terça-feira, 2 de agosto de 2016

OS DEZ MARCOS DA VIDA DE JESUS

Quais são os fatos mais importantes da vida de Jesus? A resposta, acredito eu, depende do ponto de vista, isto é do critério usado (por exemplo, importância teológica, impacto na vida dos discípulos ou significado histórico).

Para fazer minha lista, usei um critério bíblico: inclui nela os fatos que foram descritos nos quatro Evangelhos. Esse critério parte do princípio que cada evangelista escolheu aquilo que iria relatar com base no que considerou mais importante para a audiência que pretendia atingir. Foi por causa disso, por exemplo, que somente dois dos quatro evangelistas (Mateus e Lucas) escolheram falar da infância de Jesus.

Imagino que quatro evangelistas, com pontos de vista tão diferentes, escolheram todos relatar determinado fato é porque ele foi considerado de extrema importância por toda a comunidade cristã. Simples assim.

Quais são então esses fatos? São dez apenas e vamos a eles:

1. O batismo de Jesus (Mateus 3:1-2 e 13-17, Marcos 1:1-11, Lucas 3:1-23, João 1:19-34)

O ministério de João Batista - profeta que veio preparar o caminho para Jesus, convocando o povo judeu para o arrependimento - foi considerado pelo próprio Jesus de enorme importância. Ele chegou a afirmar que nenhum homem judeu (nem Abraão, Moisés ou Davi) tinha sido mais importante do que João Batista.

E a maior prova dessa importância dada ao ministério de João Batista foi o fato de Jesus ter-se deixado batizar por ele. É óbvio que Jesus não tinha pecado e, portanto, não precisava se arrepender ou se batizar. Mas como a culpa, em Israel, era sempre considerada na coletividade como um todo, tal batismo teve razão de ser.

Depois de ser batizado, Jesus passou um período como discípulo de João, antes de começar seu próprio ministério. E vários dos discípulos do Batista, como Pedro e André, tornaram-se depois discípulos de Jesus.

2. A multiplicação dos pães e peixes (Mateus 14:13-21, Marcos 6:30-44, Lucas 9:10-17, João: 6:1-14)

Trata-se do milagre em que Jesus multiplicou uns poucos pães e peixes para alimentar uma multidão de vários milhares de pessoas. Com esse milagre, Jesus reafirmou sua posição como o "Pão da Vida", nossa fonte permanente de alimentação espiritual.

Escrevi recentemente sobre esse milagre - consulte esse post se quiser maiores detalhes. 

3. Jesus purifica o Templo (Mateus 21:12-17, Marcos 11:115-18, Lucas 19:45-46, João 3:13-17)

O Templo de Jerusalém era o centro da vida religiosa do povo judeu. E esse complexo religioso era totalmente dominado pela classe sacerdotal que se aproveitava desse fato para enriquecer.

Com efeito, só podiam ser sacrificados ali animais considerados puros, isto é sem defeitos ou máculas. E quem determinava tal pureza eram os próprios sacerdotes - naturalmente privilegiavam os animais que eles mesmos criavam e vendiam, através de terceiros, por preços acima do mercado.

Além disso, todo judeu era obrigado a pagar uma taxa para o funcionamento do Templo. E os sacerdotes estabeleceram que essa taxa somente poderia ser paga numa moeda do Líbano, chamada didracma, difícil de encontrar. Então as pessoas precisavam fazer câmbio de dinheiro, ao chegar a Jerusalém, para poder cumprir sua obrigação.

E quem dominava o comércio de câmbio de moedas? Evidentemente, os sacerdotes, que enriqueciam com essa prática.

Foram exatamente os cambistas de moedas e vendedores de animais que Jesus expulsou do recinto do Templo, quando afirmou que ali era lugar de oração e não de comércio. E com isso criou inimigos mortais entre os sacerdotes.

4. A denúncia do traidor (Mateus 26:21-25, Marcos 14:18-21, Lucas 22: 21-23, João 13:21-30)

Judas, diferentemente do que muitos possam pensar, não estava pré-destinado a ser o traidor de Jesus - se fosse assim, ele não seria realmente culpado pelo que fez.

Não, Judas agiu por conta própria, pois tinha caráter mau - tanto assim, que roubava dinheiro do grupo de Jesus, do qual era tesoureiro (João 12:1-8).

Mesmo sabendo que Judas seria o traidor, Jesus o tratou sempre com grande consideração - por exemplo, deu-lhe um bocado na boca para comer, o que era considerada grande honra.

Judas traiu por escolha própria. Seus atos pecaminosos deram a brecha para que Satanás o dominasse.

5. A prisão de Jesus e a fuga dos discípulos (Mateus 26:36-56, Marcos 14:32-52, Lucas 22:39-53, João 18:1-12)

Depois de tomar a última ceia com seus discípulos, Jesus foi para um lugar chamado Getsêmani, também conhecido como Jardim das Oliveiras. Ali existia um local para espremer azeitonas e fazer óleo, produto de alto valor comercial. Esse jardim ainda existe nos dias de hoje, pois as oliveiras são árvores que podem viver milhares de anos. É um local pequeno, com cerca de 50 m x 50 m mais ou menos.

Ali Jesus ficou profundamente angustiado - sabia o sofrimento que lhe estava reservado e seu lado baqueou, tanto assim que chegou a suar sangue. E Ele enfrentou essa dificuldade como sempre fazia: orando, pedindo ao Pai que lhe desse forças para resistir.

