sábado, 31 de maio de 2014

O INFERNO E OS DEMAIS "INFERNOS"

Este post complementa texto anterior sobre o Céu (veja mais).
E mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá / Olhando aquele inferno vai abençoar! / O que não tem governo nem nunca terá! / O que não tem vergonha nem nunca terá! / O que não tem juízo...”                 "O que será”, letra de Chico Buarque.
O Inferno não é assunto sobre o qual gosto de falar – aliás ninguém deveria mesmo gostar de falar sobre isso.  Mas não posso fugir desse tema pois ela gera muitas dúvidas entre os cristãos.

Será que existe mesmo o Inferno? Como é? Onde fica? É frequente esse tipo de pergunta. O livro do Apocalipse (capítulo 20, versículo 10) fala no Inferno como um lugar semelhante a um lago de fogo, onde haverá tormento permanente. Jesus disse que o Inferno é lugar de "choro e ranger de dentes", isto é de sofrimento.

O Inferno é um lugar?
A vida humana se passa sempre em locais situados no tempo e no espaço. O próprio Jesus, quando entrou na realidade humana, precisou encarnar num corpo como o nosso. 

Ora, sabemos pela Bíblia que haveremos de ressuscitar no final dos tempos e ter um novo corpo físico (1 Coríntios capítulo 15, versículos 35 a 49). Assim, é razoável concluir que o Inferno, assim como o Céu, serão lugares também físicos. 

Alguns teólogos discordam dessa afirmação pois pensam no Inferno como uma questão puramente espiritual e não física - eu mesmo já pensei assim. Mas hoje penso que a Bíblia trata de realidades físicas quando fala do Inferno e do Céu.

Como será o Inferno?
A Bíblia fala pouco sobre o Inferno, muito menos do que sobre o Céu. Ali estarão todos aqueles que não forem salvos. Trata-se, conforme alertou Jesus, de local de sofrimento. 

Isso se dará porque o Inferno é um lugar onde Deus não estará presente - não que Ele não tenha poder para estar presente ali, mas sim porque escolheu não fazer isso. Sendo assim, evidentemente o Inferno não pode ser um lugar bom, pois tudo de bom nasce em Deus - é como a treva, que nada mais é do que a ausência da luz. Simples assim.

O fato é que fomos criados para estar em comunhão constante com Deus e a ausência d´Ele somente pode causar sofrimento e solidão. 

A segunda coisa importante de entender sobre o Inferno é que, ao contrário do que muitos pensam, ele não pertence ao Diabo e seus seguidores. E é fácil de explicar isso: o Apocalipse conta que, no final dos tempos, depois de derrotados, o Diabo e seus demônios serão atirados para sempre no Inferno. Ou seja, é ali que o Inimigo irá cumprir sua pena - o poder e o domínio de Deus são absolutos e cobrem até o Inferno.

É justo condenar as pessoas a uma pena sem fim?
A dúvida que mais ouço sobre o Inferno é a seguinte: Será justo que as pessoas permaneçam indefinidamente ali para pagarem por pecados cometidos ao longo de vidas que foram limitadas no tempo? À primeira vista pode parecer que não.

Mas é importante perceber o mecanismo que leva as pessoas para longe de Deus: são as escolhas que fazem e os atos que praticam livremente que trazem esse resultado. Em outras palavras, é a própria pessoa que se coloca no Inferno

Se a pessoa escolhe livremente não aceitar Jesus como seu Salvador, ela lança a si mesma no Inferno. O caminho para a salvação existe - Jesus- mas a pessoa pensa que não precisa de nada disso e escolhe ir por outro caminho. É como se a “porta” do Inferno fosse trancada por “dentro” pelas próprias pessoas que lá estão

Portanto, se foi uma escolha livremente feita, não há nada de injusto em imaginar que a separação da pessoa da Graça  de Deus seja permanente. Ele apenas fez a vontade das pessoas - afastou-se definitivamente delas.

As pessoas no Inferno continuarão como eram antes, vendo as coisas a partir do mesmo ponto de vista distorcido que as levou até ali. E daí virá o seu tormento: os orgulhosos serão continuamente humilhados, os egoístas estarão sempre em segundo plano, os fofoqueiros terão todos os seus segredos revelados, os hipócritas serão vistos como verdadeiramente são, em toda feiura de seu caráter, e assim por diante.

E, sobretudo, o Inferno será lugar de solidão - não haverá ali nenhum conforto ou palavra amiga. 

Os outros "infernos"
Há um tipo de cristão (vou apelidá-lo de "fariseu") que usa o Inferno como ferramenta de dominação dos outros - como instrumento de poder. Vive ameaçando as demais pessoas com esse terrível lugar. Por isso mesmo, caso o Inferno não existisse, certamente seria “reinventado” por eles. 

Quando encontrar pessoas assim, não dê atenção ao que elas dizem. Ninguém tem poder para decidir quem irá ou não para o Inferno. Isso cabe a Deus e ele age com base nas escolhas que as pessoas fazem. Cada um deve tomar conta de si mesmo e preocupar-se com seu próprio umbigo.

E a preocupação excessiva com o Inferno acaba por desviar a atenção das pessoas dos inúmeros “infernos” que estão à nossa volta, como bem fala a letra de Chico Buarque que iniciou este post. Refiro-me aos vícios que escravizam, ao abandono que desumaniza, à pobreza extrema que gera falta de esperança, à corrupção desenfreada que apodrece a sociedade, à poluição que adoece o meio ambiente, ao consumismo que aliena, etc. 

Para boa parte da humanidade, especialmente os mais desfavorecidos, o Inferno já se faz presente, aqui e agora. E é contra o Inferno e esses outros “infernos” que nós, cristãos, precisamos lutar sempre. 

E a resposta para isso é sempre o amor, a Deus e ao próximo. Se houvesse mais amor entre as pessoas, certamente o Inferno iria ser um lugar vazio. E os infernos presentes no mundo desapareceriam.

Com carinho

domingo, 25 de maio de 2014

UM LUGAR MARAVILHOSO

Imagine que você irá fazer uma viagem muito importante, que vai mudar o curso da sua vida. É certo que a viagem vai acontecer, somente não está escolhida ainda a data da partida. E você sabe o nome do lugar para onde vai, mas não conhece quase nada sobre ele. 

Mas existem fontes de informação confiáveis que permitirão a você se preparar melhor para sua viagem. Você investiria seu tempo em estudar esse tema? Acredito que a maioria das pessoas responderia que sim. Normalmente gostamos de planejar as coisas que vamos fazer e nos preparar para eventualidades, especialmente quando lidamos com assuntos de grande importância - por isso fazemos poupança para o futuro e seguro de vida.

