quarta-feira, 22 de outubro de 2014

UMA RELIGIÃO LIBERTADORA


Muitas pessoas com quem converso sobre o cristianismo se surpreendem quando falo que se trata de uma religião libertadora do ser humano. Isso por que a imagem do cristianismo que tem sido passada, em muitos casos, é exatamente a oposta: uma religião que oprime com seus dogmas, regras de comportamento, ameaças de punição com o inferno, etc. 


Acho que essas duas percepções têm seu núcleo de verdade. O cristianismo é sim uma religião libertadora, quando entendido e praticado da forma correta. Por outro lado, muitas vezes essa religião tem sido abusada, tornando-se uma caricatura daquilo que Jesus defendeu e lutou para implantar. 

E a razão para isso é fácil de entender: as religiões são desenvolvidas e conduzidas por seres humanos e a imperfeição deles muitas vezes acaba por impactar as práticas religiosa do dia a dia, mesmo quando a doutrina básica é maravilhosa. Um excelente exemplo disso é o caso do Pastor Jim Jones que levou centenas de seguidores ao suicídio coletivo. Outro exemplo bem ilustrativo é a Inquisição conduzida pela Igreja Católica.

Jesus nos disse que a verdade haveria de libertar as pessoas. E também que Ele mesmo era o caminho, a verdade que liberta e a vida eterna para as pessoas. Onde Jesus está, a liberdade floresce. E se existem cadeias é porque Jesus está muito longe dali.

E quando a religião se torna "tóxica", a primeira coisa que fica perdida é a liberdade pessoal. E isso ocorre por causa de três coisas, às quais você precisa ficar atento:

Legalismo 
Trata-se da "ditadura" das regras. Os dirigentes religiosos estabelecem padrões de comportamento que devem ser seguidos por todos(as) e quem não faz isso, por qualquer motivo, é considerado pecador(a), discriminado(a) pela comunidade e ameaçado(a) com o inferno. 

Os que defendem o legalismo apontam para as mais de 600 regras que a Bíblia apresenta no Velho Testamento, para provar que Deus gosta de controlar o comportamento humano. Ora, essas pessoas esquecem que, quando estabeleceu essas regras, Deus estava construindo uma nação a partir de um povo (Israel) formado por escravos fugidos do Egito. E toda sociedade precisa de leis para funcionar bem. Basta lembrar, por exemplo, das milhares de leis federais que temos em nosso país. Somos muito mais legalistas do que a sociedade que Israel construiu sob a inspiração de Deus. 

O principal problema com o legalismo é a criação de regras que não deveriam existir. Um bom exemplo é usar o Velho Testamento para estabelecer um código de vestimenta para os dias de hoje, o que é absurdo. Mas muitos líderes religiosos fazem isso. 

E há um poderosos incentivo para os líderes religiosos serem legalistas: o poder. Afinal, ter condição de ditar o comportamento das outras pessoas dá poder para quem estabelece e controla o cumprimento das regras. E era isso que acontecia com os escribas e fariseus na época de Jesus e a principal razão porque Ele se desentendeu tanto com aquelas pessoas.

Patrulhamento
Essa prática normalmente acompanha o legalismo - é outra face da mesma moeda. Para entender bem seu funcionamento, vou recorrer ao regime comunista, hoje já quase desaparecido do mundo. Aquele tipo de regime nunca teria conseguido se manter no poder se não tivesse tido a cooperação da própria população por ele oprimida. As pessoas eram ensinadas desde cedo pela cartilha comunista e se tornavam os “olhos e ouvidos” do regime, denunciando qualquer desvio de conduta – houve casos até de filhos denunciando os próprios pais.

O mesmo acontece em muitas igrejas hoje em dia: discipuladas por uma cartilha de comportamento rígida, as passam a se controlar umas às outras, denunciando à liderança os "pecados" percebidos. E, quando pegas em "delito", as pessoas denunciadas são disciplinadas publicamente, muitas vezes não lhes sendo permitido tomar comunhão, liderar ministérios da igreja ou participar de certas atividades, como o louvor. Há casos até em que as pessoas precisam fazer confissão pública dos seus pecados. 

Quando há patrulhamento, vai-se embora a liberdade e passa a imperar a hipocrisia – o importante deixa de ser "fazer o certo" e passa a ser "parecer que se faz o certo".

