso.

Com carinho

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

OS ATENTADOS TERRORISTAS

O mundo assistiu chocado a mais uma série de atentados terroristas, desta vez ocorridos em Paris. Já ocorreram atentados sérios em Nova Iorque, Londres, Mumbai e outras importantes cidades e agora chegou a vez da capital francesa. 

Esse atentado, assim como a maioria dos outros, foi conduzido por radicais islâmicos. Dessa vez eles se incomodaram com reportagens e caricaturas sobre o profeta Maomé consideradas heréticasE, para eles, heresias devem ser punidas com a morte. Simples assim.  

O atentado gerou uma série de reações de suporte à revista francesa Charlie Hebdo que teve boa parte da sua redação dizimada no ataque terrorista. O novo número da revista, que acabou de ser publicado, vendeu cerca de 5 milhões de exemplares, quando o normal são cerca de 60 mil exemplares vendidos. Houve ainda gigantescas manifestações na capital francesa, que recebeu a visita de muitos líderes mundiais, todos para mostrar suporte à liberdade de expressão, valor que todos veem como sendo outra vítima desse ataque extremista.

Tal tipo de evento trágico sempre gera muitas discussões e gostaria de abordar aqui duas questões muito importantes que costumam ser levantadas nesses casos, ambas relacionadas com a atribuição da culpa pelo que aconteceu. 

A primeira se refere à eventual responsabilização não só dos terroristas mas também da religião - no caso o islamismo - que eles seguem. Muitas pessoas acham que a religião em si é a responsável real por incitar o uso da violência em defesa dessa fé.

Eu penso que tal tipo de avaliação é injusta. E não falo isso por conta de simpatia pelo islamismo, coisa que nem tenho, por conta da forma como trata as mulheres, sempre discriminadas, e também pela redução das liberdades individuais que costuma gerar. Os países de maioria islâmica não costumam ser democráticos nem respeitar os direitos das minorias e isso é um fato incontestável.

Mas sei separar a religião, como doutrina, daquilo que as pessoas, especialmente os radicais, fazem quando dizem seguir essa doutrina. O próprio cristianismo passou por esse tipo de problema, por exemplo, com as Cruzadas, a Santa Inquisição e diversas guerras religiosas. E todos sabem que a doutrina cristã defende o amor ao próximo, como um de seus valores fundamentais. 

Ocorre que pessoas, nominalmente cristãs, cometeram toda a sorte de barbaridades e as "justificaram" com base na sua religião. Foram buscar na Bíblia razões para agir como agiram. As Cruzadas, por exemplo, foram justificadas como uma iniciativa para "libertar" os lugares santos (relacionados com a vida de Jesus) do controle muçulmano. A Santa Inquisição buscava combater heresias e converter pagãos ao cristianismo. E assim por diante.

É preciso separar a religião, como doutrina, dos atos cometidos em seu nome. Não é justo, portanto, atribuir ao cristianismo a responsabilidade pelas Cruzadas. E da mesma forma não é justo colocar na conta do islamismo os atentados terroristas. É preciso separar uma coisa da outra.

A segunda questão que precisa ser discutida é a tendencia que existe de atribuir parte da culpa às próprias vítimas. Muitas pessoas acham que as heresias publicadas pela revista Charlie Hebdo são em parte responsável pelo que aconteceu. Ou seja, se a revista não tivesse dado causa, ao publicar heresias, não teria sofrido o ato terrorista. 

Infelizmente esse pensamento é mais comum do que parece e ele me incomoda muito. Afinal, é injusto jogar qualquer parte da culpa sobre as vítimas. Existe um raciocínio muito parecido no caso do estupro: se a mulher atacada não tivesse usado roupa provocante e/ou não tivesse se comportado de modo inconveniente, não teria sido abusada. 

Ora, uma coisa nunca pode justificar a outra. O uso de roupa provocante nunca pode justificar um ataque de natureza sexual. Nunca. Aquele que ataca sexualmente uma mulher é uma pessoa doente e acabará por cometer esse tipo de crime por uma razão ou outra. A vítima não tem culpa de nada.

A mesma coisa se pode dizer do ato terrorista. É possível até que os jornalistas da Charlie Hebdo tenham se excedido aqui ou ali, ao atacar diversas religiões, mas nada justifica o que foi feito. Radicais sempre vão encontrar "razões" para "punir" heresias reais ou inventadas pelas suas mentes doentias. 

É claro que prudência é sempre recomendável: por exemplo, uma moça sozinha deve saber onde pode ir, como pode se vestir e assim por diante. E é aconselhável que seja prudente, evitando se expor desnecessariamente. Mas, mesmo se for imprudente, isso não justifica um eventual ataque a ela. A mesma coisa ocorre com jornalistas que escrevem texto satíricos sobre diferentes religiões - eles precisam tomar cuidado com o que fazem e levar em conta os radicais soltos por aí. Mas se forem imprudentes, ainda assim isso não justifica eventuais ataques a eles.

