terça-feira, 30 de setembro de 2014

OS QUATRO TIPOS DE AMOR


"...Se não tiver amor, nada serei. O amor é paciente, é benigno, o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal e não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade, tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba..."                                 1 Corintios capítulo 13
A passagem acima é muito conhecida e se deve ao apóstolo Paulo. E ninguém falou melhor sobre o amor verdadeiro do que ele. 

Acontece que esse texto é muito usado em casamentos - já perdi a conta das vezes em que vi isso acontecer. Mas Paulo falou que o amor que estava descrevendo não arde em ciúmes. Ora, não há nada que mais "arda em ciúmes" do que o amor entre um homem e uma mulher. E quem diz o contrário, nunca amou. 

Será que Paulo errou na sua descrição, talvez por não ter sido casado? Na verdade, Paulo estava falando de outro tipo de amor. E é um erro de interpretação usar 1 Corintios 13 para falar do amor entre homem e mulher.
 
Esse erro de interpretação tão comum nasceu, na verdade, na tradução do texto original do Novo Testamento do grego koine para o português. O problema é que existem quatro palavras ("eros", "storge", "philia" e "agape") no grego que são todas traduzidas pela mesma palavra em português, "amor". E somente o contexto permite saber do que o autor está falando em cada situação particular. 

O problema de não conseguir encontrar a palavra adequada numa língua quando se traduz da outra é muito comum. Por exemplo, a palavra saudade praticamente não existe fora do português. Outro exemplo é a palavra "chuva" que no japonês pode ser traduzida de 20 diferentes formas.

A seguir explico melhor os quatro diferentes sentidos que a palavra "amor" pode ter na Bíblia. 

Eros
É o amor que existe entre homem e mulher, incluindo os aspectos sexuais. A Bíblia descreve com bastante propriedade esse tipo de amor no livro Cântico dos Cânticos, escrito por Salomão. A palavra paixão descreve uma parte desse amor, o seu aspecto mais físico, mas o amor "eros" vai além disso. 

O "eros" é um amor exigente, pois espera retribuição. Quer exclusividade e sofre muito com o ciúme.

Storge
É o amor existente entre uma mãe e seus filhos ou entre irmãos. Mas não seria errado dizer que também está presente no amor de uma pessoa pelo seu cachorro. 

Uma palavra no português que descreve um pouco melhor o amor "storge" é "afeição", mas essa tradução não é perfeita, pois "storge" tem um sentido mais forte do que "afeição".

"Storge" talvez seja o tipo mais simples de amor. Não exige exclusividade e nem retribuição. É universal pois todas as pessoas esperam receber tal tipo de amor e quando isso não ocorre, sofrem grande trauma emocional - basta ver os problemas que existem entre pais e filhos(as).

Uma característica interessante do amor "storge" é que ele lida mal com a mudança. Para os pais, os filhos nunca crescem e os filhos não gostam muito de ver mudanças nos pais – por exemplo, um novo amor "eros" na vida da mãe ou do pai.

Philia
Esse termo se refere ao amor que existe entre amigos. É semelhante à amizade, porém mais forte. Por exemplo, o Novo Testamento fala que Jesus amava o apóstolo João e o termo usado é exatamente "philia". 

É o amor que deve existir dentro de uma comunidade cristã e também o que mais se aproxima daquele que haverá entre as pessoas salvas, no Paraíso. 

O amor "philia" também pode existir entre marido e mulher ou entre irmãos e certamente sua existência reforça em muito a ligação existente entre essas pessoas.  

"Philia" não é um amor exigente. Não tem limitações de sexo, raça, situação social, etc. É um amor que normalmente não sofre muito com ciúmes – sempre cabe mais um numa roda de amigos. 

Infelizmente, o amor "philia" era mais importante na cultura antiga do que no mundo moderno. Antigamente, as sociedades tinham muitas características tribais, onde a cooperação humana era fundamental. Hoje as pessoas podem viver nas grandes cidades quase sem amigos. 

Agape
Esse é o amor que Deus tem por nós. Também é o tipo de amor que o cristão deve ter pelo próximo se obedecer o mandamento que Jesus estabeleceu. 

Muitos traduzem "agape" como caridade, mas esse tipo de amor vai além disso, pois envolve também carinho, misericórdia, compaixão, etc.

O amor a que Paulo se refere no texto acima é justamente o "agape". É a essência do cristianismo. E foi por isso que Paulo deu tanta importância a ele".

Com carinho

domingo, 28 de setembro de 2014

O CRISTÃO E O MOMENTO ELEITORAL

Estamos próximos das eleições gerais e tenho recebido algumas perguntas sobre como os cristãos devem se comportar frente a esse evento. Aí vão quatro reflexões que espero sejam úteis para você:

Participar sempre  
Há um desencanto e um cansaço natural quanto ao processo eleitoral: os candidatos prometem e não cumprem, a corrupção campeia e assim por diante. E, por causa disso, ouço com frequência as pessoas dizerem que não vão votar ou anularão seus votos. 

Eu não concordo com essa posição. Primeiro, porque o ato de votar, para mim, sempre terá muita importância. Fiquei até os 38 anos sem poder votar para Presidente, por causa da ditadura no nosso país, e sinto que fui roubado por quase 20 anos de um direito que era meu. Agora, que recebi de volta esse direito, é importante exercê-lo, sempre.

Depois, porque as consequências de se omitir numa eleição podem ser trágicas. Por exemplo, na Venezuela, cerca de 10 anos atrás, a oposição decidiu boicotar as eleições parlamentares em protesto contra o governo de Hugo Chávez. E somente foram eleitos parlamentares favoráveis a ele e, com base na enorme força conseguida, aquele homem mudou a Constituição do país, pintou e bordou. E a sociedade venezuelana vem pagando um preço altíssimo por causa desse enorme erro político.

Jesus nos disse para ser "luz do mundo" e a luz precisa estar aparente - não pode se omitir, senão deixa de iluminar.

Avalie sempre as idéias  
Procure conhecer as idéias (plano de governo) dos candidatos - se isso não existir já é um sinal muito ruim.  E verifique se essas ideias estão dentro dos princípios que a Bíblia ensina de como uma sociedade deve ser governada. 

Por exemplo, onde estará a ênfase das ações governamentais? No ser humano? O que será feito para diminuir as injustiças existentes? E assim por diante.

Evangélico sempre vota em evangélico?
A resposta correta é simples: não, depende de que evangélico se estiver falando. Afinal, dizer-se evangélico não pode ser passaporte para ganhar voto - trata-se simplesmente de uma declaração da fé do candidato(a). 