Controle do acesso a Deus
Tal desvio se caracteriza quando o líder religioso tenta regular o acesso das pessoas a Deus - por exemplo, tudo deve ser feito através dele(a) ou com seu conhecimento. As pessoas precisam confessar seus pecados para ele(a), as bênçãos são ministradas apenas por ele(a), a doutrina é estabelecida por ele(a) e assim por diante.

Ora, quando o relacionamento das pessoas com Deus passa a ser controlado por alguém há um enorme risco dessa pessoa conduzir as demais por caminhos errados - o caso do Jim Jones, a que me referi acima, mostra exatamente isso. Os desvios da Igreja Católica na Idade Média, quando os fiéis eram desincentivados a lerem a Bíblia e, portanto, somente conheciam a doutrina pelo que os padres lhes ensinavam, é outro exemplo real desse tipo de situação. 

Palavras finais
Se sua igreja mostra sinais fortes de um ou mais desses três sintomas e se você se sente acuado e sem "espaço para respirar", o erro não está em você, mas na sua igreja. Mude de igreja pura e simplesmente, sem qualquer remorso. E, se puder, dê esse depoimento para outros(as) frequentadores dessa igreja - sua coragem poderá ajudá-los(as) a tomar a mesma decisão.

Vá para um lugar onde o Evangelho pregado seja aquele que Jesus defendeu, qual seja aquele que salva o ser humano e o(a) liberta dos vícios, ódio, hipocrisia, etc. A igreja é um lugar de liberdade e, se não for, não é uma igreja como aquela que Jesus estabeleceu. Simples assim.

Com carinho

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

TEOLOGIA TÓXICA

Hoje vou falar de teologia tóxica, algo com o quê você deve tomar muito cuidado. Esse é um grande perigo para sua vida espiritual.
Anos atrás, atrás morreu precocemente a cantora Whitney Houston. Ela tinha voz de anjo, grande beleza e um talento musical extraordinário, o que fez dela uma das cantoras pop mais conhecidas e premiadas da sua época.
O que ficou escondido por trás de todas as homenagens que foram feitas a Whitney na época da sua morte foi o fato de que ela era profundamente cristã - a última música que cantou falava justamente do seu amor por Jesus. E foi muito triste perceber que uma pessoa tão abençoada e cristã verdadeira tenha tido final tão triste. 

O fato é que Whitney foi vítima de duas forças terríveis que acabaram destruindo sua vida física e emocional: o abuso doméstico e a obediência cega a uma teologia errada. Vejamos o que aconteceu.

Bobby Brown, o marido de Whitney, a quem ela amou profundamente (chegou a se declarar "viciada" em amá-lo), é um artista menor, que tinha inveja do sucesso da própria esposa. E ele fez tudo para acabar com a autoestima de Whitney, aproveitando-se de sua personalidade frágil, inclusive levando-a a consumir drogas. Amor sem medida dedicado a uma pessoa abusiva e manipuladora é caminho certo para o desastre. E foi isso que aconteceu com Whitney.
Mas, ela também foi vítima de uma  teologia tóxica que escolheu seguir cegamente. O fato é que Whitney permaneceu por longos anos num casamento terrível porque achava que era isso que Deus queria dela. Numa entrevista que deu para Oprah Winfrey em 2009 (disponível no Youtube), ela disse que, como cristã, era seu dever ficar casada a qualquer custo e chegou a citar Mateus capítulo 19, versículo 6: “Portanto, o que Deus ajuntou, não o separe o homem”. Citou ainda a passagem bíblica que, na percepção dela, dava ao seu marido poder de dirigir sua vida (Efésios capítulo 5, versículos 22 a 33). 
Na mesma entrevista, ela contou que certo dia começou a pedir a Deus ajuda para sair daquele inferno. Orou para ter forças por apenas um dia e Deus atendeu seu pedido e ela saiu de casa apenas com a roupa do corpo. Mas seu afastamento do marido abusivo veio tarde: o mal físico e emocional que lhe tinha sido feito cobrou seu preço. Whitney nunca mais conseguiu se recuperar – basta ver suas últimas fotos. 
Os custos de uma teologia tóxica
O cristianismo é uma religião que liberta o ser humano e portanto nunca pode defender algo que o escravize. E qualquer teologia que aponte na direção dessa escravização deve ser considerada tóxica. Vejamos o que estava errado naquilo que ensinaram a Whitney. 
Sou um defensor do casamento e acho que sempre deve haver um grande esforço para preservá-lo. Mas essa preservação não pode ocorrer a qualquer custo, como aconteceu com aquela mulher. E o versículo de Mateus - nenhum ser humano deve separar aqueles que Deus juntou -, citado pela própria cantora, não a obrigava, como lhe foi ensinado por alguns pastores, a esse tipo de sacrifício. 

