quarta-feira, 22 de agosto de 2012

E QUANDO JESUS NÃO CHAMOU DEUS DE PAI?

Jesus, durante seu ministério, introduziu uma novidade importante: Ele só chamava Deus de "Pai". E a palavra que Ele usava – "Abba", em aramaico – era usada pelos filhos para se referirem aos seus pais numa conversa informal. Era bem diferente da forma como escribas e fariseus se referiam a Deus, sempre com muita cerimônia.
 

Assim, Jesus provocou uma reflexão teológica muito importante: devemos olhar para Deus também como nosso Pai. Mas um Pai sem as falhas e limitações dos pais humanos.
 

Mas há um momento na sua vida em que Jesus não se referiu a Deus como Pai  - quando Ele estava pregado na cruz, em sofrimento extremo e disse: “... Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste” (Mateus capítulo 27, versículo 46). Jesus naquele momento citou um salmo (22 versículo 1), onde o salmista fez a mesma exclamação de extrema angústia.
 

Há um momento anterior, quando Jesus estava orando no Jardim das Oliveiras, em momento de grande angústia, pouco antes de ser preso, Ele pediu a Deus que, se possível, fosse poupado do sofrimento cruel à sua frente (a crucificação). Mas naquela oração Jesus ainda se referiu a Deus como Pai (Mateus capítulo 26, versículo 34).
 

Na cruz, ao final da sua vida, Jesus muda sua forma de se relacionar com Deus. O clamor foi diferente: Jesus se sentiu desamparado, deixado sozinho para enfrentar uma batalha espiritual e física terrível. E perguntou: Por que me desamparastes? E se referiu ao Pai como "Deus meu", de maneira bem mais formal.
 

É claro que a explicação para isso é a angustia e o sofrimento. E quantas vezes nos sentimos assim. Passamos por situações difíceis e às vezes parece que Deus nos esqueceu, que está calado, sem nos dar resposta. E nos vemos lutando sozinhos com nossos problemas. E aí bate o desespero e a decepção.
 

João da Cruz, talvez o maior místico do mundo ocidental, chamou esse momento de “a noite escura da alma” - escreveu até um livro com esse título. A Bíblia, no salmo 23, chama isso "o vale da sombra da morte".  Já o grande escritor cristão C.S. Lewis, escreveu as palavras abaixo, num momento de grande desespero, durante a doença fatal da única mulher que amou na vida:
"Mas se você vai até Ele quando sua necessidade é desesperada, quando todo outro tipo de ajuda é vão, o que você encontra? Uma porta é fechada na sua cara e você ouve um som de fechadura sendo trancada. Depois disso, silêncio … Por que Ele é tão presente no nosso tempo de prosperidade e tão ausente no momento de dificuldade?”
Mas o silêncio de Deus não é igual à indiferença. Não foi assim quando Jesus estava na cruz e não é assim com nenhum de nós.  O que acontece é que Deus nem sempre fala ou age da forma como esperaríamos que Ele o fizesse. Deus é, na verdade, um grande mistério para nós - nunca podemos supor saber com certeza como Ele vai ou não agir.
 

Então, a forma de fazer frente a essas situações é se “agarrar” ainda mais desesperadamente a Ele. Foi isso que Jesus fez, quando estava na cruz. E como eu sei disso?

Quando Jesus clamou em desespero, ele citou uma parte do salmo 22 pois certamente conhecia aquele salmo de cor. Mas vale a pena lembrar, o que disse Davi, nesse mesmo salmo, um pouco mais adiante (versículos 23 e 34): 
"vós que temeis o SENHOR, louvai-o; glorificai-o, ... pois não desprezou nem abominou a dor do aflito, nem ocultou dele o rosto, mas o ouviu, quando gritou por socorro."
Ou seja, quando Jesus usou o salmo para expressar o que sentia, tanto expressou seu desalento, como também a certeza que Deus iria ouvi-lo e cuidar d´Ele, mesmo que não pudesse ver nada de positivo naquele momento. 

E é essa mesma certeza que deve servir para nos consolar, hoje e sempre.