Temos visto, infelizmente, com muita frequência, testemunhos deprimentes dados pela chamada "bancada evangélica", que se envolve em negócios escusos, barganha por cargos e assim por diante. Isso cobre de vergonha os evangélicos.

Ser evangélico é um dado relevante, assim como deve ser a história da pessoa, as idéias que ela defende e também com quem está aliada. Esse último fator é fundamental porque, não se iluda, as alianças eleitorais têm "preço" e são pagas dando aos aliados fatias do poder. Se os aliados não são dignos, parte do poder daquele governante será exercido de forma indigna. Simples assim.      

A igreja cristã deve ficar longe do poder
Não aceite que as lideranças da sua igreja tentem usar a membresia como "curral eleitoral". Trata-se de coisa totalmente contrária à  prática bíblica.  

O papel da igreja cristã é ser um canal para levar os homens a Jesus e para fazer a obra de Deus aqui na terra. O papel dos partidos políticos e dos candidatos é lutar para conseguir obter e manter o poder civil, visando o bem da população (pelo menos assim deveria ser). São objetivos muito diferentes e eles não são compatíveis entre si. Partidos políticos e a igreja cristã não podem se misturar pois são como água e óleo. 

Com carinho

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

TENTANDO ENTENDER DEUS

Como entender Deus em toda sua majestade e glória? Como explicar esse Ser para aqueles que não acreditam n´Ele? Vou tentar responder a essas perguntas tão importantes.

Comece por fechar seus olhos e pensar em Deus. Como você o imagina? A imagem mais comum que as pessoas têm de Deus é a de um belo senhor, de barbas brancas, com formas majestosas. Mas Deus não é de fato assim - essa é a imagem d´Ele que alguns artistas famosos, como Michelangelo, usaram para representar Deus nas suas pinturas.  

Esses artistas viam Deus como um ser humano e escolheram representá-lo dessa forma. Essa também é a abordagem usada pela própria Bíblia, que fala, por exemplo, sobre os braços, os olhos e as mãos de Deus. É claro que Deus não tem braços ou olhos, mas é um pensamento reconfortante imaginar que podemos nos abrigar nos braços d´Ele.

Essa “humanização” de um ser que não é humano é chamada de antropomorfismo. E esse recurso é muito usado nas artes de uma forma geral - basta ver os desenhos animados onde animais e até vegetais "funcionam" como pessoas. 

Mas o recurso ao antropomorfismo não é uma tentativa verdadeira de entender como Deus e sim de torná-lo mais “parecido” conosco, diminuindo as diferenças.

Aquilo que Deus não é 
É muito comum também as pessoas tentarem descrever Deus falando do que Ele não é ou não faz – não peca, não erra, não tem limites, etc. E conseguimos saber coisas importantes usando essa abordagem. Por exemplo, Deus não está limitado a nenhum lugar, portanto, pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo (onipresença). Deus não pode ser afetado pelo tempo, portanto, Deus é eterno, sempre existiu e sempre existirá. Ainda mais, para Ele não há diferença entre passado, presente e futuro.

Agora, é fácil perceber que essa abordagem não gera o conhecimento que buscamos. Por exemplo, dizer que não sou um homem alto, nem forte e nem gordo não vai contribui muito para você saber como sou de fato. Ajuda, dá uma ideia aproximada, mas não esclarece muito.

As "impressões digitais" de Deus
É comum também tentarmos entender Deus através do que Ele faz. Chamo a isso procurar as "impressões digitais" de Deus na natureza e na vida das pessoas. E isso nos permite tirar algumas conclusões. 

Por exemplo, Deus levou o universo a existir e estabeleceu as leis fundamentais que o governam. Logo, é claro que Deus é incrivelmente poderoso, tem uma inteligência gigantesca e uma criatividade absurda. 

É evidente também que, se criou tudo, Deus tem conhecimento completo sobre a realidade física, incluindo sobre os seres humanos. Assim, Deus sabe o que pensamos e o que fazemos. Nada o surpreende. 

Mas, ainda assim, não estamos falando da essência de Deus e sim das suas capacidades. E, se você disser que sou paciente, articulado e tenho certo nível de inteligência, ainda assim não está falando verdadeiramente de quem sou. 

A Bíblia fala também que Deus é amor. Estará aí sua essência? Será que um sentimento pode ser a essência de um Ser vivo? Parece que não. Na verdade, quando a Bíblia fala dessa forma, está dizendo que Deus se revelou para nós como um Ser essencialmente amoroso. A impressão que passa é que Ele é feito de puro amor. 

Por que é difícil falar de Deus?
Há duas razões para que seja tão difícil falar sobre Deus. A primeira delas é que se trata de um Ser de um tamanho, poder e complexidade que desafia nossa capacidade de entendimento. Para nós, entender como Deus é seria como tentar ensinar a Teoria da Relatividade para uma criança de 4 anos. Impossível.

A segunda razão é que as palavras humanas não foram feitas para descrever Deus. Para explicar bem essa limitação, vou usar o exemplo da música. Ela funciona a partir da melodia, do ritmo e da harmonia. Mas como descrever essas coisas com palavras. A música não pode ser explicada com palavras - no máximo, podemos dizer como nos sentimos ao ouvi-la. 

A música somente pode ser "compreendida" de fato com os "olhos" do coração. Simples assim. Mas nem por isso deixa de ser fundamental na vida das pessoas.

Assim também ocorre com Deus: Ele não pode ser  compreendido adequadamente pelo raciocínio humano e nem descrito pelas palavras de qualquer idioma. Somente podemos entendê-lo verdadeiramente com outros “olhos”, os da fé.

Com carinho 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O PAPEL DE ISRAEL NO PLANO DA SALVAÇÃO

Qual é o papel de Israel no Plano de Salvação que Deus estabeleceu para a humanidade? Qual é a diferença entre Israel e a igreja cristãAcho que essas questões são relativamente simples de responder, mas as respostas muitas vezes ficam obscurecidas por uma série de concepções erradas. 

E a confusão somente vem aumentando com a mania recente de vários pastores de apelar para práticas de culto usadas pelos israelitas nos tempos do Velho Testamento - um bom exemplo é o "Templo de Salomão" que uma denominação evangélica acabou de inaugurar em São Paulo (veja mais).    

O papel de Israel
Israel foi o povo escolhido por Deus para cumprir uma missão fundamental: gerar o Messias, o salvador da humanidade. E o papel de Israel na história deve sempre ser olhado sob esse ponto de vista.