E é fácil de entender a razão para o que acabei de afirmar. Basta perguntar: quando é que Deus junta verdadeiramente um homem e uma mulher? A maioria dos evangélicos responderia que isso ocorre quando as pessoas se casam na igreja, frente a um pastor. Mas quem pode garantir que a união feita numa cerimônia religiosa é equivalente a uma união feita por Deus? Onde isso está dito na Bíblia? Posso afirmar que em lugar nenhum.

Para confirmar o que acabei de dizer, basta lembrar de Isaías capítulo 1, versículos 13 e 14, onde Deus afirma que detesta liturgias religiosas vazias. Elas nada significam. 
E o casamento algumas vezes pode virar uma liturgia vazia. Eu me explico. Por exemplo, há cerimônias religiosas de casamento onde um dos noivos está ali apenas para cumprir uma obrigação social, já que nem acredita direito em Deus. Acho que também não tem valor espiritual a cerimônia onde um dos noivos se casa por interesse ou esconde suas reais intenções em relação ao outro.  
O casamento religioso na igreja e a união feita por Deus são coisas diferentes. Até acredito que boa parte dos casamentos feitos nas igrejas envolve uniões feitas por Deus, mas certamente não é sempre assim que acontece. E o caso de Whitney certamente foi um caso em que Deus nada teve a ver com a união. 

Outro aspecto tóxico da teologia que a cantora seguia é a questão da autoridade absoluta e inquestionável do marido sobre a esposa. Muitos evangélicos entendem que o texto de Efésios capítulo 5 dá ao marido esse papel, o que não é verdade. Afinal, no mesmo texto, é dito que o marido deve amar a mulher como a seu próprio corpo, como Cristo faz com a igreja. 

Na verdade, o texto defende uma submissão mútua, já que o corpo (a esposa) cria limite físicos para a alma (o marido). Paulo defendeu que o marido e mulher devam se submeter um ao outro, ou ninguém se submete a ninguém. 

A situação em que a mulher se submete cega e unilateralmente ao marido, como aquela que Whtiney aceitou viver, não está prevista na Bíblia. E nem é razoável, não podendo ser do agrado de Deus. 
Por que a teologia tóxica permanece?
Há várias razões para isso. A primeira delas é a ignorância pura e simples - as pessoas não sabem que há algo errado no que lhes foi ensinado e simplesmente se limitam a repetir o que aprenderam. 
A segunda razão é que as pessoas se acomodam nos papéis que aprendem a desempenhar. E muitas vezes parece ser mais confortável deixar como estar, para ver como fica... As pessoas somente mudam quando a dor torna-se insuportável, pois mudar também incomoda. Doeu muito para Whitney abandonar seu casamento, conforme ela mesmo declarou e essa foi uma das razões pela qual ela hesitou tanto em fazer isso.

A terceira razão é que não interessa a algumas pessoas mudar essas doutrinas tóxicas, pois tiram vantagem delas. Por exemplo, para um homem machista, desejoso de controlar a vida da sua mulher, a visão teológica que estabelece a dominação da esposa pelo marido cai como uma luva. 
Palavras finais
Uma boa teologia deve iluminar mentes, libertar almas e encaminhar pessoas na direção do Reino de Deus. A teologia tóxica pega pedaços da Bíblia, fora de contexto, e os usa para dominar e aprisionar pessoas. E aí daquele que tiver a audácia de se rebelar contra esses ensinamentos distorcidos pois, no mínimo, vai ser rotulado de fazer a obra de Satanás. 
Há inúmeros exemplos de teologias tóxicas, todas com resultados destrutivos. Falei aqui um pouco sobre a teologia errada que leva a esposa à submissão ao marido e a permanecer num casamento a qualquer custo, mas há outros exemplos importantes como aquela que defende que "cristãos verdadeiros não adoecem" (a chamada "confissão positiva") ou que "Deus nos quer ver a todos prósperos" (a teologia da prosperidade). Cuidado com elas.