O lugar a que me refiro é o Céu (Paraíso). A morte é certa e a Bíblia nos diz que poderemos ir para dois lugares diferentes depois de morrer: Céu ou Inferno. Como escrevo um blog dirigido para pessoas motivadas a viver uma vida cristã, entendo que a meta de todos que passam por aqui seja ir para o Paraíso.

Recentemente tem me ocorrido o pouco que sabemos sobre o Céu, nosso destino final. Fiz uma pesquisa nos textos que preparei ao longo de 25 anos de aulas para grupos de estudo bíblico, em igrejas as mais diversas, e mesmo entre os publicados aqui no blog, e há muito pouco sobre o Céu. O assunto sempre é tocado de passagem, mas quase nunca é o tema único da discussão.

E não estou sozinho, pois essa lacuna aparece entre quase todos os autores que acompanho - poucos investiram seu tempo em estudar o Céu. Procure se lembrar de quantas pregações ouviu sobre o Céu - refiro-me a falas que procuravam esclarecer como esse lugar é e como iremos viver lá e verá que são muito raras essas oportunidades. 

Deveria ser muito diferente. Afinal a salvação e o acesso ao Paraíso são as grandes promessas do cristianismo e, como tal, deveriam estar na linha de frente do nosso interesse.

Por que há pouca preocupação com o Paraíso?
Há várias razões para isso. E a primeira dentre elas é que pensar no Paraíso significa também admitir a morte. É claro que a morte é certa, mas vivemos na prática como se ela não existisse. 

Eu já disse aqui no blog que olhar para a morte é como mirar diretamente o sol – somente conseguimos fazer isso por tempo curto. Mas refletir sobre o Paraíso deveria ser como colocar um vidro escuro na frente dos olhos para nos permitir olhar para o sol por quanto tempo fosse necessário. É preciso entender que aquele será um lugar maravilhoso e isso nos deveria dar melhores condições para enfrentar a morte. 

Por isso as pessoas que alcançam um desenvolvimento espiritual maior deixam de temer a morte. Vemos isso no texto de 2 Coríntios capítulo 12, versículos 1 a 6, onde o apóstolo Paulo diz que somente estava ainda no mundo porque tinha uma missão a cumprir, mas preferia estar com Jesus. 

Outro exemplo que tenho é de uma senhora da minha igreja, que tem 96 anos e ainda está lúcida e válida. Um exemplo de vida. Ela passou pelos problemas que as pessoas longevas normalmente precisam enfrentar e perdeu vários entes queridos, dentre os quais duas filhas. Num domingo, durante a Escola Bíblica, ela me perguntou sobre o Paraíso e descreveu como via aquele lugar: “vejo uma campina verdejante e cheia de flores. Vejo minhas filhas, muito alegres, correrem para me abraçar. É isso que me dá forças para prosseguir vivendo.”

A segunda razão pela qual há pouco interesse no Paraíso é que as pessoas, no fundo, acham que aquele vai ser um lugar aborrecido - algo como um culto dominical eterno, com louvores permanentes, pregação da palavra contínua, etc. 

As pessoas querem diversão, coisas que as inspirem e realizem e pensam que não haverá nada disso no Paraíso. Tanto é assim, que são frequentes as piadas nas quais as pessoas acabam preferindo o Inferno ao Céu, porque no primeiro é onde ficarão todas as pessoas interessantes. E não há nada mais errado: o Inferno será um lugar de choro e ranger de dentes e nada de bom haverá lá, até porque Deus não estará presente ali (Lucas capítulo 13, versículos 27 e 28).

Deus nos criou e nos entende como ninguém mais. Sabe do que gostamos e o que nos motiva. Logo, seria absurdo imaginar que Ele viesse a nos preparar um lugar que somente nos iria trazer tédio. O Paraíso será um lugar maravilhoso, superior a qualquer coisa que possamos imaginar. Lá haverá festa eterna e não existirão preocupações e nem dores. Lá habitaremos junto com Deus.

A terceira razão pela qual as pessoas não se preocupam com o Paraíso é porque pensam que há poucas informações na Bíblia sobre aquele lugar – eu mesmo já pensei assim. E isso é um erro. 

Se você garimpar na Bíblia os textos corretos, verá que muito se fala sobre o Paraíso e como viveremos lá. E vai aqui uma dica: essa vida será parecida com a nossa vida de hoje, naturalmente removidos os componentes de pecado, sofrimento e morte.

A quarta e última razão para a pouca preocupação com o Paraíso é que a maioria das pessoas, no fundo, acha que Deus haverá de salvar a todos. Essa é a visão conhecida como universalista – a salvação será universal. A lógica por trás desse pensamento é que um Deus bom não puniria ninguém eternamente, ao lançar essa pessoa no Inferno. 

Mas essa não é a descrição que Bíblia faz dos fatos, por exemplo, no texto de Lucas que citei acima. C. S. Lewis, o grande escritor cristão da segunda metade do século passado, disse que a doutrina bíblica de que menos gostava era a que estabelece que haverá separação das pessoas entre Céu e Inferno. Pela vontade dele, essa doutrina seria jogada fora. 

Mas ele também reconheceu que essa doutrina tinha enorme suporte bíblico, pois foi ensinada pelo próprio Jesus muitas vezes. Logo, não há como fugir desse ensinamento, gostemos dele ou não.

Palavras finais
Comecei apenas a abordar esse tema tão vasto e importante. Certamente voltarei a ele no futuro próximo.

A grande lição que gostaria de deixar é a necessidade de nos motivarmos a entender como será o Céu – um lugar maravilhoso, acima de qualquer expectativa que possamos ter. E é essa motivação contínua que nos deve dar forças para mudar nossa vida.

C. S. Lewis disse que aqueles que voltaram sua mente para o Céu foram os mesmos que acabaram fazendo diferença aqui na terra. Sábias e santas palavras.

Com carinho                     

sexta-feira, 23 de maio de 2014

E QUANDO NOS ACUSAM DE INTOLERANTES?

É intolerância dizer que somente Jesus Cristo leva o ser humano até Deus. Vocês, cristãos, têm sua verdade e eu tenho a minha, que é diferente”. 
Frases desse tipo são frequentemente lançadas contra os cristãos e o pior é que a maioria de nós não sabe como responder a esse tipo de ataque. Ficamos calados e nos encolhemos. Mas há muito a ser dito em resposta. 

O mundo é plural - as pessoas são diferentes fisicamente, pensam de forma distinta e agem de maneiras diversas. E é bom que seja assim. Seria muito monótono se tudo fosse igual. Aliás, um dos problemas com a globalização é justamente a uniformização que está sendo imposta aos diferentes povos. 