O povo de Israel foi estabelecido por Deus a partir de um homem muito sincero e fiel, Abraão. E para que esse povo pudesse levar adiante sua missão, Deus lhe prometeu um território, a Palestina, onde poderia viver, prosperar e se defender dos seus inimigos. Ali haveria de nascer e ser criado o Messias.  

Israel cumpriu sua missão mesmo aos trancos e barrancos. Passou por muitas dificuldades, como durante os 400 anos em que foi escravizado no Egito ou no período em esteve no exílio na Babilônia.  Teve também seus pontos altos durante os reinados de Davi e Salomão, reis ricos e poderosos. O fato é que Deus sempre intercedeu a favor de Israel para dar-lhe condições de cumprir seu papel.

O papel de Israel foi fundamental. E as promessas que Deus fez para os israelitas visavam facilitar a execução desse objetivo. É por causa disso que as promessas feitas a Israel, geralmente não se aplicam, nem poderiam ser aplicadas, a nós.

O papel da Igreja 
Nosso papel começou depois da morte e ressurreição de Jesus, conforme relata o livro de Atos dos Apóstolos. E trata-se de papel espiritual e não material. Não tem a ver com a manutenção de territórios físicos ou do estabelecimento de reinos poderosos. Nada disso. 

O papel da igreja, conforme Jesus deixou claro, é bem diferente. Trata-se de testemunhar sobre o Reino de Deus e contribuir para implantá-lo aqui. Portanto, as promessas feitas para nós têm cunho eminentemente espiritual e se destinam a nos dar condições de desempenhar o papel que nos foi atribuído. 

É claro que existem ramificações materiais, pois para podermos testemunhar o Reino de Deus e ajudar o próximo precisaremos estar vivos e em boas condições. Mas o foco não está no nosso bem estar material e sim no testemunho que precisamos dar para o mundo. 

Palavras finais
O papel de israel e da igreja cristã são ambos fundamentais. Mas são muito diferentes entre si. A Aliança de Deus com Israel envolveu a criação de condições materiais para que o Messias pudesse vir ao mundo, crescer e realizar seu ministério. O enfoque tinha que ser material e por isso Deus deu territórios a Israel, estabeleceu um reino ali, etc. Essa foi também a razão porque Deus tomou medidas para orientar Israel a construir um Templo, a lutar guerras, etc.

Vivemos o papel de testemunhar o Reino de Deus. É um enfoque diferente. O lado material entra indiretamente como um recurso necessário para que possamos executar as tarefas a nosso cargo. Foi por isso que Jesus não se preocupou de estabelecer reinos materiais, de construir templos, de criar exércitos e assim por diante.  

Foram duas Alianças com Deus totalmente diversas, uma com Israel e outra com a igreja cristã. Dois papéis diferentes. Deus deu a Israel e à igreja missões distintas e daí decorrem necessidades diversas. E Deus age para preencher essas necessidades, o que significa dar bençãos de diferentes naturezas a um (Israel) e à outra (a igreja cristã).    

Com carinho

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

QUEM É BOM DE FATO?

Certa vez, Jesus estava ensinando e um ouvinte, muito impressionado com sua sabedoria, o chamou de “bom Mestre”. Jesus imediatamente respondeu: “Por que você me chama de bom? Ninguém é bom, a não ser um, que é Deus” (Marcos capítulo 10, versículos 17 e 18).

O que Jesus quis dizer foi mais ou menos o seguinte: “Você pensa que sou bom, pois pareço ser melhor do que as outras pessoas que você conhece, mas o padrão de bondade verdadeiro não sou eu, é Deus”.

Na verdade, o interlocutor de Jesus incorreu num erro que é muito comum: olhou em torno e se sentiu melhor do que muitos outros, pois não roubava, não matava, não traia, etc. E percebeu em Jesus o mesmo tipo de "vantagem" moral. Mas o padrão de bondade, conforme Jesus alertou, não é a pessoa ao lado. É muito mais exigente: o padrão é o próprio Deus. 

Agora, por que o padrão de bondade é Deus? Sabemos que é assim por que Ele próprio revelou (contou) isso. E essa afirmação parece meio estranha – afirmamos que alguém é bom porque ele mesmo nos contou isso. 

Na verdade, se levarmos em conta que Deus é o centro e a fundação de todas as coisas, materiais ou espirituais, essa declaração deixa de parecer estranha. Afinal, se alguém tem credibilidade, esse alguém é Deus. Portanto, podemos aceitar o padrão de bondade que Ele estabeleceu. 

O problema com esse padrão é que ninguém pode ser igual a Deus - comparados a Ele, não somos nada. Simples assim. Foi isso que apóstolo Paulo disse em Romanos capítulo 3, versículo 23: "... pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus".

Apenas quando temos essa percepção – de que estamos muito aquém do padrão de bondade que nos foi apresentado – e nos sentimos sem mérito diante de Deus, é que Jesus assume sua verdadeira importância em nossas vidas. Pois é aí que percebemos precisar do perdão de Deus e do sacrifício de Jesus na cruz.

Esse é o significado completo do ensinamento de Jesus que abriu este post. 

Com carinho

sábado, 20 de setembro de 2014

AS DOENÇAS DO CORAÇÃO

Vivemos numa sociedade onde o “eu” é cada vez mais importante. O que mais se ouve é "eu mereço isso", "eu não gosto daquilo", "eu escolhi tal coisa" e assim por diante. O “eu” tornou-se o motor do nosso dia a dia. 

A excessiva importância do "eu" acaba por gerar doenças emocionais e espirituais importantes, que eu apelidei aqui de "doenças do coração":

· Ira: pode ser descrita como alguém deve a mim alguma coisa”. Por exemplo, penso que merecia um respeito que me foi negado; ou um reconhecimento que não foi recebido por mim; ou ainda um amor que não foi dado a mim mas a outra pessoa. E por ter sido frustrado naquilo que entendia ser meu direito, por pensar que há uma dívida em aberto comigo, posso me deixar levar pela ira.

· Culpa: pode ser descrita como “eu devo alguma coisa para alguém”. Fiz algo que não devia e me sinto culpado por isso. 

· Egoísmo: pode ser descrito como “eu venho sempre em primeiro lugar”. E isso gera dificuldade de pensar nas necessidades do próximo e de abrir mão dos meu interesse em favor dele.

· Inveja: pode ser descrita como “eu penso que Deus me deve algo que não me deu”. Pode ser que outra pessoa com quem convivo tenha mais beleza ou inteligência ou ainda sucesso. Pode ser que outros tenham menos problemas do que eu enfrento. E a culpa é de Deus pois Ele pode tudo e poderia mudar minha sorte. 