Com carinho

sábado, 4 de outubro de 2014

COMO VOCÊ COMPRA LARANJAS?

Você pode comprar laranjas no supermercado de duas formas. A primeira é pegar um pacote que já tem certo número de frutas e está etiquetado com o peso delas. A outra forma é escolher as laranjas uma a uma, num pilha de frutas, levando aquelas que você considerar melhores. A primeira forma torna a compra mais rápida e simples, enquanto a segunda garante que o(a) comprador(a) tenha um produto final melhor. 

As relações humanas são muito similares à compra de um "pacote" fechado de laranjas. Se você escolher se relacionar de alguma forma com alguém, "comprará" o "pacote" fechado de qualidades e defeitos dessa pessoa, as coisas boas e ruins que são parte da vida dela. Não é possível, por exemplo, ficar apenas com as qualidades pois o "pacote" vem fechado - muitos(as) até se iludem achando que vão conseguir, com base no seu amor, mudar aqueles(as) com quem se relacionam, mas isso quase nunca acontece. 

O mesmo tipo de situação é encontrado quando as pessoas escolhem seguir o cristianismo. Existe um "pacote" doutrinário fechado que acompanha a fé cristã e as pessoas que desejam segui-la precisam "comprar" essas ideias. 

Agora, muitas pessoas se convertem ao Evangelho de Jesus mas querem tirar as "laranjas indesejadas" do "pacote" doutrinário cristão. Essas "laranjas" são os ensinamentos e doutrinas desagradáveis como "o inferno", "a natureza pecaminosa do ser humano", "cada cristão tem sua cruz para carregar", "a necessidade de amar o próximo" e outras coisas desse tipo. 

Essas pessoas desejam ser cristãs mas querem seguir um modelo de cristianismo próprio, formado apenas pelas doutrinas que elas gostam e querem seguir. E isso é muito mais comum do que parece ser o caso - eu diria que uma parte expressiva dos cristãos(ãs) pensa e age exatamente assim. 

Ora, o "pacote" doutrinário do cristianismo não pode ser alterado pois foi "embrulhado" pelo próprio Deus. Se você quer se considerar cristão precisa aceitar integralmente aquilo que Jesus ensinou e pediu que você faça, mesmo quando essas coisas sejam difíceis de aceitar e não sejam agradáveis. 

Para ser um(a) cristão(ã) verdadeiro, você precisa aceitar todas as "laranjas" que Deus colocou no "pacote" do cristianismo e, mais do que isso, confiar que são todas de boa qualidade e absolutamente necessárias para sua vida. Simples assim.

Com carinho   

terça-feira, 30 de setembro de 2014

OS QUATRO TIPOS DE AMOR


"...Se não tiver amor, nada serei. O amor é paciente, é benigno, o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal e não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade, tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba..."                                 1 Corintios capítulo 13
A passagem acima é muito conhecida e se deve ao apóstolo Paulo. E ninguém falou melhor sobre o amor verdadeiro do que ele. 

Acontece que esse texto é muito usado em casamentos - já perdi a conta das vezes em que vi isso acontecer. Mas Paulo falou que o amor que estava descrevendo não arde em ciúmes. Ora, não há nada que mais "arda em ciúmes" do que o amor entre um homem e uma mulher. E quem diz o contrário, nunca amou. 

Será que Paulo errou na sua descrição, talvez por não ter sido casado? Na verdade, Paulo estava falando de outro tipo de amor. E é um erro de interpretação usar 1 Corintios 13 para falar do amor entre homem e mulher.
 
Esse erro de interpretação tão comum nasceu, na verdade, na tradução do texto original do Novo Testamento do grego koine para o português. O problema é que existem quatro palavras ("eros", "storge", "philia" e "agape") no grego que são todas traduzidas pela mesma palavra em português, "amor". E somente o contexto permite saber do que o autor está falando em cada situação particular. 

O problema de não conseguir encontrar a palavra adequada numa língua quando se traduz da outra é muito comum. Por exemplo, a palavra saudade praticamente não existe fora do português. Outro exemplo é a palavra "chuva" que no japonês pode ser traduzida de 20 diferentes formas.

A seguir explico melhor os quatro diferentes sentidos que a palavra "amor" pode ter na Bíblia. 