Agora, no terreno das ideias, a situação é um pouco diferente. É certo que as pessoas acreditam em coisas bem diferentes e têm todo direito de pensarem como quiserem. E não deve haver qualquer coação na direção de um pensamento único. Até aí tudo bem. 

Mas o direito de pensar como quiser não garante que as ideias das pessoas tenham todas a mesma qualidade. Há ideias que são verdadeiras e ideias que são falsas. E as pessoas estarão em condições melhores se souberem a diferença entre as duas coisas. 

Verdades absolutas ou relativas? 
Reconhecer que há ideias verdadeiras e falsas não é um atentado contra a pluralidade, nem contra o direito das pessoas pensarem livremente. Uma coisa nada tem a ver com a outra.

Por exemplo, os conceitos de astronomia válidos nos Estados Unidos são os mesmos que levam os foguetes chineses ao espaço. Embora sejam dois povos diferentes, ambos têm que aplicar os mesmos conceitos científicos se quiserem colocar uma satélite em órbita. Não há lugar para "pluralismo" na ciência e a verdade absoluta precisa estar acima de tudo. 

Penso que é assim também no campo da religião. Não há lugar para ideias plurais. As pessoas têm direito a acreditar em coisas diferentes, mas isso não quer dizer que estarão certas em pensar assim. Por exemplo, Deus não pode "existir" e "não existir" ao mesmo tempo, portanto os ateus e aqueles que acreditam n´Ele não podem estar todos certos. Alguém tem que estar errado. Simples assim.

Agora, o chamado pós-modernismo defende que não há verdades absolutas, pois tudo é relativo. Eu tenho a minha verdade e tudo bem que ela seja diferente da sua, aliás isso é até esperado. Afinal, defendem os pós-modernistas, todas as pessoas têm preconceitos que funcionam  como “filtros” para as opiniões que formulam e acabam vendo aquilo que preferem ver. 

O problema do pós-modernismo é que ele entra em choque direto com o conceito de Deus. Por definição, Deus é absoluto: o que Ele diz ser certo é a verdade absoluta. Sua verdade não pode ser questionada e precisa ser aceita. Mas, se não há verdades absolutas, como defende o pós-modernismo, a consequência direta é que não pode existir Deus.


Há várias maneiras de refutar aqueles que defendem que não há verdades absolutas. E a mais fácil é usar a própria declaração principal dos pós-modernistas - “não há verdade absoluta pois tudo é relativo” – contra eles mesmos. Ora, se não há verdade absoluta, essa declaração também não é uma verdade absoluta, válida para todos. Também precisaria ser relativa e, portanto, acabaria por contradizer a si mesma. 

Na verdade, os pós-modernistas tentar usar uma verdade que pretendem seja absoluta para dizer exatamente que não há verdade absoluta. Incoerência total.

Assim, fica claro que há verdades absolutas - coisas que são verdadeiras para todas as pessoas, em todos os lugares, em qualquer tempo. Essas verdades estão acima da pluralidade que existe entre os seres humanos. As verdades científicas, como falei acima, são exemplos claros desse tipo de situação. Mas acho que também há verdades espirituais que são absolutas.


Mas alguém pode ser acusado de intolerante por defender uma verdade? É claro que não. Defender a verdade é um valor positivo por si mesmo. Eu diria que é até um ato de amor ao próximo procurar esclarecer aqueles que estão no caminho errado. Se eu conheço uma verdade, devo defender minha crença de forma firme - é claro que existe ainda a questão se as teses cristãs estão certas, mas isso é tema para outro post. 


Portanto, se é verdade que Jesus é o único caminho para Deus, todos aqueles que conhecem essa verdade precisam defendê-la. Não há qualquer violação ao livre direito das demais pessoas pensarem ou tentativa de acabar com o pluralismo cultural, quando esse tipo de defesa é feita.

Agora, esse processo de discussão precisa ser feito de forma respeitosa - não há espaço para grosserias justificadas pelo fato do meu amigo estar errado. Agir de outra forma não seria falta de tolerância e sim de educação. E infelizmente os cristãos falham muito nesse aspecto, pois querem impor seus argumentos, empurrá-los "goela abaixo".

O que é intolerância?

E não há qualquer intolerância em defender uma verdade. Afinal, o conceito de tolerância pressupõe opiniões divergentes. Se alguém concorda comigo, não é necessário ser tolerante com ele(a), pois já estamos de acordo. Somente quando as pessoas pensam de forma diferente, e uma delas está certa e as demais erradas, é que a tolerância se torna necessária.

E tolerância não é fazer com que todos abracem a mesma ideia, mesmo que essa ideia pareça simpática - como, por exemplo, "cada um tem sua própria verdade". Repito, o conceito de tolerância pressupõe que há diferenças de opinião.

E defender um ponto de vista no qual se acredita não é ser intolerante, desde que se aceite que a outra pessoa continue a pensar diferente. A intolerância não está no choque de ideias.

Portanto, defender as ideias cristãs entre as pessoas que não são crsitãs não é ser intolerante. É apenas defender a verdade, coisa que todos têm o dever de fazer. Agora, se as outras pessoas não quiserem aceitar o que foi dito, é preciso reconhecer o direito delas em pensar de forma diferente. Só isso. 

Palavras finais
Acreditar em verdades absolutas e defendê-las com vigor não tem nada de errado - é até uma necessidade determinada pelo mandamento de amar ao próximo. Portanto, os cristãos não estão errados em seguir esse caminho e defender, por exemplo, que Jesus é o caminho único para a salvação. 

O que não pode ser feito é faltar com a educação no debate de ideias. Se você olhar na Bíblia como Jesus debateu com os fariseus, foi exatamente assim que ele se comportou.

Com carinho

quarta-feira, 21 de maio de 2014

O HOMEM É UM "ANIMAL" DE HÁBITOS


Li recentemente um livro interessante chamado “O poder do Hábito”, escrito por Charles Duhigg. Nele, o autor explora a ciência da formação de hábitos, tanto na pessoa física, como nas organizações em geral e na sociedade. 

O fato é que o ser humano é um “animal” de hábitos, conforme inúmeros estudos confirmam. Todos temos hábitos, mas em algumas pessoas isso é mais aparente, especialmente quando chegam à velhice. Lembro-me bem que, nos últimos anos de vida, meu pai sempre almoçava no restaurante do Clube de Engenharia, no centro do Rio de Janeiro. Sentava na mesma mesa e comia sempre às 12:30 hs.    