· Orgulho: pode ser descrito como “eu me considero importante e digno de reconhecimento por parte das demais pessoas”.  
O império do “eu” é provavelmente a maior dificuldade que existe para a construção de uma sociedade melhor e mais justa. Quando o “eu” manda, coisas ruins ocorrem: a ira explode em violência, o egoísmo em cobiça desenfreada, a inveja em fofoca, o orgulho em indiferença e assim por diante.
O fato é que todos temos um pouco dessas doenças em nossos corações. Algumas delas são mais presentes do que outras, mas todas se fazem notar. E precisamos ter consciência clara disso.

Jesus nos ensinou que o antídoto para os "males do coração" é justamente desviar o foco do "eu". E é dessa percepção que nascem os dois grandes mandamentos que resumem tudo que devemos fazer: amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao próximo como a nós mesmos.

Quando amamos a Deus sobre todas as coisas, esse amor passa a conduzir nossas vidas. E assim seguimos os princípios de vida que Deus estabeleceu, mesmo quando contrariam nosso próprio interesse pessoal. É aí que domamos o nosso "eu", tornando-o dependente de algo maior.

Depois, quando decidirmos fazer pelo próximo as coisas que gostaríamos que fossem feitas a nós, nosso “eu” vira uma referencia para aquilo que os outros deverão receber. 
Agora, passar da teoria à prática é difícil. Domar o próprio "eu", e torná-lo dependente de algo maior, não é simples. Mas felizmente há instrumentos que nos ajudam a fazer isso. Refiro-me às disciplinas espirituais que podem moldar nossa vida. Indico cinco dentre elas a seguir:

Confissão
O programa de luta contra o vício do alcoolismo defendido pelos Alcoólicos  Anônimos começa exatamente pelo reconhecimento do problema e sua confissão pública. E como somos viciados no "eu", é por aí que precisamos começar também, reconhecendo esse problema. Esse é o ponto de partida para tudo

Perdão
Cancelar as dívidas emocionais que as outras pessoas têm conosco é um passo importante. Isso livra o nosso “eu” de sua carga de mágoas, do desenvolvimento de desejos de vingança e, sobretudo, do risco de conservar a vida congelada no passado (veja mais).

Doação
Dedicar parcelas importantes do nosso tempo e recursos ao desenvolvimento do Reino de Deus aqui na terra é uma forma muito eficaz de combater o egoísmo. A doação de nós mesmos faz com que o foco saia de cima das nossas necessidades e desejos e seja transferido para as outras pessoas. A experiência mostra que quanto mais se dá, maiores frutos são gerados e eles estimulam e gratificam quem doa.

Alegria com o sucesso dos outros
Procurar se alegrar com as realizações daqueles que nos causam inveja é uma disciplina espiritual muito importante. É importante que venhamos aprender a expressar em voz alta essa alegria. E não se trata de uma atitude hipócrita, porque é fruto de uma decisão real de ter tal tipo de alegria no coração.  

Realização de trabalhos humildes
Foi isso que Jesus nos ensinou quando lavou os pés dos discípulos. E não há melhor antídoto contra o orgulho. Eu, por exemplo, quando participo de retiros espirituais, procuro sempre me auto-escalar para lavar pratos e outras coisas simples (embora frequentemente também desempenhe tarefas consideradas mais "nobres"). Isso me ajuda a manter o sentido do serviço a Deus. E posso garantir que as melhores recordações que tenho desses eventos são justamente as que tive na realização dessas tarefas simples.

Com carinho

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

A PALAVRA DE DEUS

Os sessenta e seis livros que compõem a Bíblia gozam no meio cristão de autoridade que nenhum outro texto já teve ou terá, por serem reconhecidos como a Palavra de Deus. 

O entendimento dos cristãos é que o Espírito Santo inspirou os autores desses livros (cerca de quarenta pessoas), orientando-os sobre o que deveriam escrever. E, quando estavam sendo inspiradas, essas pessoas não perderam a consciência do que faziam - a inspiração não é, como alguns erradamente pensam, semelhante à psicografia praticada pelos médiuns espíritas. É bem diferente. 

A pessoa inspirada preservava sua consciência e tinha controle sobre sua vontade. Se o autor conhecia apenas uma língua, ele escrevia nessa língua. Seu estilo de escrita e vocabulário eram preservados - por isso o texto de Paulo, na carta aos Romanos, é tão diferente do texto de Lucas, nos Atos dos Apóstolos.

Ao ler a Bíblia, é preciso ter em mente algumas verdades muito importantes. Em primeiro lugar, tudo que a Bíblia contém é verdade mas nem todas as verdades estão contidas na Bíblia. Ela, como não poderia deixar de ser, tem escopo limitado.

Portanto, a Bíblia não deve ser lida, por exemplo, como um livro texto científico. Não se deve procurar nela esse tipo de “verdade”, pois corre-se o risco de repetir o mesmo erro que a Igreja Católica cometeu com Galileu Galilei, condenado por difundir a teoria de que nosso planeta não é o centro do universo. Exemplos de teorias científicas já comprovadas como verdadeiras sobre as quais a Bíblia nada fala são as leis da Termodinâmica e a Teoria da Relatividade. 

Em segundo lugar, é preciso lembrar que o texto bíblico foi escrito de forma a se adequar a quem iria usá-lo. É claro que a Bíblia foi escrita para ser relevante para as pessoas de hoje em dia, mas não se pode esquecer que os mesmos textos foram igualmente relevantes para o povo de 2.000 anos atrás. 

Ora, o conhecimento científico daquela época era extremamente limitado e os textos levaram isso em consideração. Por exemplo, nos tempos bíblicos considerava-se que a sede do intelecto estava no coração e, naturalmente, essa visão permeia o texto bíblico. E isso não é um erro e sim uma adequação do texto ao público ouvinte daquela época.

Da mesma forma, a Bíblia não descreve os fatos históricos, como um livro texto de história faria isso hoje em dia, com todos os detalhes do que ocorreu, a indicação das fontes usadas e a apresentação das provas que garantem a veracidade do relato. 

Na época em que a Bíblia foi escrita, esses princípios de historiografia eram desconhecidos e, portanto, não foram usados. E nem seria razoável cobrar tal tipo de postura dos autores da Bíblia. É por isso que nem tudo o que se gostaria de conhecer - por exemplo, como foi a adolescência de Jesus ou os detalhes de como sua família viveu - foi registrado na Bíblia. 