E naquele mesmo Jardim Jesus foi encontrado pelos guardas do Templo e outras pessoas mandadas pelos líderes religiosos judeus. Entre eles estava Judas, que identificou Jesus com um beijo.

É interessante perceber que a mesma palavra usada para o beijo da traição foi usada por Jesus na parábola do "Filho Pródigo", na cena em que o pai (Deus) beijou o filho arrependido (o pecador), que voltava para casa.

Um beijo - o do ser humano em Deus - foi para traição, enquanto o outro beijo - o de Deus no ser humano - foi de perdão e aceitação. Que contraste!

Os discípulos tentaram reagir à prisão de Jesus - Pedro chegou a ferir Malco, servo do sumo-sacerdote -, mas foram impedidos por Ele. A violência não era a resposta certa para o que estava acontecendo ali.

Restou, então, aos discípulos fugir para salvar suas próprias vidas. E deixaram Jesus sozinho.

6. Pedro nega Jesus três vezes (Mateus 26:58-75, Marcos 14:66-72, Lucas 22:54-62, João 18:15-18)

Pedro fora avisado que haveria de negar Jesus por três vezes. E o próprio Jesus fez essa profecia num momento em que Pedro, sempre impulsivo, afirmou amar seu Mestre sobre todas as coisas. A imagem que Jesus usou foi interessante: Satanás iria "peneirar" Pedro.

É de se notar também que, nesse mesmo diálogo, Jesus diz para Pedro: "tu pois, quando te converteres..."

Ou seja, depois de três anos de convivência com Jesus, Pedro ainda não havia se convertido! E isso continua a acontecer hoje em dia: as igrejas cristãs estão cheias de pessoas não convertidas. Gente que frequenta, participa dos rituais e até dá seu dízimo mas, por exemplo, não consegue amar o próximo.

A profecia de Jesus se confirmou e Pedro realmente negou Jesus e fez isso diante de uma simples escrava, pessoa do mais baixo nível da escala social da época. Pedro negou por medo, por se sentir embaraçado de ser visto como seguidor de Jesus.

Tanto Pedro como Judas cometeram pecados terríveis - ambos traíram Jesus. A diferença é que Pedro se arrependeu e confiou na misericórdia de Deus, tendo sido perdoado e restaurado, enquanto Judas se desesperou e se matou: o primeiro foi salvo, enquanto o segundo não.

7. Jesus perante Pilates (Mateus 27:2-26, Marcos 15: 1-15, Lucas 23:1-25, João 18:28-40)

Pôncio Pilatos foi governador da Província Romana da Judeia entre os anos de 26 e 36 da nossa era. Era homem corrupto, injusto e violento. Foi demitido pelo Imperador romano e acabou sua vida exilado.

Os líderes judeus recorreram a Pilatos porque a pena de morte naquela situação deveria ser aplicada pelo governador. E ao fazer isso, contribuíram para que fosse cumprida a profecia de que o Messias haveria de ser "pendurado no madeiro" - se a punição tivesse sido aplicada pelos próprios líderes judeus Jesus teria sido apedrejado, como aconteceu com o diácono Estevão (Atos 7:54-60).

Pilatos foi colocado pelos líderes judeus numa situação difícil: sabia que Jesus era inocente mas não queria contrariar os alto-sacerdotes. Esse é um dilema comum na nossas vidas: de um lado, o dever (fazer aquilo que é certo) e de outro o interesse pessoal (aquilo que gera vantagens). Pilatos escolheu ficar com seu interesse e mandou crucificar Jesus.

Os relatos também falam que os judeus preferiram que Pilatos soltasse Barrabás, um criminoso, em lugar de Jesus. Preferiram a violência do primeiro em lugar do amor do segundo. A anarquia de um em lugar da lei e da ordem do outro. O pecador no lugar d´Aquele sem mácula.

8. A crucificação e morte de Jesus (Mateus 27:31-50, Marcos 15:20-37, Lucas 23: 26-46, João 19:16-30)

A crucificação era o pior castigo que os romanos aplicavam, pois se tratava de suplício particularmente doloroso - o condenado morria aos poucos, por asfixia. Estava reservada aos piores criminosos e às pessoas que se revoltavam contra o domínio romano.

A crucificação era sempre precedida pelo chicoteamento (flagelamento) e pelo desfile vergonhoso do condenado carregando a trave horizontal da cruz onde seria crucificado (o patíbulo). Jesus passou por tudo isso, conforme a descrição detalhada dos Evangelhos.

Também eram práticas correntes a divisão das vestes do condenado entre os soldados e a atestação final da morte através da penetração de uma lança no corpo do condenado, coisas pelas quais Jesus também passou.

Jesus disse sete frases durante sua agonia na cruz, normalmente repetidas durante as comemorações da Sexta Feira da Paixão:
  • Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem.
  • Mulher [falando com Maria, sua mãe], eis aí teu filho [referindo-se ao apóstolo João].
  • Hoje mesmo estarás comigo no paraíso [dirigindo-se ao ladrão que o aceitou como Salvador e estava morrendo ao seu lado noutra cruz].
  • Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste.
  • Tenho sede.
  • Está consumado.
  • Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito.

9. O sepultamento de Jesus (Mateus 27:57-61, Marcos 15:42-47, Lucas 23:50-56, João 19:31-42)

O sepultamento de Jesus foi feito às pressas porque Ele morreu numa sexta feira, pouco antes do por do sol, quando começava o sábado, período no qual não se podia realizar qualquer trabalho.

Mediante a interferência de José de Arimateia, homem rico e importante, que falou com Pilatos, o corpo sem vida de Jesus foi retirado da cruz e levado para uma sepultura que nunca tinha sido usada e que foi cedida pelo próprio José.

