quarta-feira, 14 de novembro de 2012

VENCER OU FLORESCER?

Um dos ministros do Supremo Tribunal Eleitoral tem uma história de vida muito bonita, pois começou bem pobre e lutou muito para chegar onde hoje está. Normalmente, em casos como esse, diz-se que a pessoa "venceu" na vida. Também é costume falar o mesmo de quem ganhou dinheiro, adquiriu fama ou poder.

A Bíblia também usa metáforas de disputa ou de guerra para apresentar verdades espirituais. Por exemplo, ela fala em "vencer" a tentação, "vencer" a "corrida" para a vida eterna, ou lutar uma "batalha" espiritual contra as forças do mal. O apóstolo Paulo chega até mesmo a detalhar uma "armadura" espiritual que o cristão deve usar para se defender dos ataques do mal (Efésios capítulo 6, versículos 10 a 18). 

Sem deixar de reconhecer que esse tipo de metáfora é muito útil para descrever os embates que existem tanto na vida material quanto espiritual, penso que há uma ênfase excessiva nesse tipo de abordagem, que ofusca uma verdade maior em nossas vidas: nosso objetivo real na vida deve ser "florescer", ou seja realizar plenamente nossas potencialidades como seres humanos. 

E "florescer" é muito diferente de "vencer". É claro que uma pessoa que "vença" na vida também pode "florescer" nela - uma coisa não impede a outra. Mas é importante perceber que vitórias não garantem automaticamente um florescimento da pessoa como ser humano - afinal, é comum ver gente vitoriosa profissionalmente que é um desastre na vida pessoal e/ou espiritual.

As condições para "florescer"
Uma planta, ao florescer, cumpre sua missão na vida - é preciso lembrar que a reprodução das plantas está ligada às flores e/ou aos frutos, ou seja sem florescimento a planta não deixa descendência. 

E para que uma planta floresça é preciso duas coisas: estar  saudável e que o tempo seja o certo. E no campo espiritual ocorre o mesmo: para sua vida espiritual "florescer" você vai precisar ter "saúde" e estar no "tempo" certo de Deus. 

A saúde da planta tem a ver com a qualidade da terra onde está assentada, o acesso à água abundante e à luz do sol, bem como à capacidade de resistir aos inimigos - as pragas, insetos, etc. 

Na parábola do semeador, Jesus falou exatemente sobre isso: na vida espiritual, a semente do Evangelho de Cristo é lançada em muitos tipos de terra diferentes e somente floresce quando a terra (a pessoa e suas circunstâncias de vida) é adequada para isso (Mateus capítulo 13, versículos 10 a 23). Em outras palavras, a "terra" é boa quando a pessoa é receptiva ao Evangelho e não deixa que as demais preocupações da sua vida abafem seu "florescimento" espiritual.

A água e a luz do sol, necessárias para a nutrição da planta, se referem à presença do Espírito Santo na vida da pessoa - sem Ele, não há como ter energia uma levar uma vida espiritual saudável.

A resistência da planta às pragas, insetos, etc, tem a ver justamente com a capacidade da pessoa de resistir aos ataques do mal (tentações, opressões, etc), o que se consegue vestindo a "armadura" espiritual a que me referi acima.

O tempo certo para florescer
Mas não há florescimento possível duma planta fora do tempo certo. E há dois aspectos a levar em conta aí. O primeiro é o amadurecimento do organismo da planta - se ela acabou de ser plantada, mesmo com boa terra, água e tudo o mais, não vai poder dar flores e/ou frutos, pois suas estruturas orgânicas não estão prontas. É preciso esperar pelo necessário amadurecimento.

O mesmo se dá na vida espiritual: o apóstolo Paulo escreveu que o cristão precisa amadurecer espiritualmente para poder entender plenamente e viver de fato aquilo que Jesus ensinou.

O segundo aspecto é a estação do ano: se ela não for a primavera ou o verão, não há florescimento - afinal, plantas não dão flores ou frutos no inverno. E a chegada da estação certa não depende da planta e sim do ciclo da natureza, mas quando a primavera chega, a planta precisa estar pronta. 

A estação certa para o cristão é o tempo que Deus determinar para ele. E o tempo de Deus é diferente do nosso, pois para Ele, mil dias são como um segundo e vice-versa (veja mais).

Certa vez, comecei a conversar com um taxista e ele me confessou que tinha ouvido falar de Jesus muito tempo antes e que aquela palavra estava dentro dele, incomodando-o, embora ele não tivesse feito nada a respeito até então. Depois da nossa conversa, ele me disse que ia finalmente buscar uma igreja e passar a viver o cristianismo.

Para aquele taxista, o plantio da semente tinha sido feito muito tempo antes e a semente ficou lá adormecida. E o tempo de Deus para isso, não sei porque, só chegou quando ele conversou comigo. 

As consequências do florescimento
Primeiro e talvez o mais importante, seja a capacidade de reproduzir, pois sementes ficam nas flores ou frutos. E assim também é na vida espititual - quem floresce tem condições de trazer outras pessoas para Cristo. 