Agora, como a Bíblia é a Palavra de Deus, pode se ter certeza que tudo o que se precisa saber sobre os fatos históricos está nela contido, pois o Espírito Santo se encarregou de dar essa garantia.

Finalmente, é preciso levar em conta que a Bíblia está cheia de símbolos e metáforas. Isso pode ser visto, em particular, na simbologia relacionada com os números. Ocorre que, tanto no hebraico, como no grego (no dialeto koine), linguagens usadas nos textos bíblicos, não havia símbolos especiais para os números e eram usadas letras do alfabeto para escrevê-los. Os chamados números romanos, até hoje muito utilizados, usam o mesmo princípio.

Como números eram escritos com letras, eles também compunham palavras e daí tinham duplo significado: o numeral e o termo resultante. E muitas vezes a palavra que representava o número tinha mais importância do que o numeral em si - o célebre número da Besta do Apocalipse (666) é o exemplo mais conhecido. Outros exemplos são o número que representa uma geração (40 anos) e aquele que simboliza o povo de Israel (12). 

Ora, ninguém em sã consciência deveria tentar usar tal tipo de número para tirar conclusões matemáticas. Mas, infelizmente muitos fazem isso e acabam por propor doutrinas absurdas. E tentam forçar os cristãos a aceitarem o que o senso comum e a ciência moderna provaram ser absurdo - por exemplo, que a idade da terra está entre sete e dez mil anos, a chamada “teoria da terra jovem” (a geologia já provou cientificamente que nosso planeta tem alguns bilhões de anos). 

Problemas similares ocorrem quando alguns tentam aplicar na vida prática conceitos que deveriam ser tomados apenas como símbolos usados para fazer referencia a Deus (por exemplo, seus "olhos", "mãos" ou "asas") ou para falar de realidades que ocorrem apenas no mundo espiritual. 

Provas da autoridade bíblica
Mas quais são as provas que existem quanto à autoridade atribuída à Bíblia? Essas provas existem, mas seria um processo muito longo apontar todas elas aqui. Vou me concentrar, a título de exemplo, em apenas duas. 

A primeira delas é a coerência interna da Bíblia que aponta para um projeto global, uma “mão” superior guiando tudo. Afinal, os textos foram escritos por dezenas de autores que viveram ao longo de cerca de 1.500 anos, em lugares distintos e em condições de vidas as mais diversas. Assim, seria de se esperar que houvesse profundas contradições no conteúdo da Bíblia, o que não ocorre. Se a direção geral do Espírito Santo não tivesse existido, certamente a Bíblia seria um colcha de retalhos. 

A segunda evidencia concreta da autoridade da Bíblia é a importância que seus textos têm tido para os seres humanos ao longo de milhares de anos, inspirando, instruindo, consolando e guiando as pessoas para novos caminhos. Somente textos muito especiais poderiam ter cumprido esse papel.

As traduções
A primeira tradução para o português dos textos bíblicos foi feita em meados do séc XVIII, por um missionário católico, que se tornou evangélico, chamado João Ferreira de Almeida. Ao longo do tempo essa tradução foi revista, corrigida e atualizada, dando origem às diversas variantes hoje disponíveis. 

“João Ferreira de Almeida” é a tradução da Bíblia mais popular e inúmeras gerações de evangélicos conheceram a Palavra de Deus através dela. Outras excelentes traduções são “Linguagem de Hoje” e “Nova Versão Internacional”. A Bíblia de Jerusalém é uma excelente tradução católica, que também pode ser usada, desde que a pessoa se lembre que há uma diferença no texto bíblico do Velho Testamento aceito pelos católicos e pelos evangélicos.

As principais traduções atuais foram construídas de forma independente, isto é todas elas partiram do texto básico nas línguas originais (hebraico e grego koine). Essas traduções são o resultado de enorme esforço desenvolvido por grandes equipes de estudiosos. E o resultado final passa por sucessivas correções (edições), onde os poucos erros existentes vão sendo eliminados.  

Agora, se o texto original foi inspirado por Deus, o mesmo não se pode dizer das traduções. Sendo assim, qualquer tradução pode ter erros. Para aqueles leitores preocupados em ficar livre de possíveis erros de tradução, a solução é usar traduções diferentes e compará-las entre si. Como essas traduções foram desenvolvidas de forma independente, certamente elas não conterão erros da mesma natureza exatamente no mesmo local. Assim, a comparação entre elas é uma garantia muito poderosa de se estar lidando com as informações certas.

Com carinho

terça-feira, 16 de setembro de 2014

O LADO RUIM DE ALGUMAS COISAS BOAS

Confesso que há várias situações na Bíblia que têm potencial para deixar as pessoas perplexas. Isso porque elas têm um lado maravilhoso e geram ensinamentos preciosos. Mas também parecem ter outro lado, muito pior, triste e desanimador. 

E as pregações e os livros de estudo bíblico costumam olhar somente para o lado bom dessas situações, deixando de abordar o outro lado, o que contribui para aumentar a perplexidade das pessoas. Vou dar alguns exemplos para você entender melhor o que acabei de dizer.

Olhando os dois lados 
O melhor exemplo que conheço é o caso do sacrifício de Isaque, filho de Abraão. Deus ordenou a Abraão que sacrificasse o menino, numa prova de fé. E Abraão obedeceu cegamente. Levou o filho até um monte, amarrou-o a uma pilha de lenha, para acender um fogo sacrificial, e pegou uma faca para matar o garoto. No último momento, Deus ordenou a Abraão sacrificar uma cabra no lugar de Isaque (Gênesis capítulo 22).

O lado positivo dessa história é bem conhecido: a fé de Abraão era tão grande que ele não negou nada a Deus, nem seu próprio filho. Não é por acaso que Abraão ficou conhecido na Bíblia como o "pai da fé". 

O lado negativo aparece quando se olha a história do ponto de vista de Isaque. O menino não sabia o que estava acontecendo, pois o pai nada lhe contou, e, de repente, se viu deitado numa pilha de lenha, como um sacrifício. Certamente ficou aterrorizado - não é por acaso que a Bíblia se refere a Deus como o "terror de Isaque". 

Agora, quantas pregações e textos você já viu discutindo o ponto de vista de Isaque nessa história? Eu confesso só ter visto um caso até hoje. Praticamente tudo que existe lida apenas com a fé de Abraão.