Jesus foi sepultado num jardim, o que é altamente simbólico: foi num jardim (o Éden) que o pecado entrou no mundo e foi noutro jardim que o pecado foi derrotado.

10. Aparições do Cristo ressuscitado (Mateus 28:16-20, Marcos 16:9-20, Lucas 24:12-53, João 20:1-29)

Depois de ressuscitar, durante quarenta dias, Jesus apareceu para muita gente. Primeiro, para Maria Madalena, que teve essa honra, no domingo logo cedo, quando ela foi visitar a sepultura. Depois, apareceu para outras mulheres, para dois discípulos a caminho da cidade de Emaús, para os onze apóstolos restantes, para sete discípulos na Galileia, para Tiago e para uma multidão no monte das Oliveiras.

Essas aparições tiveram por objetivo atestar que Jesus tinha mesmo ressuscitado e elevar a moral dos seus seguidores. 

E aqui termino o relato dos principais marcos na vida de Jesus. É interessante observar que ficaram de fora eventos da maior importância, como a última ceia de Jesus com seus discípulos, quando Ele comparou o pão ao seu corpo e o vinho ao seu sangue, ou a transfiguração, quando suas vestes ficaram alvas como a neve, ou ainda os ensinamentos do Sermão da Montanha. Como disse, a lista final sempre depende do critério de escolha que for utilizado. 

Com carinho

domingo, 31 de julho de 2016

A PARÁBOLA DA FIGUEIRA ESTÉRIL

Jesus usou muito o recurso de parábolas - pequenas estórias que passavam ensinamento moral. Nenhuma pessoa da Bíblia usou tanto esse recurso como Jesus - as parábolas são como uma marca registrada do ministério d´Ele.

Uma das parábolas de que mais gosto, embora não seja tão popular como a do "bom samaritano" ou a do "filho pródigo", é a da "figueira estéril". Vamos ver o que Jesus disse:
Então contou esta parábola: "Um homem tinha uma figueira plantada em sua vinha. Foi procurar fruto nela, e não achou nenhum. Por isso disse ao que cuidava da vinha: "Já faz três anos que venho procurar fruto nesta figueira e não acho. Corte-a! Por que deixá-la inutilizar a terra?" Respondeu o homem: "Senhor, deixe-a por mais um ano, e eu cavarei ao redor dela e a adubarei. Se der fruto no ano que vem, muito bem! Se não, corte-a". Lucas capítulo 13, versículos 6 a 9 
Na Palestina, no tempo de Jesus, era costume plantar árvores frutíferas em meio ao vinhedo.. A árvore frutífera era deixada à própria conta por cerca de três anos e a partir daí, era exigido dela resultados, frutos comestíveis. 

No caso da figueira da parábola, os frutos vinham sendo procurados há três anos, logo a árvore já tinha seis anos de vida. E ainda assim, não apresentava resultados. A figueira parecia ser estéril.

Ora, a figueira suga muitos nutrientes da terra se manter e não fazia sentido conservar uma árvore estéril. Sua permanência em meio à plantação atrapalhava mais do que ajudava. Por isso o dono da terra decidiu cortar a figueira.

Mas o responsável pela vinha, o agricultor, pediu ao dono da terra mais um ano de prazo. Prometeu adubar a figueira e dar a ela tratamento especial. Se depois desse prazo adicional, a figueira não desse frutos, não apresentasse resultados, aí sim seria cortada.

O agricultor devia ter um carinho especial por aquela planta para propor uma medida tão excepcional - não era costume adubar figueiras naquela época (há qualquer registro desse tipo de prática no Velho Testamento). Na verdade, o agricultor queria desesperadamente salvar aquela árvore.

O que isso tudo quer dizer? Primeiro, a vinha é o povo de Deus (Israel) - essa imagem é muito comum no Velho Testamento como, por exemplo, em Isaías capítulo 5, versículo 7.

E certamente assim a vinha foi entendida pelos ouvintes de Jesus. A figueira em meio a ela era parte da plantação, portanto, representava uma pessoa pertencente ao mesmo povo. Mas essa pessoa não tinha boas obras para mostrar, era estéril.

Trazendo para os dias de hoje, quando entendemos o povo de Deus como sendo a Igreja Cristã, a figueira estéril representa uma pessoa que se diz cristã e até frequenta uma comunidade de fé, mas não colabora para a obra de Deus: não ajuda quem sofre, nem testemunha a Palavra, não ora com fé por quem precisa, não louva como deveria, etc. A fé dessa pessoa está morta, pois não tem obras para mostrar (Tiago capítulo 2, versículos 17 e 18). 

Deus (o dono da plantação, na parábola) diz que aquela pessoa de nada serve, pois nada produz, embora exija atenção e cuidado do Espírito Santo (o agricultor) e daqueles(as) que o ajudam a tomar conta do povo. 

É justamente o agricultor que pede a Deus mais uma chance para a figueira: vai fazer um último esforço para que a planta dê frutos. E Deus concede pois é misericordioso. A pessoa que se diz cristã mas nada fez pela obra, embora exija cuidados e atenção, vai ter uma última oportunidade para mudar sua postura. 

Mas essa será sua última oportunidade: se não mudar, se não entregar verdadeiramente a Jesus, vai ser tirada do meio do povo de Deus. Não haverá outra oportunidade. Simples assim.

E o tempo da pessoa acabará quando o dono da vinha voltar, o que, para nós, significa a segunda vinda de Jesus Cristo, quando todos os seres humanos serão julgados.