Com carinho

domingo, 12 de agosto de 2012

IGREJA E TECNOLOGIA FAZEM UM BOM PAR?

Outro dia li um comentário que achei muito interessante. A autor começava lembrando que Moisés, o autor dos primeiros cinco livros da Bíblia, viveu cerca de 3.500 anos atrás, enquanto que o grande pregador John Wesley, fundador do metodismo, cerca de 250 anos antes de nós. O autor provava que Wesley, na sua forma de viver, estaria mais próximo de Moisés do que de nós. Wesley seria capaz de entender muito melhor o mundo em que Moisés viveu do que a civilização de hoje, embora nós estejamos muito mais próximos dele no tempo.

É evidente que vivemos num mundo em que o avanço da tecnologia é cada vez mais veloz. Eu me lembro que, cerca de trinta anos atrás, quando construímos a obra de Itaipu, ainda considerada uma das maiores da história, não tínhamos fax, computador pessoal e nem Internet, somente telefone, rádio e calculadora de bolso.



Mas, quando refletimos nesse avanço, não percebemos que a tecnologia transforma não somente o mundo em que vivemos – através de estradas, redes de energia elétrica, redes de telecomunicações, agricultura mecanizada, etc – mas principalmente a forma como nos comportamos. Por exemplo, experimente tirar de uma adolescente seu celular inteligente e/ou seu acesso à Internet e ela vai se sentir uma pária social, enquanto eu vivi minha adolescência muito bem sem nada disso. 



Um exemplo interessante dessa mudança de comportamento dentro das igrejas tem como origem o uso, hoje largamente difundido, de retroprojetores para mostrar em tela o texto bíblico em foco. Isso está fazendo com que as pessoas deixem de levar consigo suas Bíblias pessoais para a igreja. Conheço pastores que, inconformados com essa situação, não deixam projetar o texto bíblico em tela, para incentivar as pessoas a carregarem suas próprias Bíblias. Mas essa é uma causa perdida – é lutar contra a maré.


Agora é importante lembrar que as pessoas somente começaram a ter exemplares pessoais da Bíblia nas primeiras décadas do século passado, pois antes as Bíblias eram muito caras e só estavam disponíveis nas igrejas. No máximo, as pessoas tinham acesso a panfletos, com extratos da Bíblia. Portanto, a prática das pessoas lerem a Bíblia em conjunto foi a tradição da igreja cristã por cerca de 1.900 anos de história, até que cada um passou a ter seu próprio exemplar. E agora, por conta do retroprojetor, estamos voltando à condição original - passando de uma leitura individual para uma leitura coletiva. E isso é bom ou ruim? Eu não sei dizer. E fica claro que a discussão sobre as vantagens do uso de novas tecnologias não é tão simples assim - é preciso tomar cuidado para não rejeitar coisas novas apenas por saudosismo.  

Outro exemplo muito interessante desse tipo de desdobramento. Muitas pessoas hoje se queixam do isolamento que os dispositivos eletrônicos pessoais geram na vida das pessoas - os contatos estão deixando de ser diretos (face a face ou por telefone) e passando cada vez mais a serem virtuais.


No início do século passado, à medida que o telefone se tornava comum nos Estados Unidos, a mesma preocupação existiu. Há uma série de artigos no New York Times e outros importantes jornais da época alertando para o perigo de se trocar o contato face a face pela conversa via telefone. E como hoje falar ao telefone é algo tão entranhado na nossa cultura, ninguém mais se preocupa com isso.



Voltando mais ainda no tempo, esse mesmo problema pode ser notado no próprio relato bíblico. O apóstolo João em duas cartas datadas de cerca de 1.900 anos atrás, indica claramente lamentar ter que recorrer a textos escritos - a tecnologia para comunicação disponível na época - para se comunicar com os fiéis (2João capítulo 1, versículo 12 e 3João capítulo 1, versículo13).