A segunda consequência é que uma planta com flores e frutos é linda de se ver e cheirar. E o mesmo acontece na vida espiritual: aquele que "floresce" passa ser alguém do qual todos querem se aproximar para se alimentar e para sentir o "bom perfume" de Cristo.  

Portanto, seu principal objetivo na vida não é "vencer" e sim "florescer". Vitórias são imprescindíveis, mas constituem apenas um meio através do qual você poderá "florescer" espiritualmente, realizar todo o seu potencial como ser humano. 

Com carinho

sábado, 10 de novembro de 2012

BASTA A CADA DIA O SEU MAL?

"Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? ou: Com que nos vestiremos? ... não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal." Mateus capítulo 6, versículos 31 a 43
Na passagem que transcrevi acima, Jesus estava ensinando as pessoas a não ficarem ansiosas quanto ao dia de amanhã e a confiarem mais em Deus. E aí, na última frase, Ele disse que "bastava a cada dia o seu próprio mal". O que será que Ele quis dizer?

Para explicar isso, vou começar com o exemplo de uma pessoa que tem tendência para engordar e precisa fazer regime: ela pode conduzir esse processo de três formas diferentes:
  • Um regime radical para perder todo o excesso de peso logo - algumas pessoas recorrem até a remédios para conseguir isso -, e poder depois voltar ao dia-a-dia normal. Trata-se de sofrer muito mas por um período limitado.
  • Uma dieta pré-estabelecida, mas menos radical, seguida religiosamente todos os dias. Trata-se de sofrer um pouco a cada dia
  • Re-educação alimentar para adquirir novos hábitos que mantenham o corpo em equilíbrio e sem sacrifício, assim a dieta se torna desnecessária. Trata-se de mudar para não sofrer mais.   
Qualquer um diria que a terceira alternativa é a melhor e mais eficiente, a longo prazo. Mas a maioria das pessoas parte para a primeira alternativa; um grupo bem menor escolhe a segunda, enquanto poucos, muito poucos, adotam a terceira. Por que? 

A luta diária
A motivação para passar pelo sacrifício que for, mas resolver o problema de uma vez só, tem um apelo psicológico enorme, mas infelizmente quase nunca resulta em sucesso. Afinal as fraquezas e tentações teimarão em voltar e sempre será preciso lidar com elas. 

Vou dar um exemplo no plano espiritual: imagine alguém que vá a um retiro e tome um "banho" de ensinamentos bíblicos e testemunhos tocantes e, ao final, prometa mudar de vida. Os retiros espirituais são bons, sem dúvida, para despertar a pessoa, mas ali as tentações diárias estão controladas. O problema surge quando a pessoa volta para a vida normal: essa pessoa vai ter que lutar diariamente, enfrentando o "mal de cada dia" - tentações, fraquezas, desapontamentos, etc.

Foi isso que Jesus quis dizer. E Ele continuou batendo nessa mesma tecla na oração do Pai Nosso, onde nos ensinou a pedir apenas "o pão nosso de cada dia". Não o pão de amanhã ou o bastante para os próximos 100 dias, apenas o que precisamos para enfrentar o "mal" de hoje.

Isso porque todos nós precisamos de Deus a cada dia, tanto para receber o "pão físico" (coisas materiais), como o "pão espiritual" (força contra as tentações, escolha entre certo e errado, etc). E para isso é preciso estar em contacto diário com Ele, orando e lendo a Bíblia - não dá para fazer um esforço extra e juntar numa tarde tudo o que seria necessário fazer em um mês.

O melhor caminho
E quanto às duas outras possibilidades: "sofrer um pouco todos os dias" ou "mudar para não sofrer"?

A maioria dos cristãos acaba por escolher, conscientemente ou não, a alternativa de "sofrer um pouco a cada dia": mantém suas prioridades e desejos básicos (que existiam antes da conversão) e luta diariamente para mantê-los sob controle, sem se desviar do bom caminho. 

Por exemplo, alguém que tenha um desejo exacerbado por consumir, faz um orçamento e luta por se manter dentro dele, pois pensa que se consumir aquele tanto "permitido", estará tudo bem. Assim a cada mês essa pessoa vai precisar abrir mão de algo que deseja, porque o orçamento estourou.

Mas não seria bem melhor se a pessoa curasse de uma vez por todas essa compulsão, pois aí o sofrimento acabaria? Claro que sim, embora poucos sigam por esse caminho, preferindo apenas controlar as coisas para que elas não fujam ao controle. 

Esse tipo de mudança é chamada na Bíblia de santificação, pois ao fazer isso a pessoa fica mais parecida com Deus e, portanto, mais próxima d´Ele.  

E repare que santificação não quer dizer necessariamente abstinência de fazer alguma coisa. Voltando ao exemplo da pessoa que gosta de consumir: ela poderia continuar a consumir aquilo de que precisasse realmente e não precisaria se privar de nada. Mas deixaria de ser escrava do consumo - quando comprasse algo é porque realmente teria necessidade daquilo- e aí não mais seria preciso ter mecanismos de controle.