O marketing foi uma das primeiras áreas de estudo a perceber essa tendência do ser humano e usá-la para seu benefício. Um exemplo clássico é o de Claude Hopkins, marketeiro que ajudou os americanos a criar o hábito de escovar os dentes todos os dias, usando a pasta Pepsodent. Após uma década de campanha com artistas de cinema famosos, testemunhando que escovar os dentes fazia o sorriso ficar mais bonito e o hálito mais fresco, metade da população norte-americana adquiriu o hábito de escovar os dentes – as confirmações pelos dentistas de que esse hábito era saudável somente vieram bem depois.  

Na prática, hábitos definem como as campanhas de marketing são feitas, como os governos estabelecem políticas públicas e quais tipos de entretenimento são mais populares. E hoje os neurologistas já entendem os processos mentais que estabelecem hábitos e desenvolveram técnicas que tornam mais fácil mudá-los ou substituí-los por outros. 

Anatomia dos hábitos
Há três componentes na formação de qualquer hábito: gatilho, recompensa e sinal. O gatilho é aquilo que aciona o comportamento habitual. Por exemplo, os fumantes sempre relatam que beber café aciona a vontade de fumar. No caso do hábito de escovar os dentes, o gatilho é o mau hálito pois, ao percebermos um gosto ruim na boca, ficamos ansiosos por escovar os dentes - é interessante perceber que durante boa parte da história da humanidade ninguém se preocupava com o mau hálito do outro, porque todos tinham hálito ruim. 

O segundo aspecto é a recompensa. No caso do cigarro, é o prazer que o viciado sente quando a nicotina chega ao cérebro. No caso da pasta de dentes, são duas as fontes de prazer: o sorriso mais bonito e o hálito mais fresco. 

A terceira coisa importante é que precisamos receber um sinal indicador da recompensa. Por exemplo, no caso da pasta de dentes, é aquele leve ardor que "demonstra" que o produto funcionou - o ardor não tem nada a ver com a qualidade do produto em si, mas é um sinal importante. As pessoas percebem as pastas de dente quem tem ardor como mais eficazes. 

Os hábitos cristãos
Deus sempre procurou estabelecer hábitos para as pessoas. Exemplos clássicos, no Velho Testamento, são as orações diárias e os sacrifícios. As orações diárias faziam com que as pessoas se lembrassem de quem eram e da sua relação com Deus. Já os sacrifícios apontavam para os pecados humanos e a necessidade de purificá-los. As festas como a Páscoa, o Dia do Perdão e outras procuravam criar o hábito de comemorar momentos importantes da história de Israel, fazendo com que as pessoas se lembrassem do que Deus tinha feito por elas. 

No Novo Testamento, vemos Jesus também estabelecendo hábitos importantes para seus seguidores. Por exemplo, Ele fez os cristãos adotarem o hábito de tomar a Santa Ceia – vinho e pão representando, respectivamente, seu sangue e seu corpo – para que tivéssemos sempre presente em nossas vidas o seu sacrifício na cruz. 

O gatilho para o hábito de tomar a Santa Ceia vem da nossa conscientização de que somos pecadores. Essa é a razão porque a liturgia de culto cristão sempre tem uma parte que leva o fiel a fazer autoanálise do seu comportamento, perceber que pecou e pedir perdão. E, sempre que se percebe pecador(a), o(a) cristão(ã) anseia pela Santa Ceia – por isso acho a prática católica de dar a comunhão em todas os cultos (missas) melhor do que a evangélica, de somente fazer isso uma vez por mês. 

A consciência do pecado nos faz procurar a “cura”, que é o sacrifício de Jesus por nós. E essa "cura" é a recompensa do hábito de tomar a Ceia. Ela se traduz na paz de espírito que conseguimos quando nos sentimos perdoados – há uma nítida sensação de alívio.

E o sinal de que a recompensa virá é o ato físico de tomar o vinho e comer o pão. Por isso há um ato físico. Pense bem, a Santa Ceia poderia ser totalmente espiritual, simbólica, sem o ato físico. Mas quando sentimos o gosto desses elementos na boca, nosso cérebro recebe a mensagem de que estamos nos apossando da Graça de Deus em nossas vidas. Por isso o ato físico da Ceia é tão importante. 

Há outras práticas instituídas por Jesus que devem criar hábitos na nossa vida espiritual. Por exemplo, Jesus ensinou a oração do Pai Nosso, aliás atendendo um pedido feito pelos seus discípulos. O objetivo dela é facilitar o hábito de orar, extremamente importante para a vida espiritual de qualquer cristão. E, usando o mesmo tipo de análise que fiz acima, fica mais fácil entender práticas usadas junto com a oração como fechar os olhos, usar palavras pré-estabelecidas (“no nome de Jesus”), buscar locais solitários (monte ou deserto) e assim por diante. 

A teologia chama os hábitos importantes para o desenvolvimento da vida espiritual de disciplinas espirituais. Exemplos são oração, jejum, meditação e estudo bíblico. Em outros posts vou falar mais sobre o papel dessas disciplinas. 

Com carinho

sábado, 17 de maio de 2014

QUAL É O VALOR DAS BOAS AÇÕES?

Outro dia me fizeram uma pergunta interessante: Por que as más ações (pecados) levam a pessoa para o inferno e as boas ações não a levam para o céu? Essa pergunta faz sentido, porque a Bíblia diz com clareza que a pessoa é salva (vai para o céu) por sua fé em Jesus Cristo e não por suas boas ações (obras). 

Ora, como Deus não é incoerente, deve haver uma explicação para essa aparente contradição. E há mesmo. Na verdade, quando alguém afirma que a salvação se dá apenas pela fé da pessoa em Jesus Cristo, está simplificando um pouco o conceito teológico. Há muito mais coisa por trás, como vou mostrar a seguir.  

E começo lembrando que Deus não tolera o pecado. De nenhum tipo. Mas o que é pecado? Trata-se de qualquer coisa que contraria a vontade de Deus, conforme estabelecida nos mandamentos apresentados na Bíblia. 

É possível entender esses mandamentos como os requisitos que Deus estabeleceu para que o ser humano possa ter uma relação saudável com Ele. E esses requisitos são grandes. Muito grandes. 

Para entender isso, basta lembrar que, conforme Jesus explicou, a pessoa não peca apenas pelo que faz, mas também pelo que deseja (pensamentos) e/ou diz (palavras). 

E é preciso amar Deus sobre qualquer coisa - incluindo família, emprego, dinheiro, etc - e ao próximo como a si mesmo. São exigências enormes. Tão abrangentes que nenhum ser humano pode cumpri-las integralmente. 

É por causa disso que a Bíblia ensina que todos pecam. Todos, sem exceção. Afinal, todos mentem (ou já mentiram). Sentem (ou já sentiram) inveja, ódio, raiva, desprezo e outras coisas ruins em relação ao seu próximo. São (ou já foram), de alguma forma, indiferentes às necessidades dos seus semelhantes. Colocam (ou já colocaram) outras coisas na frente de Deus. E assim por diante.