Concluindo, ataques terroristas são um câncer da sociedade moderna. Infelizmente eles vieram para ficar, porque se tornaram armas que geram grande publicidade. E, de certa forma, os terroristas já foram vitoriosos - basta ver as inúmera precauções contra ataques que precisam ser tomadas em relação aos passageiros de aviões. O fato é que os ataques terroristas já mudaram para sempre a vida das pessoas.

Agora, não devemos tornar as coisas ainda piores, colocando a culpa onde ela não deve estar - sobre as próprias vítimas ou sobre seguidores pacíficos de determinada religião. 

Com carinho 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

UM DISCÍPULO RELUTANTE

Tenho um amigo que apelidei de “discípulo relutante”. Ele é uma pessoa muito boa, “pau para toda obra” e tenta crescer na sua fé em Cristo. Sua “relutância” vem do fato de querer entender tudo que se relaciona com Deus. E de condicionar o crescimento da sua fé a esse entendimento. Reluta em se entregar, até entender tudo bem direitinho. 

Sua trajetória na fé é cheia de perguntas como: Por que o mundo tem injustiça? Por que temos que perdoar a quem nos fez mal? Por que Deus não impede que seus filhos sofram? Às vezes consegue respostas que o satisfazem, mas outras vezes, como qualquer um de nós, as respostas simplesmente não são suficientes. Aí ele fica "congelado", deixa de avançar.  

Meu amigo é parecido com muitas pessoas que conheci - são aqueles(as) que querem chegar a Deus basicamente pelo entendimento. Minha própria trajetória pessoal se deu mais ou menos por esse caminho.

O problema com os "discípulos relutantes" é que ninguém consegue obter todas as respostas de que precisa. Tentar entender Deus - um Ser onipotente, onipresente e onisciente -, não é possível para quem é limitado e finito, como nós. É assim que as coisas são.

A doutrina cristã denomina aqueles temas que não podem ser entendidos de "mistérios de Deus". Alguns exemplos são a natureza da Trindade Santa (Deus Pai, Filho e Espírito Santo), como foi possível a Jesus ser homem e Deus ao mesmo tempo, o fato de haver mal no mundo, dentre outros.

E os "mistérios de Deus" somente podem ser compreendidos (discernidos) espiritualmente, com os “olhos” da fé. É como disse um filósofo cristão: "creio para poder entender". Mas discípulos relutantes têm dificuldade em fazer isso. Se recusam usar o recurso da fé para entender as coisas de Deus. 

Essas pessoas acabam presas numa armadilha: não entendem esses "mistérios", sua fé não cresce e, por continuar pequena, não pode ser usada para entender aquilo que a mente não alcança. 

Talvez surpreenda a muitos, mas Deus espera de seus seguidores que usem sua fé para superar as dificuldades. Sempre. Tanto é assim, que a Bíblia ensina ser impossível agradar a Deus sem fé. 

Meu amigo, assim como eu fiz, vai ter que escolher se entregar, mesmo sem entender tudo. Confiar no Deus que criou a cada um de nós e nos ama tanto que mandou seu Filho para morrer por nós. Simples assim.

Com carinho

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O QUE É TOMAR O NOME DE DEUS EM VÃO?

Parte de uma série sobre os Dez Mandamentos

Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão, porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão”                                                 Êxodo capítulo 20, versículo 7
Os nomes das pessoas e das coisas são muito importantes. Tanto é assim que o grande escritor William Shakespeare chegou a escrever em uma das suas  peças: se a rosa tivesse outro nome, não cheiraria tão doce”. 

Nomes são tão importantes que reagimos mal quando nosso nome é escrito ou pronunciado errado. E nomes ou apelidos (uma outra forma de nome) ridículos podem causar complexos nas pessoas.

Nos tempos bíblicos, os nomes eram ainda mais importantes pois, na cultura daquela época, eles caracterizavam a personalidade das pessoas - hoje em dia os nomes são escolhidos essencialmente por razões estéticas ou de marketing. Alguns exemplos demonstram bem a importância dos nomes nos tempos bíblicos: 
  • Jacó mudou de nome - para Israel = “aquele que luta com Deus” - depois do episódio da sua luta com o anjo (Gênesis capítulo 32, versículos 22 a 30).
  • Quando Moisés se encontrou com Deus pela primeira vez, no monte Sinai, perguntou qual era o nome d´Ele. Afinal conhecer esse nome, que ninguém até então sabia, iria demonstrar ao povo de Israel que Moisés tinha intimidade com Deus.
  • Outros personagens bíblicos importantes também mudaram de nome (por exemplo, Abrão virou Abraão) ou passaram a ser conhecidos por apelidos  (por exemplo, Simão virou Pedro), à medida que evoluíram na sua vida espiritual.
E é por causa da importância do nome que os cristãos devem ser batizados, segundo ensina a Bíblia, "em nome" do Pai, Filho e Espírito Santo. Pela mesma razão, os cristãos concluem suas orações "em nome" de Jesus. E repreendem os demônios também usando esse nome.