Eu sempre gostei de acompanhar futebol, como a maioria dos brasileiros. Quando jovem, minha, digamos, devoção a determinado time ia além da conta. Na hora do jogo, eu não podia fazer outra coisa, pois ficava totalmente absorvido pelo que estava contecendo no campo.


Hoje eu continuo a gostar de assistir os jogos e não me privo desse prazer, quando posso, mas isso deixou de controlar minha vida. Se tenho outra coisa para fazer, desligo-me do que está acontecendo no campo e não sofro com isso. Outras coisas passaram a ser mais importantes na minha vida do que os jogos de futebol do meu time.

Palavras finais
O "mal de cada dia" é um fato, conforme Jesus nos ensinou. Ele sempre estará conosco na forma de desafios, tentações e problemas. E precisamos aprender a enfrentá-lo como ele se apresenta. 

É fundamental ter confiança que Deus estará presente a cada dia nas nossas vidas, para apoiar e orientar, desde que venhamos a manter contacto contínuo com Ele.

Depois, a mudança de hábitos (santificação) não é um sacrifício e sim uma maneira muito eficaz de viver melhor.

Com carinho  



  

terça-feira, 6 de novembro de 2012

O TAXISTA E EU

Dias atrás, precisei tomar um táxi na porta do meu escritório, pois minha mulher precisou do nosso carro e não conseguiu voltar a tempo para me buscar. Confesso que estava meio mau humor, pois achar um táxi, naquele começo de noite, ainda mais com ameaça de chuva, não ia fácil. De fato, a espera foi longa e, em dado momento, fiz o que é normal em momentos de dificuldade: pedi ajuda para Deus. 

Mas nada aconteceu. Pelo contrário, perdi duas oportunidades fáceis, que normalmente teria conseguido. E aí, veio claro na minha mente o seguinte pensamento: "Egoísta, você só pensa em resolver  seu problema"

Fiquei confuso com esse "puxão de orelhas" e procurei analisar meus atos para entender o que estava errado. A resposta veio de imediato: minha oração tinha sido inadequada! 

Voltei a falar com Deus e disse: "Por favor manda-me um táxi que seja dirigido por alguém a quem eu possa falar de Jesus". Oração corrigida, meu coração se aquietou e fiquei esperando. Cerca de 5 minutos depois, encostou um táxi e eu embarquei. 

O motorista era jovem, cabeça quase raspada, tatuagens, brincos, enfim tudo aquilo que os jovens gostam de usar. Ora, o ministério para os jovens nunca foi meu forte, pois sempre trabalhei com grupos de adultos. Conclui então que a tarefa não ia ser fácil.

Puxei assunto e a conversa fluiu muito melhor do que esperava. E qual não foi a minha surpresa ao perceber que se tratava de um rapaz de origem evangélica, que já tinha trabalhado muito pela obra de Deus. Mas estava afastado pois teve alguns problemas e sua igreja não tinha sabido lidar como lidar com a situação - era uma alma ferida, mas ainda aberta para Jesus.

Junto a tudo isso havia uma série de erros teológicos, fruto de um discipulado deficiente, como infelizmente é muito comum nas igrejas evangélicas. Assim, tive oportunidade de esclarecer coisas que estavam atrapalhando a retomada do seu diálogo com Deus. E concentrei-me na forma como ele podia reforçar essa relação, através de oração, louvor, e estudo bíblico. A conversa terminou com ele me pedindo o endereço deste blog. Espero sinceramente que meu amigo taxista volte a se aproximar de Deus. 

Mas quero voltar à minha oração inicial, que é de fato o tema deste texto. A Bíblia diz que pedimos e não recebemos porque não sabemos pedir - pedimos mal. E minha primeira oração foi exatamente desse tipo: queria resolver meu problema e pronto. Nada mais interessava naquele momento que não fosse meu conforto pessoal. E Deus não atendeu ao meu pedido.

Não só não atendeu, como "puxou minha orelha", alertando-me que já estava mais do que na hora de agir de outra forma. Daí a mudança na minha oração, reformulando meu pedido para dar prioridade àquilo que deve sempre vir em primeiro lugar: a obra de Deus. E aí meu pedido foi atendido. E pude transformar um momento de mau humor em alegria, pois feliz de ter podido ajudar alguém na sua caminhada cristã.

Portanto, quando você estiver buscando uma graça e, apesar de pedir com fé e constância, ela não chegar às suas mãos, examine-se e veja se seu pedido está de acordo com a vontade de Deus. Se não estiver, você nunca será atendido, por mais amor que Ele sinta por você. 

Ter uma nova perspectiva sobre aquilo que você deseja, pode ser a diferença entre ser atendido ou não por Deus. E lembre-se que, quando Deus não responde, isso não deixa de ser uma resposta - pode ser que Ele esteja apenas esperando que você mude, antes de agir.

Com carinho