Eros
É o amor que existe entre homem e mulher, incluindo os aspectos sexuais. A Bíblia descreve com bastante propriedade esse tipo de amor no livro Cântico dos Cânticos, escrito por Salomão. A palavra paixão descreve uma parte desse amor, o seu aspecto mais físico, mas o amor "eros" vai além disso. 

O "eros" é um amor exigente, pois espera retribuição. Quer exclusividade e sofre muito com o ciúme.

Storge
É o amor existente entre uma mãe e seus filhos ou entre irmãos. Mas não seria errado dizer que também está presente no amor de uma pessoa pelo seu cachorro. 

Uma palavra no português que descreve um pouco melhor o amor "storge" é "afeição", mas essa tradução não é perfeita, pois "storge" tem um sentido mais forte do que "afeição".

"Storge" talvez seja o tipo mais simples de amor. Não exige exclusividade e nem retribuição. É universal pois todas as pessoas esperam receber tal tipo de amor e quando isso não ocorre, sofrem grande trauma emocional - basta ver os problemas que existem entre pais e filhos(as).

Uma característica interessante do amor "storge" é que ele lida mal com a mudança. Para os pais, os filhos nunca crescem e os filhos não gostam muito de ver mudanças nos pais – por exemplo, um novo amor "eros" na vida da mãe ou do pai.

Philia
Esse termo se refere ao amor que existe entre amigos. É semelhante à amizade, porém mais forte. Por exemplo, o Novo Testamento fala que Jesus amava o apóstolo João e o termo usado é exatamente "philia". 

É o amor que deve existir dentro de uma comunidade cristã e também o que mais se aproxima daquele que haverá entre as pessoas salvas, no Paraíso. 

O amor "philia" também pode existir entre marido e mulher ou entre irmãos e certamente sua existência reforça em muito a ligação existente entre essas pessoas.  

"Philia" não é um amor exigente. Não tem limitações de sexo, raça, situação social, etc. É um amor que normalmente não sofre muito com ciúmes – sempre cabe mais um numa roda de amigos. 

Infelizmente, o amor "philia" era mais importante na cultura antiga do que no mundo moderno. Antigamente, as sociedades tinham muitas características tribais, onde a cooperação humana era fundamental. Hoje as pessoas podem viver nas grandes cidades quase sem amigos. 

Agape
Esse é o amor que Deus tem por nós. Também é o tipo de amor que o cristão deve ter pelo próximo se obedecer o mandamento que Jesus estabeleceu. 

Muitos traduzem "agape" como caridade, mas esse tipo de amor vai além disso, pois envolve também carinho, misericórdia, compaixão, etc.

O amor a que Paulo se refere no texto acima é justamente o "agape". É a essência do cristianismo. E foi por isso que Paulo deu tanta importância a ele".

Com carinho

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O PAPEL DE ISRAEL NO PLANO DA SALVAÇÃO

Qual é o papel de Israel no Plano de Salvação que Deus estabeleceu para a humanidade? Qual é a diferença entre Israel e a igreja cristãAcho que essas questões são relativamente simples de responder, mas as respostas muitas vezes ficam obscurecidas por uma série de concepções erradas. 

E a confusão somente vem aumentando com a mania recente de vários pastores de apelar para práticas de culto usadas pelos israelitas nos tempos do Velho Testamento - um bom exemplo é o "Templo de Salomão" que uma denominação evangélica acabou de inaugurar em São Paulo (veja mais).    

O papel de Israel
Israel foi o povo escolhido por Deus para cumprir uma missão fundamental: gerar o Messias, o salvador da humanidade. E o papel de Israel na história deve sempre ser olhado sob esse ponto de vista.

O povo de Israel foi estabelecido por Deus a partir de um homem muito sincero e fiel, Abraão. E para que esse povo pudesse levar adiante sua missão, Deus lhe prometeu um território, a Palestina, onde poderia viver, prosperar e se defender dos seus inimigos. Ali haveria de nascer e ser criado o Messias.  

Israel cumpriu sua missão mesmo aos trancos e barrancos. Passou por muitas dificuldades, como durante os 400 anos em que foi escravizado no Egito ou no período em esteve no exílio na Babilônia.  Teve também seus pontos altos durante os reinados de Davi e Salomão, reis ricos e poderosos. O fato é que Deus sempre intercedeu a favor de Israel para dar-lhe condições de cumprir seu papel.