Dar nome a alguém ou a alguma coisa significa que quem nomeia tem poder espiritual sobre quem é nomeado. Por isso são os pais que costumam dar o nome dos filhos – essa prática sempre existiu em todas as culturas. Foi por causa disso que Deus pediu a Adão que nomeasse os animais (Gênesis capítulo 2, versículos 19 e 20).

Agora, como ninguém pode compreender totalmente a natureza de Deus e/ou ter poder sobre Ele, ninguém poderia nomeá-lo. Por isso Ele mesmo disse a Moisés como deveria ser chamado: “Eu sou o que sou”, ou ainda segundo algumas traduções “Eu serei o que sempre tenho sido” (Êxodo capítulo 3, versículos 13 a 15). 

É importante perceber que o mandamento de não tomar o nome de Deus em vão segue imediatamente o mandamento de não fazer imagens ou figuras d´Ele, pois uma coisa é, de certa forma, continuação da outra. 

O mandamento contra o uso indevido do nome de Deus ensina que as pessoas não podem tomar algo que é sagrado e empregá-lo de forma indevida (em vão). Assim as pessoas não podem usar esse nome em interjeições (algo que fazem com frequência), adivinhações, piadas e, sobretudo, nem em promessas vãs ou maldições. Fazer isso seria desrespeitar sua majestade e santidade.

É exatamente por causa desse mandamento que os judeus nunca se referem a Deus pelo seu nome. Quando se referem a Ele usam, de forma alternativa, as palavras "Senhor" ou "Eterno". E a mesma abordagem pode ser encontrada em muitas traduções da Bíblia: quando aparece "SENHOR" (Adonai, no hebraico) é porque no texto original consta o nome de Deus.

Acho que há ainda uma dúvida a ser esclarecida: é errado jurar em nome de Deus, no caso de uma assunto sério? É sim, muito errado. Mas é interessante perceber que a proibição não vem do terceiro mandamento e sim de uma ordenança específica, proibindo esse tipo de prática, dada pelo próprio Jesus (Mateus, capítulo 5 versículos  33 a 37).

Concluindo, as razões para o terceiro mandamento são simples de explicar e entender, como também é relativamente fácil cumprir o que é pedido por Deus nesse caso. Por isso é surpreendente perceber tratar-se de um dos mandamentos mais violados pelas pessoas. E isso acontece por pura falta de cuidado. Nesse particular, os cristãos têm muito que aprender com os judeus.

Com carinho

sábado, 10 de janeiro de 2015

AS RAZÕES PARA O SEGUNDO MANDAMENTO

Parte de uma série sobre os Dez Mandamentos

O segundo mandamento – “não farás para ti imagens de escultura..., não as adorarás, nem lhes darás culto” (Êxodo capítulo 20, versículos 4 e 5) – é bastante controvertido. Isso porque uma boa parcela do cristianismo – os católicos romanos e os ortodoxos – têm e usam regularmente nos seus cultos imagens e figuras consideradas sagradas. Já os evangélicos criticam fortemente essa prática e a consideram uma violação clara do mandamento.

Por que será que Deus estabeleceu essa proibição? Quem está certo nessa polêmica? Para tentar esclarecer, vou começar analisando o que leva uma pessoa a fazer uma imagem ou uma figura de Deus (ou Jesus) e usá-la num culto. É importante ficar claro que estou deixando de fora da discussão as imagens ou figuras feita puramente por razões artísticas - por exemplo, uma gravura que venha a ilustrar um artigo de uma revista. Tal coisa, no meu entender, não é proibida e a maioria dos cristãos provavelmente concorda comigo.

As imagens e figuras de Deus usadas em cultos tornaram-se comuns porque não é fácil para a maioria das pessoas adorar um Ser que não conseguem ver. E esses objetos são usados para tornar mais concreta a presença de Deus. 

Agora, essa prática gera três tipos de problemas. Em primeiro lugar, a concepção que qualquer ser humano, mesmo o melhor dos artistas, pode fazer de Deus é muito limitada. Assim, qualquer imagem ou gravura, mesmo as mais bonitas, sempre é uma visão distorcida da realidade. 

E como as pessoas se acostumam com essas representações, elas acabam por vir a perceber Deus através dos olhos dos artistas – não é por acaso, por exemplo, que a maioria das pessoas entende Deus como um velho bonito, de longas barbas brancas, forma como Ele foi representado por Michelangelo nas pinturas do teto da Capela Sistina, no Vaticano. É claro que Deus não é assim.