Há muitas parábolas onde Jesus ensinou a mesma coisa: a porta que é fechada, deixando alguns convidados da festa de fora; ou as virgens que não tinham óleo para suas lâmpadas e chegaram tarde ao casamento.

Jesus vai voltar, no final dos tempos e quem não tiver obras para mostrar, não terá como testemunhar sua fé. E sem fé, não há salvação possível: a pessoa simplesmente será tirada do meio do povo de Deus (os salvos). 

Portanto, cada um de nós, deve ter a preocupação de dar frutos. De se mostrar uma árvore frutífera em meio à plantação de Deus.

Com carinho

sexta-feira, 29 de julho de 2016

A DIFÍCIL TAREFA DE PROTEGER OS JOVENS DOS MALES DO MUNDO

Eu lhes tenho dado a tua palavra, e o mundo os odiou, porque eles não são do mundo, como também eu não sou. Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal. João capítulo 17, versículos 14 e 15

Um dos grandes desafios das famílias e comunidades cristãs é a proteção dos seus jovens que, afinal, vivem num mundo hostil aos valores cristãos. Não queremos que eles(as) sejam expostos(as) à promiscuidade sexual, ao uso de drogas recreacionais, à violência e a outras outras práticas negativas, das quais nossa sociedade está cheia. E, sobretudo, queremos que mantenham sua fé em Cristo.

Vejo amigos queridos enfrentando esse desafio e se questionando quanto à forma certa de proceder - eu já cumpri minha missão nessa área, pois meus dois filhos já tem bem mais do que trinta anos. 

As atitudes que tenho visto por aí costumam oscilar entre dois extremos, ambos errados a meu ver: um por fazer muito pouco e outro por fazer demais.

Os pais que erram por fazer muito pouco são aqueles que defendem a tese ser preciso respeitar a individualidade dos(as) jovens, deixando-os(as) escolher livremente. Deve-se ensinar os bons princípios de vida e da fé cristã e depois deixar que escolham livremente seus próprios caminhos, pois esse é um direito deles(as). 

O erro dessa abordagem está na falta de conhecimento da natureza real do ser humano. Esses pais pensam que ela é essencialmente boa e, se ensinados os princípios certos, plantada a boa semente, os(as) jovens vão acabar se encaminhando na direção certa e fazendo aquilo que agrada a Deus. Podem até tropeçar aqui e ali, coisa bem natural, mas vão chegar em porto seguro.

Mas não é bem isso que a experiência prática mostra: basta ver o estado de injustiça, corrupção e violência da nossa sociedade - ela encarna perfeitamente o ensinamento bíblico que "o mundo jaz no Maligno" (1 João capítulo 5, versículo 19). 

E tanto isso é verdade que Deus não age conosco dessa forma - Ele bem sabe que, deixados por nossa própria conta, não faríamos as escolhas certas. É exatamente por isso que o Espírito Santo foi escalado para ter o papel de incomodar e influenciar cada pessoa, levando-a na direção certa.

Deus nunca nos deixa por nossa própria conta, embora respeitando nosso direito de fazer escolhas, nosso livre arbítrio, que aliás foi nos dado por Ele mesmo. 

Agir de menos pode até ser confortável, pois evita um monte de atritos com os(as) jovens, que são pela própria natureza rebeldes e contestadores, mas nunca é a coisa certa a fazer. 

A outra abordagem parte para o extremo oposto: tenta proteger os(as) jovens criando uma "bolha" em torno das suas vidas. Eles(as) são como que tirados(as) do mundo, na tentativa de eliminar tentações, influências nocivas e perigos.

Aí os(as) jovens cristãos(ãs) são incentivados(as) a construir toda sua vida social dentro das próprias igreja, somente frequentando eventos evangélicos, só ouvindo música gospel e forçosamente buscando os(as) namorados(as) ali.

Vejo dois problemas nessa abordagem. O primeiro deles está embasado na própria oração que abre este post: ela foi feita por Jesus no final da sua vida na terra, quando pediu a Deus que protegesse seus discípulos(as), que estavam ficando para trás (Jesus ia voltar para o Pai).

Agora, repare bem no que Jesus disse no texto citado acima: não pediu a Deus para tirar seus discípulos(as) do mundo, para isolá-los(as) numa "bolha" protetora. E isso está muito claro. 

Jesus não pediu isso por uma razão muito simples: em outro momento Ele tinha nos dado o mandamento para sermos o "sal da terra" (Mateus capítulo 5, versículo 13), isto é somos chamados para fazermos a diferença na sociedade e não podemos fazer isso isolados(as), protegidos(as) numa "bolha", separados da sociedade. Simples assim.

Viver no meio do mundo que nos cerca implica obviamente correr o risco de sermos impactados pelas tentações e más influências da sociedade. E não há como fugir disso e isso também vale para os(as) jovens.

É claro que antes de serem expostos a tal tipo de risco, eles(as) precisam ter adquirido certo grau de maturidade emocional e espiritual, já tendo sido esclarecidos(as) sobre os caminhos de Deus. Assim, o grau de exposição permitido para um jovem de quinze anos evidentemente precisará ser menor do que o risco permitido para alguém com vinte anos. Para cada faixa de idade há limites de grau de exposição e risco a serem respeitados.