O papel de Israel foi fundamental. E as promessas que Deus fez para os israelitas visavam facilitar a execução desse objetivo. É por causa disso que as promessas feitas a Israel, geralmente não se aplicam, nem poderiam ser aplicadas, a nós.

O papel da Igreja 
Nosso papel começou depois da morte e ressurreição de Jesus, conforme relata o livro de Atos dos Apóstolos. E trata-se de papel espiritual e não material. Não tem a ver com a manutenção de territórios físicos ou do estabelecimento de reinos poderosos. Nada disso. 

O papel da igreja, conforme Jesus deixou claro, é bem diferente. Trata-se de testemunhar sobre o Reino de Deus e contribuir para implantá-lo aqui. Portanto, as promessas feitas para nós têm cunho eminentemente espiritual e se destinam a nos dar condições de desempenhar o papel que nos foi atribuído. 

É claro que existem ramificações materiais, pois para podermos testemunhar o Reino de Deus e ajudar o próximo precisaremos estar vivos e em boas condições. Mas o foco não está no nosso bem estar material e sim no testemunho que precisamos dar para o mundo. 

Palavras finais
O papel de israel e da igreja cristã são ambos fundamentais. Mas são muito diferentes entre si. A Aliança de Deus com Israel envolveu a criação de condições materiais para que o Messias pudesse vir ao mundo, crescer e realizar seu ministério. O enfoque tinha que ser material e por isso Deus deu territórios a Israel, estabeleceu um reino ali, etc. Essa foi também a razão porque Deus tomou medidas para orientar Israel a construir um Templo, a lutar guerras, etc.

Vivemos o papel de testemunhar o Reino de Deus. É um enfoque diferente. O lado material entra indiretamente como um recurso necessário para que possamos executar as tarefas a nosso cargo. Foi por isso que Jesus não se preocupou de estabelecer reinos materiais, de construir templos, de criar exércitos e assim por diante.  

Foram duas Alianças com Deus totalmente diversas, uma com Israel e outra com a igreja cristã. Dois papéis diferentes. Deus deu a Israel e à igreja missões distintas e daí decorrem necessidades diversas. E Deus age para preencher essas necessidades, o que significa dar bençãos de diferentes naturezas a um (Israel) e à outra (a igreja cristã).    

Com carinho

sábado, 6 de setembro de 2014

A JOVEM QUE VOLTOU PARA CASA

Uma mulher viúva tinha duas filhas com quem aparentemente se dava muito bem. Foi surpreendida quando a filha mais nova, de vinte e um anos apenas, disse que queria sua parte na herança deixada pelo pai, pois pretendia viver de forma independente, sem mais ter que dar satisfações dos seus atos para a mãe. 

Seu pedido foi atendido, até porque a jovem tinha direito legal à parte da herança deixada pelo pai. Ela recebeu então um valor próximo a quatro milhões de reais e resolveu morar na Inglaterra, onde a vida lhe parecia mais interessante. Nem se despediu direito da mãe e da irmã mais velha, pois sabia que ambas discordavam da sua escolha.

A jovem viveu em Londres por quatro anos, sem se preocupar em economizar. Sua vida somente teve como objetivo o divertimento, sem se preocupar muito com as consequências. A jovem experimentou um pouco de tudo, inclusive drogas variadas. Relacionou-se com vários homens, tentando encontrar em algum deles quem viesse a preencher suas carências emocionais, mas somente experimentou decepções.

Ao fim desse período, a jovem ficou em situação difícil, depois de desperdiçar todo o seu dinheiro. Sem qualquer formação profissional e não podendo contar com a ajuda de amigos sinceros e/ou família, foi caindo de padrão de vida e acabou como moradora de rua. 

Certa noite, andava pelas ruas de Londres sem saber bem o que fazer. Sem esperança ou perspectiva. Passou então por uma igreja, ainda aberta naquela hora da noite. Entrou e começou a orar, pedindo ajuda para sair daquela situação difícil. Sabia que tinha errado muito e estava pagando o preço das suas escolhas ruins. 