É claro que se alguém conseguisse cumprir todos os mandamentos de Deus, poderia juntar mérito suficiente para ser salvo. Mas, como todos pecam, ninguém consegue fazer boas ações em quantidade suficiente para atender às exigências que Deus estabeleceu. Em outras palavras, ninguém consegue juntar mérito suficiente para para conseguir se salvar a partir dos seus próprios esforços. 

Se é assim, como alguém pode ser salvo? A resposta é simples: sem merecer, através da ação da Graça de Deus. Deus, na sua misericórdia e infinito amor, encontrou uma saída alternativa para o ser humano que não envolve juntar mérito suficiente. Trata-se do sacrifício de Jesus na cruz, oferecido para apagar os pecados dos seres humanos. 

E, embora esse sacrifício esteja disponível para todos(as), somente se torna eficaz para aquelas pessoas que verdadeiramente aceitam Jesus como seu salvador. É preciso aceitar a Graça de Deus para que ela produza resultados na vida da pessoa. 

Resumindo, ninguém consegue se salvar por mérito, fazendo boas ações em quantidade adequada, portanto a salvação vem através de um caminho alternativo, a fé em Jesus Cristo. Esse é o plano de salvação que Deus estabeleceu para todos os seres humanos.

Concluindo, não há nenhuma incoerência na Bíblia. O ser humano poderia ser salvo pelos próprios méritos, mas essa é apenas uma possibilidade teórica, pois nunca vai se materializar. Somente a alternativa proporcionada pelo próprio Deus - a sua Graça - pode salvar o ser humano. 

Agora, há ainda uma questão a ser respondida. Se as boas ações não pesam na salvação, que ocorre pela Graça de Deus, isso significa que elas não têm valor aos olhos de Deus? É claro que elas têm valor e por diversas razões. Primeiro porque boas ações espalham o bem e isso sempre gera frutos positivos. Se todos perseguissem o bem, o mundo seria um lugar muito melhor para se viver - a qualidade de vida de todos aumentaria muito.

Depois, porque as boas ações servem de "termômetro" para a fé da pessoa. A fé verdadeira, que abre as portas para a salvação, precisa gerar mudanças no interior da pessoa e as boas obras são a consequência visível dessa mudança. A Bíblia ensina que a pessoa pode até saber quem Jesus é, mas se sua fé não gerar mudanças na sua vida, ela não vai ser salva (Tiago capítulo 2, versículo 17).

Assim, se você quiser saber como está sua fé e se ela vai levar você para um bom lugar, olhe para as obras geradas pela sua vida. Uma fé saudável gera boas obras, uma fé morta não gera nada ou quase nada de positivo. Simples assim.

Finalmente, e como era de se esperar, as boas obras são reconhecidas por Deus, gerando prêmios (galardões), que serão desfrutados quando a pessoa chegar na vida eterna. Não sabemos bem como isso vai ser, mas a Bíblia fala que os galardões existem e terão importância. São como "tesouros guardados no céu" (Mateus capítulo 6, versículo 20).

Com carinho

quinta-feira, 15 de maio de 2014

O PODER DO BOM EXEMPLO

Recentemente escrevi falando sobre a obrigação dos pais de educarem os filhos dentro da religião cristã (veja mais). Mostrei que essa obrigação somente pode ser cumprida a longo prazo, com muito esforço, pois não é simples ensinar alguém a viver o cristianismo na prática.

Comentei também que esse processo de educação requer dos pais algo mais: dar bom exemplo para os filhos. 

O custo da hipocrisia
Já comentei aqui no blog (veja maisque Jesus exerceu duas profissões: carpinteiro e rabino. Como rabino, Jesus tinha discípulos que viviam com Ele dia e noite. Isso porque os judeus acreditavam que um rabino precisava ensinar principalmente pelo seu próprio exemplo de vida. 

Tal como os rabinos, os pais também devem dar exemplo de vida para seus discípulos, seus filhos. E não há como fugir da realidade que os filhos olham para seus pais em busca de dicas sobre como viver suas vidas. 

Se os pais tentarem fazer com que os filhos sigam caminhos por onde eles mesmos não andam, essa hipocrisia lhes será cobrada pelos próprios filhos, especialmente a partir da pré-adolescência – já vi isso acontecer diversas vezes.

Não estou aqui dizendo que os pais precisam ser pessoas perfeitas, sem qualquer pecado, pois ninguém estaria à altura desse requisito. Certamente os pais vão pecar e, quando fizerem isso e os filhos perceberem, os pais devem ser sinceros, pedir desculpas e falar das suas fraquezas. Sem hipocrisia. 

As consequência do que os pais fazem
A boa educação religiosa não garante que os filhos vão se manter no caminho certo, pois eles também têm livre arbítrio, farão suas próprias escolhas e poderão errar. Mas a experiência mostra que uma boa educação religiosa é uma excelente forma de proteção. 

Mas há um fator de proteção ainda maior que pode decorrer do bom exemplo dado pelos pais. Deus prometeu que, se os pais andassem nos caminhos d´Ele, sua descendência seria abençoada (Êxodo capítulo 20, versículo 6): "...faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam meus mandamentos."

As boas ações dos pais geram bençãos que duram por várias gerações. Isto porque famílias bem estruturadas prosperam sob todos os aspectos: materiais, emocionais e espirituais. 

Essa é outra forma que os pais têm para proteger seus filhos. 

Com carinho  

terça-feira, 13 de maio de 2014

CABE MUITA COISA DEBAIXO DE UM "GUARDA CHUVA"

Existem alguns versículos da Bíblia que parecem "guarda chuvas" - "debaixo" deles cabem muitas interpretações diferentes. E isso seria apenas uma curiosidade se algumas dessas interpretações não causassem tanto mal, gerando culpa e sofrimento indevidos para muitos(as) cristãs(ãs).

Isso ocorre porque alguns líderes religiosos usam esse tipo de versículo para construir doutrinas que buscam "amarrar" as pessoas a comportamentos pré-estabelecidos que sejam mais do gosto desses mesmos líderes.  

Vou dar dois exemplos de versículos "guarda chuva" e de interpretações construídas a partir deles para explicar melhor o que acabei de dizer. O primeiro exemplo é o versículo que onde está dito ser o corpo humano o "templo do Espírito Santo" (1 Corintios capítulo 6, versículo 19). Já vi esse versículo ser usado para construir doutrina de diversos tipos e uma delas é aquela que proibe tatuagens. 