A outra razão que concorre para tornar a tese da "bolha protetora" ruim é o fato dessa proteção não poder ser mantida por toda a vida dos(as) jovens. Mais cedo ou mais tarde, as exigências da vida prática vão se impor, como a necessidade de trabalhar ou de estudar longe de casa, e eliminar tal tipo de proteção. E quando isso acontece os(as) até então mantidos(as) numa "bolha" estarão totalmente despreparados(as) para os desafios da vida, podendo inclusive entrar numa crise - já vi isso acontecer.

Portanto, não se deve tentar proteger demais os(as) jovens. Essa também não é uma boa opção.

A abordagem certa é ir ensinando os(as) jovens o que precisam saber e ir aos poucos permitindo sua exposição aos riscos da vida. Dosando esses riscos, mas não impedindo os(as) jovens de vivê-los. 

Dito assim, até parece tarefa fácil o fazer o que é certo, mas não é.

Essa calibragem precisa não é coisa trivial. Deixar por um lado que nossos(as) jovens vivam a realidade, e corram os riscos com ela relacionados, ao mesmo tempo dando-lhes condição de funcionarem de fato como o "sal da terra".

O segredo, penso eu, está em deixá-los(as) viver no mundo mas ensiná-los a não fazer concessões que descaracterizem seu chamado para uma vida verdadeiramente cristã. Ensiná-los a dizer não quando for necessário, sem preocupação de parecer careta. Mostrar que viver no mundo não precisa significar fazer tudo aquilo que o mundo espera que façam.

Com carinho

quarta-feira, 27 de julho de 2016

O SALMO 23

O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará. Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas. Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome. Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam. Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda. Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do Senhor por longos dias. Salmo 23

Este é o mais conhecido e querido dos salmos - todo mundo lembra do primeiro versículo: "o Senhor é meu pastor e nada me faltará..." 

Essa poesia foi composta por Davi quando ele já estava na corte de Saul, depois de matar o gigante Golias. Nesse texto ele refletiu sobre sua vida anterior, feliz e sem complicações, quando era um simples pastor.

Nele, Davi deu uma aula do que deve ser a fé simples, talvez até mesmo ingênua. Uma fé como a das crianças, que Jesus apontou como o tipo de fé mais verdadeira (Marcos capítulo 10, versículos 13 a 16).

Vamos analisar o que Davi quis dizer no salmo 23, verso por verso. O autor começa chamando Deus de "meu pastor" e isso é inesperado, considerando a tradição das pessoas do povo de Israel, que somente se dirigiam a Ele de maneira bem formal.

Davi fez algo diferente: comparou Deus com um pastor de ovelhas que cuida do seu rebanho de animais indefesos.

Jesus se referiu a si mesmo como o "bom pastor, que dá a vida pelas suas ovelhas" (João capítulo 10, versículo 11), uma referência direta ao salmo 23. Ou seja, Jesus sancionou aquilo que Davi tinha escrito quase mil anos antes: Deus é de fato nosso pastor. Aquele que cuida de nós.

E quem tem Deus como Pastor pode descansar de fato pois Ele não deixará que falte nada verdadeiramente importante Há aqui outro paralelo com aquilo que Jesus falou: não devemos nos preocupar com as coisas mundanas, lembrando sempre dos lírios do campo e dos pássaros, sempre cuidados pelo Pai (Mateus capítulo 6, versículo 25).

A frase "...deitar-me faz em verdes pastos..." faz referencia a uma condição das ovelhas: não são capazes de saber, por si próprias, se já comeram o suficiente - são animais muito estúpidos. Era preciso que o pastor se aproximasse de cada uma, toca-se nela com o cajado, para chamar sua atenção, e mandá-la parar de comer e deitar-se.

E assim também é conosco: nunca sabemos o que devemos de fato fazer - se precisamos nos aquietar, se já temos o suficiente, etc. Precisamos da orientação adequada do Espírito Santo. 

O pastor levava as ovelhas para beber água num lugar tranquilo, normalmente um pequeno riacho ou um poço. E a frase "guia-me mansamente a águas tranquilas..." reflete essa situação, mas também aponta para Jesus: Ele disse que quem tiver sede espiritual deve beber da água viva que flui d´Ele (João capítulo 7, versículo 37). E essa sede nunca mais voltará.

O versículo seguinte fala em "refrigerar a alma", embora a melhor tradução seja "restaurar a alma". E é exatamente isso que acontece com aquele(a) que segue a Jesus: alimentado e com a sede saciada, a pessoa tem seu espírito restaurado. 

As "veredas da justiça" são os caminhos seguros, onde as ovelhas não ficavam com as patas presas em raízes, não tropeçavam em pedras soltas, não caiam em fendas disfarçadas. São esses os caminhos por onde o Espírito Santo leva aqueles(as) que seguem Jesus.

Continuando nossa análise, era parte do trabalho do pastor naquela época vender a lã que suas ovelhas produziam - era daí que tirava seu ganho. O bom pastor construía para si um nome confiável - as pessoas compravam dele sem qualquer dúvida, sem nem precisar olhar para as ovelhas para verificar o tipo de lã produzida. O pastor era o "selo de segurança" dos compradores e não as ovelhas. 

A mesma coisa acontece com Jesus: Ele gera confiança mesmo em quem não é cristão(ã). E é por causa disso que a sociedade espera de nós, cristãos(ãs), que venhamos a produzir boa "lã" (bons frutos), compatível com a confiabilidade do pastor.

Ás vezes, em busca de novas pastagens, os rebanhos de ovelhas precisam ser conduzidos por caminhos estreitos, difíceis, onde um passo em falso podia levar a um acidente terrível. As ovelhas confiavam que o pastor iria levá-las em segurança, que não iam sofrer nenhum mal. Esse é o significado da frase: "...ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo..." 