Foi aí que o pastor da igreja se aproximou, ao perceber as lágrimas que rolavam pelo rosto da jovem. E perguntou-lhe o que estava acontecendo. A jovem praticamente "vomitou" sua história.  E não escondeu as besteiras que tinha feito e nem tentou se justificar. Confessou ainda que sua única vontade era conseguir uma passagem de volta para o Brasil.

O pastor disse-lhe que conhecia um programa do governo inglês para repatriar imigrantes na situação dela. A jovem foi levada pelo pastor para um abrigo, onde pelo menos teria um teto pelos próximos dias, enquanto esperava a passagem ser emitida.

Poucos dias depois a jovem pegou o avião de volta para o Brasil. E durante as quase dez horas de viagem ficou pensando como seria recebida pela mãe - as críticas que precisaria enfrentar e a vergonha que iria sentir. Mas ainda assim seria melhor do que continuar a viver quase como mendiga em Londres. 

Chegou ao Rio de Janeiro e, como não tinha dinheiro, pediu carona até o centro da cidade. Depois teve que andar por quase duas horas até a zona sul, onde ficava a casa da mãe. Chegou no prédio em que a mãe morava e foi reconhecida pela porteiro que a conhecia desde pequena. 

O porteiro deixou-a entrar no prédio, mesmo espantado ao ver as condições em que a jovem estava - magra, abatida e usando roupas envelhecidas. Com o coração batendo forte, a jovem bateu na porta do apartamento da mãe. E aguardou, olhando para o chão, pois lhe faltou coragem para encarar a mãe de frente. 

Quando a mãe abriu a porta, tomou um grande susto. Ali estava sua filha querida, que julgava perdida para sempre. E sentiu seu coração apertar ao ver o estado da filha. Sem mais hesitar, a mãe atirou-se no pescoço da filha, chorando de alegria e dando graças a Deus por tê-la de volta. Foi um daqueles momentos em que a vida das pessoas envolvidas muda para sempre. 

Mãe e filha entraram no apartamento abraçadas. Conversaram por horas, matando as saudades e, algumas vezes, choraram juntas. Mágoas foram superadas e feridas emocionais finalmente começaram a cicatrizar. 

Horas depois, a filha mais velha chegou do trabalho e viu a irmã, já de roupa nova, cabelo cortado, muito mais apresentável, abraçada à mãe. Revoltou-se, pois entendeu que a mãe estava sendo feita de boba e nem quis falar com a irmã mais nova. Mas com ela seria diferente: algumas lágrimas derramadas e um pedido de perdão nunca seriam suficientes. Seria preciso mais, muito mais. 

A mãe, ao perceber o que estava acontecendo, chamou a filha mais velha para conversar e tentou explicar: "Sua irmã voltou e é isso que mais importa. Por que você não entende isso?" 

O final do caso 
O relato acima foi baseado na famosa parábola do "filho pródigo", que Jesus contou para seus discípulos - se você quiser saber o final do caso, leia Lucas capítulo 15, versículos 11 a 32

A figura do pai (ou da mãe) representa Deus. O(a) filho(a) pródigo(a) é a pessoa que se afasta de Deus e se "perde" no mundo, passando a viver de forma errada. E o(a) filho(a) mais velho(a) é aquele(a) que nunca se afastou de Deus.

Essa parábola é uma fantástica lição sobre o perdão e a misericórdia de Deus. Mostra também como essa misericórdia muitas vezes não é compreendida pelas demais pessoas, menos capazes de perdoar e dar outra oportunidade para aqueles que se afastam do caminho certo, do que o próprio Deus.  

Com carinho

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

LINCHAMENTO MORAL

Semana passada aconteceu um ato de racismo durante jogo de futebol entre o Grêmio de Porto Alegre e o Santos. Parte da torcida do Grêmio passou boa parte do jogo fazendo insultos racistas ao goleiro do Santos, Aranha, que é negro. 

Como racismo é ilegal no Brasil, o episódio gerou processo criminal. A filmagem feita pelas câmeras de segurança do estádio foi analisada e os autores das ofensas foram identificados. Entre as pessoas racistas, chamou atenção o caso de uma moça de apenas 22 anos, flagrada pelas câmeras agindo de forma vergonhosa.

O nome dela foi divulgado pela mídia e o impacto sobre a vida da moça foi enorme e imediato. Ela perdeu o emprego, precisou apagar seus perfis nas redes sociais e agora enfrenta processo criminal que pode levá-la para a cadeia por até 3 anos. Sua família precisou sair de casa pois a situação ficou insustentável. Um desastre.