Ora, o único texto que fala diretamente sobre tatuagens na Bíblia (Levítico capítulo 19, versículo 28) condena essa prática apenas quando feita com o objetivo de cultuar os mortos. É evidente que a proibição tem a ver com o fato da pessoa passar a exibir no seu corpo a marca de um culto proibido. E seria razoável estender essa proibição além do culto aos mortos, para abranger qualquer culto idólatra, pois o sentido parece ser o mesmo. Mas tal proibição não se aplica às tatuagens feitas por outras razões, como manifestação de opinião polítca, de cunho puramente estético, etc.

Agora muita gente não gosta de tatuagem - eu mesmo penso assim. Mas alguns líderes religiosos que não gostam de tatuagens, ao invés de aceitarem que as pessoas têm o direito de agirem como pensam ser melhor, procuram usar a Bíblia para transformar sua opinião pessoal num dogma de fé, que não pode ser violado sob pena da pessoa estar pecando. 

É aí que entra o versículo que fala que o corpo humano é o "templo do Espírito Santo". Sendo assim, raciocinam essas pessoas, esse corpo não pode ser desfigurado por coisas como piercing ou tatuagem e, quem faz isso, está pecando, pois age contra esse "templo". Alguns vão ao ponto de afirmar que esse tipo de coisa é uma porta aberta para a ação de Satanás na vida da pessoa. 


Repare que, se olhado com isenção, o texto bíblico sobre o corpo humano não permite tirar essas conclusões - leia o texto de 1 Corintios, começando alguns versículos antes daquele onde há a referencia ao corpo humano e continuando por alguns versículos depois e verá o que estou dizendo. 


Mas isso não impede que muitos líderes apavorem os fiéis com esse tipo de declaração - recentemente recebi um pergunta aqui no blog sobre esse tema e a pessoa que se manifestou estava sofrendo muito. E alguns promovem até exorcismo em todo mundo que é tatuado. 

Se o versículo que fala do corpo humano pudesse ser usado dessa forma, tudo aquilo que faz mal ao físico deveria passar a ser considerado pecado: engordar, deixar de fazer exercícios físicos, não tomar remédios da forma correta e assim por diante. Mas isso não ocorre. Ouseja, trata-se de um caso claro de "dois pesos e duas medidas".

Outro exemplo interessante tem a ver com a declaração bíblica que nos manda fugir da "aparência do mal" (1 Tessalonicenses capítulo 5, versículo 22). Esse versículo é muito útil para quem quer estabelecer regra de vida para os outros, pois basta rotular alguma coisa, mesmo quando não é diretamente proibida na Bíblia, de "aparência do mal", para ela passar a ser proibida. 


Já vi, por exemplo, esse versículo sendo usado para proibir os cristãos de dançarem, mesmo quando se trata de casais legalmente constituídos. Ora, onde está a "aparencia do mal" nesse caso? Talvez as pessoas que pensam assim se esqueçam que havia dança nos tempos de Jesus - por exemplo, ela ocorria nos casamentos. E Jesus nunca condenou diretamente a dança.


A "aparencia do mal" (aquilo que não é mal em si mas dá a impressão de ser) deve ser evitada para não causar impacto negativo na mente de pessoas que não saibam distinguir bem o que está acontecendo. Por amor cristão, então, a prática que pode dar a aparencia de ser errada deve então ser evitada. E isso deve acontecer apenas enquanto os necessários esclarecimentos não forem dados. Somente isso. 

Há muitos outros versículos tipo "guarda chuva" como, por exemplo, "todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus" (Romanos capítulo 8, versículo 28) e "Porque aos seus anjos dará ordens a teu respeito, para que te guardem em todos os teus caminhos" (Salmo 91, versículo 11). E todos eles infelizmente são abusados por pessoas que querem construir doutrinas que estejam de acordo com seu gosto pessoal. 

Portanto, fique sempre alerta contra esse tipo de coisa. Procure pelos fundamentos das afirmações que tal ou qual coisa é pecado. Se não perceber um fundamento bíblico claro e direto proibindo aquela prática ou atitude, pode desconsiderar a afirmação que foi feita. Simples assim.


Com carinho  

domingo, 11 de maio de 2014

O QUE FAZER PARA AJUDAR DIANTE DA DESGRAÇA

Nesses últimos dias a família da minha mulher sofreu um grande baque: um rapaz de 20 anos morreu num acidente de carro. Junto com ele, morreram outros dois. O acidente de carro foi daqueles que infelizmente acontecem frequentemente com os jovens: viagem de noite por estrada não muito boa, excesso de velocidade, alguma chuva e um caminhão vindo em direção contrária. O resultado vai marcar profundamente a vida de dezenas de pessoas. Uma tristeza.

Quando esse tipo de coisa acontece, você talvez fique se perguntando o que fazer. Deve tentar consolar ou permanecer calado(a)? Se a pessoa em sofrimento fizer uma pergunta, tentando encontrar sentido para a tragédia, deve procurar responder? E o que dizer?

O que fazer nos primeiros momentos
Minha recomendação é simples: sente-se ao lado da pessoa que sofre, abraçe-a e chore junto com ela. Apenas isso. Passe a mensagem que está solidário(a). Que a dor da outra pessoa também é sua.

Evite falar muito. Comunique-se mais através de atitudes solidárias do que de palavras. E nunca procure dar explicações nesses momentos iniciais. Não há coisa pior do que alguém chegar num enterro e tentar consolar, dizendo coisas como: “Conforme-se, pois foi Deus quem quis assim”. Já vi isso acontecer e, acredite, o resultado nunca é bom. 

Nada do que você falar naquele momento vai ajudar e basta uma palavra infeliz, mesmo com a melhor das intenções, para deixar uma marca ruim. Há sim coisas que podem ser ditas, mas depois, quando os ânimos serenarem um pouco.

E se a pessoa, no seu desespero, se revoltar contra Deus, não se escandalize. Inúmeros homens da Bíblia fizeram isso. Pode ter certeza que Deus compreende. E Ele não vai usar palavras desesperadas contra quem está sofrendo. 

O que fazer mais tarde
Passados os momentos iniciais, aqueles(as) que sofreram a tragédia passam realmente a vivenciar sua perda. É quando “cai a ficha”, conforme se diz popularmente. A perda passa a ser sentida no dia-a-dia e a vida muda para pior. E a maior parte das pessoas que se solidarizou nos primeiros momentos precisou voltar para suas próprias vidas. 

É aí que você pode ser mais útil. Primeiro fazendo-se presente na vida de quem sofre. E depois ajudando a responder às dúvidas que vão surgir.

Essas dúvidas são bem comuns: Por que isso aconteceu? Por que Deus permitiu que a desgraça afetasse tanto minha vida? Posso continuar a confiar nesse Deus? Há respostas para essas questões, mas infelizmente elas não são fáceis de dar e muito menos de receber, pois contrariam a lógica humana.