A frase "...tua vara e o teu cajado me consolam..." aponta para outra tarefa do pastor: circular pelo rebanho e chamar cada ovelha pelo nome, dando-lhe uma pequena batida com o cajado. Assim, ele demonstrava um relacionamento pessoal com cada animal.

E assim também é conosco: o Espírito Santo entra em contacto com cada um(a) de nós, orientando, consolando e nos fazendo sentir amados pelo Pai.

As principais inimigas de uma ovelha, depois dos predadores (como os lobos), são as outras ovelhas. Quando uma delas está ferida, as demais invadem seu espaço vital e a impedem de comer e ela acaba morrendo de fome. Cabe ao pastor impedir que isso aconteça e esse é o significado da frase "...preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos..."

E isso também tem um paralelo perfeito com a vida atual: frequentemente os(as) cristãos(ãs) são os(as) maiores inimigos(as) de quem está caído, pois julgam e condenam essa pessoa, fazem fofoca dela, etc. Exatamente com as ovelhas.

Os ferimentos das ovelhas eram cuidados com óleo de oliva que ajudava na cicatrização. O mesmo óleo, depois de consagrado, era utilizado para ungir os reis de Israel. Agora, na expressão "unges a minha cabeça com óleo" há uma referência ainda mais importante: Davi tinha sido ungido futuro rei de Israel, quando tinha cerca de dezesseis anos, pelo profeta Samuel, embora, quando escreveu o salmo 23, ainda não tinha assumido o trono.

O cálice das ovelhas era uma pedra escovada, com dimensões aproximadas de 1,20 m x 0,50 m, onde o pastor colocava água. Como essa pedra ficava exposta ao sol, o pastor a enchia de água até transbordar para resfriá-la, dando mais conforto às ovelhas. Portanto, a expressão "o meu cálice transborda" aponta para esse gesto de carinho do bom pastor.

E é assim que Deus age conosco: nos dá da sua graça até que transbordemos e possamos viver em paz. 

A bondade e a misericórdia do pastor acompanhava as ovelhas enquanto elas viviam. O pastor tinha amor por cada uma delas e as tratava como seres queridos. E o mesmo podemos esperar de Deus.

Chegamos então à última frase do salmo: "...e habitarei na casa do Senhor para todo o sempre..." Nela está resumida nossa esperança: estar com Deus para todo o sempre. Essa é promessa que acompanha a salvação proporcionada por Jesus.

Davi, no texto do salmo 23, aponta para essa realidade última - ele conhecia essa promessa e acreditava nela. 

Com carinho

segunda-feira, 25 de julho de 2016

A PARÁBOLA DOS TRABALHADORES BOIA FRIA

Porque o reino dos céus é semelhante a um homem, pai de família, que saiu de madrugada a contratar trabalhadores para a sua vinha. E, ajustando com os trabalhadores a um dinheiro por dia, mandou-os para a sua vinha. E, saindo perto da hora terceira, viu outros que estavam ociosos na praça, e disse-lhes: Ide vós também para a vinha, e dar-vos-ei o que for justo. E eles foram. Saindo outra vez, perto da hora sexta e nona, fez o mesmo. E, saindo perto da hora undécima, encontrou outros... Diz-lhes ele: Ide vós também para a vinha... E, aproximando-se a noite, diz o senhor da vinha ao seu mordomo: Chama os trabalhadores, e paga-lhes....Vindo, porém, os primeiros, cuidaram que haviam de receber mais; mas do mesmo modo receberam um dinheiro cada um. E, recebendo-o, murmuravam contra o pai de família, dizendo: Estes derradeiros trabalharam só uma hora, e tu os igualaste conosco, que suportamos a fadiga e a calma do dia. Mas ele, respondendo, disse a um deles: Amigo, não te faço agravo; não ajustaste tu comigo um dinheiro? Toma o que é teu, e retira-te; eu quero dar a este derradeiro tanto como a ti. Ou não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? Mateus capítulo 20, versículos 1 a 15

Essa parábola de Jesus é muito importante por que toca num aspecto fundamental da salvação: ela não é por mérito e sim pela Graça de Deus, mediante o sacrifício de seu Filho na cruz. E isso tem importantes consequências que costumam escapar ao entendimento das pessoas.



A estória fala de um dono de vinha que contratou trabalhadores avulsos - o equivalente aos nossos "boias frias" - para trabalhar. Contratou os primeiros no início da jornada de trabalho e prometeu-lhes pagar determinada quantia justa. Mas ao ver que a primeira leva não tinha sido suficiente, foi contratando outros trabalhadores ao longo do dia, prometendo-lhes o mesmo valor pela jornada, embora fossem trabalhar menos horas. 

Ao final do dia, deu a todos os trabalhadores o prometido: a mesma quantia. Aí os trabalhadores que tinham sido contratados no início da jornada reclamaram porque tinham trabalhado mais horas e ainda assim recebido a mesma coisa, o que lhes pareceu injusto.

O dono da vinha respondeu que combinou com cada um a quantia a ser paga e fez exatamente como o combinado. E como o dinheiro era dele, podia pagar o que bem desejasse a cada trabalhador e ninguém podia reclamar porque cumprira o prometido.

Nessa parábola , assim como em todas que Jesus contou, o dono da vinha representa Deus. E a vinha o seu povo (Isaías capítulo 5, versículo 7).