Outro exemplo interessante é o milagre que Jesus fez ao curar um cego de nascença que encontrou mendigando na porta do Templo de Jerusalém. Naquela época as pessoas acreditavam que uma deficiência física era consequência de pecados cometidos pela própria pessoa ou os pais dela. Jesus explicou que, naquele caso, não havia sido cometido pecado algum e tudo tinha acontecido para honra e glória de Deus. E curou o homem (João capítulo 9, versículos 1 a 12). 

Aí cabe a pergunta: e como fica o cego em tudo isso? É justo que ele tenha sofrido tanto para que Deus pudesse passar uma mensagem importante? E confesso que nunca vi ninguém pregar ou escrever refletindo sobre esse outro lado do milagre. 

Um exemplo similar, mas fora da Bíblia, é o caso do desastre de avião onde morreram quase todos os passageiros exceto um, que era cristão fervoroso. E o sobrevivente foi à igreja dar graças a Deus pelo milagre da sua salvação. Será que os parentes das pessoas que morreram deveriam então culpar a Deus pelo perda dos seus entes queridos? Afinal, se Deus deve ser louvado por ter salvo aquela pessoa, parece ser que também deveria ser responsabilizado pelo que aconteceu de ruim. Mas esse lado da história nunca é discutido.

O que dizer sobre isso tudo?
Não é fácil construir um raciocínio coerente para lidar com esse tipo de questão. Mas acredito que Deus espera isso de nós, pois sabe que as dúvidas precisam ser tratadas - frequentemente, quando falo sobre esse tema com as pessoas, elas me dizem que têm esse tipo de dúvida e nunca conseguiram esclarecê-la.

Mas há muito a dizer a esse respeito. Agora, nem todas as respostas que existem são fáceis de aceitar. Começo pelo aspecto mais fácil, que é o impacto do livre arbítrio na vida das pessoas. 

Frequentemente são os próprios seres humanos que geram problemas para eles mesmos. Fazem escolhas erradas e sofrem as suas consequências. E Deus não pode ficar intervindo toda hora para livrar as pessoas dos seus problemas pois senão o livre arbítrio acabaria - o por quê Deus nos deu livre arbítrio é outra questão, que não tenho espaço para discutir aqui, mas há posts no blog que tratam desse tema. 

Deus intervém em alguns casos para mudar ou amenizar as consequências ruins das escolhas feitas. E podemos e devemos ser gratos por isso. Mas não podemos culpar Deus pelas consequências ruins das escolhas feitas pelas pessoas, afinal Ele não tem obrigação de livrá-las dos seus problemas. 

Essa análise esclarece a questão da única pessoa que se salvou do desastre aéreo. O desastre foi causado por falhas humanas - de manutenção, de pilotagem, etc - e Deus não pode ser culpado por elas. O fato d´Ele ter decidido salvar alguém, por motivos que desconhecemos, deve ser motivo de gratidão e louvor - nada há de errado nisso. E, sendo assim, não há por que questionar sobre as pessoas que Ele poderia ter salvo.

De certa forma, essa explicação também permite amenizar a análise do caso de Isaque. Abraão deveria ter conversado com seu filho e falado sobre o que Deus tinha-lhe pedido. Poderia falar da sua fé e convencer o filho que nada iria acontecer com ele, porque confiava em Deus. Finalmente, poderia ter ensinado o filho a conversar com Deus e certamente algo teria resultado desse contato. 

Mas Abraão não fez nada disso, pois não era um pai amoroso - basta olhar suas atitudes relatadas na Bíblia para perceber isso. Abraão se calou, deixando seu filho totalmente no escuro e gerando consequências muito ruins para o menino. 

Agora, o que acabei de dizer explica muitas coisas, mas não tudo. Não explica, por exemplo, por que Deus tinha que pedir a Abraão uma prova de fé (através do sacrifício de seu filho) ou a situação do cego de nascença. Ambas situações não podem ser explicadas pela ação humana, por escolhas erradas das pessoas. 

E aqui entramos no lado difícil dessa discussão. O fato é que não conseguimos entender todos os planos e as razões de Deus para fazer as coisas de uma forma e não de outra. Portanto, muitas vezes não vamos entender completamente os acontecimentos. Simples assim. 

Sei que isso não é fácil de "engolir" porque queremos entender as coisas - esse tipo de postura pode ser notada até nas crianças, quando questionam seus pais.

Estamos aí no território da fé. Não saber a razão para certas coisas, e ainda assim aceitá-las, requer confiança irrestrita em Deus - é preciso acreditar que Ele sempre busca o melhor. Sempre. Mesmo quando as aparências parecem indicar o contrário. 

Esse é um teste de fé que, de certa forma, vivemos diariamente. Aí está um dos desafios de ser cristão. Deus espera fé de nossa parte e, se soubéssemos tudo, não precisaríamos de fé, pois teríamos conhecimento. Mas, conforme a Bíblia nos ensina, sem fé não é possível agradar a Deus. 

Há mais a falar, mas tenho limite de espaço. Acredito que as explicações que dei já irão ajudar você a entender o que inicialmente parecia tão difícil.

Com carinho

domingo, 14 de setembro de 2014

TEORIA OU PRÁTICA, O QUE IMPORTA MAIS?


Será que importa mais viver a fé que se tem, sem dar muita importância à doutrina que tenta explicá-la? Ou será que primeiro é preciso entender bem o que se vai crer, para que a fé seja embasada numa fundação estável? 

A experiência espiritual ou o conhecimento da teologia? O que é mais importante? 

Esse dilema está sempre presente na vida espiritual das pessoas, mesmo quando elas não estão conscientes disso. Por exemplo, as igrejas pentecostais privilegiam a experiência vivida, a presença dos dons do Espírito Santo na prática diária. Já as igrejas tradicionais costumam se preocupar mais com a doutrina - sei bem disso, pois fui criado assim. Os seminários também dão mais atenção à doutrina, pois ensiná-la é seu maior objetivo. 

Entendo porque creio
É muito comum encontrar cristãos que começam a crer e não se preocupam muito em justificar sua crença. Trata-se de um tipo de fé vibrante, mas meio cega.

A pessoa começa por "sentir Jesus no seu coração" e depois, se houver condição e tempo, ela vai tentar entender de fato a doutrina que explica e justifica o que aconteceu na sua vida. 

Esse tipo de postura talvez seja a posição predominante hoje em dia no meio evangélico. Cada vez mais, essa é a norma pela qual a experiência cristã vem sendo medida.

Mas crer sem entender bem aquilo que se acredita embute um risco importante: praticar excessos, como o abuso dos dons do Espírito Santo, mesmo pensando estar fazendo a coisa certa. A vivência espiritual pode sair do controle e as pessoas podem confundir desejos pessoais com revelações de Deus, ver a presença de Satanás onde isso não ocorre ou perceber milagres onde eles não aconteceram de fato.  