O fato é que Deus não nos revela todas as razões para aquilo que faz ou permite que aconteça. E a razão é simples: há limites para a mente humana. Para o que conseguimos entender. 

Aceitamos essa limitação em relação a muitas questões. Por exemplo, não sabemos bem como será o final dos tempos. E vivemos com essa ignorância sem maiores problemas. 

Mas é muito mais difícil aceitar a falta de explicação para uma catástrofe. As pessoas querem entender. Precisam entender para sentir que têm algum controle sobre suas vidas. A desgraça as faz sentir vulneráveis e inseguras - o que garante que ela não vai se repetir? 

A solução que Deus oferece para esse impasse é estranha para a lógica humana: a fé. Ele nos pede para aceitar aquilo que não é possível entender pela razão através da fé n´Ele, da confiança que Deus é amoroso, misericordioso e sempre interessado naquilo que é melhor para os seres humanos.

É isso que você precisa dizer para quem está sofrendo. E reconheço que não é fácil seguir por esse caminho. Em meio à dor e ao sentimento de fragilidade gerado pela catástrofe, encontrar sentido nas coisas da vida apenas mediante a confiança em Deus não é um pedido fácil de ser atendido. 

Alguns vão conseguir dar esse passo, mas muitos outros infelizmente não. Esses últimos vão procurar outros caminhos que fornecem respostas mais faceis, como o espiritismo, através da comunicação com os mortos (sabemos que isso não é possível, mas essa não é a questão aqui).

Se a pessoa que sofre não aceitar o caminho que Deus oferece, não a culpe e nunca diga que ela está pecando. Afinal, as pessoas reagem de diferentes formas à dor. 

Tenha paciência e continue a falar sobre Deus para ela. E peça ajuda ao Espírito Santo para mudar a mente daquela pessoa - nunca se esqueça que Deus tem meios que não estão ao seu alcance. Apenas faça sua parte e confie em Deus.

Com carinho  

sexta-feira, 9 de maio de 2014

A OBRIGAÇÃO DOS PAIS COM A RELIGIÃO DOS FILHOS

Uma amiga minha comentou recentemente que tenho escrito pouco a respeito do que os pais devem fazer para colocar seus filhos no caminho do Evangelho de Jesus Cristo. Começo hoje a pagar essa dívida. Certamente vou precisar de mais de um post para abordar o tema de forma satisfatória. Portanto, o post de hoje é apenas um primeiro passo.

A responsabilidade dos pais
Não há dúvida que os pais têm responsabilidade de educar seus filhos em todos os aspectos da sua vida. E o lado religioso está incluído nessa tarefa. Alguns pais mais liberais acham que não devem interferir nesse aspecto da vida dos filhos para dar a eles liberdade para escolherem livremente sua religião, sem interferências externas, quando atingirem idade adequada. 

Mas nenhum pai/mãe responsável deixaria que o filho viesse a aprender como proceder socialmente ou os princípios morais a seguir por conta própria, de forma inteiramente livre. Sabem que são responsáveis por exercer liderança sobre os filhos para apontar-lhes o melhor caminho.

Da mesma forma, se os pais acreditam realmente que o cristianismo é o melhor caminho para seus filhos, precisam sinalizar isso claramente para eles. Pais "liberais", que buscam dar liberdade total de escolha para seus filhos, bem lá no fundo não têm certeza que o cristianismo é mesmo o melhor caminho. Pensam que há outras alternativas boas que seus filhos podem escolher seguir. 

Os pais precisam investir tempo e esforço para ensinar os filhos o caminho correto. E a Bíblia é bem clara a respeito dessa responsabilidade.

O que os pais devem fazer?
Como dar aos filhos uma boa educação religiosa? Acho que há três aspectos importantes a considerar. E o primeiro deles é garantir que os filhos aprendam a viver o cristianismo de forma correta. Eles precisam conhecer a Bíblia e saber aplicar na prática os ensinamentos nela contidos. Naturalmente tudo isso deve ser feito num nível adequado à idade de cada filho.

Os pais devem fazer isso diretamente – basta comprar livros adequados, incluindo uma Bíblia em linguagem apropriada para crianças e/ou adolescente – e recorrer à Escola Bíblica que sua igreja deve ter. Ambas as coisas são importantes. 

O segundo aspecto é dar o exemplo certo. Não há como cobrar, por exemplo, que os filhos frequentem a igreja se os pais não fizerem o mesmo. Não há como pedir-lhes que se envolvam com a obra de Deus, se os pais nada fizerem por essa mesma obra. Não é possível pedir-lhes que vivam de acordo com os ensinamentos cristãos, se os pais não fizerem isso também. Afinal, todos sabem que os filhos olham para os pais em busca de exemplos de como proceder. Simples assim.

E é interessante perceber que essa obrigação de dar exemplo adequado acaba gerando resultados positivos também para os próprios pais. Conheço várias pessoas que acabaram se aproximando de Deus porque se sentiram na obrigação de dar educação religiosa para seus filhos e sabiam que seu exemplo seria importante. Aí passaram a frequentar uma igreja, envolveram-se em diversas atividades (como assistência social), etc. Essas pessoas não teriam dado esses passos motivadas apenas pelas suas próprias necessidades, mas fizerem isso por seus filhos. E aquilo que inicialmente foi feito por pura obrigação, acabou se tornando parte da vida daqueles pais. As coisas de Deus são assim mesmo - um passo na direção positiva acaba frutificando de forma que nunca se espera.

O terceiro e último aspecto é perseverar. Educação é tarefa de longo prazo. Acho que ninguém tem dúvida disso. E não é muito diferente na educação religiosa - não se pode imaginar que alguém venha a ter bom conhecimento da Bíblia após apenas poucos meses de estudo. Ou que aprenda a viver o cristianismo de forma correta após dez lições semanais. Educação religiosa leva tempo e exige esforço. Sempre.

Palavras finais
Se você tem filhos, tem também responsabilidade de encaminhá-los na vida cristã. Quanto mais cedo esse processo começar, ou seja por quanto mais tempo seus filhos forem expostos aos ensinamentos cristãos e à realidade de como vivê-los na prática, melhor. Mais seguros e protegidos para tomarem decisões adequadas ao longo de suas vidas eles estarão.

Não deixe essa tarefa para amanhã. Não tente delegá-la para outras pessoas. Essa responsabilidade é sua. Principalmente sua.