Os trabalhadores são aqueles(as) que fazem a obra de Deus. Algumas dessas pessoas se convertem cedo nas suas vidas e têm oportunidade de trabalhar por muitos anos nessa obra. Outras se convertem mais tarde, quase ao fim da sua vida na terra - são os trabalhadores contratados quase ao final da jornada de trabalho.

Há muitos exemplos na Bíblia de pessoas com trajetórias espirituais diferentes nas suas vidas. Por exemplo, o apóstolo Paulo trabalhou décadas pela obra de Deus, fazendo diversas viagens missionárias, pastoreando inúmeras igrejas, sofrendo perseguições, etc.

O ladrão que foi crucificado ao lado de Jesus não fez nada pela obra de Deus, pois se converteu poucas horas antes de morrer. E mesmo assim foi salvo (Lucas capítulo 23, versículo 43) - recebeu de Deus a mesma graça reservada para Paulo.

O apóstolo, assim como todos os(as) demais como ele, é representado na parábola pelo trabalhador contratado no começo do dia de trabalho e o o ladrão na cruz, e outros(as) como ele, pelo trabalhador contratado ao final do dia. Uns trabalharam bem mais do que os outros, mas todos receberam do dono da vinha o mesmo "salário" (a salvação).

Isso parece justo? muita gente pensa que não. Mas elas não estão certas em criticar Deus. Afinal, ninguém é salvo pelo que faz e sim pelo que acredita (a fé em Jesus como seu Salvador). Logo, não faz diferença, para fins de salvação, se essa fé chegou no começo da vida ou ao final dela - a situação perante Deus continua a mesma.

E como as pessoas são salvas pela Graça de Deus e não pelo mérito individual delas, ninguém pode questionar Deus pelo que faz. Por justiça, todos deveriam ir para o inferno e somente a Graça de Deus nos oferece um outro caminho.

É esse o significado da frase final do dono da vinda (Deus) na parábola: Ele podia fazer o que desejasse com seu dinheiro. Em outras palavras, Deus pode fazer o que desejar com sua Graça, pois Ele nos dela sem nada pedir em troca. É um presente.

O dono da vinha podia ter contratado outros trabalhadores, mas escolheu contratar aqueles e prometeu-lhes um salário que pagou - foi absolutamente correto e justo. Nenhum trabalhador tinha o direito de olhar para o lado e tentar fazer comparação com a situação dos demais.

A salvação funciona exatamente assim: Deus fez uma promessa aos seres humanos - que aceitar Jesus como Salvador, será salvo(a). E vai cumpri-la no final dos tempos.

Portanto, não cabe a ninguém ficar olhando para o lado e avaliando se outras pessoas merecem receber a mesma salvação. Ninguém é "porteiro" do Paraíso. Simples assim.

Há ainda uma coisa importante a comentar em relação a essa parábola: embora todos(as) recebam a mesma salvação pela Graça de Deus, há sim prêmios, que vão além dela, que têm a ver com as obras: quem tiver feito mais pela obra de Deus, receberá prêmio maior. Esses prêmios são chamados "galardões" e se você quiser saber mais a respeito disso, leia o post que escrevi a respeito (veja mais).

Com carinho

sábado, 23 de julho de 2016

O SERMÃO DA MONTANHA

Leia Mateus capítulos 5 a 7 
O "Sermão da Montanha" é a pregação mais longa de Jesus registrada na Bíblia. Uma das coisas mais interessantes que essa pregação não ensina aquilo que devemos crer - Jesus fez isso em outros momentos - e sim o que devemos fazer:
Portanto, quem ouve estas minhas palavras e as pratica é como um homem prudente que construiu a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela não caiu, porque tinha seus alicerces na rocha. Mas quem ouve estas minhas palavras e não as pratica é como um insensato que construiu a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela caiu. E foi grande a sua queda. Mateus capítulo 7, versículos 24 a 27

O ensinamento está claro: o Sermão da Montanha ensina a conduta cristã correta. O que precisa ser feito por nós. Foi por isso que Santo Agostinho, um dos maiores teólogos do cristianismo, disse que esse Sermão é o "programa perfeito para seguir uma vida cristã". Por isso quem ouve e pratica aquilo que Jesus ensinou constrói sua vida espiritual sobre base sólida (rocha). Quem não dá bola, pode até pensar que está bem, mas não é essa a realidade - sua "construção " espiritual está apoiada sobre areia.

É interessante observar, comparando com o mundo de hoje, repleto de grandes igrejas e catedrais luxuosas, que Jesus não tinha onde pregar. Ele falava onde era possível. Nesse caso, Jesus subiu num monte da Galileia, para ficar numa posição onde todos (as) pudessem vê-lo e dali falou para o povo. 

Essa situação nos ensina que Deus não tem lugares preferidos para se fazer ouvir. Ele está em qualquer lugar e se manifesta onde e como deseja. Não é pode ser ouvido apenas em templos ou em outros lugares especialmente consagrados a Ele.

Outra coisa interessante a observar é que Jesus falou sentado. Na tradição judaica, isso significava que estava falando na condição de Professor da Lei (a Bíblia Hebraica, o nosso Velho Testamento). Era um momento solene, portanto..

As famosas "bem-aventuranças" estão contidas nesse sermão. São pequenos provérbios com dois objetivos em mente. Primeiro, indicar quem são os(as) verdadeiros(as) bem-aventurados(as), ou seja que alcançaram a verdadeira alegria e são vistos(as) com favor por Deus. Depois, ensinar sobre a verdadeira alegria.