Experiências espirituais precisam ser testadas pela doutrina para evitar abusos. Não há como fugir disso. E, se a doutrina não fosse de fato necessária, não haveria tanta preocupação na Bíblia em falar sobre isso - o apóstolo Paulo, por exemplo, dedicou a maior parte dos seus textos para explicar a doutrina cristã. 

E nunca se pode esquecer que experiência vivida não pode servir para estabelecer doutrina, para definir regras de vida. Não é porque Paulo ou Davi viveram assim ou assado, fizeram isso ou aquilo, que o melhor seria agirmos da mesma forma. 

A experiencia vivida sempre é impactada pelas circunstâncias que as pessoas vivem e isso define em boa parte o que podem fazer, as escolhas de que dispõem. A experiencia vivida serve apenas para dar exemplos do que pode ser feito e das consequências que decorrem das escolhas erradas e certas. 

Regras de vida somente podem ser estabelecidas por Deus, conforme consta da Bíblia. E sua correta aplicação requer estudo da doutrina. Não há como escapar disso.

Creio porque entendo  
Muitas pessoas precisam primeiro entender para depois conseguir crer. Querem ter certeza que estão acreditando na coisa certa. Portanto, para elas, o conhecimento teológico vem antes da experiência vivida. 

E só continuam acreditando se encontram respostas adequadas. Caso contrário, vão em busca de outra fé, "mais racional". A fé dessas pessoas acaba sendo meio instável, sempre em busca de explicações e justificativas. 

Essas pessoas têm grande dificuldade em aceitar os chamados "mistérios" da fé, aquelas verdades espirituais que não podem ser explicadas pela lógica. E desconfiam da experiência espiritual direta, como o uso dos dons do Espírito Santo. Por causa disso correm o risco de acabar com uma fé meio fria, excessivamente racional. 

A Bíblia é clara que a razão não pode orientar todos os aspectos da vida espiritual. Conforme Jesus alertou, o cristão precisa viver sua fé como as crianças, que confiam cegamente nos seus pais. 

Palavras finais
Escolher entre experiência vivida e doutrina é um dilema falso, semelhante a perguntar quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha.

É preciso crer para poder entender os mistérios da fé. Mas também é preciso entender a doutrina para poder verificar se as experiências sendo vividas encontram respaldo na Bíblia. As duas coisas precisam andar juntas e de forma equilibrada. 

Pode ser que, num determinado momento, a experiência pese mais, por exemplo porque a pessoa passa por uma crise existencial e precisa sentir a presença de Deus. Agora, em outra circunstância, pode acontecer o contrário, sendo preciso dar preferência ao estudo da doutrina.  

Equilíbrio é fundamental. As duas coisas - experiência e doutrina - são necessárias em igual medida para uma vida espiritual saudável.  

Com carinho 

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

A ESCOLHA

Certa vez Jesus conversou com um "doutor da lei" (o equivalente naquela época aos teólogos atuais), conforme o relato de Lucas capítulo 10, versículos 25 a 28. Jesus perguntou-lhe sobre o que o ser humano precisa fazer para herdar o Reino de Deus. E o teólogo respondeu corretamente, citando a lei do Amor: amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao próximo como a si mesmo. 

O interessante é que depois de dar a resposta correta o teólogo perguntou a Jesus algo surpreendente: quis saber quem era seu próximo. Ou seja, ele conhecia as filigranas da teologia, mas desconhecia como proceder na prática: o teólogo não sabia a quem deveria amar. 

A resposta de Jesus foi ainda mais surpreendente: contou uma parábola, a do bom samaritano (Lucas capítulo 10, versículos 29 a 37). A parábola fala de um samaritano, homem pertencente a um povo desprezado pelos judeus, que ajudou um homem judeu caído à beira da estrada, ferido durante um assalto. E já tinham passado pelo homem caído um sacerdote e um levita e nenhum deles fez nada. Só o samaritano teve compaixão do homem caído.

Depois de contar a parábola, Jesus perguntou ao teólogo: quem você acha que foi o próximo do homem em sofrimento? O teólogo respondeu corretamente: aquele que teve misericórdia. Repare que a pergunta inicial do teólogo foi quem era o próximo dele. E a pergunta de Jesus foi ligeiramente diferente: quem foi o próximo do homem que sofria? 

O teólogo colocou a referencia nele mesmo, enquanto Jesus colocou a referencia naquele que sofria. Jesus ensinou que meu próximo é todo aquele que precisa de mim e por quem eu posso fazer algo. Não sou eu quem escolho o meu próximo. É a necessidade de quem cruza meu caminho que me "escolhe". 

A prática
Dias atrás ocorreu um enorme incêndio numa favela em São Paulo, que desabrigou cerca de 500 famílias - algo como 2.000 pessoas. 

Esse incêndio impactou-me de perto porque a comunidade atingida é a mesma com a qual a igreja que frequento trabalha há muitos anos. Grande número de famílias extremamente pobres perdeu o pouco que tinha. Os que já eram despossuídos, ficaram ainda mais carentes ainda.

Naturalmente toda a igreja se mobilizou para ajudar, assim como fizeram outras igrejas cristãs, de diferentes denominações, que também apoiam a mesma comunidade. O poder público, como sempre, agiu de forma impessoal e a ajuda dada foi muito pequena.

Nesse processo, a atuação das pessoas trouxe-me muitos ensinamentos. Muitas pessoas conhecendo, ou intuindo, o ensinamento de Jesus de amar ao próximo, mobilizaram-se de maneira admirável e deram enorme contribuição para minorar o sofrimento do próximo. Já outros agiram como se não fosse com eles(as), não demonstrando qualquer interesse em ajudar, agindo de forma muito parecida com o teólogo que conversou com Jesus.

Resultado final
Agora, a conversa que Jesus teve com o doutor da lei tinha a ver com o que devia ser feito para herdar o Reino de Deus. Ou seja, o tema era salvação. E Jesus disse explicitamente para seu interlocutor: "faça isto e viverás".

Não foi dito diretamente o que acontece quando a pessoa não segue a Lei do Amor mas acho que a conclusão é direta e nem precisa ser explicada aqui. 

Concluindo, a vida coloca várias escolhas diante de cada pessoa do tipo: "amar" ou "deixar de amar". E são escolhas cujo resultado é crucial na vida da pessoa. É fundamental escolher certo. Simples assim.