Com carinho  

quarta-feira, 7 de maio de 2014

O FILME SOBRE NOÉ

Toda vez que aparece um novo filme baseado na Bíblia acontecem muitas discussões. Tenho para mim que todo filme bíblico, desde que seja respeitoso, vale a pena, porque, no mínimo, gera debate sobre alguns temas importantes. Além disso, as pessoas normalmente têm dificuldade de visualizar o que aconteceu milhares de anos atrás e um filme, quando bem feito, ajuda as pessoas a terem um melhor entendimento quanto aos tempos bíblicos.

Lembro que, quando eu era pequeno, foi lançada uma versão espetacular da história da saída do povo de Israel do Egito. O filme, intitulado “Os Dez Mandamentos”, tornou famoso o ator Charlton Heston, que representou Moisés. Algumas cenas - como a abertura do Mar Vermelho para passagem do povo de Israel - causaram muito impacto. Como nota negativa houve o fato do filme ter romantizado bastante a história, inclusive "criando" um romance entre Moisés e a rainha do Egito. Mas toda obra literária, quando filmada, passa por mesmo esse processo e a Bíblia não iria ser a exceção.  

O fundamental é que aqueles que viram o filme, como eu, saíram do cinema com uma percepção mais clara daqueles fatos fundamentais da história de Israel - o período de escravidão de Israel no Egito, os milagres que Deus realizou para que o povo pudesse sair dali e, sobretudo, a importância da figura de Moisés. Até hoje, quando penso no êxodo de Israel, vem à minha mente as imagens daquele filme.

O caso mais recente é o filme sobre Noé, uma obra milionária que está gerando enorme bilheteria e também muita discussão. Foi assim mesmo que aconteceu? Noé existiu de fato? A arca cabia todos os animais? E assim por diante.

Noé existiu mesmo?
Há um erro muito comum quando as pessoas vão discutir os relatos da Bíblia: elas costumam partir para o tudo ou nada. Ou aceitam que os fatos aconteceram exatamente como uma leitura literal do texto bíblico dá a entender ou, se concluirem que não aconteceu assim, passam a pensar que a Bíblia mentiu. Não há meio termo possível.

Ora, quem age assim não tem muita ideia do que são as obras literárias. É comum que essas obras - e a Bíblia não é exceção - contenham textos que precisam ser interpretados de forma figurativa, pois fazem uso de símbolos para transmitir ideias importantes. E a existência de símbolos não torna a mensagem menos verdadeira. 

Um bom exemplo são as parábolas que Jesus contou. Não são necessariamente relatos de fatos reais - o "bom samaritano" ou o "filho pródigo" não existiram necessariamente -, mas nem por isso os ensinamentos que essas parábolas trazem deixam de ser menos verdadeiros. O livro do Apocalipse está cheio de imagens como a “besta que sai do mar”, o “dragão”, a “grande meretriz”, etc e ninguém em sã consciência acredita nessas coisas literalmente. É claro que são símbolos de outras coisas, como o Anti-Cristo, o diabo, o sistema desse mundo, etc. 

E ocorre exatamente assim com o relato da grande enchente da época de Noé (Gênesis capítulos 7 e 8): há muito simbolismo nesse texto da Bíblia. Por exemplo, o arco iris como memória da promessa que Deus não vai trazer outro dilúvio para punir o mundo.

Na verdade, a memória coletiva da humanidade inclui o relato de uma enchente catastrófica. E essa memória vai muito além da Bíblia – por exemplo, o chamado “Épico de Gilgamesh” é um relato muito parecido ao da história de Noé, escrito pelo povo sumério, muito antes da Bíblia ser composta. É claro que a Bíblia interpreta os fatos relacionados com essa enchente à luz da crença do povo de Israel em Deus, enquanto relatos como o de Gilgamesh olham para os mesmos fatos do ponto de vista das religiões pagãs. E é absolutamente natural que seja assim.

Houve sim uma grande enchente e um homem que conseguiu salvar sua família construindo um barco. Mas há diversas questões adiocinais a serem esclarecidas. Por exemplo, houve realmente uma enchente universal? 

Pensar numa enchente que cobriu toda a terra seca existente no mundo, somente deixando de fora os picos dos montes mais altos, não parece muito razoável. Seria necessária uma quantidade de água absurda, que não teria depois para onde escoar - o processo descrito no relato bíblico como as "águas baixaram". É mais razoável pensar - e essa ideia não contraria em absoluto a Bíblia - que houve uma grande enchente afetando todas regiões onde essas tradições nasceram e foram registradas.

E é fácil entender que quando a Bíblia se refere a uma enchente que atingiu "todo mundo" está usando uma figura de linguagem. Por exemplo, quando eu digo que “todo mundo” esteve, na minha casa na minha festa de aniversário, não estou dizendo que 7 bilhões de pessoas estiveram ali e sim que todas as pessoas que importavam para mim vieram. 

É exatamente assim que o relato bíblico deve ser entendido. Tratou-se de um fenômeno que aconteceu numa determinada região da terra – os estudos atuais indicam que tudo se passou na região da Mesopotâmia e do chamado Mar Negro, onde a civilização no Oriente Médio começou. Parece ser que houve uma ruptura do istmo que tornava o Mar Negro um lago, hoje o estreito da cidade Isatambul (Constantinopla), ocasionando a invasão desse lago pelas águas do Mediterrâneo, gerando uma inundação catastrófica nas suas margens.

Onde o filme acerta?
Há erros no filme, como os tais gigantes de pedra, coisa que não tem qualquer sentido. Mas prefiro me concentar aqui nos vários acertos. Primeiro, a indicação que a natureza daquela época – pelo menos 10.000 atrás – era bem diferente daquela que conhecemos hoje. Animais e plantas eram distintos e se comportavam de outra forma. E isso é razoável, pois sabemos que os seres vivos mudam ao longo do tempo, inclusive para se adaptar às mudanças do ambiente como, por exemplo, a tal “era do gelo”.

Sabemos que muitas espécies de seres vivos desapareceram e outras surgiram, inclusive por causa da intervenção dos seres humanos. Portanto, o filme acerta em mostrar uma natureza distinta daquela que conhecemos hoje. Não sei se era tão distinta como o filme mostra, mas certamente era diferente.

Acho que o filme também acerta em mostrar a precariedade da vida humana naquela época. A população era muito pobre e simplesmente lutava para sobreviver – qualquer problema fazia com que as pessoas morressem de fome. Assim, num ambiente daqueles, é notável que alguém tenha conseguido construir um barco para salvar sua família.

Finalmente, acho também positivo o filme mostrar as dúvidas de Noé como ser humano - a dificuldade dele para entender exatamente qual era seu papel no meio daquele evento catastrófico e o que Deus esperava dele. 

Resumindo, mesmo com diversas falhas, é um filme que vale a pena ser visto e depois comparado com o relato da Bíblia. Certamente você vai aprender bastante se fizer isso.


Com carinho