Portanto, o mesmo receio que temos das consequências da tecnologia sobre as pessoas hoje, foi aquele que existiu um pouco menos de cem anos atrás, quando o telefone se fez presente e 1.900 anós atrás, quando as cartas passaram a ser usadas de forma corriqueira. É claro que a rapidez da mudança tecnológica hoje torna essa preocupação mais aguda, mas a origem do receio - as mudanças causadas às vidas das pessoas - é a mesma.


Não há como parar o progresso tecnológico e também não há como impedir que as novas tecnologias afetem a forma como vivemos e como as igrejas funcionam. O mundo que temos diante de nós é esse que está aí e não dá para pedir que o “ônibus” pare, para podermos saltar.



É claro que nem todas as tecnologias contribuem para o bem das pessoas. Algumas tornaram nossa vida francamente pior (p. ex. a bomba atômica), enquanto outras resolveram problemas mas também criaram dificuldades (p.ex. o carro nos deu liberdade para deslocamento mas gerou engarrafamento de trânsito e aumentou a poluição urbana). 


Mas há exemplos de uso altamente positivo de novas tecnologias. Por exemplo, dois anos atrás um pastor apareceu com um câncer muito agressivo. E sua igreja se mobilizou em oração, para ajudá-lo a enfrentar essa dificuldade terrível. Um dos membros teve uma ideia brilhante: comprou um beep (instrumento que apita quando alguém o aciona) para o pastor carregar consigo e combinou com os demais membros que, quando cada um fizesse uma oração pelo pastor, acionasse o beep. E assim, dia e noite, o pastor foi sendo avisado, por inúmeros apitos, que sua comunidade estava com ele. Aquele pastor acabou curado e testemunhou que a força de que precisava para enfrentar sua batalha diária veio daqueles beeps constantes que chegavam até ele.  

Se quiser continuar a ser relevante no mundo em que vivemos, a igreja cristã vai ter que se adequar ao uso das tecnologias e não criar resistências desnecessárias a elas. Existe um grupo religioso – os amish – que vive se recusando a aceitar os avanços tecnológicos e eles se tornaram irrelevantes para o mundo moderno. 


É preciso que a igreja cristã veja a tecnologia como um meio para atingir um fim. Meios podem ser ruins ou bons, segundo as consequências que gerem e se concorrem ou não para se obter o fim desejado. E é isso que precisa ser sempre analisado com cuidado.  


Com carinho

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

DEVEMOS DISCUTIR RELIGIÃO COM OS OUTROS?

Existe um ditado que diz: “religião, política e futebol, não se discute”. Esses temas tendem a ser objeto de debates acalorados, que podem gerar brigas até entre amigos. Mas será que esse conselhe deve ser obedecido no que tange à religião? Ou será que o cristão tem obrigação de defender sua fé, como para falar de Jesus Cristo, sempre que tiver oportunidade, mesmo em situações onde há resistência?

A primeira carta de Pedro capítulo 3, versículo 15, diz o seguinte:

“...estando sempre peparados para responder a todo aquele que vos pedir a razão da esperança que há em vós”.

Portanto, é nossa obrigação, como cristãos, estarmos sempre em condições de falar sobre a nossa fé e justificá-la. E a primeira consequência dessa ordenança é que precisamos ter o preparo necessário para poder fazer isso: por exemplo, ser capaz de explicar porque temos a certeza de que a Bíblia é a Palavra autêntica de Deus, conhecer os versículos fundamentais sobre a nossa fé, falar do plano de salvação de Deus para o ser humano, etc.



Outra consequencia direta do texto transmitido por Pedro é que não podemos nos omitir desse tipo de debate, para ficar numa posição confortável – o chamado “agente secreto de Jesus Cristo”. 



Agora, nada disso significa que devemos brigar, partir para um embate. Nosso objetivo deve ser sempre conversar, trocar ideias e esclarecer. Até porque o cristianismo ensina o amor ao próximo e uma atitude agressiva somente vai dar um testemunho contraditório para os ouvintes. 



Eu já tive inúmeras conversas sobre religião e nunca precisei brigar. Sempre respeitie e fui respeitado. Uma única vez as coisas passaram dos limites e por minha culpa poi era muito jovem e um pouco afoito.  