Há muita coisa a comentar sobre um caso como esse. A primeira delas é que, sem dúvida, a moça cometeu falha grave. Racismo, misturado a insultos públicos, contra quem quer que seja é detestável e precisa ser evitado e coibido a qualquer custo. 

Mas nada do que ela fez justifica a reação tipo "linchamento moral" que se sucedeu. Um erro não pode justificar o outro. Sem contar que a família da moça não tinha feito nada de errado e mesmo assim sofreu as consequências.

A outra questão que me chama a atenção é a motivação da moça em fazer o que fez. Aqueles que a defendem, apontam para sua juventude e tentam explicar o ato dizendo que ela foi levada pelo momento - teria tido um momento de privação dos sentidos.

Ora, não parece que foi esse o caso, pois a moça assistia um simples jogo de futebol e entrou de cabeça no abuso moral que algumas pessoas começaram a fazer. Não era uma situação de tensão ou emocional. Não poderia justificar a privação de sentidos.

O que parece ter acontecido é o chamado "efeito multidão": em grupo, as pessoas se sentem protegidas e acabam por fazer coisas que se sentiriam constrangidas ou impedidas de fazer se estivessem sozinhas. Vemos isso com clareza nas turmas de adolescentes que fazem verdadeiras loucuras - os mesmos jovens, quando sozinhos, agem de forma totalmente diferente. Em grupo saem totalmente do controle.

Agora, o "efeito multidão" afeta sentimentos que já existem dentro das pessoas e estão reprimidos pela educação e as leis da sociedade. Portanto, se minha análise está certa, essa moça tem sim sentimentos racistas. Pode até não demonstrar no dia a dia - como muitos vizinhos dela testemunharam - mas esse lado tenebroso está lá. 

E isso aponta para defeitos na sua educação, pois racismo é o tipo de coisa que se costuma aprender desde cedo, inclusive através das atitudes dos mais velhos. 

Finalmente, gostaria de falar sobre a questão das coisas ruins que existem na nossa sociedade mas ficam meio escondidas. Vemos isso nas questões de natureza sexual, sempre presentes e incomodando, mas sobre as quais parece ser proibido falar. 

O preconceito racial é bem assim: escondido, mas bem presente. Felizmente, nossas leis tornam ilegal as atitudes racistas, o que é um grande avanço e impede que as coisas escapem do controle. Mas o racismo mostra-se presente nas pequenas coisas.

Você já ouviu piadas racistas? Eu já ouvi muitas e, confesso, que na maioria das vezes me calei - hoje atuo de forma diferente e demonstro meu desagrado, mas já pequei muito por omissão.

O racismo também se faz presente na linguagem que usamos no dia a dia. Por exemplo, a cor negra é sinônimo de pecado, de coisa ruim. Usamos termos "o coração dele é negro" ou "o lado negro da força" (quem lembra do filme "Guerra nas Estrelas") sem nem perceber. E assim contribuímos para perpetuar o racismo. E isso não acontece apenas contra os negros - por exemplo, o termo negativo "judiar" vem da palavra judeu, um povo sempre vitimado pelas reações racistas. 

Não há dúvida que todos temos um lado tenebroso, onde florescem a inveja, os ciúmes infundados, a hipocrisia, os preconceitos, etc. Esse lado ruim espera apenas que as condições favoráveis apareçam para mostrar sua cara, como aconteceu com a moça racista e acontece de vez em quando com cada um de nós - apenas tivemos sorte de não sermos pegos em flagrante.

Combater questões desse tipo é difícil, bem mais do que parece. Afinal, trata-se de "inimigo" meio invisível. Estou falando de mudar uma forma de pensar e isso não é simples. 

É tarefa que se faz aos poucos. E o único caminho que conheço é a ação do Espírito Santo em cada momento da vida da pessoa. Fazendo-a perceber quando erra. Quando se desvia do caminho. Mostrando-lhe o que deve fazer de forma diferente.  

Concluindo, o moça em questão errou e muito. E seu erro é sintoma de problema mais profundo do que simples erro de julgamento momentâneo. Ela merece punição, sim, pois violou a lei. Mas também merece compreensão e ajuda para voltar a andar no caminho certo e não sofrer atos de "linchamento moral".

Com carinho