O que as pessoas não percebem de imediato é como as imagens distorcidas de Deus geram consequências ruins. Por exemplo, como Ele foi sempre retratado pelos artistas como homem, as pessoas tendem a vê-lo como pertencendo ao sexo masculino, o que não é verdade. E essa percepção incentivou a noção que o sexo masculino é superior e gerou todo um esquema de dominação da mulher, pelo homem, ao longo da história. O mesmo pode ser dito de Deus ser retratado como de cor branca, reforçando a noção que pessoas com essa cor de pele são superiores às demais.

Em segundo lugar, as imagens ou gravuras usadas nos cultos frequentemente acabam se tornando sagradas, corporificações da Divindade. Esse tipo de erro é visto com muita frequência na igreja Católica Romana. 

Ora, Deus não se agrada disso - a adoração deve ser reservada a Ele e a Ele somente. E há um exemplo bíblico que ilustra bem isso. 

O terceiro problema está relacionado com o poder adquirido pelos sacerdotes que controlam os objetos sagrados. Há vários exemplos na história de situações em que alguns padres católicos negaram aos fiéis acesso às imagens consideradas sagradas para obrigar as pessoas a se curvarem à sua vontade. Ora ninguém pode ter esse tipo de poder. Ninguém.

Resumindo, acho que ficou claro haver boas razões para proibir o uso de imagens e gravuras em cultos. O problema não está nas imagens e gravuras em si, mas sim no uso errado que as pessoas inevitavelmente acabam fazendo delas. 

Com carinho

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O TORCEDOR FANÁTICO E O PRIMEIRO MANDAMENTO

Parte de uma série sobre os Dez Mandamentos

Certa vez vi uma reportagem na tv sobre Giba, torcedor fanático de um grande time de futebol de São Paulo. Ele é tão fanático que, durante o período em que não há futebol (do começo de dezembro ao começo de fevereiro), fica vagando pela sua casa, com olhar perdido, sem ter o que fazer. 

Os depoimentos que sua mulher e filha deram ao programa foram impressionantes: elas são absolutamente conscientes que o time de futebol de Giba vem em primeiro lugar e somente depois vem a família. E elas procuram conviver com essa realidade da melhor forma possível. 

Existem milhares de “Gibas” por aí - um estudo de 4 anos atrás, feito por uma empresa de marketing, mostrou que a maior fidelidade do homem médio brasileiro é com seu time de futebol. Ele pode trocar de mulher, de casa, de cidade, de profissão e até de religião, mas dificilmente passa a torcer por outro time.

Ora, eu não sou contra o futebol e até fico feliz quando meu time do coração ganha. Mas a ênfase excessiva de Giba no seu time é totalmente errada, beira o fanatismo e a irracionalidade.
  
E isso me faz lembrar do primeiro dentre os Dez Mandamentos: “não terás outros deuses diante de mim” (Êxodo capítulo 20, versículos 1 a 3). Esse mandamento é normalmente compreendido como se referindo a outras divindades, como, por exemplo, aquelas cultuadas no hinduísmo ou no candomblé. O mandamento alerta que é errado prestar culto a qualquer outra divindade que não seja Deus. 

Mas o significado desse mandamento vai além do culto a outras divindades. Aplica-se também a todas as coisas que podem dominar a vida da pessoa, incluindo seu time de futebol, o dinheiro, um partido político ou até mesmo a família. O mandamento estabelece que nada disso pode ter prioridade sobre Deus. 

É interessante perceber como Jesus discutiu essa questão. Ele ensinou que as pessoas devem amar a Deus de toda a alma e de todo o entendimento (Mateus capítulo 22, versículos 35 a 38). As pessoas são requeridas a ter um amor por Deus integral, absoluto.

Mas como pode haver um mandamento obrigando as pessoas a amar alguém? Como é possível legislar sobre o sentimento? Afinal, todos sabem que ninguém controla seus próprios sentimentos.

Na verdade, o ensinamento de Jesus não se refere a um sentimento. Ele cobra das pessoas AÇÃO - que elas ajam como se amassem a Deus acima de todas as coisas. Que ajam colocando Deus em primeiro lugar. E é exatamente isso que o Primeiro Mandamento diz. 

Agora, colocar Deus em primeiro lugar não é fácil. Sei disso por experiência própria. As circunstâncias do dia a dia, as relações afetivas, o desejo de lazer, a vontade de consumir, etc, tudo isso puxa as pessoas em direção contrária a Deus. 

Não estou propondo que você deixe de lado família, relacionamentos amorosos, trabalho, time de futebol, lazer ou qualquer outra dessas coisas por causa de Deus. Nada disso. Apenas que não permita a nenhuma delas dominar sua vida, como acontece com Giba, o torcedor fanático. Simples assim.

Com carinho