Mas, para que seja possível desenvolver uma conversa produtiva, é preciso tomar alguns cuidados. Em primeiro lugar, ter sempre em mente que a luta não é contra carne e sangue (as pessoas), mas contra as divindades e potestades (espíritos do mal) que estão por trás das crenças erradas que as pessoas porventura sigam. Muita gente sincera pode estar seguindo o caminho espiritual errado, acreditando que faz o bem e o melhor para si mesmo. Basta lembrar do caso do pastor Jim Jones, onde muitos seguidores dele escolheram morrer, acreditando que faziam o certo. 



Em segundo lugar, cuidado para não querer enfiar seus argumentos “goela abaixo” da outra pessoa. Muitas vezes ficamos tão mobilizados para tirar a pessoa do caminho que entendemos errado, que podemos forçar demais os argumentos. A partir de um ponto, a pessoa que ouve se fecha para novos argumentos e não adianta insistir. O melhor é parar e, se possível, voltar depois, numa outro momento.



E isso acontece porque ninguém gosta de reconhecer que está errado. Para qualquer pessoa, abandonar a religião que professa e reconhecer que ela lhe fazia mal, é muito difícil - precisa de uma grande dose de humildade e disposição para mudar. 



E não vale o argumento que a oportunidade de falar de Jesus para aquela pessoa vai ser uma só. A Bíblia fala que a palavra dada sobre Jesus Cristo nunca volta vazia, já que, de alguma forma, ela frutifica dentro de quem a ouviu. Embora, muitas vezes, o resultado final somente venha surgir tempos depois. 



Uma vez estava num taxi e o motorista me relatou sobre uma palavra dada muito tempo atrás para ele, por outra pessoa. Essa palavra não saia da cabeça dele e ele me pediu mais explicações sobre seu significado. E ele saiu da conversa dizendo que ia procurar uma igreja. Não sei qual foi o final da história, mas esse é um exemplo claro da palavra frutificando aos poucos.



Em terceiro lugar, nunca se aproxime do outro com críticas diretas ao que ele acredita ou faz. Ao invés de dizer que, por exemplo, sua religião é coisa do Demônio e assustar a pessoa, fale do cristianismo. A agenda deve ser sempre positiva. Apoie-se nos ensinamentos de Jesus para construir seu argumento e pode ter certeza que não haverá argumentos melhores. Se a pessoa aceitar a mensagem de Cristo, rapidamente vai perceber que está errada e ela mesma vai concluir que precisa mudar de vida.



Em quarto lugar, lembre-se que você não é dono da verdade. Por exemplo, se sua conversa for com uma pessoa que segue outra linha do cristianismo que não a sua, existirão diferenças de doutrinas quanto à forma de batismo, de tomar a comunhão, de liderança religiosa, de escolha para salvação, etc. Por mais que você tenha certeza que sua posição é correta, outras pessoas igualmente inteligentes, preparadas e amantes de Cristo podem ter uma opinião diferente. E você precisa entender que há chance delas estarem certas e você errado. Afinal, somos todos limitados. Ninguém pode se considerar dono da verdade.



Certa vez vi um pastor subiu ao púlpito da sua igreja e disse que, depois de estudar e orar muito, chegou à conclusão que a doutrina da predestinação (salvação para uns e perdição eterna para outras previamente estabelecidas por Deus) estava errada. E explicou que iria conduzir a igreja a uma mudança de posição. Sem entrar no mérito dessa discussão teológica, a atitude desse pastor foi correta – ele se convenceu que estava errado e não teve vergonha de mudar.


Finalmente,lembre-se sempre que quem muda o outro não são os seus poderes de argumentação, por melhores que eles sejam. Quem faz a mudança é o Espírito Santo. Se Ele não agir, você poderá ficar até rouco de tanto falar que nada vai acontecer. Faça sua parte, mas lembre-se que sem o Espírito Santo você nada vai conseguir de concreto.

Discutir religião, no sentido de conversar e trocar ideias, sempre. Brigar por religião, nunca. Esse é o ensinamento do cristianismo.

Com carinho