Com carinho 

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O "BEM" AJUDA A PROVAR A EXISTÊNCIA DE DEUS

A comprovação da existência de Deus, conforme já comentei em outras oportunidades, não pode ser feita da mesma forma como se prova uma teoria da física, isto é usando equações matemáticas e experimentação (como acabou de ser feito com o bóson de Higgs, a "partícula de Deus")E a razão para isso é simples: a existência de um ser sobrenatural, que opera fora do mundo físico, não pode ser feita com base nas próprias leis que regulam esse mundo. 

A comprovação da existência de Deus somente pode ser feita de forma similar à demonstração da culpa de um assassino, cujo crime não tenha tido testemunhas. São coletadas evidencias concretas (DNA, impressões digitais, álibi do acusado, etc) e esse conjunto de provas permite apontar o culpado. As evidencias coletadas precisam comprovar, de forma cumulativa, que é muito provável - na terminologia jurídica, "além de uma dúvida razoável" - que o acusado cometeu o crime

Assim, se conseguirmos juntar um conjunto suficiente de evidencias apontando para a existência de Deus, essa realidade ficará demonstrada, além de uma "dúvida razoável". Já apresentei diversas evidencias que apontam para a existência de Deus (veja mais), como o início do universo (o Big Bang), o conjunto organizado de informações que controla a vida (o DNA) e o fato do universo funcionar de forma tão regular e previsível que pode ser descrito com exatidão por equações matemáticas. Tudo isso aponta para um ser com inteligencia e poder extraordinários que criou e organizou tudo que existe.

Uma nova evidencia
Hoje vou somar mais uma evidencia, essa baseada na existência de obrigações morais universais. Não se assuste, pois o raciocínio não é difícil de acompanhar. 

Começo definindo o que seja uma obrigação moral universal: trata-se de algo que todos os seres humanos precisam obedecer - é o certo a fazer, o bem. Essa obrigação é válida em qualquer lugar, tempo e cultura, não dependendo, portanto, da opinião das pessoas. 

Um exemplo é a proibição de torturar crianças. Ninguém pode ser desculpado por fazer isso, nem mesmo se alegar motivação religiosa (o direito a seguir uma religião não pode nunca justificar a tortura de crianças). E é pela mesma razão que a Inquisição, promovida pela Igreja Católica, merece ser condenada. Ela tentou impor a fé cristã à força, mas a boa intenção nunca pode justificar o desrespeito à vida humana.

Agora, quem pode estabelecer obrigações morais que sejam válidas para todos(as)Só há duas respostas possíveis: o próprio ser humano (através da sociedade) ou um ser superior (Deus).

Ora, quando os padrões morais são estabelecidos pela própria sociedade eles são dependentes da evolução do pensamento humano. Hoje achamos que certas coisas, como a escravidão, são erradas, mas elas eram consideradas socialmente aceitáveis 150 anos atrás. Os direitos humanos, hoje amplamente protegidos, como a igualdade das pessoas, independentemente de raça, religião, sexo ou condição social, somente começaram a se tornar mais aceitos 200 anos atrás mais ou menos. 

A sociedade muda de opinião, e se as obrigações morais forem estabelecidas por ela, esses padrões certamente vão mudar ao longo do tempo. E aí deixarão de ser padrões confiáveis.

Além disso, se uma obrigação moral for estabelecida por um grupo de pessoas, ela pode não ser aceita por outro grupo - é por isso que as leis variam tanto de país para país. Obrigações que vinculem todas as pessoas somente podem ser estabelecidas por alguém que esteja acima delas. Por alguém que todas elas tenham que respeitar.

Portanto, obrigações morais universais somente podem ser estabelecidos por Deus. E dessa conclusão decorre uma outra, também muito importante: caso as obrigações morais existam de fato, isso será mais uma evidencia da existência de Deus, pois somente Ele pode fazer isso.


Repare que não estou dizendo aqui que um ateu não possa viver uma vida moralmente correta. Conheço vários deles que levam vidas exemplares. Mas essa não é a questão sendo discutida aqui. 

A questão em discussão é definir por que as pessoas devem se comportar corretamente. Os ateus fazem isso seguindo aquilo que entendem ser o melhor, com base no seu conhecimento e cultura. E podem acertar, mas se mudarem de convicção, sentir-se-ão à vontade para agir de forma diferente, sem qualquer remorso. Já os cristãos se portam de determinada maneira porque são comandados por Deus a fazer isso. Eles devem obedecer essas obrigações - o que não quer dizer que façam isso sempre - mesmo que discordem delas. E isso vale para todos os seres humanos. As motivações, num caso e no outro, são totalmente diferentes. 

Obrigações morais universais existem?
Evidentemente há uma enorme discussão sobre se tais obrigações existem mesmo, até pelas consequências que isso tem quanto a comprovar a existência de Deus. Por exemplo, muitos pensadores ateus defendem que, como o ser humano é fruto da evolução das espécies (onde o que conta é a sobrevivência do mais forte e capaz), não há como garantir que esse tipo de obrigação exista. 

Segundo eles, pode até ser que as pessoas venham a fazer algo considerado bom, mas isso seria simples coincidência. Os atos que parecem bons são praticados apenas porque concorrem para aumentar as chances de sobrevivência das pessoas. Por exemplo, as pessoas ajudam umas às outras porque isso aumenta suas chances de sobrevivência nos momentos de crise. A solidariedade acaba sendo o procedimento mais seguro para a coletividade. 

Mas a experiência humana mostra que tal tipo de padrão universal existe mesmo e muitos deles não podem ser explicados pelas vantagens que trazem para quem os adota. Por exemplo, o auto-sacrifício de uma pessoa, para preservação da outra, não pode ser justificado pelo benefício auferido por quem se sacrifica e, ainda assim, esse tipo de prática sempre é reconhecido como de grande valor. A traição até pode ajudar uma pessoa a se salvar de circunstâncias adversas, mas se trata de ato sempre criticado. 

A esmagadora maioria das pessoas acredita em valores morais universais - é essa crença que está por trás da "Declaração Universal dos Direitos Humanos" que a ONU patrocina e defende. E eles são mesmo uma realidade.

Conclusão
Estamos prontos para apresentar o argumento final para comprovar a existência de Deus com base nas obrigações morais universais. Ele funciona assim: se as duas condições iniciais forem verdadeiras, a conclusão automaticamente também será verdade. 

Vamos às condições, que já mostrei serem ambas verdadeiras
  • Condição 1: Se Deus não existe, obrigações morais universais não existem.
  • Condição 2: Obrigações morais universais existem.  
A conclusão é Deus existe.

Com carinho