Jesus, quando falou sobre essas coisas, foi contra toda a sabedoria da época - Ele inovou de forma maravilhosa. Os costumes judeus ensinavam que os sinais exteriores de prosperidade apontavam para bençãos de Deus. Em outras palavras, os(as) abençoados(as) por Deus eram prósperos(as), estavam bem de vida, tinham saúde, etc. Assim, quem demonstrava passar por dificuldades físicas e/ou materiais certamente estava em pecado. 

Ora, essa era uma filosofia cruel - além de passar pelo problema em si, a pessoa ainda tinha que enfrentar a desconfiança geral por conta do possível pecado que seria a raiz do seu sofrimento.

Jesus falou exatamente o contrário: são felizes aqueles(as) que sofrem, choram, passam por lutas, são perseguidos, etc. Essas são as pessoas que verão a Deus e que herdarão seu Reino.

Jesus ainda ensinou no mesmo Sermão que todos(as) os cristãos(ãs) têm obrigação de testemunhar sobre sua fé - devemos ser como o sal que dá gosto à comida. Para isso, vivendo no meio da sociedade, devemos dar o exemplo e contribuir para melhorar as coisas. Devemos também ser como a luz para quem está próximo(a) e anda no escuro, refletindo a luz que vem de Jesus.

O Sermão da Montanha também fala bastante sobre a oração. Jesus ensinou que precisamos orar com fé para pedir e conseguir as coisas de Deus. A oração deve sempre ser feita em atitude humilde, com discrição e em atitude respeitosa - ao contrário do que acontece hoje em muitas igrejas onde as pessoas gritam, se jogam no chão, etc.

Jesus mostrou ainda como orar através da famosa oração do Pai Nosso. Ali estão os passos a serem dados: invocação do Pai, adoração a Deus, os pedidos e a finalização. Mostrou quais pedidos a Deus devem ser feitos: atendimento das necessidades diárias, perdão para nossos pecados, proteção contra as tentações e o mal. 

Jesus falou ainda sobre o perdão: precisamos perdoar se queremos ser perdoados por Deus. Simples assim. E a disposição para o perdão deve ser sem limites (até "setenta vezes sete") e abranger não somente quem amamos mas também inimigos(as).

Recomendo que você leia com cuidado e reflita sobre o Sermão da Montanha. Tenho certeza que você quer ter uma vida espiritual sólida, firmada sobre a rocha que é Deus. E nesse ensinamento de Jesus está contido tudo que você precisa saber a respeito

Com carinho

quinta-feira, 21 de julho de 2016

A MULTIPLICAÇÃO DOS PÃES E PEIXES

Mateus capítulo 14, versículos 13 a 21; Marcos capítulo 6, versículos 30 a 44; Lucas capítulo 9, versículos 10 a 17; e João capítulo 6, versículos 1 a 14
Este milagre de Jesus foi muito importante, tanto assim, que se trata de uma das poucas coisas que aconteceram com Ele registradas pelos quatro Evangelhos.

Milagres não são apenas manifestações do poder de Deus, contrariando as leis da natureza. Fazendo o que parece impossível. São muito mais: trata-se de sinais e do testemunho da presença e da obra de Deus entre nós. 

Deus opera milagres em prol do avanço do Reino de Deus. Portanto, milagres, pela sua própria definição, não são coisas que acontecem todo dia. Por qualquer razão. A qualquer hora. Milagres são coisas muito especiais.

No caso do milagre da multiplicação dos pais e peixes, Jesus foi para nordeste do Mar (Lago) da Galileia, numa jornada de cerca de 8 km, e foi seguido por uma multidão de 5 mil homens e muitas mulheres e crianças. 

Quando Jesus tinha terminado de falar, as pessoas perceberam estar com fome e não havia o que dar para elas. Ora, seria preciso cerca de 200 denários (mais ou menos 8 meses de salário de um operário) para comprar comida para todo mundo que estava ali. 

As pessoas presentes somente tinham cinco pães de cevada e dois pequenos peixes. E mesmo assim Jesus conseguiu alimentar todo mundo - Ele multiplicou aqueles poucos alimentos de forma maravilhosa. 

Há muitos ensinamentos a tirar desse ato. O primeiro deles é que Jesus realmente é o pão da vida (João capítulo 8, versículos 48 a 51). O alimento para nossa vida espiritual. 

Há também uma forte correlação entre o que Jesus fez ali e a Santa Ceia, quando falou para os discípulos que o pão representava seu corpo e o vinho o seu sangue (Lucas capítulo capítulo 22, versículos 19 e 20 e 1 Coríntios capítulo 11, versículos 23 a 29).) 

Outro ensinamento importante é que Deus usa coisas simples para fazer seus maiores milagres: uma simples vara foi usada por Moisés para abrir o mar Vermelho; Davi usou uma pequena pedra, tirada de um riacho, para matar o gigante Golias; e Eliseu usou um punhado de farinha e um pouco de azeite para alimentar uma família. 

Sempre me impressiono com o fato que Deus faz coisas maravilhosas com estrema singeleza, sem grandiosidade, sem fogos de artifício, sem cenários luxuosos. Tanto assim, que foi num sala com decoração pobre, no segundo andar de um prédio qualquer, que Jesus conduziu uma ceia com seus discípulos, onde serviu pão e vinho. E com esses gestos simples, mudou a história da humanidade. 

Jesus alimentou uma enorme multidão com um pequena quantidade de alimentos, que mal daria para dois adultos. E assim ensinou que podemos confiar n´Ele para atender nossas necessidades, tanto físicas quanto espirituais. e também para saciar nossa fome e sede por justiça, compreensão e amor. Simples assim. 

Com carinho